Volume 11 - Março de 2006
Editor: Giovanni Torello


Fevereiro de 1999 - Vol.4 - Nş 2

"O que é científico?"(II)

Rubem Alves

"Não há dúvidas de que a memória é o estômago da mente. Da mesma forma como o alimento é trazido à boca pela ruminação, assim as coisas são trazidas da memória pela lembrança." Santo Agostinho, autor dessa afirmação (capítulo 14 do livro 10 das Confissões ) percebeu com clareza as relações de analogia existentes entre o ato de pensar e o ato de comer. Nietzsche se deu conta da mesma analogia e afirmou que "a mente é um estômago". Quem entende como funciona o estômago entende como funciona a cabeça.

Analogia é um dos mais importantes artifícios do pensamento. Octávio Paz, no seu livro Los hijos del limo, afirma que " a analogia torna o mundo habitável" . Ela " é o reino da palavra como, essa ponte verbal que, sem suprimi-las, reconcilia as diferenças e oposições." A analogia nos permite caminhar do conhecido para o desconhecido. É assim: eu conheço A mas nada sei sobre B.Sei, entretanto, que B é análogo a A. Assim, posso concluir, logicamente, que B deve é parecido com A.

A analogia entre o estômago e a mente nos permite saltar daquilo que sabemos sobre o estômago para o que não sabemos acerca da mente. Em grande medida é graças às analogias que o conhecimento avança e que o ensino acontece. Quando a ciência usa as palavras "onda" e "partícula" ela está se valendo de analogias tiradas do mundo visível para dizer o universo naquilo que ele tem de invisível. Um bom professor tem de ser um mestre de analogias. Uma boa analogia é um "flash" de luz.

O estômago é órgão processador de alimentos. Os alimentos são objetos exteriores, estranhos ao corpo. Ele os transforma em objetos interiores, semelhantes ao corpo. É isso que torna possível a assimilação. "Assimilar" significa, precisamente, tornar semelhante ( de assimilare, "ad" + "similis").

A mente é um processador de informações. Informações são objetos exteriores, estranhos à mente. A mente os transforma em objetos interiores, isto é, pensáveis. Pelo pensamento as informações são assimiladas, tornam-se da mesma substância da mente. O pensamento estranho se torna pensamento compreendido.

Entre todos os estômagos, os humanos são os mais extraordinários, dada a sua versalitilidade. Eles têm uma capacidade inigualável para digerir os mais diferentes tipos de comida: leite, café, pão, manteiga, nabo, cenoura, giló, mandioca, alface, repolho, ovo, trigo, milho, banana, côco, pequi, azeite, carne, pimenta, vinho, whisky, coca-cola, etc.

Por vezes essa versatilidade do estômago é submetida a restrições. Alguns, por doença, deixam de comer torresmo e comidas gordurosas. Outros, por pobreza, acostumam-se a uma dieta de batatas, como na famosa tela de van Gogh. Outros, ainda, por religião, adotam um cardápio vegetariano.

Há estômagos que só conseguem digerir um tipo de comida. É o caso dos tigres. Seus estômagos só digerem carne. Eles só reconhecem carne como alimento. Se, num zoológico, o tratador dos tigres, vegetariano convicto, tentar converter os tigres às suas convicções alimentares, submetendo-os a uma dieta de nabos e cenouras, é certo que os tigres morrerão. Diante dos legumes os tigres dirão: " Isso não é comida!"

Os estômagos das vacas só digerem capim, com resultados magníficos para os seres humanos. É difícil pensar a vida humana sem a presença dos produtos que resultam dos processamentos digestivos dos estômagos das vacas sobre o capim. Sem as vacas não teríamos leite, café com leite, mingau, queijos (quantos!), filé à parmegiana, morango com leite condensado, sorvetes de variados tipos, cremes, pudins, sabonetes. Os estômagos das vacas, com sua modesta dieta de capim, são dignos dos maiores elogios.

A mente é um estômago. Há muitos tipos de mente-estômago. Alguns se parecem com os estômagos humanos e processam os mais variados tipos de informações. Leonardo da Vinci é um exemplo extraordinário desse estômago omnívoro, capaz de digerir poesia, música, arquitetura, urbanismo, pintura, engenharia, ciência, criptografia, filosofia. Outros estômagos se especializaram e só são capazes de digerir um tipo de alimento.

O que vou dizer agora, digo-o com o maior respeito, sem nenhuma intenção irônica. Estou apenas me valendo de uma analogia: é assim que o meu pensamento funciona. As possíveis queixas, que sejam feitas a Deus Todo Poderoso, pois foi ele, ou força análoga, que me deu o processador de pensamentos que tenho. A ciência é um dos nossos estômagos possíveis. Não é o nosso estômago original. É um estômago produzido historicamente, por meio de uma disciplina alimentar única. E eu sugiro que o estômago da ciência é análogo ao estômago das vacas. Os estômagos das vacas só reconhecem capim como alimento. Se eu oferecer a uma vaca um bife suculento, ela me olhará indiferente. Seu olhar bovino me estará dizendo "Isso não é comida". Para o estômago das vacas comida é só capim.

A ciência, à semelhança das vacas, tem um estômago especializado que só é capaz de digerir um tipo de comida. Se eu oferecer à ciência uma comida não apropriada ela a recusará e dirá: "Não é comida.". Ou, na linguagem que lhe é prórpria: "Isso não é científico." Que é a mesma coisa. Quando se diz : " Isso não é científico" está se dizendo que aquela comida não pode ser digerida pelo estômago da ciência.

Quando a vaca, diante do suculento bife, declara de forma definitiva que aquilo não é comida, ela está em êrro. Falta, à sua afirmação, senso crítico. Sua resposta, para ser verdadeira, deveria ser: "Isso não é comida para o meu estômago." Sim, porque para muitos outros estômagos aquilo é comida. Assim, quando a ciência diz " isso não é científico", é preciso ter em mente que, para muitos outros estômagos, aquilo é comida, comida boa, gostosa, que dá vida, que dá sabedoria. Acontece que existe uma inclinação natural da mente em acreditar que só é real aquilo que é real para ela ( o que é, cientificamente, uma estupidez) - de modo que, quando normalmente se diz "isso não é científico" está se afirmando, implicitamente, que aquilo não é comida para estômago algum.

Vão me perguntar sobre as razões por que escolhi o estômago da vaca e não do tigre como análago ao da ciência. O tigre parece ser mais nobre, mais inteligente. A ESSO escolheu o tigre como seu símbolo; jamais escolheira a vaca. Ao que me consta, existe uma única instituição de saber superior cujo nome está ligado à vaca: é a universidade de Oxford. "Ox", como é bem sabido, é a palavra inglesa para vaca. Eu teria sido mais prudente escolhendo a analogia do tigre ao invés da vaca, posto que ambos os estômagos conhecem apenas um tipo de comida. Mas há uma diferença.Não há nada que façamos com os produtos dos estômagos dos tigres. Mas daquilo que o estômago da vaca produz os homens fazem uma série maravilhosa de produtos que contribuem para a vida e a cultura. Já imaginaram o que seria da culinária se não houvesse as vacas? Assim o estômago da ciência, com seus produtos infinitos, incontáveis, maravilhosos - se não fosse por eles eu já estaria morto - mais se assemelha ao estômago das vacas que ao dos tigres.

Resta-nos revelar a comida que o estômago da ciência é capaz de digerir. Vou logo adiantando: se não for dito em linguagem matemática a ciência diz logo: "Não é científico"... Concluo que isso que estou ouvindo agora, a "Rhapsody in Blue", de Gershwin, que me dá tanto prazer, que me torna mais leve, que espanta a tristeza, coisa real pelos seus efeitos sobre meu corpo e minha alma, isso não é coisa que o estômago da ciência seja capaz de processar. Não é científico. O CD player, o estômago da ciência digere fácil. Mas a música a faz vomitar.


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