Volume 11 - Março de 2006
Editor: Giovanni Torello


Junho de 1997 - Vol.2 - Nº 6

Notas Ocasionais do National Institute of Mental Health

Paulo Jácomo Negro, Jr.
Visiting Associate Clinical Neuroendocrine Branch

San Diego em Maio:Os Congressos das Associações de Psicanálise e de Psiquiatria (Norte Americanas)

San Diego fica na costa da Califórnia, a poucos quilômetros da fronteira mexicana. Trata-se de uma cidade moderna, muito influenciada pela cultura hispânica e por outros povos da costa do Pacífico. A cidade e seus arredores são belíssimos, com destaque para a illha do Coronado (com o famoso hotel Del Coronado, construído em 1887 em estilo vitoriano, todo em madeira), as cidades e bairros ao norte, dentre os quais La Jolla, Del Mar e Encinitas. San Diego também hospeda parte da marinha de guerra norte-americana e durante os congressos, três dos porta-aviões da frota do Pacífico estavam no local, dentre os quais o famoso Nimitz. O cinza dos barcos fazia um contraste sóbrio ao colorido da cidade e de seus habitantes. O maior zoológico do mundo fica na região e inclui alguns exemplares de Pandas, uma raridade fora da China.

Relatos a respeito do Congresso da Associação de Psiquiatria Norte Americana (APA) tendem a ser coloridos por impressões pessoais, até mesmo por atitudes teóricas a respeito do trabalho psiquiátrico. Certamente a magnitude do evento, o grau de investimento financeiro e a onipresença das indústrias farmacêuticas impressionam e fazem meditar sobre para onde caminha a psiquiatria americana e, por conseqüência, boa parte da psiquiatria mundial. Participaram do congresso mais de 15 mil psiquiatras dos Estados Unidos, América Latina, Europa e outros lugares do mundo. Os brasileiros marcaram forte presença, com vários participantes e apresentações científicas

A semana anterior ao congresso da APA foi marcada pela reunião da Associação de Psicanálise Americana (APsaA), que vale à pena comentar. O movimento psicanalítico vinha tingido por um certo hermetismo teórico sendo que os diversos institutos e correntes americanos eram mais ligados a figuras por vezes autoritárias do que a tentativas de destilar dos diversos pontos de vista os melhores paradigmas teóricos. Otto Kernberg, em uma palestra memorável, veio desmistificar tais figuras autoritárias (e mesmo ironizar a si mesmo) defendendo a necessidade de ir além do paroquialismo dos diversos institutos. Renovação foi a palavra de ordem do encontro.

Ainda mais interessante é o atual interesse do movimento psicanalítico americano pelas neurociências. Uma discussão sobre a neurobiologia da regulação afetiva marcou o primeiro dia do congresso. A idéia era abrir espaço aos mais jovens, retomar a discussão do Projeto de uma Psicologia para Neurólogos de Freud sob o ponto de vista do atual conhecimento neurobiológico, de redes neurais e da plasticidade neurofisiológica.

A idéia, em seus vários níveis, foi compartilhada por outros apresentadores durante o congresso da APA. Um dos cursos da APA, ministrado por John Livesley (O Manejo Prático dos Distúrbios de Personalidade) abordou justamente a questão da integração de diversas abordagens. O apresentador propôs o uso combinado de conceitos psicanalíticos e comportamentais visando não apenas ao insight do pacientes, mas a mudança efetiva de comportamentos inadaptativos e ao desenvolvimento de estratégias para lidar com traços de personalidade de origem genética (e menos sujeitos a intervenções sociais) dentro de um sistema de metas ligado a uma hieraquia de intervenções psicoterapêuticas. Para Livesley, a dicotomia entre biológico e psicológico e a conseqüente polarização teórica causou muitos problemas desnecessários e deturpou a busca de abordagens terapêuticas efetivas. Psicanalistas durante o congresso da APsaA, em contrapartida, mostraram poucos pruridos em medicar seus pacientes, enquanto que Livesley considerou o uso de medicamentos no manejo dos transtornos da personalidade nada mais do que mais uma ferramenta cujo uso deve ser considerado não segundo critérios absolutos, mas de acordo com as necessidades estratégicas do momento.

Por que então dividir os diagnósticos em eixo I e eixo II ? Alguns sinais de insatisfação com esta divisão do DSM-IV (Critérios de Diagnóstico e Estatística das Doenças Mentais, 4a Edição) puderam ser ouvidos em ambos os congressos. Uma das críticas era que tal divisão se baseou na hipótese de que, ao contrário das doenças mentais classificadas em eixo I, os transtornos da personalidade teriam uma etiologia social, como problemas durante o desenvolvimento psicológico, abuso sexual, etc.

Portanto, a divisão entre eixos I e II vem refletir a falsa dicotomia entre o biológico e o psicológico que embasa o sistema DSM. Evidências de que traços de personalidade tem uma natureza genética e de que padrões de comportamento surgem da interação complexa entre biologia e ambiente foi a base das propostas terapêuticas de Livesley e de dúvidas sobre a sobriedade teórica da divisão entre eixos I e II. A questão é muito complicada, mas talvez (pelo menos em minha opinião) seja possível imaginar para o século XXI um sistema diagnóstico baseado em dados empíricos, mas ao contrário do DSM-IV que não seja ateórico, mas assumidamente influenciado por paradigmas novos provenientes da hibridização de modelos psicológicos e neurofisiológicos.

O encontro da APA também foi fortemente influenciado pelas novas medicações disponíveis no mercado americano, como antipsicóticos atípicos (freqüentemente usados como primeira opção por psiquiatras e residentes), antidepressivos, medicamentos anticolinesterásicos para o mal de Alzheimer, e evidências preliminares da utilidade de novos anticonvulsivantes (como gabapentina e lamotrigine) no manejo de transtornos do humor.

Um simpósio ressaltou a importância dos transtornos afetivos subsindrômicos. Aparentemente, a presença residual de sintomas depressivos, mesmo na ausência de critérios para depressão menor ou maior indica risco aumentado para recaída precoce. Estados subsindrômicos são os mais freqüentes entre episódios da doença afetiva e associados com prejuízo funcional importante. Neste mesmo simpósio, foi discutida a presença de sintomas depressivos em estados de luto. Depressão em estados de luto cursa como depressão desencadeada por outros estressores severos e deve ser tratada farmacologicamente com a mesma agressividade, a despeito da possível compreensibilidade do fenômeno. Durante a apresentação, foi questionada a necessidade de se manter o diagnóstico de luto no sistema DSM, já que não foram encontradas evidências de diferenças em relação ao desencadeamento de depressão por outros estressores. A presença de história familiar, episódios depressivos anteriores e problemas médicos predizeram o quadro depressivo nesta população. Curiosamente, indivíduos mais jovens mostraram risco maior após a morte do/a esposo/a, talvez pelas demandas sociais mais intensas (ex. filhos pequenos) nesta faixa etária.

A diversidade do encontro foi marcada por reuniões da Associação de Psiquiatras Gays e Lésbicas, reuniões voltadas a graduados em faculdades no exterior e manifestações na porta do centro de convenções contra os "psiquiatras que drogam crianças". Associações de pacientes também se fizeram representar, e a visão da sociedade a respeito dos doentes mentais foi abordada em diversas reuniões e filmes.

Houve também reuniões de psiquiatria política, uma especialização pouco conhecida no Brasil, que se dedica ao desenvolvimento de modelos e intervenções para facilitar a interação entre grupos, povos, nações (a próxima reunião internacional do grupo de psiquiatria política será na Polônia, em julho). Em particular, deve ser ressaltada uma brilhante apresentação sobre a Anatomia do Preconceito por Elisabeth Young-Bruehl, que considerou o preconceito sob o ponto de vista caracterológico, dividido em indivíduos predominantemente obsessivos, histéricos ou narcisistas. A apresentação foi marcada por diversos exemplos históricos norte-americanos e europeus. Giovanni Torello também estava por lá, falando sobre a Psiquiatria Online no Brasil, e deve trazer sua experiência no congresso para a revista.



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