Volume 11 - Março de 2006
Editor: Giovanni Torello


Novembro de 1999 - Vol.4 - Nº 11

APA
(ou de como conheci a Ilha do Caju)

João Paulo Consentino Solano

Como dizem os livros de geografia, há no continente americano apenas um delta voltado para mar aberto. É o delta do Rio Parnaíba, onde existem numerosas ilhas quase intocadas, dentre as quais talvez a mais charmosa seja a Ilha do Caju. Tudo isto fica aqui no Brasil mesmo – inclusive segundo modernas e mundialmente aceitas publicações de geopolítica às quais podemos ter acesso neste final de século XX.

Há algumas semanas atrás, nitidamente influenciado pelos rumores escatológicos que cercavam o dia 11 de agosto de 1999 - cercavam, não; antecipavam, antecediam – procurei um esotérico. Não sei se era um futurólogo, ou terapeuta de vidas passadas, pois já faz tempo que comecei a me sentir confundido com essa noção de... tempo. Procurei o ser mutante, que ficava bravo se lhe chamassem de esotérico e se anunciava na mídia como um "terapeuta holístico", e lhe fiz uma pergunta que, a julgar pela expressão de surpresa muda de sua fisionomia, este terapeuta nunca tinha ouvido. Perguntei-lhe assim:

  • Olha, senhor...
  • Senhor, não; doutor...
  • Sim, Dr., olha... eu sou psiquiatra. Antes que o mundo acabe, eu gostaria de saber se eu já fui psiquiatra em outra vida...
  • No futuro ou no passado?
  • Bem, tanto faz. Mas, como estou-lhe perguntando se já fui, e como estão dizendo que o mundo acaba este mês, o Sr. Dr. pode investigar só o passado... que eu já ficarei o resto da vida satisfeito.

A pergunta era propositalmente capiciosa. Diferente do que se lhe costumavam perguntar seus outros clientes. Ah! Afinal, por que só eu, que não sou vidente como tanta gente é hoje, ía ficar me preocupando com o rangir de assoalho do Apocalipse às portas? Eu queria ver em mais alguém um olhar assustado... Queria ver se o homem se embananava mesmo. E pela mímica facial de meu consultor, estática e tensa, percebi estar no caminho adequado.

  • Bem, para fazer a pesquisa, precisarei fazer você regredir a todas as suas vidas passadas.
  • Pode fazer, disse eu. Quantas sessões o senhor doutor vai querer? Seria bom começar hoje, e liquidar o assunto em poucas sessões... Não sei se o doutor está lembrado, mas certamente está, que tanto eu como o senhor, digo, doutor, só temos mais alguns dias nesta vida.
  • Xá comigo, disse o doutor.

O serviço foi feito ali, todo no mesmo dia. Meu terapeuta decidiu que, dado à pressa em que atualmente vivia a humanidade, no frigir de seus últimos ovos, bastaria uma sessão. Fizemos um, assim chamado, pacote-terapêutico-condensado, e terminamos depois de uma hora ou que tal.

Posso garantir que a regressão a vidas passadas é um procedimento ultra-especializado, complexo, porém, indolor. (Esta é justamente a sua vantagem).

  • Descobri! Aqui está você, doutor JP, em uma de suas vidas passadas e... sim... você era um psiquiatra; com outro nome, claro, tanto seu, como da sua profissão...

Claro que era necessário pedir a ele alguns detalhes. Ele podia ser até um charlatão...Queria ser chamado de Dr., mas podia não ser!.. O homem podia nem saber o que é um psiquiatra e qual a rotina diária de um especialista desses na Medicina de hoje!.. Mas quando pedi a ele que fosse menos enigmático sobre o quê que ele estava vendo, minhas dúvidas foram plenamente dirimidas. Com muita relutância (pois dizia que queria proteger-me), o homem descreveu o que via e eu reconheci que meu terapeuta sabia bem quais eram as rotinas e as vicissitudes em minha profissão.

  • Dr. Jota, preferia não contar o que estou vendo...
  • Por quê?
  • Para protegê-lo
  • Proteger-me? De quê?
  • De o senhor ficar meio envergonhado... Na realidade, vejo uma situação meio embaraçosa para o senhor...
  • Realidade? O doutor exótico esotérico holístico aí tá pensando que se não contar, eu vou acreditar?

Bem, aí o homem contou:

  • Eu vejo que sim, numa de suas outras vidas, o senhor também foi psiquiatra. Estou vendo o senhor no aeroporto, tentando comprar um bilhete de última hora para ir... deixa eu ver... O senhor tem certeza de que quer ouvir isto?
  • É claro, senão eu não estaria aqui!- gritei, quase alucinado. E ande logo, pois o seu tempo está acabando, idem a minha paciência – eu disse, com uma silenciosa sensação de "deja vu" se me insinuando.
  • O senhor está no balcão de uma companhia aérea, querendo ir com um dia de atraso para um congresso anual no exterior... nos Estados Unidos! Que legal, hein, buddy? Super-massa! Mas o senhor está bem atrapalhado. Ih, o senhor tá fulo mesmo; uma fera e é com o Laboratório... não sei, tem uma nuvenzinha bem em cima de um nome complicadérrimo...
  • Tudo bem, mas eu estou fulo por quê?
  • Porque esse tal laboratório não quis pagar sua passagem, como fez para colegas seus que, numa hora dessas, já estão lá numa boa. Mas o pior ainda está por vir. O senhor quer que eu continue?
  • Ou você anda logo ou eu vou denunciá-lo às competentes autoridades brasileiras, quero dizer, às autoridades brasileiras competentes para cassar o charlatão aí!
  • Na vida em questão, o senhor é um psiquiatra meio famoso. Tá bonito, incrível! De terno e gravata, grisalho, punhos fechados sobre o balcão, um pouco exaltado com a moça.
  • Por que eu estou exaltado?
  • Porque a moça não entende bem o seu sotaque. O doutor ficou quatro anos na Inglaterra, fez várias pós-graduações e, apesar de ser brasileiro, nunca mais perdeu o sotaque de britânico tentando falar português! Incrível, né? O senhor, agora, disse pra funcionária:

    "Rápido, purreciso de um ticket parra irr ao APA", ao que lhe respondeu a mesma:

    "Como disse, Sr.?"

    "Querro irr ao APA", tirando do paletó um panfleto com letras garrafais;

    "Sr., desculpe, estou entrando, mas nossos computadores não reconhecem este destino...apa? De que se trata?"

    "Não é APA, sua barrassileirra sem culturra! A porronúncia é Eipiei, entendeu agorra?"

    "Sim, desculpe, mas o Sr. deve dirigir-se à próxima companhia aérea, no balcão à sua direita; apenas eles operam este destino a esta hora. Em chegando-se ao balcão, porém, o Sr. não deve falar em Eipiei; Maria, me empresta um papel e uma caneta; não se preocupe... é difícil mesmo para o povo de língua inglesa pronunciar... Pronto, está aqui: o Sr. peça Piauí!"

João Paulo Consentino Solano
Telefones 867.9753 (consultório, São Paulo, SP)
9622.6216
Pager 534.0737 Cód 4191069

P.S. Por ocasião do XVII Congresso Brasileiro de Psiquiatria, este autor conheceu o trabalho que o prof. Adalberto Barreto realiza na comunidade de Quatro Varas, Fortaleza, Ceará; embora este ,e aquele lugar referido no texto, estejam separados por centenas de quilômetros, o autor acredita ser válido compará-los porque em ambos o ser humano tem a possibilidade de executar um EXERCÍCIO DE LIBERDADE. Àquele professor doutor, pois, e a sua equipe, e ao seu trabalho, fique esta crônica dedicada.JP.


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