Volume 11 - Março de 2006
Editor: Giovanni Torello


Setembro de 1998 - Vol.3 - Nº 9

PSICOPATIAS, MANICOMIOS E ?

Ao longo das últimas semanas, como é do conhecimentos de todos,  os colegas que participam da Lista Brasileira de Psiquiatria, os assuntos relacionados com as psicopatia, os manicômios judiciários, a classificação diagnóstica e o papel do psiquiatra frente a estas situações despertaram um grande interesse. Tivemos a participação de vários colegas enviando mensagens que geraram uma discussão rica e estimulante. Achei que seria um desperdício se os conteúdos desta discussão se perdessem nos folders de e-mail. Resolvi então, tentar reunir as mensagens mais significativas em uma espécie de "colagem" e apresentá-las nestas páginas. As mensagens foram classificadas em ordem cronológica,   e os autores aparecem nos cabeçalhos de cada mensagem. Peço desculpas pelos eventuais esquecimentos.

Giovanni Torello

From: "HILDA C. P. MORANA" <[email protected]>

Date: Wed, 22 Jul 1998 20:45:55 -0300

Caro Silvio Saidemberg,

Obrigada pelo artigo. Gostei muito, mas creio que há duas formas de se entender os resultados. Meio social determinando a criminalidade ou favorecendo a expressão de uma tendência biológica. Por este estudo, crianças criadas sem o pai biológico, mesmo que com padrasto, têm maior probabilidade de ir para a cadeia. Mas qual será o tipo de crime? Será envolvimento com drogas, furtos, ou homicídios? Não acredito que a psicopatia (transtorno da personalidade, principalmente o perverso e o tipo impulsivo) sejam de determinação social. Acredito que uma família desestruturada dificulte, ou mesmo atrase, o amadurecimento da personalidade e a integração dos valores sociais, o que levaria  esses jovens a cometer delitos menores. Da mesma forma, passando da família para sociedade, uma sociedade bem estruturada, como na Finlândia, p.e, a criminalidade é muito menor e quase inexiste. Ou seja, penso que a família, a sociedade são os meios de contenção da manifestação do caráter. Se um indivíduo nasce com uma condição anti-social da personalidade, porém em um meio familiar harmônico e uma sociedade organizada, vai ter menos chance de expressar a sua condição Psicopática, e, da mesma forma, se essa mesma pessoa nascer em uma favela, cheia de ladrões, traficantes e assassinos, é o meio ideal para a manifestação de sua tendência mórbida. Qual a sua idéia Silvio? Obrigada mais uma vez pelo artigo.

From: "Luis Carlos Calil" <[email protected]>

Date: Fri, 7 Aug 1998 16:28:18 -0300

Tenho observado aqui em Uberaba uma péssima interrelação com advogados e juízes (estes gostam de DETERMINAR QUE SE CUMPRA). Internações são a meu ver ato estritamente da competência técnica-médica. Se ocorrerem abusos (vide Psiquiatria da antiga Uniao Soviética), que as associações formulem as punições cabíveis e os orgãos legais. Ocorre que observo categorias diferentes de pacientes. Pobres que são internados até por "indicação" policial. Ricos que mobilizam advogados, juízes e "psiquiatras", quando há interesses de interdição e ganhos por parte de familiares, advogados, juízes e "psiquiatras". E as legítimas internações por avaliação técnica-psiquiátrica. Um paciente maníaco, muitas vezes precisa de restrição hospitalar para ser protegido de si mesmo. Abraços.Calil

From: "Fernando M. Volpe" <[email protected]>

Date: Fri, 7 Aug 1998 21:58:48 -0300

Talvez a psiquiatria nunca consiga se livrar totalmente desse estigma do abuso, da agressão, que remonta às velhas estórias dos alienistas. Até em desenhos animados há referências a essa má prática. É bem certo que "o poder corrompe, e o poder absoluto corrompe absolutamente", e até hoje podemos identificar casos em que a indicação errada ocorreu. Também é óbvio que, dada a falibilidade humana, devam existir mecanismos de correção de erros em toda organização social (por exemplo: democracia, método científico, etc.). Não se trata de advogar a colocação suprema do psiquiatra sobre os direitos dos cidadãos, acima de tudo e de todos, imune à lei. Mas o que está acontecendo é o oposto: o psiquiatra é considerado errado (ou até culpado) até que se prove o contrário, quando na verdade deveria ter sua opinião respeitada e valorizada.

From: "Carlos Batista Lopes" <[email protected]>

Date: Sat, 8 Aug 1998 07:32:25 -0300

Realmente, acho que aqui no Brasil a tendência seria a oposta: o judiciário iria internar mais do que os psiquiatras, pelo menos a média destes. Lembro-me, quando era diretor de um hospital fechado, que não eram raros os casos suspeitos de internamento pela família, com declaração de incapacidade civil, onde havia um problema de herança. Alguns desses casos, três ou quatro, confirmaram-se ser uma fraude: em suma, alguém na família queria ficar com os bens do paciente. Mas em todos eles foram psiquiatras que o perceberam, e a partir da ação deles é que o caso foi revisto.Mas acho que o problema é mais de fundo: o que é que constitui uma restrição à liberdade do paciente? Tratá-lo ou deixá-lo sem tratamento? Um exemplo: durante cinco meses, tentei tratar, em regime de hospital-dia (há oito anos,exceto por alguns poucos meses, deixei de trabalhar em hospitais fechados, pois estava, e ainda estou, farto daquele tipo de rotina), uma paciente de 21 anos, bonita, inteligente, mas esquizofrênica-paranóide do tipo que parece ter saído do livro do Jaspers. Foi um fracasso, devido à recusa da paciente em ingerir a medicação apesar das inúmeras tentativas. Como se tratava de pessoa muito jovem, posterguei além de todos os limites o internamento e o tratamento dito compulsório. Finalmente, diante do emagrecimento constante por recusa a alimentar-se, fui obrigado a fazê-lo. A paciente nunca havia antes sido tratada convenientemente, pois a terapeuta que a atendera durante os três anos anteriores, apesar de ter feito um diagnóstico razoavelmente preciso, considerava"repressivo" o uso de neurolépticos. Pois bem, dias após o internamento, houve o que poderia se esperar: uma melhora qualitativa, com remissão, que se tornou cada vez maior, da sintomatologia delirante e alucinatória. Ela permanece, até onde sei, bastante bem até hoje. Diante disso, o que constitui uma limitação maior da liberdade da paciente: o internamento e tratamento compulsório, ou a atividade psicótica, que a fazia ver, sentir e ouvir os vizinhos dos apartamentos do lado, de baixo e de cima vigiarem-na 24 horas por dia? Um abraço.

From: "Walmor J. Piccinini" <[email protected]>

Date: Sun, 09 Aug 1998 21:07:35 -0700

Marcio e demais colegas. Desculpem o reenvio de algumas msg.,mas foi com o intuito de nao perder o rumo do debate. Acho que temos dois aspectos a destacar como mote inicial. Para alguns,tudo que o governo faz esta errado e deve ser combatido etc. Para outros vale a antiga afirmacao. "echa la ley,echa la trampa". Acho que todos concordamos que o doente mental tem que ter seus direitos preservados. Ter direito a cidadania, a preservar sua identidade etc. Ja caminhamos positivamente nesse sentido. O controle externo me parece valido, nao vai ser pela desculpa das falhas do judiciario que devemos deixar o barco seguir o rumo da correnteza. Sera que ja esquecemos da epoca em que o doente mental era um cheque ao portador e que muitos psiquiatras donos de hospitais enriqueceram com internacoes indevidas,cacando bebados pelas vielas e internando em suas clinicas? O mundo nao eh feito de santos. Acho mesmo que o propio judiciario deveria ter um controle externo. Eh so dar uma olhada para a insensibilidade de altos magistrados construindo predios luxuosissimos e nao querendo prestar contas. Sera que esquecemos a facilidade com que os psiquiatras se adaptaram as reducoes de prazos de internacoes etc. O internamento voluntario nao parece apresentar problemas e aqui reside um grave problemas. Quantos aceitam se internar para ganhar comida e um banho quente?. As involuntarias sao a minoria e lembra a historia de muito barulho por nada. Bem, mas a discussao esta aberta e que venham novas ideias. Saudacoes. Walmor

From: "Fernando M. Volpe" <[email protected]>

Date: Sun, 9 Aug 1998 22:10:33 -0300

Talvez a psiquiatria nunca consiga se livrar totalmente desse estigma do abuso, da agressão, que remonta às velhas estórias dos alienistas. Até em desenhos animados há referências a essa má prática. É bem certo que "o poder corrompe, e o poder absoluto corrompe absolutamente", e até hoje podemos identificar casos em que a indicação errada ocorreu. Também é óbvio que, dada a falibilidade humana, devam existir mecanismos de correção de erros em toda organização social (por exemplo: democracia, método científico, etc.). Não se trata de advogar a colocação suprema do psiquiatra sobre os direitos dos cidadãos, acima de tudo e de todos, imune à lei. Mas o que está acontecendo é o oposto: o psiquiatra é considerado errado (ou até culpado) até que se prove o contrário, quando na verdade deveria ter sua opinião respeitada e valorizada. Imaginem se o oposto ocorresse e se a cada sentença que um juiz emitisse, ele fosse questionado por psiquiatras. Ficaria meio esquisito, não é mesmo?Certo, mas aí vem a questão de dar ouvidos aos ditames e anseios da sociedade. Infelizmente, no Brasil tenho visto mais questionamentos saindo da boca de outros profissionais da saúde mental, que têm os seus interesses, do que de legítimas associações de pacientes ou familiares. Pode ser que eu esteja mal informado, e gostaria de ouvir os colegas sobre esta realidade brasileira. Quem está reclamando, afinal?Concordo com o Alexandre, o CRM poderia e deveria ser o fórum para dirimir as divergências decorrentes de atos médicos, inclusive da internação involuntária. No entanto, não devemos nos esquecer das comissões de ética de cada hospital, que a meu ver, deveriam ser a primeira instância revisora desses procedimentos. Tenho dúvidas se isto deveria ser feito rotineiramente, ou só quando houvessem conflitos.Penso no preconceito como fruto do medo e da ignorância. O melhor remédio: o esclarecimento. Tenho profunda admiração pelo trabalho realizado pelas associações psiquiátricas americana e canadense, que prezam pela boa imagem da psiquiatria junto à sociedade. Acho uma pena ainda não estarmos fazendo "expert consensus panels", "statements" e outras manifestações oficiais da classe sobre assuntos menos ou mais polêmicos. Falta-nos esse suporte aqui no Brasil, no exercício da psiquiatria, e isto favorece ao nosso isolamento. Fica a sugestão para que comecem a acontecer, quem sabe não sairiam daí as diretrizes para a prática da internação compulsória? Além disto, sinto que falta uma campanha de marketing séria no sentido de esclarecer a população sobre o nosso trabalho. Acredito que não podemos deixar de investir nisso, se quisermos exercer a psiquiatria com um mínimo de conforto nos próximos anos.

From: Villano <[email protected]>

Date: Mon, 10 Aug 1998 00:38:57 -0300
Não deu ainda para ir até a Psychiatry On Line italiana, mas a introdução da questão da reforma psiquiátrica pontua bem que existem dois níveis (pelo menos) de discussão sobre a questão asilos, hospitais psiquiátricos, desinstitucionalização. Um é o da organização geral dos serviços, que inclui a oferta de instituições com formato diverso do hospital psiquiátrico, e a outra da indicação clínica de internação involuntária, ou o que fazer com essas indicações, no contexto da reforma. Usando uma imagem de um colega da lista, seria ver qual o teto adequado para cada tipo de situação clínica. E já vi que tinha deixado de lado um terceiro nível - o legal. Limitação do direito de ir e vir, contra a vontade pessoal - basta a indicação do médico responsável? Basta haver Comissão de Revisão, formada por pares, como normatizou o CREMERJ? Acho que, para que avance a discussão do problema, precisa-se enfocar com premissas e instrumentos diferentes cada um desses 3 níveis que citei.

From: "Maria Fernanda Tourinho Peres" <[email protected]>

Date: Wed, 12 Aug 1998 10:38:48 -300

sou uma nova participante desta lista, e confesso que fiquei bastante interessada por esta discussão sobre as relações entre a psiquiatria e o judiciário. Na verdade, há muito me interesso por este tema, o qual foi inclusive objeto da minha dissertação de mestrado. A relação entre a psiquiatria e a justiça penal/criminal é, sem dúvida extremamente complexa, e este tema gera, de fato, polêmicas! Bom, algum dos colegas falou há alguns dias sobre raízes históricas. De fato, se olharmos a história da psiquiatria, podemos ver a aproximação existente entre as duas áreas, ou campos de atuação. Desde Pinel, com a loucura Lúcida, Esquirol, com as monomanias, Morel, etc...o debate entre judiciário e psiquiatria vem ocorrendo, particularmente em torno das intervenção judicial nas internações e da intervenção médica nos tribunais. Acho que este é um ponto importante e aqui, penso que Foucault e Castel possibilitam pensar estas questões. Estão velhos? Talvez sim, para muitos. Adotam posturas radicais "contra"a psiquiatria? Também esta pergunta pode ser respondida afirmativamente, para muitos. No entanto, no meu entender, esses autores, possibilitam uma leitura crítica de nossa prática, sem que tenhamos que negá-la. Olhar o lado sócio-político da psiquiatria é, de fato, um exercício de contante crítica, mas não de negação da importância e necessidade da intervenção(internação) psiquiatrica. E o que falar sobre o conceito "periculosidade"? Também o considero bastante complicado e passível de reflexão crítica. O procedimento jurídico-penal nos casos de envolvimento de doentes mentais, fundamenta-se, a meu ver, em idéias, conceitos, todos complicados, principalmente quando os avaliamos em sua aplicação concreta: periculosidade, inimputabilidade, irresponsabilidade, Medida de Segurança...No número de agosto da Psychiatry-on-line(http://www.epm.br/polbr) saiu o artigo que traz, de forma resumida, as questões que discuti na minha dissertação de mestrado, o qual gira em torno das relações entre a psiquiatria e a justiça penal. Seria interessante trazê-lo para discussão...

From: "Marcio V. Pinheiro" <[email protected]>

Date: Sat, 22 Aug 1998 22:57:44 -0400

A gente nunca tem muito tempo e por isso as nossas entradas na lista são sempre meio precárias e às pressas. Esse assunto da psicopatia já me interessou noi passado.Não necessariamente o que o DSM-IV hoje classifica de "Anti-social Personality Disorder". Ele parece que reduziu a psicopatia aos tipos óbvios em termos de comportamento. E deixou de lado o que a gente poderia chamar de psicopatas "bem sucedidos".Antes do DSM-IV a gente pensava na psicopatia nao só em termos de conduta como tambem em termos interpessoais e psicodinâmicos. No livro "The Mask of Sanity", Checkley descreve psicopatas "bem sucedidos", profissionais, homens de negocio, etc.O conceito psicodinamico tinha a ver com as lacunas super-egoicas, a ausência de culpa, remorso e empatia, mas acima de tudo a percepção do outro como um objeto de uso pessoal. Quem não conheceu tais pessoas?...Mas parece que o DSM-IV mudou um pouco esse conceito que agora fica reservado para os óbvious impulsivos, aggressivos, ladrões, etc.No ano passado eu fui numa conferencia não me lembro mais onde, onde a conferencista era uma psicanalista que se especializava em executivos com problemas de personalidade. Quando eu perguntei se ela encontrava psicopatas entre os seus pacientes ela disse que não PORQUE ELES ERAM BEM SUCEDIDOS E O CONCEITO DE DESORDEM DA PERSONALIDADE IMPLICA EM FRACASSO...E aí?...

From: "Silvio Saidemberg" <[email protected]>

Date: Sun, 23 Aug 1998 08:06:49 -0300

Prezado Márcio:

Um dos problemas óbvios da avaliação psiquiátrica é a subjetividade tanto do psiquiatra quanto do paciente. Até mesmo a questão da definição de distúrbio vai depender desta relatividade. No caso da sociopatia o assunto não poderia ser muito diferente. Aliás, como conjunto de atitudes adaptativas, transgressões camufláveis podem ser vistas não como problemas, mas, sim como soluções. Alguma reflexão: o herói de um é o bandido de outro. No seu exemplo, um psicanalista defendeu o sucesso como critério de exclusão de sociopatia. É provável que não consigamos consenso nem usando critérios psicodinâmicos. Acho muito grave a pouca ênfase na discussão sobre moral a mais palatável ética ) na formação médica e mais especificamente, na formação psiquiátrica e psicoterápica. Vivemos uma grande relativização dos conceitos sobre moral. Temos a moral de ocasião como padrão dominante. No comportamento coletivo ainda vigora a definição política: "uma mentira repetida milhares de vezes transforma-se em verdade". Diante de tamanha confusão, não é de admirar-se que sociopatia por ser ego-sintônica dificilmente se torna em queixa ou se permita revelar. E no caso de transformar-se em queixa, possivelmente será vista como algo distinto; revelações, confissões também têm um caráter manipulatório, são feitas quando e se convêm, tendo alta aceitação social. Em suma, não é fácil avaliar aquilo que popularmente convencionou-se chamar de maldade e que a psiquiatria tenta estudar como problemas estruturais de carater e personalidade.

From: "André Schwambach Vieira" <[email protected]>

Date: Sun, 23 Aug 1998 11:58:26 -0300
Gostei de ler sobre os temas em debates. Qual seria o conceito psiquiátrico de moral? Existiria um conceito psiquiátrico? O que forma a moral? Tem se dito que a moral depende dos conceitos cultivados por uma determinada cultura e época, variando de acordo com as mesmas. Porem que tipo de cultura estaria gerando estes serial killers? Seria este um fenômeno dos séculos anteriores ou somente surge nesta época de tantas realizações técnicas, porem tão carente de paz, de auto conhecimento e de esperança em um futuro melhor? A busca desenfreada pelo sucesso e pela satisfação de desejos a todo custo parece ter esgotado todos os limites do respeito pelas normas mínimas de convivência. Qual a verdadeira origem de tantos dramas? Como se colocar diante destas situações e como minha parte de humanidade pode compreender e sentir estas outras partes que se desviaram tanto do esperado para um ser humano? Os impulsos que originam estes desvios estariam presentes em todos nos? O que teria trazido a tona estes componentes arcaicos da alma humana? Somente a somatória de fatores biológicos e sócio -familiares? Louston Castilho.

From: "Carlos Batista Lopes" <[email protected]>

Date: Sun, 23 Aug 1998 12:12:21 -0300

A discussão sobre a psicopatia me parece extremamente rica e reveladora das deficiências das classificações atuais, e também do tipo de sociedade e economia que foi parida, ou abortada, do começo dos anos 70 até hoje.Do ponto de vista das classificações, a DSM-IV e a CID-10 me parecem um retrocesso significativo. Cito, literalmente, a introdução da DSM-IV (trad. Dayse Batista, Artes Médicas, Porto Alegre, 1995): "embora este manual ofereça uma classificação de transtornos mentais, devemos admitir que nenhuma definição especifica adequadamente os limites precisos para o conceito de `transtorno mental' " [ou seja: a própria base conceitual da classificação tem , confessadamente, "limites imprecisos"].Logo em seguida: "cada um dos transtornos mentais é conceitualizado como uma síndrome ou padrão comportamental ou psicológico clinicamente importante, que ocorre em um indivíduo e que está associado com sofrimento (....) ou incapacitação (....) ou com um risco significativamente aumentado de sofrimento atual, morte, dor, deficiência ou uma perda importante da liberdade. Além disso, essa síndrome ou padrão não deve ser meramente uma resposta previsível e culturalmente sancionada, etc." [logo, o que é "previsível e culturalmente sancionado" é excluído dos supostos "limites imprecisos", não constituindo, em nenhum caso, objeto da psiquiatria].Mais adiante: "não existe nele [no DSM-IV] a suposição de que todos os indivíduos descritos como tendo o mesmo transtorno mental são semelhantes em um grau importante (....) até mesmo em relação aos aspectos definidores do diagnóstico" [então, como é possível classificá-los como portadores de um mesmo diagnóstico?].Assim, toda a casta de executivos, que se comportam como predadores, e para os quais foram elaboradas as belas teorias da "qualidade total" e da suposta "seleção natural" neoliberal (que nada tem a ver com Darwin), segundo as quais o maior crime é ser "perdedor", está, a priori, excluída de qualquer "transtorno mental", uma vez que seu "padrão" é "uma resposta previsível e culturalmente sancionada". Com uma exceção: quando o sujeito não agüenta a barra, ou seja, quando não é suficientemente psicopata para continuar a passar a perna nos colegas, para obter lucros sôfregos com papéis que nada significam produtiva e humanamente, para fazer negócios que redundam no despejo, desemprego, miséria e fome de milhares de famílias, ou - quando ocupam cargos públicos - não suportam mais colocar o que pertence a todos a serviço de uma ínfima minoria (e não estou me referindo aos empresários, que são outras vítimas). Se um cidadão desses tem um surto depressivo ou maníaco, aí sim, trata-se de um portador de um "transtorno mental".Não se trata, evidentemente, de nenhuma conspiração maquiavélica. O que está na base dessas afirmações é apenas a transposição para a psiquiatria da gororoba ideológica dos Friedmann, etc., segundo a qual o mercado resolve tudo, o que atrapalha é o Estado ou qualquer mecanismo de regulação coletiva da sociedade. Em suma, o mais exacerbado egocentrismo, terreno fértil para a psicopatia se manifestar. Um colega, acho que foi o Luís Carlos, referiu-se recentemente ao velho Vallejo Nágera. Para dizer a verdade, eu acho que ele tem algumas contribuições interessantes, no que concerne à sistematização. Não conheço o trabalho de 1954, mas a "Propedêutica", que é da década de 30, me parece um bom esforço. Mas sobre a psicopatia, são muito mais precisas as descrições do Honorio Delgado, autor que na especialização nós considerávamos um chato, do que os critérios da DSM-IV: "otro par de sintomas (....) es el del egocentrismo y la sed de dominación. El egocentrismo (....) sea derivado del sentimiento de la propria debilidad o de la penuria de recursos interiores (....) contribuye a avivar el deseo de someter a los demás al proprio dominio. Una caracteristica más es el contraste entre el ser real del sujeto y la apariencia de sus exteriorizaciones. (....) tenemos la deficiente o nula disposición para amar...".Não é só o "maníaco" do parque que cabe como dentro de uma luva nessa descrição. Concordo com a Hilda nas considerações que fez sobre a interação entre o biológico - o que se chamava antes de "constitucional" - e o ambiental, o sócio-familiar. Acho que um dos grandes e dos mais subestimados avanços de Freud foi o estabelecimento da noção de "série complementar", que é a junção de uma "predisposição constitucional" com o fator experencial.Além das favelas que a Hilda citou, é também no cume da pirâmide social onde isso se manifesta. E aí, de forma muito mais nociva, pois o que é crime na base da sociedade, é "modernidade" em cima - e estou incluindo o narcotráfico, ainda que não seja um aspecto central. Aliás, não existe motivo para se considerar que nas favelas o problema [de fundo] seja diferente - até porque aparelhos de televisão não faltam lá. As oportunidades é que são diferentes: em vez do sujeito exercer os seus talentos como executivo ou dono de um banco de segundo andar (aqueles antros que se dedicam exclusivamente à especulação), vai ser executivo do narcotráfico.Evidentemente que falar em "seleção natural" no estágio atual da Humanidade é dizer não só que o mundo é uma selva, como dizer que ele deve ser uma selva, que esse é o estado ideal da vida humana. No entanto, na semana passada, assisti uma palestra promovida pela Secretaria de Educação [do Estado de São Paulo] onde o palestrante - coordenador de um dos maiores, talvez o maior, colégio estadual de São Paulo - defendeu exatamente essa tese: "nós damos o conteúdo, alguns absorvem mais, outros absorvem menos, o mercado depois fará a seleção. Por isso não há necessidade de reprovar os alunos". Ou seja, todos passam de ano. Depois, a marginalidade diante dos que tiveram oportunidade econômica de estudar em colégios melhores. O que há de "natural" nessa seleção? É muito mais uma seleção psicopática do que natural. Na verdade, a isso se resume a seleção da "qualidade total": a uma seleção de psicopatas, bajuladores e mediocridades com o talento único de predador. A DSM-IV reflete isso. Muito bom o exemplo que o Marcio levantou: psicopatas bem sucedidos não são psicopatas para essa modernidade psiquiátrico-psicanalítica. Suponho, então, que Hitler só era um psicopata (ou talvez um psicótico) porque perdeu a guerra...Assim, a DSM-IV abandona o critério de diagnóstico a partir de uma síntese psicopatológica, substituindo-o por múltiplos critérios isolados cuja única hierarquia é estabelecida pela freqüência estatística. Por exemplo, em Jaspers, é chave o conceito de "vivência delirante"; em Bleuler, na definição da esquizofrenia, não são sintomas isolados que são levados em consideração, mas o que é subjacente a eles (as alucinações sequer aparecem como fenômenos primários). É evidente que esses autores procuravam estabelecer conceitos através de uma síntese, de uma mudança de qualidade que separasse um fenômeno - e os conceitos que expressavam a essência de cada um - do outro. Na minha opinião, é nesse sentido que precisávamos e precisamos avançar, a partir deles - e é possível, uma vez que no que é principal, as contradições são secundárias, e se parecem às vezes grandes são devidas mais à confusão de terminologia do que de conteúdo (aquele tipo de questão dos concursos para psiquiatras: "o conceito de `tempestade de movimento' na histeria é devido a que autor?", como se o importante na contribuição de Kretschmer fosse ter usado esse termo, meramente descritivo).Atualmente o que acontece é o que o Marcio relatou na questão dos "transtornos de personalidade": não há nele uma base psicopatológica subjacente, seu critério acaba sendo o do "sancionamento" social, isto é, o da ideologia que no momento é a dominante. O que não quer dizer que nós, os psiquiatras, ao usar esse conceito, ajamos de acordo com isso. Na verdade, boa parte de nós utiliza o termo exatamente para expressar o conceito anterior de "personalidade anormal" ou "personalidade psicopática" (ou, em casos leves, o de Bleuler, "personalidade difícil"). Mas que o conceito da DSM-IV não é uma mera mudança de nome, me parece que o Marcio tem toda a razão. O outro caso, para mim escandaloso, é o desaparecimento do conceito de histeria, dividida em seus sintomas, tornados entidades clínicas. A dificuldade dele foi apontada, já em 1895, por Freud: "As neuroses que comumente ocorrem devem ser classificadas, em sua maior parte, de "mistas". (....) Quanto à histeria (....), sucede que esse distúrbio dificilmente poderia ser segregado, para fins de estudo, do eixo de ligação das neuroses sexuais; que, em geral, ele representa apenas um lado isolado, apenas um aspecto de um caso complicado de neuroses; e que é somente em casos marginais que ele pode ser encontrado e tratado isoladamente. Talvez possamos dizer em algumas ocasiões: a potiori fit denominatio |isto é, recebeu seu nome pela sua característica mais importante|".No entanto, o fato de concretamente a histeria não se apresentar "pura" não nos absolve de conceituá-la teoricamente, isto é, puramente. Elaborar um conceito significa, precisamente, produzir uma abstração, a partir da realidade concreta, que revele o aspecto essencial do fenômeno. Como continua o próprio Freud: "Eu não gostaria que se pensasse, erroneamente, que não desejo admitir que a histeria é uma afecção neurótica independente, que a considero meramente uma manifestação psíquica da neurose de angústia e que lhe atribuo apenas os sintomas 'ideogênicos', transferindo os sintomas somáticos (por exemplo, pontos histerogênicos e anestesias) para a neurose de angústia. Nada disso. Em minha opinião, é possível lidar com a histeria, liberada de qualquer mistura, como algo independente, e fazê-lo em todos os aspectos, salvo na terapêutica, pois nesta estamos voltados para uma finalidade prática ? livrarmo-nos do estado patológico como um todo. E se em geral a histeria aparece como componente de uma neurose mista, essa situação se assemelha àquela em que há uma infecção mista e em que a preservação da vida cria um problema que não coincide com o de combater a ação de um agente patogênico específico". Certamente, pela histeria ter sido eliminada, como quadro de conjunto, da classificação, nem por isso deixam de existir histéricos e histéricas...O outro problema, diretamente relacionado com este, foi bem abordado, acho, pelo Marcio: o corte, na verdade a escavação de um abismo, entre os aspectos clínicos e os aspectos dinâmicos. Tenho um amigo, uma pessoa muito inteligente, que acha espantoso que psiquiatras e psicoterapeutas mais velhos (ele é mais jovem do que eu, embora nem tanto) raciocinem unindo esses dois aspectos. Perguntei como ele pode separar uma coisa da outra. Segundo me disse, ele gostaria muito de ter uma espécie de "teoria de campo unificado" em psicopatologia, mas isso no momento é impossível. Portanto, utiliza o que chama de diagnóstico "clínico" (isto é, os critérios da DSM-IV e da CID-10) para efeito de prescrição da medicação e faz outro diagnóstico, "dinâmico", para efeito de tratamento psicoterápico.Não consigo pensar desse jeito, separando uma coisa da outra: se o aspecto clínico não é - sem desprezar a base genético-biológica - uma manifestação da dinâmica, a consideração desta deixa de ser necessária. Se existir contradição (ou, pior ainda, antagonismo) entre clínica e dinâmica, provavelmente estamos tratando de dois seres humanos diferentes - um verdadeiro 2 em 1. Que o paciente apresente divisões e cisões é uma coisa. Que a teoria seja cindida, ou que sejam necessárias duas teorias, significa apenas que elas não conseguem dar conta daquelas divisões e cisões, isto é, do conjunto do problema que ela tem a função de equacionar. E nem me atrevo a abordar aqui as possíveis conseqüências práticas dessa melancólica epistemologia. Suponho que quando o profissional seja dotado de bom senso, ele a mande às favas, mesmo sem o perceber.Mas, além e na origem dos problemas teóricos, existem dois aspectos práticos (ou político-práticos) nas classificações atuais: 1º) elas são feitas sob medida para os produtos da indústria farmacêutica; esta, sempre foi um cartel transnacional, com a finalidade, como qualquer cartel, de monopolizar mercados, tornando-os cativos, para impor sobrepreços e extrair superlucros; mas apesar da avacalhação geral na fiscalização da produção de medicamentos, o peso deste monopólio privado era, até certo ponto, contrabalançado pela existência de alguma concorrência, ainda que interna ao próprio cartel, entre os seus membros de diversos países - era o caso, por exemplo, do laboratório italiano Carlo Erba; no caso do Brasil, a existência de um setor nacional de produção de medicamentos (não estou julgando a qualidade dessa produção) forçava também a alguma concorrência - em 1964, apenas 25% da produção de medicamentos dentro do Brasil era feita pelas transnacionais, enquanto pouco mais de 20 anos depois isso tinha se invertido: apenas 25% era de origem nacional, mas isso era suficiente para puxar um pouco para baixo os preços, já que não havia lei de patentes.O que assistimos nos últimos anos foi a monopolização da monopolização: nunca houve tantas compras de empresas e fusões. O poder do cartel nunca foi tão grande e tão concentrado em poucas mãos. O resultado é que os cursos de farmacologia das faculdades de medicina viraram uma encenação (exceções à parte, até porque não existe regra respeitável sem que haja alguma exceção); os médicos passaram a ser vítimas de um massacre propagandístico; os estudos "duplo-cego" passaram, em sua maior parte, a serem financiados pelos próprios interessados na comercialização dos medicamentos testados; as revistas e congressos médicos passaram a ser também financiados por eles, etc., etc., e tal. Obviamente não seriam as classificações de doenças mentais que resistiriam a esse assédio. Daí, a falta de visão de conjunto e síntese delas, a fragmentação sintomatológica tão evidente na DSM-IV e na CID-10.Os novos antidepressivos são apenas a ponta visível dessa tendência, cuja repercussão nosológica está nos critérios para diagnóstico de depressão, que conseguem, do dia para a noite multiplicar por três ou mais vezes a sua incidência, simplesmente pelo artifício de desconhecer qualquer distinção entre depressões reativas, neuróticas e psicóticas. Coerente com isso, uma professora de uma das mais afamadas escolas de medicina do Brasil, disse, literalmente, em recente congresso: "é preciso ter uma visão científica da depressão: alguém que depois de demitido apresenta sinais depressivos, certamente não teve como causa de sua depressão a demissão, mas foi demitido devido a um desempenho insuficiente, por ser biologicamente deprimido". Ela só se esqueceu de provar que exista alguém que ache o maior barato ser demitido...A segunda questão prática: a DSM-IV é feita, também sob medida, para proteger os psiquiatras dos processos, que nos EUA são tão freqüentes, contra eles. Naturalmente, discutir num tribunal, diante de um advogado espertalhão, se a paciente tem ou não uma histeria, é muito mais difícil do que se o diagnóstico for um "transtorno dissociativo". Até porque a palavra "transtorno" (ou "disorder") pressupõe um estado anterior, ideal, estado este que teria sido "transtornado", algo provisoriamente. Se a tradução de "disorder" fosse "distúrbio", não alteraria o conteúdo do problema.Não estou afirmando que tudo isso é consciente. Ao contrário: creio que é totalmente ou quase totalmente inconsciente, como cabe a qualquer ideologia - exatamente por isso os organizadores da DSM-IV pretendem eliminar com o subjetivismo em psiquiatria: porque a dose de subjetivismo de sua classificação é imensamente maior do que as classificações "subjetivas" anteriores.Desculpando-me por não ter sido breve (mas é que tem bastante tempo que estou pensando nessa questão, com pouca gente para trocar idéias), um grande abraço a todos,

From: "Maria Fernanda Tourinho Peres" <[email protected]>

Date: Fri, 21 Aug 1998 13:19:04 -300

estou de vota depois de alguns dias e estou tentando me atualizar em nosso debate. Em alguns dias, foram tantos mails que eu não tive ainda tempo de ler e por isso alguns pontos não serão comentados. É bom termos um espaço para discussão, a qual está se desdobrando em temas interessantes, todos. Acho que de fato o acordo na prática é mais importante do que o acordo na teoria. Até porque está prática refere-se a uma realidade que nos toca profundamente, enquanto cidadãos e profissionais de saúde. É verdade também que a realidade é mais importante do que qualquer leitura deste ou daquele autor, e sem Foucault meu trabalho seria possível sim, pois o Manicômio é real, a situação do poder judiciário é real, em fim, temos uma realidade na nossa frente: acho mesmo que é o tempo e espeço para falarmos sobre ela. Sabe que este problema dos diagnósticos no Manicômio, particularmente relacionado ao meu trabalho, já me fez penar muito...Eu trabalhei sim, com dados secundários, o que traz um problema de confiabilidade e validade...Por outro lado, foi esta a forma possível de fazer a pesquisa sem verba de financiamento...Sabe que temos também muitos diagnósticos de "Retardo Mental". Esta questão diagnóstica não relaciona-se necessariamente com problemas dos psiquiatras, como você falou. É impressionante a precariedade do espaço físico, o baixo número de profissionais, o excesso de paciestes e de funções sobrepostas. Aqui aqcho que temos muito em comum com o que nos falou a Hilda... Infelizmente tenho que ir agora. Até segunbda-feira! Eu demoro para entrar nas "conversas, não por falta de interesse mas por dificuldade de acesso! Um abraço, Fernanda.

From: "Paulo J. Negro, M.D." <[email protected]>

Date: Thu, 27 Aug 1998 17:03:43 -0500

chamo de narcisismo maligno o disturbio de personalidade narcisica combinada com sadismo ego-sintonico, tendencias paranoides, e caracteristicas antisociais. na verdade esta descricao nao e' minha mas de kernberg.em condicoes de disturbio social, estresse, e na presenca de lideres carismaticos e paranoides, o grupo pode se identificar e endorsar a agressividade primitiva que ele representa, evitando a perseguicao atraves de se tornar o perseguidor. o interessante e' que supostamente em grandes grupos, os mecanismos de defesa tradicional nao funcionariam (como por exemplo identificacao projetiva). certamente, quando ha' regressao o grupo ativa lideres narcisistas ou paranoides, mas tambem pode ocorrer que lideres com tais caracteristicas manipulem o grupo o consigam chegar ao poder. acho apenas que muito do falado sobre dinamica grupal deixa de lado o quanto individuos com disturbio de personalidade sao capazes de manipular e chegar a posicao de grande influencia por si so'.em relacao `a burocracia, eu acho que ela pode ser uma maneira de ritualizar a competicao, agressao, etc. a existencia de regras tambem possibilita uma protecao da dinamica de grupo grande e, portanto, protege de regressao. paradoxalmente, uma das caracteristicas do seculo foi o surgimento de sociedades totalitarias com burocracias voltadas para o mal (que tal o sadismo obsessivo do holocausto?), sob o controle da lideranca. eu diferencio sociedades totalitarias das demais na medida em que ha' uma intervencao direta do estado nas relacoes entre as pessoas. assim, uma sociedade autoritaria que nao intervem nas relacoes se as atividades dos individuos nao ameacem diretamente o regime, nao seria considerada totalitaria, no meu entender.o surgimento de movimentos messianicos na virada do seculo e de grandes regressoes e' fascinante e assunto da psiquiatria, apesar do managed care, psicofarmacologia, etc. faz sentido?

From: "Carlos Batista Lopes" <[email protected]>

Date: Thu, 6 Aug 1998 11:23:39 ?0300

Colegas: acho que nenhum ato, seja psiquiátrico ou de que qualquer outro caráter, pode estar acima das leis e do judiciário - ainda que muitas vezes o que há para fazer é mudar as leis ou reformar o judiciário. No entanto, existe um problema, este estritamente psiquiátrico: a ausência de consciência da doença é um sintoma, ou equivalente a um sintoma, ou não, em determinados pacientes? Se for assim, estamos diante de um problema médico ou psicopatológico, não de um problema judicial ou policial - em outras palavras, a sociedade deve ter participação e controle dos atos psiquiátricos, inclusive das internações, até porque os atos psiquiátricos são também atos sociais, mas o foco principal, nestes casos, não pode estar na órbita judicial, que é secundária, meramente acessória. A questão se coloca, então, em termos de principalidade. Porém, mesmo abstraindo a questão da família, não é a eficiência ou ineficiência do aparato do judiciário que pode determinar a nossa posição sobre um assunto desses (se o judiciário é ineficiente, e as leis inadequadas, que se reivindiquem as mudanças necessárias) mas a consideração de que a psicose é uma doença, portanto algo interno à sociedade, e não, em si, uma transgressão, algo que se coloca externamente a ela - e da qual ela teria de se defender - ainda que possam existir, e existem muitas, transgressões cometidas por psicóticos.

From: "Maria Fernanda Tourinho Peres"

Date: Mon, 17 Aug 1998 13:13:13 ?300

Fico contente em estar participando desta lista, no momento em que um tema que me interessa particularmente está sendo discutido. Estou achando extremamente rica a discussão, principalmente os comentários que se relacionam ao meu artigo. Críticas são sempre construtivas, quando surgem no contexto de um debate. É claro que Foucault não é o único autor a trabalhar as relações entre a psiquiatria e a sociedade e também é evidente que o fato dele ser ou não "velho" não se constitui no centro da problemática que está sendo discutida. Na verdade, acho que a discussão caminhou para a vertente teórica, o que sem dúvida é bastante interessante. Muitas questões foram levantas sobre o seu trabalho (de Foucault), em alguns momentos, penso eu, com um certo tom de "radicalismo". É impossível, ao meu entender, negar a importância da sua obra, dizer que ele chega apenas em um "revisionismo que apresenta o que foi revolucionário em sua época como o supra-sumo do reacionarismo..." ( cito neste caso uma das passagens da mensagem enviada por Carlos Lopes e enfatisada por Carlos Bastos), dentre outras críticas que englobam desde o método por ele utilizado, o não ter ponto de partida em sua obra....Em fim, aqueles que estão acompanhando a discussão tem em mente o que estou me referindo. O que Foucault faz é trabalhar conceitos, em sua formação histórica e em suas relações com as "estruturas" sociais, ou enquanto produto de relações de poder. Daí a idéia, que acho particularmente interessante de relação saber-poder, Microfísica do poder, estratégia e dispositivos. É clario que encontramos fragilidades em sua obra, o que não diminui o mérito. E é claro também que ele utiliza de conceitos já anteriormente desenvolvidos, como o exemplo dado da produção discursiva ( com uma leitura diferente, é verdade). Ainda com relação ao tema Foucault, não penso que, como sugere Carlos Bastos, ao lermos a sua obra chegamos à conclusão que a psiquiatria não possa existir. Acho que a psiquiatria não só pode existir como existe! Aqui estamos nós, psiquiatras, em um debate... Acho que podemos ter uma leitura de Foucault que nega a psiquiatria e a doença mental, mas também podemos ter uma leitura de Foucault que problematiza a noção de doença mental e a prática psiquiátrica. Não penso que esta seja uma leitura incompatível, mas sim uma leitura que enriquece a nossa compreensão da problemática do campo da Saúde Mental.Gostaria de levantar ainda m outro ponto: penso que esta nossa discussão sobre os Manicômios judiciários tem dois caminhos possíveis. Um deles é uma discussão teórica, a qual já estamos realizando, ou iniciando. O segundo caminho, entretanto, mostra-se para mim, extremamente importante: discutir a realidade de nossos manicômios judiciários, a legislação penal, a assistência, em fim, a prática! Acho mesmo que esse é um bom momento para isso, pois temos tido discussões sobre o nosso código penal. Não posso deixar de enfatizar a "sutiliza" do nosso processo, sutileza essa que produz uma prática, ou um modo de proceder extremamente brutal, rígido. E aí está a sutileza: no paradoxo entre prática e discurso, o que se evidencia com a leitura dos comentadores dos códigos penais, quando vemos a discussão teórica sobre a diferença entre pena e medida de seguranca, etc....Outra discussão interessante, levantada se não me engano por Carlos Bastos, é aquela que envolve os semi-imputáveis, ou seja, os psicopatas e aqueles com transtorno de personalidade anti-social. É verdade que podemos, até certo ponto, traçar pontos de forte semelhança - ou de encontro- entre estes e os loucos lúcidos, monomaníacos, degenerados. Esta linha é virtual e apenas para dizer que o que marca estes diagnósticos é a presença no limiar entre a doença e a sanidade, o que coloca um problema extremamente grave para as decisões judiciais. Foi em torno deles que se iniciou a discussão sobre a necessidade de criação dos manicômios criminais. No entanto, encontrei no manicômio estudado uma maioria significativa de pacientes com diagnóstico de Esquizofrenia e trastornos delirantes. Houve uma mudança na população de pacientes? A quem de fato se destinam os manicômios judiciários? EStou apenas levantando essas questões de forma rápida e não bem estruturadas, pois acho que já estou me alongando demais! Espero ter sido bem compreendida e continuar discutindo com vocês.

From: [email protected]

Date: Mon, 17 Aug 1998 17:51:04 ?0500

Prezada Maria Fernanda

No manicomio judiciário que eu conheço bem, o Henrique Roxo, aqui em Niterói, além dos delirantes crônicos e esquizofrênicos, observei uma proporção muito elevada de deficientes mentais. Acho que é possível que essa proporção você encontrou possa ser devida também aos diagnósticos errados. A maioria dos deficientes e psicopatas do HR foi inicialmente diagnosticada como esquizofrênica e dependente de drogas. A maioria das psicoses afetivas também entrava nesses grupos. Para colaborar com essa discussão da realidade dos manicômios: parece que eles servem mais para que esses pacientes pobres e desajustados não atrapalhem o funcionamento "normal" dos presídios, dando conta dos que ofereçam periculosidade, não tenham apoio familiar e social e não se adaptem às "normas sociais" dos presídios. Talvez mais da metade dos nossos doentes já estivesse em condições de ir para casa, se tivesse uma, ou se houvesse quem os aceitasse. Alguns desses não querem ir embora de maneira alguma, e houve mesmo quem piorasse claramente quando ouviu falar em ir para a "casa de transição" (a possibilidade de saída). Para a justiça, as expressões psicopata, demente, débil mental, doente mental são meros sinônimos, enquanto que fazem uma enorme diferença para nós psiquiatras. Um exemplo interessante da pouca importância dada pela nossa lei às categorias psiquiátricas é a figura do "pródigo", que não pertence à psiquiatria. Ou seja, um juiz pode interditar um maníaco dilapidador do seus bens sem nem mesmo a questão do diagnóstico de mania entrar na pauta. Não é interessante que para a justiça, ao contrário do consenso popular, rasgar dinheiro não seja sinal de loucura?Um abraço Claudio Lyra Bastos

From: "Luis Carlos Calil" [email protected]

Date: Tue, 18 Aug 1998 04:19:17 ?0300

Claudio e colegas da Lista

Fiquei muito curioso com estes comentarios, alem de outros que tenho ouvido nos noticiarios. Gostaria da opiniao dos colegas - existe uma Classificacao paralela, seguida por colegas de manicomios judiciarios??? Ouvi coisas como "epilepsias condutopaticas" e outras coisas como um "dejavu" do Vallejo Nagera de 1954. Ou deveria estar sendo seguida a CID-10?

From: "HILDA C. P. MORANA" [email protected]

Date: Sat, 18 Jul 1998 22:07:05 ?0300

Cara Fernanda e demais colegas da lista que acompanham a questão dos Manicômios. Sou Psiquiatra Forense e tenho alguma vivência com estas questões. Creio que a questão principal é que os Manicômios perderam a função de oferecer tratamento e, realmente, como foi dito, hoje funcionam apenas para separar os Psicopatas, principalmente os perversos e os Psicóticos do criminosos comuns que vão para a detenção. Na Casa de Custódia André Teixeira Lima em Franco da Rocha, com uma população de quase 500 indivíduo e dois médicos apenas, a situação, em termos de tratamento é triste. Mas, que outra maneira poderia haver em função das precárias condições do Estado. Tem que haver uma separação dos Psicopatas e dos Doentes Mentais. Estes não podem ficar em um presídio comum. Aqueles que remitiram do processo psicótico, e não têm família, deveriam ir para a Secretaria da Promoção Social, como é o caso da "Fazendinha" perto de Franco da Rocha, e que pertence a Sec. de Promoção Social. Lá eles têm atividades agrícolas e tudo funciona bem, mas são poucas vagas. Outra questão, essa sim muito complicada é a questão da semi-imputabilidade. Os juizes e promotores ficam desorientados com essa questão, pois pela lei e como eles entendem, o semi-imputável, é um indivíduo que não é muito "louco"e por isto deve receber o benefício da lei de diminuição de um a dois terços da pena ou ser a pena transformada em medida de segurança, desde que haja possibilidade de cura. Ora, Psicopata não tem cura, então resta a diminuição da pena. Mas o que nós psiquiatras queremos é que se encaminhe para medida de segurança para que a pena seja transformada em "perpétua", na prática, pois o indivíduo só sai com um laudo afirmando que a periculosidade do indivíduo está extinta. No caso dos psicopatas isto é difícil de acontecer. Resumindo, creio que deveria ser cobrado da Promoção Social, mais estabelecimentos para os casos de abandono social, diminuindo a população das Casas de Custódia e um esclarecimento aos juristas do entendimento do Transtorno da Personalidade que para muitos casos não consigo deixar de denominá-los de psicopatas.saudações a todos. Hilda

From: [email protected]

Date: Wed, 19 Aug 1998 00:20:08 ?0500

Cara Hilda e demais colegas

Essas questões ficaram abandonadas por muito tempo. Por isso criam dilemas como, por exemplo, o do sujeito que mata alguém e é diagnosticado como doente mental sem sê-lo, seja por imperícia, seja por fraude ou lá pelo que for. Uma vez caracterizado como psicótico e posto sob custódia, a única forma de mandá-lo embora do manicômio é através do exame de cessação de periculosidade. O problema é que essa periculosidade não apenas não cessou, como não nos diz respeito em nada. O que nos interessa é a tal psicose (inexistente), mas ao sistema judiciário, não. Até mesmo no caso dos verdadeiramente psicóticos essa questão se faz presente. Se um doente mental sai do seu quadro psicopatológico ele pode mostrar-se saudável, mas isso não implica diretamente a ausência da sua periculosidade. Como a questão da periculosidade não pertence propriamente à psicopatologia, acho que a sua cessação não deveria ser estabelecida por nós psiquiatras. Quem decide se alguém é perigoso ou não é a sociedade, portanto deveria ser ela - seus representantes legais - a decidir também se esse alguém deixou de ser perigoso. Violência é uma questão muito ampla, e a psicopatologia é apenas uma de suas vertentes. Todas as abordagens unilaterais desse assunto caem sempre na esterilidade : a sociologização, a psicologização, a biologização, etc. Claudio

From: "Sergio P. Baldassin" [email protected]

Date: Wed, 19 Aug 1998 20:40:14 ?0300

Como vocês tem descrito nos últimos mails a questào técnica da psicopatologia forense e das casas de Custódia e de Tratamento - antigos Manicômios- já é suficiente para grandes debates, envolvendo tópicos tais como :- diferentes classificações - os limites do normal e do patológico- o políticamente correto- o interesse de advogados- a inexistência de formaçào especializada- Os conhecimentos são passados artesanalmente ainda... - Os psiquiatras forenses não tem a admiração da comunidade (leiga e médica) ,e , muitas vezes são hostilizados pelos seus pareceres, conforme variados interesses..- etc.MAS, para complicar ainda mais, por todos esses motivos, e pela necessidade de se produzir muitos e rápidos pareceres, o que acaba acontecendo é que o "mercado" acaba sendo ocupado por profissionais não especializados, ou até não psiquiatras. E estes não raramente produzem laudos de algumas folhas, praticamente idênticos, que despencam juntamente com o paciente sobre os colegas que atendem em ambulatórios públicos nào preparados, ou que introduzem o examinando no sistema de Custódia fechado, ou PIOR - tem este lado também- o colocam fora dele de forma muitas vezes desastrosa. E, pasmem! Estes pareceres dito de EXPERTS são frequentemente aceitos, pedidos e até exigidos pelas autoridades, a despeito inclusive em muitos casos, da alegaçào da nào especializaçào dos profissionais ou do serviço - é o velho xamegão brasileiro em uma área esquecida ou abandonada pelos bons profissionais que ganham uma quantidade irrisoria para dizer quem fica, quem é, quem pode, etc  Ainda: tudo isto só é lembrado quando sai no jornal um caso especial, e aí todos falam..., até aqueles que surpreeeeendentemente nunca passaram pela vivência , até ai tudo bem, fala a vaidade e a necessidade marketing, etc, mas quando as próprias autoridades fecham os olhos e aceitam os "laudos", aí a coisa complica mais ainda, não é assim ainda Hilda? Aliás parabéns pela sua batalha de lembrar que esta atividade é técnica também, tanto quanto receitar antidepressivos embora nào seja " ïn" . Saudações Sergio Baldassin

From: Alexandre Lins Keusen [email protected]

Date: Wed, 19 Aug 1998 20:32:21 ?0300

A questão neste ponto é se estaremos ampliando ou reduzindo a compreensão desta situação ao acharmos que a sociedade e não a psiquiatria é que deveria resolver estas questões. É preciso ter clareza que no Brasil, que decide é o juiz em todas as situações, ele tem autonomia para jogar fora qualquer laudo psiquiátrico sem assim desejar. Estes tais representantes da sociedade não existem enquanto um ator ideal. O psiquiatra já desempenha um papel com designação dada pela sociedade, que espera um determinado olhar e isto amplia a compreensão. Estaremos sendo tolos se acharmos que somos a última palavra. Mesmo quando um indivíduo recebe o laudo de cessação de periculosidade, aceito pelo juiz, ele só volta para a comunidade (família), se esta assina um termo de responsabilidade, se não ou ele não sai, ou é transferido com alguma sorte para algum hospital-colônio. No hospital do Carmo temos vários pacientes oriundos do Henrique Roxo, e em geral, eles aceitavam apenas os pacientes ativos e produtivos. Acho que transferir para justiça, para o promotor, delegado, em nada irá ajudar ao doente mental. Acho que devemos sim assumir o papel a nós delegado, e ampliar o nível de crítica, aceitando que nosso ato deve e pode sofrer análise e revisão. Alexandre Keusen

From: "Silvio Saidemberg" [email protected]

Date: Wed, 19 Aug 1998 21:26:10 ?0300

Gostaria de comentar com brevidade sobre alguns dos pontos levantados pelos debatedores:

1- Podemos ter trabalhos periciais psiquiátricos muito precisos e abrangentes, no entanto continuaremos a manter uma grande dúvida sobre a periculosidade e a responsabilidade avaliadas: qual a margem de erro de cada exame pericial?

2- O sistema judiciário com suas soluções não consegue conter o risco de violência de quem já a praticou, muito menos impedir a violência de quem ainda não a expressou. As soluções são apenas razoáveis, poderiam ser melhores e mais elaboradas- certamente não poderão ser fantásticas se escasso for o número de profissionais e recursos disponíveis em programas de tratamento, reabilitação ou de avaliação contínua.

3- Fica muito dificil conviver com um sistema onde as imprecisões de provas, de documentação e de recursos humanos levam profissionais dedicados a trabalharem no limite da boa vontade, do respeito e do amor ao próximo, mas,totalmente desamparados.

4- A violência carece também de efetivos programas de prevenção primária, esta abordagem é praticamente inexistente. A prioridade corre a favor da punição e da correção, uma vez o delito já tenha ocorrido. Um grande abraço a todos. Silvio

From: [email protected]

Date: Thu, 20 Aug 1998 09:13:22 ?0500

Caro Alexandre

Estou de pleno acordo quanto à importância e à especificidade do nosso papel de psiquiatras. Você me conhece e sabe que eu não sou simpático ao esvaziamento das nossas responsabilidades nem das nossas prerrogativas técnicas e profissionais. Eu apenas acho que se a justiça nos empurra esse papel não é para nos prestigiar, mas para se livrar dele. Nenhum juiz rejeita laudo psiquiátrico, ainda que não concorde com ele. Mas não creio que isso se deva ao nosso prestígio. Se eles levassem realmente a sério a psiquiatria procurariam compreender melhor os nossos pontos de vista, assim como tentamos compreender os deles. Acho que a psiquiatria forense acaba tentando se adaptar aos parâmetros do judiciário muito mais do que influenciá-lo. Penso que isso pode ser feito. Por exemplo, aqui no H. Roxo, conseguimos saídas terapêuticas (que não estão previstas em lei) para os pacientes, apenas porque o Pascotto (diretor do HR) foi convencendo os juízes dessa necessidade. Temos que mostrar a eles que as coisas não são preto no branco. Por isso insisto que nosso assunto é doença mental, não periculosidade. Um grande abraço. Claudio

From: "HILDA C. P. MORANA" [email protected]

Date: Fri, 24 Jul 1998 08:50:51 ?0300

Caro Silvio,

Tem razão, devido aos Códigos Internacionais, deixamos de considerar as Variantes da Personalidade, portanto aceitável em nosso meio sócio-cultural dos autênticos Transtornos da Personalidade que são claramente patológicos. E as variantes da Personalidade que denominei de Transtorno Parcial da Personalidade, em meu trabalho, são as condições que causam estragos importantes nas relações sociais (calúnia e injúria no seu exemplo ). A Sociedade têm privilegiado o lado da individualidade e os sentimentos sociais, têm sido sufocados. Isto não vai dar boa coisa......Um abraço, Hilda


TOP