Volume 11 - Março de 2006
Editor: Giovanni Torello



Fevereiro de 1997 - Vol.2 - Nº 2

Notas Ocasionais no National Institute of Health

Paulo Jácomo Negro, Jr.
Visiting Associate - Clinical Neuroendocrinology Branch/NIMH/NIH - 10 Center Dr., Bldg.10, Rm 2D46 - Bethesda, MD 20852 - ph. (301)496 -8928

 Colegas,

Conversando com a cara Dra.Denise Razzouk, considerávamos que poderia ser de interesse a publicação no Psychiatry On-Line - Brazil de acontecimentos científicos que pudessem ocorrer no National Institute of Health (NIH) em Bethesda, Maryland neste ano. O NIH é o principal centro de pesquisas em saúde no mundo e concentra o capital econômico e humano por trás de grandes desenvolvimentos tecnológicos nos Estados Unidos. Espero durante 1997 apresentar informações interessantes, resumos de simpósios de que tenha participado e falar um pouco dos resultados de pesquisas do Clinical Neuroendocrinology Branch e de outros Branches da instituição. Vou apresentar agora algumas notas sobre memória e hipocampo, baseadas em apresentação de Richard Morris, Ph.D., em 13 de Janeiro de 1997.

Dr. Paulo Jácomo Negro

 Notas sobre:

"The Role of the Hippocampal Synaptic Plasticity in Memory: the Automatic Recording of Attended Experience"
Richard Morris, PhD.

Center for Neuroscience, University of Edinburgh Medical School. Em 13 de Janeiro de 1997. Meio-dia, Anfiteatro Lipsett.

 Dr. Morris vem trabalhando na Universidade de Edinburgo com modelos animais para memória. Ele desenvolveu o modelo no qual um rato é mergulhado em uma tina com água com uma pequena plataforma submersa (fora do campo visual do animal) na qual ele pode se apoiar. Os ratos rapidamente apreendem a existência da plataforma e quando são colocados diversas vezes na mesma tina, dirigem-se para ela rapidamente em cerca de 10 segundos. Inicialmente, considerava-se que isto era devido à memória espacial dos animais, pois eles conseguiam observar o laboratório além do espaço reservado à tina e se orientar em relação ao mundo exterior dentro desta. Este comportamento é ligado à capacidade de desenvolver Long Term Potentiation (LTP) -uma medida de mudança na eficiência sináptica na formação hipocampal (lobo temporal). Interferências na LTP, como bloqueio de receptores de NMDA com D-AP5 (com microinjeções) ou destruição do hipocampo dorsal, prejudicam o aprendizado do comportamento.

No entanto, considerar o experimento como medida de memória espacial não dá conta do fenômeno. O Dr.Morris desenvolveu um experimento criativo no qual os animais foram inicialmente treinados em uma tina e depois transferidos para outra, em uma outra sala de seu laboratório (bem diferente da primeira). Depois de treinados como normais na primeira tina, metade dos animais receberam microimplantes com bombas de infusão de líquor artificial ou D-AP5. Apesar de animais que receberam D-AP5 mostrarem um certo déficit residual quando do novo aprendizado (i.e. encontrar a plataforma submersa na segunda tina), a curva de aprendizado foi bastante semelhante ao aprendizado dos grupos controle.

O experimento mostrou que LTP na formação hipocampal é necessário para alguns, mas não todos aspectos do aprendizado. O bloqueio da LTP não impediu o aprendizado das novas referências espaciais na segunda parte do estudo. É possível que a LTP seja necessária para o aprendizado de experiências específicas, inseridas em um contexto abstrato de realidade que para os ratos inclui a existência de uma plataforma submersa em algum ponto na tina de água.

Para Dr.Morris, a plasticidade sináptica da formação hipocampal propiciaria a "gravação automática da experiência visitada" (the automatic recording of attended experience) de forma linear, porém ligada a contextos abstratos. É possível que a interação da formação hipocampal e córtices propicie a reconstrução de experiências (possibilidade importante na discussão da síndrome de falsas memórias). A consolidação da memória seria possível através da conjunção temporal de influências da rede neural sobre a atividade hipocampal. Deve ser ressaltado que memórias importantes (ex. onde se encontrava o indivíduo quando recebeu a notícia do assassinato do presidente Kennedy nos Estados Unidos) trazem consigo um "efeito halo" de informações irrelevantes que fazem parte do contexto de arquivamento das primeiras. Tal argumento é de importância na discussão da relação entre disfunção executiva e memória, mas esta já é outra estória... 


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