Volume 11 - Março de 2006
Editor: Giovanni Torello


Maio de 1998 - Vol.3 - Nº 5

National Institute of Mental health News: Psiquiatria Política

Paulo Jácomo Negro, Jr. *
Investigador Associado NIH/NIMH/CNE /Fellow- American Psychoanalytical Association/Doutorando - Instituto de Psiquiatria, FMUSP, Brazil

O número de 30 de abril do The New Journal of Medicine traz o artigo especial "Guerra nuclear - uma avaliação após a guerra fria", preparado por Forrow et al. (Forrow L, Blair BG, Helfand I, Lewis G, Postol T, Sidel V, Levy BS, Abrams H, Cassel C. Accidental Nuclear War - A Post-Cold War Assessment. NEJM 338(18): 1326-1331, 1998. O artigo faz uma revisão dos riscos nucleares após o término da guerra fria e aponta para conclusões, que apesar de já bem conhecidas por especialistas da área, escapam da preocupação da população e governos. De fato, as conclusões são extremamente preocupantes já que o final da guerra fria aumentou o risco nuclear de uma maneira ainda difícil de determinar:

"Embora Estados Unidos e Rússia não se defrontem com o perigo diário de um ataque nuclear massivo e deliberado, ambas as nações continuam a operar forças nucleares como se este perigo existisse. Cada lado mantém rotineiramente milhares de armas nucleares em alto nível de alerta. Mais ainda: para compensar a fraqueza de suas forças convencionais, Rússia abandonou a política de não primeiro uso".

Eu convido os colegas a ler refletir sobre o artigo. Os autores tecem comentários sobre diversos episódios de "flechas quebradas" (acidentes nucleares de primeira grandeza), a deterioração das forças nucleares Russas (com a quebra da cadeia de comando, a epidemia de suicídios nas bases de foguetes estratégicos russos e o plano do governo russo de distribuir os códigos e a autoridade para lançamento de foguetes para a base da cadeia de comando). O risco de lançamento baseado em falso alarme é real para ambos os arsenais, norte-americanos e russos. As conseqüências de um lançamento acidental são descritas -os autores assumem a destruição de 8 cidades norte-americanas ocasionadas pelo ação de um submarino russo Delta-IV com o lançamento efetivo de 12 mísseis e um total de 48 bombas. Mortes imediatas estimadas somariam 6.838.000, mas as conseqüências de médio e longo prazo são de difícil avaliação. As conseqüências de um retaliação maciça a ataque acidental são incalculáveis e ocasionariam a morte de bilhões de pessoas no planeta.

Um dos principais alvos é a cidade de Washington, DC -o triângulo formado pelo Capitólio (legislativo), Aeroporto Nacional de Washington Ronald Reagan e a sede da CIA mais especificamente. O Capitólio fica a leste do rio Potomac, o Aeroporto e a CIA a oeste -beirando o rio. A George Washington Parkway liga o aeroporto à sede da CIA; trata-se, como o próprio nome indica, de uma estrada que corta uma região de parques, cujas árvores estão carregadas de verde nesta época do ano. Para quem conhece Washington, DC, é chocante imaginar a destruição dos monumentos, do memorial de Lincoln, dos museus carregados de obras de arte, da rua M, da Universidade de Georgetown. É também chocante imaginar que as árvores da George Washington Parkway possam ser alvo primário de um ataque nuclear, vaporizadas simplesmente por se localizarem à beira do belo Potomac. Não menos importante, minha casa se localiza no estado de Maryland não muito longe da Parkway, distante o suficiente para não ser vaporizada em primeiro instante (se pudermos confiar na acurácia dos foguetes russos), mas perto o suficiente para ser rapidamente destruída.

Os autores do artigo propõem medidas concretas e de relativa rápida execução para diminuir o risco de acidentes, todas relacionadas ao término do status de alto alerta para as forças nucleares, ao mesmo tempo em que se permite ampla inspeção de ambas as partes para se certificar da execução do proposto. Mas se acordos multilaterais permanentes são de alta prioridade nacional (e mundial), por que eles não ocorrem rapidamente? Mais ainda, quais os mecanismos que diminuem a participação da população para pressionar governos neste sentido?

Certamente, este é um assunto para cientistas políticos, diplomatas, mas a participação de psiquiatras e psicólogos no processo é desejável e talvez possa trazer contribuições relevantes.

O teste de realidade da realpolitik

Em primeiro lugar, é importante ressaltar que quaisquer que sejam os conceitos psicológicos a serem utilizados na identificação de problemas e elaboração de suas soluções, eles sempre devem ser colocados dentro do contexto da realidade política.

As extensas fronteiras entre Rússia e China são mais importantes na determinação de como se dará sua interação (ou mesmo forçando alguma forma de interação) que qualquer possível informação psicológica (e, em se permitindo o uso do termo desta forma, mais "variância" do comportamento sócio-político observado é explicada pelas fronteiras que por aspectos psicológicos das populações destes países). Da mesma forma, o fato da Inglaterra ser uma ilha determinou seu papel de poder moderador na Europa durante os séculos XIX e XX.

Isto não quer dizer que perder o status de superpotência (e enfrentar agruras semelhantes aos países emergentes) não tenha um peso importante na geração de intensos sentimentos do humilhação do povo Russo, que podem ser de influência importante na condução da política local -ressurgimento da linha dura de direita e ex-comunistas. A dificuldade em se delinear o peso e o papel da realidade física no processo político em contraste com a identificação de aspectos psicológicos (população, grupos de interesse e liderança) é um tema central para a psiquiatria política.

Avaliando líderes e avaliando grupos

Uma atividade tradicional de psiquiatras com experiência em psiquiatria política é a construção de perfis psicológicos de líderes de nações e grupos políticos para a comunidade de informação de seus respectivos países. Assim, órgãos governamentais podem ter acesso a opiniões de especialistas quando avaliando interlocutores relevantes para a segurança nacional. Certamente existem críticas a tais atuações, principalmente porque as opiniões técnicas são fornecidas geralmente sem uma entrevista clínica ter sido conduzida e sem o consentimento do indivíduo - algo de ética questionável em situações corriqueiras da prática clínica. Por outro lado, ter avaliações acuradas sobre a personalidade e possíveis diagnósticos de eixo I é útil quando são conduzidas negociações, entabulados acordos ou ameaças. Um bom exemplo seria saber que um determinado líder com acesso a armas nucleares tem o diagnóstico de transtorno bipolar e pode estar maníaco ou deprimido, ou que o líder de um grupo religioso apresenta delírios paranóides, religiosos ou de grandeza.

Qual é o peso dos líderes na condução da política externa e interna de um país? Apesar de pressões históricas serem cruciais, da mesma forma que a geografia, para influenciar os eventos, a relevância da liderança não pode ser minimizada. Basta recordar não só as ações e extrema influência de líderes como Stalin e Hitler na condução da guerra e divisão da Europa, mas também o papel de líderes como Otto von Bismarck (na execução de uma política externa de restrição da Alemanha que preservou a paz por décadas após o conflito de 1870), F.D. Roosevelt (no preparo do povo norte-americano para a guerra antes de sua inevitabilidade ficar clara) e Winston Churchill (em suas ações antes da guerra, liderança durante a mesma e visão do futuro negro da Europa dividida pela cortina de ferro; provavelmente o líder de maior visão do século). No caso brasileiro, podemos citar a influência estabilizadora de Pedro II (não por acaso, a república foi proclamada apenas após a geração que se recordava das turbulências da Regência ter saído do cenário política) na manutenção da integridade da nação, as ações de Getúlio Vargas no processo de industrialização (com habilidade para conjugar o trabalho, classes médias e militares durante anos). Estes líderes foram produto de seu tempo, mas indubitavelmente imprimiram sua marca na história; sua inteligência e estrutura de personalidade afetando sua geração e o futuro de seus países.

Portanto, a existência de psiquiatras com conhecimento sócio-político capazes de produzir perfis psicológicos relevantes é desejada. O trabalho é difícil, mas não muito distante da atividade forense, principalmente no sentido da capacidade de emitir julgamentos acurados a respeito de personalidade e eixo I.

A avaliação do estado psicológico de grupos é ainda mais complicada. É um erro atribuir diagnósticos psiquiátricos para países -como dizer que o Brasil seria ciclotímico ou uma outra nação qualquer paranóide ou narcisista. A reificação do diagnóstico psiquiátrico e o seu uso fora de contexto não devem ser estimulados. Entretanto, avaliações de grupos, como do estado psicológico do grupo religioso que pereceu em Waco (1993) ou do grupo do reverendo Jones na Guiana, são benvindas.

Particularmente importantes são avaliações e recomendações para controle de violência grupal. O século XX assistiu diversos exemplos de genocídio e inúmeros outros de assassinato em massa e guerras civis fratricidas. É crucial identificar determinantes e desencadeantes de violência em massa, inclusive o papel da mídia na dessensibilização e modelagem para violência e fenômenos psicológicos relacionados a xenofobia e ao preconceito.

Uma das últimas edições do American Psychoanalist descreve o papel de consultor das Nações Unidas de um dos psiquiatras da associação em Angola e sua preocupação com o tratamento das crianças -negligência, abuso, recrutamento para o exército- dentro de um contexto teórico de   desenvolvimento psicológico. Uma de suas intervenções foi apontar o significado psicológico de desarmar e tirar os uniformes dos grupos militares e paramilitares -a humilhação e perda do sentimento de pertencer ao grupo. Propostas de desarmamento devem incluir o cuidado de compensar psicologicamente os soldados desarmados de forma a evitar injúrias narcísicas e, portanto, facilitar sua integração à sociedade. Nas palavras do autor:

"...estávamos despreparados para cair em um ambiente como Angola. Eu me apoiei em uma lição do início de minha educação analítica: Quando em um momento de confusão, amarre a si mesmo ao mastro da escuta e associação e fazendo apenas as mais judiciosas intervenções. Era estranho me encontrar pensando em tais princípios, aprendidos na quietude e limpeza dos consultórios de nossos professores, no início da educação analítica enquanto sentado no meio de ruína, pobreza grotesca e hostilidade virulenta. Entretanto o princípio funcionou. Eu aprendi. As pessoas começaram a fornecer mais informação à medida que nossas entrevistas progrediam..." (Rich, 1998)

"Denial - it is not a river in Egypt"

Forrow et al. acabam seu artigo com a seguinte conclusão:

"O risco de um ataque nuclear acidental aumentou nos últimos anos, ameaçando um desastre de saúde pública de escala sem precedentes. Médicos e organizações médicas devem trabalhar ativamente para construir uma política de apoio para mudanças de normas que previnam tal desastre".

Talvez a construção de teorias que lancem mão de conceitos psicológicos para desenvolver perfis acurados de grupos e indivíduos não seja suficiente no campo da psiquiatria política. Não por acaso, mas provavelmente em decorrência de pressões de seleção natural, o ser humano é caracterizado por uma imensa capacidade de interagir

fluidamente com seu grupo (para o contraste entre o comportamento de macacos como babuínos e apes como o chipanzé e uma boa revisão do assunto, vide The Social Cage); se por um lado, tal fluidez biológica propicia a esperança de mudanças políticas reais, ela também se adequa bem a toda uma série de defesas psicológicas que permitem ao indivíduo funcionar mesmo em ambientes adversos. Desta forma, a avaliação de defesas individuais e grupais é uma atividade desejada no âmbito da psiquiatria política. E, de fato, a negação é uma defesa primitiva, mas freqüente -principalmente quando a realidade é inaceitável e aparentemente imutável.

Como aceitar a possibilidade real da destruição nuclear? É menos doloroso imaginar que isto nunca acontecerá. Também é menos doloroso evitar pensar nos desdobramentos individuais e sociais da violência e marginalização. Entretanto, um papel importante para a psiquiatria é prover teorias que conjuguem política com psicologia e abordem os mecanismos de defesa em processos individuais e grupais para oferecer à sociedade algumas sugestões concretas de como abordar os problemas provenientes da interação entre grupos e nações, mas que no final afetam a todos nós.

Referências

Burns EB. A history of Brazil (2nd edition). Columbia University Press, 1980. (um resumo relativamente breve, porém bastante completo dos 500 anos de inquidades da história brasileira; atenção para o respeito com que o autor descreve o papel do povo brasileiro na exploração e integração do país assim como a descrição do papel das lideranças brasileiras na manutenção da integridade da nação; a segunda edição foi escrita ao final dos anos 70 e é possível perceber a perturbação do autor com o destino do país com o regime de 1964 e a incerteza sobre seu futuro político)

Gibson JW. Warrior dreams - Violence and manhood in post-vietnam America. Hill and Wang, 1994. (o autor explora a interação entre midia e o culto à violência nos Estados Unidos; interessantes passagens a respeito de lavagem cerebral -o autor participou de treinamento paramilitar para escrever o livro)

Kissinger H. Diplomacy. Simon and Schuster, 1994. (uma obra prima sobre Realpolitik e análise histórica sobre o balanço do poder que compreende desde Richelieu até a fragmentação da União Soviética; atenção para a descrição da atuação de Bismarck -descrição de sua personalidade e seu papel crucial para a paz Européia de 1870 até a primeira grande guerra)

Maryanski A, Turner J. The social cage -human nature and the evolution of society. Stanford University Press, 1992. (uma análise sóbria e direto ao ponto sobre a sociobiologia humana -hipóteses brilhantes, um texto crucial para compreender a fluidez e não "microadministração" biológica dos comportamentos sociais humanos)

Overy R. Why the allies won. Norton, 1995. (interessante análise sobre a influência dos aspectos morais e comportamento popular sobre o desenlace da segunda grande guerra)

Ribeiro D. O povo brasileiro - A formação e o sentido do Brasil. Companhia das Letras, 1995. (Darcy Ribeiro, sonhador, mas sempre brilhante -o autor aponta a geração do povo brasileiro como o último ato criativo do Império Romano, em conjunção com índios sul americanos e africanos; atenção para a descrição da primeira geração de brasileiros, produto da interação entre português e índia -a busca frustrada da identidade psicológica e a raiva dos brasileiros, rejeitados pela figura paterna portuguesa)

Rich HL. An analyst in Angola. The American Psychoanalyst 32(1): 36, 1998.

Staub E. The roots of evil - The origins of genocide and other group violence. Cambridge University Press, 1989. (uma análise sóbria do contexto histórico e psicológico dos genocidios/assassinatos em massa do holocausto nazista, genocídio Armênio, no Camboja e os ?desaparecidos? argentinos; texto crucial para a compreensão da psicologia dos assassinos, das testemunhas e das vitimas -básico para o estudo das origens do genocídios e outras violências de grupo).


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