Volume 11 - Março de 2006
Editor: Giovanni Torello


Agosto de 1999 - Vol.4 - Nº 8

Doenças diferentes ou pacientes parecidos ?

João Paulo Consentino Solano
Médico pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, tendo-se formado em 1987, e psiquiatra pela Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), 1989. Atualmente, trabalha no setor de HD em Saúde Mental da Disciplina de Psicoterapia e Psicodinâmica do Departamento de Psiquiatria desta instituição.

RESUMO : A partir de dois grupos da nosografia psiquiátrica, o autor tenta demonstrar que o fato de se tratarem de categorias distantes não pode ofuscar o fato de que as pessoas doentes apresentam funcionamentos mentais, muitas vezes, bastante próximos, independentemente do diagnóstico que portem. Através de um corte em um momento da relação médico-paciente, identifica falas (e ausência delas) que parecem se repetir, quaisquer que sejam os formulados diagnósticos; identifica dinamismos mentais peculiares a um contingente (subestimado) de pacientes, dinamismos estes que sobrevivem, quaisquer que sejam as fórmulas medicamentosas empregadas na terapêutica; e sugere que o médico parece preferir pensar nos formulados e fórmulas, em detrimento de estar observando estes dinamismos mentais e comunicacionais em sua relação com o outro.

No atendimento a drogadependentes internados que recentemente iniciamos a fazer, temos notado que os pacientes muitas vezes se aproximam de seu médico ou terapeuta para fazerem pedidos ou reclamações. Geralmente,poliqueixas somáticas ou mal-estares vagos são comunicados. Porém, são comunicados de uma forma tão peculiar que, em vez de queixas, mais apropriado seria chamarmo-las "clamores". É também notável que os pedidos feitos são geralmente concluídos da mesma forma: ou se pede uma adição ou uma alteração medicamentosa. Quase sempre estes pacientes gostam de fazer um longo e confuso histórico de seus sintomas, locupletar seu ouvinte de justificativas e possibilidades de explicação e, em seguida , enunciar um pedido bastante preciso, que coloca no outro toda a responsabilidade atinente ao complexo dialético "dar-não dar" (também poderíamos chamar de complexo dialético "dar-ou-reter").

O profissional, após escutar o paciente, (não por acaso) então sente a necessidade de escolher entre dois caminhos: satisfazer ou não o pedido do paciente. Temos observado que se o médico escolhe o caminho de satisfazer o paciente, não há marcha ou passo terapêutico. Quando,porém, o profissional escolhe o caminho contrário (o de dizer NÃO ao paciente), muitas coisas começam a acontecer.

Quem trabalha com dependentes químicos pode ter em sua bagagem de conhecimentos a informação de que o dependente tem, em seu funcionamento psíquico, a necessidade de adicionar para se sentir bem (ou buscar sua satisfação). Adicionar substâncias, ainda que sejam remédios utilizados pela Medicina. Mas será que ter esta informação na bagagem equivale à formação que este profissional deve ter para compreender as reações desencadeadas a partir de seu "não" ao paciente ? Além disto, se compararmos este grupo de pacientes – os dependentes químicos – ao grupo de pacientes ansiosos, somatizadores, "poliqueixosos", conversivos (e outros, com os quais temos tido bastante contato ao longo dos últimos anos, atendendo à Psiquiatria de Urgência),encontraremos alguma semelhança ?

Em nossa opinião, sim, encontraremos várias semelhanças nos dinamismos mentais destes pacientes : estão ansiosos, primeira; trazem um repertório variado de queixas; querem a ajuda que vem do outro (ou de fora); comunicam um pedido de ajuda muito incisivo; e, geralmente, não se satisfazem se o profissional que os escuta não propuser uma medicação ou substância que sirva para o seu tipo de sofrimento. Mas a principal semelhança que vemos nestes pacientes (a partir deste ponto, melhor seria chamá-los de pessoas), é a sua assídua puerilidade e a sua competência para fazer clamores. Clamores pueris, chamá-los-íamos assim.

Queremos aqui chamar puerilidade a uma forma de funcionamento mental muito parecida com a que observamos em crianças sadias. Obviamente, perdurando na maior parte do tempo, na vida adulta, teremos em mãos adultos muito pouco sadios – pouco aptos à vida de relação em sua plenitude, com dificuldade de vincularem-se afetivamente, com prejuízos em seu potencial de produção ocupacional e com tendências a comprometimentos psiquiátricos vários, como drogadição e distúrbios do espectro ansioso, por exemplo.

Dissemos acima que quando um profissional diz "sim" aos pedidos destas pessoas marcadamente pueris, não há avanço terapêutico. Dizer "sim" é o que geralmente é feito, pois é mais fácil; deixar tudo como está é mais fácil, pensam ambos, profissional e paciente. Mas... e se não se quiser deixar tudo como está ? O que acontece quando se diz "NÃO" ? Bem, a primeira coisa que acontece é que a raiva do paciente aparece, ou melhor, torna-se para o próprio mais consciente. Quando se diz "sim", paciente e terapeuta viram-se as costas recíproca e simultaneamente; o paciente vai para um lado, tendo sustentada pelo médico a "anestesia"de sua raiva; e o médico, (devido, entre outros, ao fenômeno interacional dinâmico da identificação projetiva), vai para o outro lado, provavelmente com mais raiva do que antes de ser abordado pelo paciente com suas queixas vagas e pedidos de adição/alteração medicamentosa (ou de conhecimentos teóricos). Quando, porém, diz-se "NÃO" ao pedido manifesto pelo paciente (na prática médica, este é o caminho mais difícil), o profissional tem a oportunidade de encarar o pedido latente de seu paciente – inclusive os seus "não-pedidos".

Quando se diz "NÃO", fica o paciente mais proprietário de sua raiva. Mas... raiva... de quê ?

A resposta nos parece ser : raiva por estar sentindo FALTA. Perceber a própria raiva desencadeada pela falta é um avanço terapêutico. Aprender a tolerar a falta daquilo que o paciente acha que o outro tem é, sem dúvida, um enorme avanço terapêutico. Poder verbalizar ao outro que se sente raiva dele porque se acha que ele tem algo que falta ao primeiro, e que o outro não lhe quer dar... isto sim, é que é avanço terapêutico! E isto vale, tanto para quando se abordam os transtornos psiquiátricos aqui evocados, como também para transtornos psiquiátricos outros, e enfermidades clínicas usualmente tratadas só com remédios e acompanhadas por exames de controle e consultas de retorno.

As pessoas-pacientes com funcionamento mental marcado pela primariedade infantil, enquanto não forem tratadas, continuarão fazendo pedidos estereotipados que geralmente enraivecem os profissionais que as assistem.

O drogadito e o ansioso, às vezes, tornam-se dependentes de um benzodiazepínico ou outro medicamento, porque o médico optou pelo caminho mais fácil – o do silêncio. Mais terrível que isto é, porém, que o paciente conseguiu passar perto de uma atenuação para sua doença, mas teve reforçados pelo médico o seu bem-estar enquanto "ser-no-mundo", a sua ilusão (temporária) de satisfação interior e a sua ausência de faltas.

Talvez se dê o caso de que exista hoje uma grande aberração no mundo da saúde e da doença: o paciente procura no médico e na Medicina aliados seus para manter a sua raiva muda e a sua falta eternamente despercebida. E tem encontrado estes aliados.

Bibliografia

1- KLEIN, M. , "Os Progressos da Psicanálise", Ed. Guanabara Koogan, 1952.

2- LAPLANCHE e PONTALIS , "Vocabulário da Psicanálise", Martins Fontes, 1982.

3- OGDEN, T., "Os Sujeitos da Psicanálise", Casa do Psicólogo. 1996.

 

João Paulo Consentino Solano
F: 867.9753 (cons.)
9622.6216
Pager 534.0727 # 419.1069


TOP