Volume 11 - Março de 2006
Editor: Giovanni Torello


Julho de 1997 - Vol.2 - Nº 7

Tecnologia e Psiquiatria: da bruxaria à cibernética

Denise Razzouk
Psiquiatra pós-graduanda do Departamento de Psiquiatria UNIFESP/EPM

Em tempos de Bill Gates, MMX, Deep Blue, telemedicina, para onde caminhará a Psiquiatria ? Se olharmos para atrás, no remoto passado da história da Psiquiatria, poderemos observar que conviver com desafios e desvendá-los sempre foram peculiaridades de nossa disciplina.

Na Idade Média, confundida com o campo da bruxaria, esoterismo, alquimia e outras bizarrices, a história psiquiátrica "navegou" por fronteiras ora nada científicas, ora um pouco mais científicas. E o conhecimento psiquiátrico foi sendo cultivado por todas essas influências diversas.

Talvez, os primeiros psiquiatras a se preocuparem com a organização dos dados e a busca de um conhecimento mais criterioso tenham sido Pinel e seu discípulo Esquirol no século XVIII. O que diriam eles se pudessem utilizar os atuais "eletronic records" (prontuários eletrônicos) nessa tarefa tão árdua?

Foi, sem dúvida, um momento revolucionário para a história do conhecimento psiquiátrico quando Pinel se pôs a identificar, comparar, classificar os transtornos mentais, sem contudo ter a preocupação de explicá-los teóricamente. Devemos lembrar que o seu único instrumental era a técnica botânica de classificação e uma postura determinada em suas próprias crenças. Ou melhor, nada de crenças teóricas, apenas descrever e catalogar.

Então, antes de entender e refletir sobre um conhecimento é preciso organizá-lo. Para isso, é fundamental um método de investigação, de confirmação de sua veracidade e de sua validade. Mas, sobretudo, esse processo não é linear e depende em muitos aspectos da comunicabilidade.

Se pensarmos em termos de ciência, só um conhecimento reprodutível e passível de verificação é aceitável, ou melhor, passível de ser validado. Portanto, comunicável. Isto porque a comunicação amplia não apenas a sua utilização, mas a probabilidade de refutação, de verificação, de comparação.

A questão da comunicação foi sempre uma preocupação humana, mas, um dos pontos mais delicados que a "ciência psiquiátrica" foi obrigada a se deparar.

Desde os últimos séculos, surgiram numerosas classificações, tentativas de sistematização de sintomas, categorias, diagnósticos? Emil Kraeplin, no século passado, tentou diferenciar as categorias diagnósticas, de modo sistemático e mais descritivo baseado em observações empíricas.

Logo na virada do século XX, Karl Jaspers (1913) foi um pouco além. Preocupado com uma sistematzação e organização dos transtornos mentais, centralizou sua atenção para buscar um método de investigação em Psiquiatria, ou melhor, em Psicopatologia. Em que se baseavam suas premissas? Em descrever o mais objetivamente possível um dado fenômeno e comunicá-lo de forma mais homogênea e desprovida de preconceitos e interpretações para depois estudá-lo segundo as teorias explicativas da época.

E o que permeou o investimento destes célebres pesquisadores ao longo do tempo? A necessidade de sistematizar, descrever e após uma "refinada"coleta de dados desenvolver um método científico de investigação. Mas, o que sempre delineou estas questões é a comunicabilidade de um conhecimento válido.

Ainda que através de ferramentas precárias, estes médicos, psiquiatras, pesquisadores e pensadores, muitas vezes se empenharam em descrever sinais, sintomas e de elaborar "regras"de raciocínio diagnóstico. Sem dúvida, tudo isso influenciou e influencia o pensamento psiquiátrico até hoje. Mas, não estamos tão desprovidos de ferramentas como nos séculos XVIII, XIX e início do XX. Temos tecnologia razoavelmente desenvolvida para sofisticar o raciocínio e o campo da pesquisa psiquiátrica. Não há motivos para continuarmos à mercê do empirismo amador.

Embora aparentemente óbvia a necessidade de se utilizar as novas tecnologias, a mudança de postura frente à modernidade é quase sempre acompanhada de resistência, preconceitos e desconfianças. Se a tentativa de elaboração de um manual de categorização diagnóstica baseada em estatística como o DSM provocou um mal-estar no meio psiquiátrico, que impacto produzirá a inserção de técnicas de inteligência artificial? Absurdo? Muito menos do que se pode imaginar.

Afinal, o que é inteligência artificial? O campo da inteligência artificial consiste em esforços intelectuais e tecnológicos voltados a vários meios científicos com o objetivo de usar modelos computacionais para compreender o comportamento humano (raciocínio, pensamento, inteligência); formalizar o conhecimento e o raciocínio tanto o do senso comum como de experts, em todas as áreas de comportamento humano; fazer com que computadores sejam instrumentos úteis na prática de profissionais (por exemplo, área de saúde).

Mas, como isso se relaciona com a Saúde Mental?

Segundo Glover(1996) a mais importante contribuição que a informação tecnológica pode fornecer à área de Saúde Mental é a comunicação. Muitos serviços de saúde são estruturados de forma dispersa, isto é, com distâncias geográficas que dificultam a comunicação entre as equipes. E os pacientes costumam freqüentar mais de uma unidade de atendimento (hospital -dia, pronto-socorro, ambulatórios). Prontuários eletrônicos e a utilização da rede (e-mail) constituem elementos que facilitam a comunicação entre os profissionais, o planejamento do tratamento e uma melhor utilização dos dados sobre o paciente. Além disso, é possível uma avaliação dos recursos financeiros que estão sendo empregados em cada modalidade terapêutica e uma verificação de sua eficácia, facilitando e otimizando o gerenciamento de tais recursos.

Este tipo de tecnologia tem sido implementada em algumas universidades norte-americanas, canadenses e britânicas com forte impacto na comunidade e na equipe de profissionais. Uma vez superadas as dificuldades com os preconceitos, o treinamento em informática e o custo de implementação do novo sistema, fica muito difícil voltar ao século passado! O computador passa a ser um componente tão "habituée" no cotidiano do clínico quanto um lápis e papel.

As resistências a essa mudança de paradigma se situam em vários níveis. Inicialemente observamos o medo do desconhecido, daquilo que é novo e portanto, gera mudanças no que ainda não está automatizado em nosso cotidiano. As outras dificuldades se situam no que se refere ao despreparo técnico, na falta de disponibilidade para fazer treinamento em uma nova área e sair da inércia já desatualizada e ineficiente.

De que adiantam o mapeamento das deficiências de nosso instrumental e o crescente avanço tecnológico se nossa resistência humana se opõe às mudanças, à evolução, enfim, à virada do século?

A Medicina apresentou um desenvolvimento supersônico neste século com o advento tecnológico cada vez mais sofisticado. A Psiquiatria, por sua vez, manteve-se à margem deste processo, na medida em que os nossos recursos continuam sendo muito similares aos nossos antecessores. O volume de informações que a tecnologia torna disponível para que sejam processadas e analisadas em uma velocidade enorme não nos permite que continuemos a adotar posturas reacionárias.

Mas, esses horizontes começam a se delinear no campo da Psiquiatria. Alguns estudos na área de imagens (PET/SCAN; SPECT/ Ressônancia nuclear magnética) e na Genética trouxeram novos desafios para nossa área. A estatística e a análise de múltiplas variáveis (só possível, após o uso de softwares) abriu um leque de opções para uma avaliação mais crítica e rigorosa dos resultados de pesquisas.

A Medicina deste final de século está saindo de uma posição amadora, baseada apenas nas experiências pessoais, em teorias nem sempre comprovadas e do empirismo rudimentar para basear-se em "provas científicas mais rigorosas" que vão nortear o raciocínio clínico e o planejamento de saúde. É a polêmica Medicina Baseada em Evidências. Alguns setores da Psiquiatria já começaram, também, a enveredar por esse caminho, desenvolvendo estudos clínicos mais adequados, com revisões sistemáticas da literatura (meta-análise) direcionados a um consenso mais embasado em resultados científicos e menos em opiniões isoladas.

Mas, onde se situam o clínico, o psicopatologista e o terapeuta neste contexto matemático, estatístico e virtual? Não se situam. A necessidade atual é usar todo o conhecimento possível com toda a tecnologia disponível. E uma vez que o volume de informações é gigantesco e exige uma acurácia técnica para selecioná-la, não é mais possível ser um bom clínico, um médico enfim, à margem das transformações e necessidades sociais. Ninguém advoga o fim do raciocínio clínico, mas, o seu aperfeiçoamento, o seu direcionamento sobre bases mais sólidas de conhecimento.

Desta forma, "softwares" de apoio à descisão (expert systems) que são programas computacionais que auxiliam a nortear o raciocício na tomada de decisão no manejo terapêutico (por exemplo) tem oferecido novas possibilidades à performance do clínico, do psiquiatra.

Voltando à Inteligência Artificial, a elaboração destes "softwares" se basea em construir modelos teóricos embasados em regras de lógica e árvores de decisão, que o clínico já faz em sua prática, aliado a um banco de informações técnicas atualizadas que o cérebro humano não consegue disponibilizar de uma só vez e com a mesma rapidez. Não se trata de psiquiatrizar a máquina, mas de prover elementos norteadores que contribuam para a evolução do raciocínio, da performance do profissional e de pesquisas futuras.


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