Volume 11 - Março de 2006
Editor: Giovanni Torello


Dezembro de 1997 - Vol.2 - Nş 12

A Experiência Vivida de Mães de Desnutridos :
Um Novo Enfoque para Intervenção em Desnutrição Infantil

Gisela Maria Bernardes Solymos*
* Psicóloga pós-graduanda do Departamento de Psiquiatria da UNIFESP.

O presente artigo tem por objetivo ampliar o conceito de fatores de risco para a desnutrição infantil, tendo em vista que os estudos tradicionais desenvolvidos sobre esse tema identificam tais fatores sem, contudo, fornecer elementos para uma compreensão em profundidade da situação de risco, necessária a uma intervenção. Para tanto, é necessária uma investigação que observe aspectos subjetivos segundo uma perspectiva fundamentalmente psicológica.

Assim, neste texto, faremos uma breve retomada dos resultados de estudos sobre a desnutrição infantil que consideram tais aspectos, propondo, ainda, um novo modo de abordá-los através da apresentação de uma investigação psicológica qualitativa com mães de crianças desnutridas residentes em favela.

1. FATORES PSICOSSOCIAIS DE RISCO PARA A DESNUTRIÇÃO: MUDANDO O OLHAR

Fator de risco indica uma certa condição que, estando presente, aumenta a probabilidade de ocorrência de determinada doença. Trata-se de um conceito estatístico utilizado pela medicina para a identificação de condições que aumentam a probabilidade da ocorrência de patologias, definindo uma relação causal ou uma associação entre ambas.

No decorrer dos últimos vinte anos, a desnutrição energético-protéica (DEP) infantil tem sido cada vez mais considerada num contexto que ultrapassa em muito o organismo do indivíduo desnutrido, incluindo condições ambientais tais como a pobreza, más condições de habitação e saneamento, repetidas exposições a infecções e doenças parasitárias, cuidados de saúde inadequados e práticas empobrecidas de alimentação e de cuidados com a criança. Destas, a pobreza é a mais difícil de ser modificada, uma vez que é produzida por sistemas sociais e políticos e por fatores ligados a uma economia internacional desequilibrada. Estes são chamados fatores macroambientais de risco para a desnutrição, por escaparem ao controle do indivíduo, consistindo principalmente em: sistemas políticos, econômicos e sociais, mundiais e locais; distribuição desigual de riqueza; demografia (alta densidade populacional e crescimento); problemas agrícolas; precárias condições sanitárias; atenção à saúde deficitária, acesso difícil ou fracasso em acessar o sistema de saúde; condições sócio-econômicas desfavorecidas (baixa renda, ausência de escolaridade e acesso à escola, precárias condições de moradia) (Dasen & Super, 1988).

Tem-se percebido, entretanto, que, mesmo em condições macroambientais igualmente desfavoráveis, a DEP não ocorre em todos os indivíduos, indicando a coexistência de outros fatores. Estes referem-se a aspectos mais diretamente ligados ao cotidiano da família e da criança, o seu microambiente. Oyarzún e colaboradores (1991), investigando os efeitos da dinâmica familiar sobre o desenvolvimento cognitivo da criança com antecedentes de desnutrição pregressa e grave, afirmam que investigações recentes assinalam que as variáveis microambientais também exercem um papel fundamental no desenvolvimento ulterior da criança desnutrida, podendo potencializar seus efeitos ou atuar como fatores protetores do desenvolvimento psicológico infantil.

Os fatores microambientais também são chamados por alguns autores de fatores psicossociais de risco. O termo "psicossocial" é utilizado para indicar os aspectos psicológicos e socioculturais que influem no estabelecimento do quadro de desnutrição. A compreensão das dinâmicas de interação desses aspectos constitui-se num importante instrumento para um entendimento mais amplo do problema da desnutrição infantil, uma vez que é a complexidade dessas interações que pode explicar por que, num mesmo macroambiente de alto risco, a desnutrição energético-protéica ocorre em algumas famílias e não em outras, ou atinge somente uma criança na família (Dasen & Super, 1988).

A psicologia conta com um importante papel nessa tarefa, contribuindo tanto no sentido de se compreender em que medida fatores psicológicos concorrem para o estabelecimento da desnutrição infantil, como no sentido de se buscar alternativas de intervenção. As pesquisas sobre a família da criança desnutrida identificam características que as diferenciam das famílias com crianças eutróficas, tais como: um grande número de crianças," stress" nas relações conjugais, ausência ou falta de envolvimento do pai, alcoolismo, pouco contato com meios de comunicação de massa, distribuição desigual de comida na família, restrições alimentares culturais, conceitos de comida e doença, ausência ou falha no uso de sistemas de suporte formais ou informais, isolamento sóciocultural. Seguindo esse mesmo raciocínio, a mãe da criança desnutrida tem sido objeto de estudos, sendo caracterizada como tendo: idade inferior a 19 ou superior a 35 anos, história nutricional pobre, história de uma infância problemática, gravidez não desejada, intervalo entre os partos inferior a dois anos, cuidados pré-natais deficientes, desmame precoce e introdução de mamadeira em condições desfavoráveis, disposição a doenças físicas ou mentais, ansiedade, "stress", depressão, apatia, personalidade imatura. Mães com este perfil apresentariam, portanto, maiores chances de ter um filho desnutrido (Dasen & Super, 1988).

Tais pesquisas têm, ainda, dado especial atenção às relações mãe/responsável-criança, uma vez que estas podem alterar a incidência de muitos dos fatores psicossociais de risco. Com efeito, Bernstein, Hans e Percansky (1991) afirmam que durante a infância, a real interação entre pai/mãe e criança é uma mediadora dos fatores de risco presentes no ambiente ou daqueles presentes nos próprios pais e na criança. Além disso, o ambiente e a situação pessoal da mãe podem influir na sua disponibilidade e capacidade em responder a seu filho.

Uma crítica, contudo, que se pode fazer a esses estudos é que eles se utilizam de avaliações impregnadas de valores da classe média ocidentalizada que geralmente não correspondem aos da população estudada. Sendo assim, acabam mostrando que a DEP ocorre em lares denominados "desprivilegiados", nos quais as mães têm um baixo nível de competência, e apresentam sintomas quasi-psiquiátricos. Tal orientação de valores leva a descrições das famílias de risco, dos comportamentos maternos e das práticas de cuidado com o crescimento da criança sistematicamente traduzidas em termos negativos, como indicado pela expressão "maternagem inadequada". Enquanto a pesquisa segue tal modelo deficitário, a intervenção é padronizada a partir dos programas do tipo "compensatórios", tentando instalar a linguagem, os valores e hábitos da classe média e continuando a depreciar os próprios valores e habilidades da comunidade (Dasen & Super, 1988). Faz-se necessário, portanto, o desenvolvimento de novos métodos de investigação que abordem esse tema sem partir de critérios de avaliação definidos "a priori " segundo populações de referência pertencentes a outras culturas e/ou classes sociais.

É nesse sentido que, enfrentando a problemática da desnutrição infantil, voltamo-nos para a mãe da criança desnutrida. Para tanto, desenvolvemos um estudo exploratório qualitativo com o intuito de compreender a experiência de tal mãe. Este considerou a dinâmica de interação dos fatores psicossociais de risco para a desnutrição, de modo a fornecer subsídios para o desenvolvimento de trabalhos educativos junto a essa população (Solymos, 1995). Partindo do conhecimento existente acerca destes fatores buscamos novas alternativas de compreensão e abordagem dessa realidade. Nosso estudo não pretendeu ser conclusivo, mas buscou, principalmente, suscitar questões a serem aprofundadas em investigações ulteriores.

Essa pesquisa nasceu a partir da nossa experiência de trabalho em saúde realizada por uma equipe multiprofissional da Universidade Federal de São Paulo/ Escola Paulista de Medicina junto a famílias de crianças desnutridas residentes em favelas no município de São Paulo. Ela foi realizada, de dezembro de 1992 a meados de 1994, simultaneamente a um trabalho de atenção primária à saúde junto a famílias de pré-escolares desnutridos residentes em favela. O trabalho seguiu a metodologia de intervenção em favelas descrita por Sawaya et al. (1997).

2. NOSSO CAMINHO DE CONHECIMENTO

A opção pela fenomenologia como método de pesquisa teve como origem a busca de um caminho de investigação que conduzisse a um olhar, o mais aberto e abrangente possível, sobre o tema a ser investigado ? a experiência de vida das mães de crianças desnutridas.

A abordagem fenomenológica permite estudar o que nas ciências naturais é negligenciado em função de um entendimento da realidade enquanto composta por fatos objetivos que podem ser definidos e quantificados. Ou seja, na perspectiva das ciências naturais, os fenômenos da consciência enquanto expressão da intencionalidade da vida psíquica não podem ser conhecidos. Assim, uma pergunta como a que nos colocamos no início ? por que a mãe da criança desnutrida não valoriza o serviço de saúde? ? só pode ser respondida com base em explicações externas à própria mãe, uma vez que a motivação intrínseca a ela não é acessível ao pesquisador como um dado objetivo. Nesse sentido, qualquer processo de intervenção fica limitado à ação sobre tais fatores externos à pessoa.

A fenomenologia, pelo contrário, propõe-se a compreender o fenômeno definido como tudo aquilo que se mostra, quantificável ou não. As questões referentes à vida psíquica do sujeito tornam-se também, portanto, objeto de seu conhecimento.

Uma importante característica da fenomenologia é a abertura em relação a seu objeto de estudo. Ela não parte das teorias e definições já existentes sobre o mesmo, mas pergunta-se "o que é isso?", "o que quer dizer ...?", "como isso acontece?". A postura do fenomenólogo é interrogar o fenômeno que deseja conhecer (Martins & Bicudo, 1989).

Para um melhor entendimento da metodologia de investigação que utilizamos, vamos nos deter um momento sobre a definição de fenômeno. Como dissemos, o fenômeno é aquilo que se mostra. Segundo Leeuw (1960), isso contém uma tríplice afirmação: 1) existe algo; 2) esse algo se mostra; 3) é um fenômeno pelo próprio fato de mostrar-se. O fenômeno não é um simples objeto; nem mesmo é a verdadeira realidade, cuja essência seria apenas encoberta pela aparência das coisas vistas. Tampouco trata-se de algo puramente subjetivo, uma vida do sujeito estudada por um ramo distinto da psicologia, na medida em que ela possa faze-lo. O fenômeno é ao mesmo tempo um objeto que se refere ao sujeito e um sujeito relativo ao objeto. Ele não é produzido pelo sujeito e tampouco corroborado ou demonstrado por ele. Toda a sua essência consiste em mostrar-se, mostrar-se a alguém. Sendo assim, a fenomenologia se faz no momento em que começamos a falar daquilo que se mostra (Leeuw, 1960).

A revelação progressiva do fenômeno dá-se mediante um reconhecimento exercido por este "falar" (Leeuw, 1960), ou, nas palavras de Giorgi (1992), mediante o exercício da descrição. Uma atitude descritiva implica que alguém descreve aquilo que se apresenta precisamente como se apresenta, sem adicionar ou subtrair nada. Buscando uma resposta à nossa pergunta, delimitamos a experiência da mãe da criança desnutrida como o fenômeno a ser estudado. Entendemos que é esta experiência que nos introduz no conhecimento da dinâmica de interação entre os aspectos psicológicos e socioculturais associados ao fenômeno da desnutrição infantil, fornecendo-nos a compreensão aprofundada que almejávamos.

A fenomenologia define a experiência pelo termo experiência vivida, o qual designa uma vida presente que, segundo o significado que lhe é dado, forma uma unidade. A experiência vivida é tanto condicionada objetivamente quanto associada à interpretação que lhe é atribuída (Leeuw, 1960). O significado é o modo como a pessoa compreende, interpreta, atribui valor aos fatos que enfrenta em seu cotidiano.

A experiência vivida permite-nos, pois, compreender que a maneira como os fatores psicossociais de risco para a desnutrição infantil articulam-se na vida concreta da mãe ? influindo na da criança ? depende do significado que têm para aquela, esboçando uma certa configuração do próprio quadro de desnutrição. É o ser humano enquanto vivo, atuante e protagonista na sua relação com o mundo. Nosso objeto de investigação é a vida dessa mãe ? a situação em que vive e as dificuldades que enfrenta ? enquanto significada por ela mesma.

O processo de conhecimento ou de reconstrução da experiência vivida é definido como o traçado de um plano em meio ao novelo de linhas caóticas chamado realidade. Esse plano é denominado estrutura, o qual é a realidade significativamente organizada. A experiência vivida é, então, apreendida a partir de um olhar sobre a globalidade da vida de cada uma das mães. Cada um dos aspectos de suas vidas (estados de ânimo, trabalho, caráter, filhos, marido, relacionamentos etc.) existe, pertencendo e/ou em relação a. O modo como se dá esse pertencer, a articulação de cada parte com o todo, o modo peculiar com que esta articulação ocorre é a maneira como cada pessoa significa suas vivências. Isto nos permite o conhecimento do significado que, segundo Leeuw (1960, p. 533), "é um terceiro domínio, colocado além da pura subjetividade e da pura objetividade. A porta que remete à realidade da experiência vivida originária, realidade em si inacessível, é o significado, o sentido, o meu e o seu tornados irrevogavelmente um no ato da compreensão".

Cabe ressaltar, ainda, que a significação nem sempre é imediatamente articulável pela própria pessoa, porém, uma vez existindo, expressa-se na sua experiência vivida e pode ser captada por outrem, sendo ou não explicitada através de um diálogo significativo.

2.1. Método da pesquisa

Os dados foram obtidos a partir de dois instrumentos: entrevistas gravadas com as mães e anotações em diário de campo. As entrevistas eram abertas. Nelas, a mãe era convidada a auxiliar na reflexão sobre os fatores psicossociais de risco para desnutrição de seu filho por meio de uma "pergunta de corte", definida como "o elemento fundamental e comum pelo qual devem passar todas as entrevistas" (Meihy, 1991, p. 19).

A opção pela entrevista aberta permitiu tanto um conhecimento mais abrangente do fenômeno a ser investigado (Martins & Bicudo, 1989) como a participação ativa da mãe no processo de investigação1 (Hermans, 1992), estabelecendo uma relação de troca e diálogo na qual o pesquisado constituiu-se num sujeito construtor do próprio processo de pesquisa2 (Hermans, 1992; Brandão, 1983).

Um recurso da pesquisa antropológica qualitativa que utilizamos em nosso trabalho foi o diário de campo3 (Kosminsky, 1986), o qual consistia num caderno onde anotávamos nossas impressões acerca dos encontros com as mães, da favela, de suas casas, de seu jeito de ser. Era também um espaço de reflexão pessoal sobre coisas que aconteciam, chamavam-nos a atenção, ou sobre as quais desejávamos ter uma maior clareza. Nele foram registradas, ainda, as versões de sentido4 (Amatuzzi, 1993; vide, ainda, Amatuzzi et al., 1991) de cada um dos encontros feitos.

A análise das entrevistas deu-se com base no método fenomenológico de reconstrução do significado descrito acima.

O processo da pesquisa como um todo pode ser sintetizado no esquema a seguir, o qual não reflete etapas cronologicamente separáveis no tempo, mas procura expressar aspectos de um processo realizado interativamente:

1.contato inicial e escolha das mães que participará da pesquisa;

2. proposição da pesquisa para a mãe;

3. realização da primeira entrevista;

4. primeiro nível de análise introdutória visando a identificação dos principais temas tratados para a realização da entrevista seguinte;

5. realização da segunda entrevista e análise introdutória;

6. realização da terceira entrevista e análise introdutória;

7. transcrição da primeira entrevista;

8. conferência e correção da transcrição;

9. leitura e re-leitura da entrevista, com destaque, à margem do texto, das idéias centrais (conteúdo e/ou experiência) de cada fala. É o processo de mapeamento da entrevista;

10. esboço de um fluxo da entrevista elaborado a partir da seqüência cronológica das idéias centrais identificadas. Em outras palavras, um resumo do que falamos e em que ordem;

11. discernimento de grandes temas5 (conteúdo) e identificação do fio condutor6 (experiência) da entrevista;

12. reconstrução7 dos grandes temas a partir das falas (portadoras das experiências) sobre cada um deles ao longo de toda a entrevista;

13. síntese dos principais conteúdos e experiências de cada tema;

14. articulação destas sínteses num fluxo temático/experiencial, o qual se diferencia do fluxo discursivo por prescindir do critério cronológico;

15. identificação das experiências das mães, definindo-se uma primeira estrutura de sua experiência vivida e listando alguns aspectos de suas vidas que contribuem para a desnutrição energético-protéica;

16. identificação dos aspectos da experiência vivida da mãe que contribuem para a nutrição de seus filhos (subproduto);

17. comparação com as análises das outras mães e esboço de uma síntese geral;

18. nova entrevista com a mãe para confirmação ou não dessas conclusões.

Observações:

1. Foram realizados três encontros com cada mãe, além da entrevista de confirmação. A análise da primeira entrevista, contudo, mostrou-se suficiente. Era como se a experiência daquelas mães sobre a desnutrição de seus filhos já estivesse toda contida ali. Fazendo uma analogia, o significado parece ser como a informação genética presente em todas as células do corpo, ou seja, ele está sempre presente em todo e qualquer ato da pessoa.

2. Optamos por realizar um estudo em profundidade de poucas mães, não nos utilizando de outro critério, como, por exemplo, o critério de "saturação" utilizado em pesquisas qualitativas (cf. Mucchielli, 1991; Alves, 1991) para a definição do número de sujeitos.

3. AS COLABORADORAS

A pesquisa foi realizada junto a três mães de lactentes e pré-escolares desnutridos, identificados a partir das medidas de peso e estatura na comunidade (Sawaya et al., 1997. cap. 4). Os critérios de seleção das mães contavam com dois aspectos: um mais objetivo que consistia em possuírem um ou mais filhos lactentes e pré-escolares desnutridos e em se disporem a participar da pesquisa; e outro, mais subjetivo, referente a uma certa empatia estabelecida entre a pesquisadora e a mãe, facilitando o diálogo, essencial à realização do estudo. Além disso, as três famílias apresentavam condições muito precárias de vida e as mães tinham algumas características comuns, tais como estarem na faixa etária entre 30 e 34 anos, serem migrantes, casadas, terem entre 6 e 9 filhos e escolaridade máxima até a 4a série do 1o grau.

4. NOSSOS RESULTADOS

4.1. As condições adversas

A partir das perguntas de corte: "Por que será que algumas crianças numa mesma família ficam desnutridas e outras não?". "O que você acha que, na sua vida, na vida de seus filhos pode fazer com que isso aconteça?", todas as mães referiram-se a um contexto, a um conjunto de circunstâncias que causam a desnutrição de seus filhos. São condições adversas que se relacionam à situação de pobreza em que elas e suas famílias se encontram.

Tais condições são chamadas adversas por se contraporem à existência e à possibilidade de ser da pessoa, sendo, pois, potencialmente desumanizantes.

Segundo as mães, essas condições consistem em:

  • - grande número de filhos,
  • - renda insuficiente,
  • - subemprego ou desemprego do responsável pelo sustento da casa,
  • - alcoolismo dos pais,
  • - pouco estudo, doenças físicas e nervosismo da mãe,
  • - conflitos conjugais,
  • - falta de envolvimento do pai,
  • - falta de amigos,
  • - contexto desfavorável de relacionamentos próximos,
  • - fracasso em acessar o sistema de saúde,
  • - fragilidade da saúde das crianças (parasitoses, internações).

A desnutrição energético-protéica ocorre dentro desse contexto comum de carências materiais, o qual se faz sempre presente e atuante dada sua importância e amplitude, sendo o primeiro aspecto a se destacar do conteúdo das entrevistas com estas mães.

Claramente podem existir outros aspectos que não foram diretamente tratados nas entrevistas. Contudo, é interessante notar que estas mulheres têm consciência de suas condições precárias de vida e sabem quais são suas dificuldades.

A identificação da criança desnutrida com sua mãe

Um aspecto inusitado e que demanda maiores investigações refere-se a uma certa dinâmica familiar, na qual a criança desnutrida parece estar mais ligada à sua mãe. Por exemplo, no caso de uma delas, dos quatro filhos que moravam com ela, os dois desnutridos eram aqueles que a chamavam de mãe (os outros dois chamavam-na por seu primeiro nome) e que mais a obedeciam, inclusive em sua indicação de não pedirem comida aos vizinhos.

Outra aponta, ainda, uma ligação mais estreita com seu filho desnutrido ao dizer que "as pessoas" consideram-no o filho mais parecido com ela, principalmente em seu jeito de ser, que é "calmo" como o dela.

Tal ligação poderia correlacionar-se à desnutrição na medida em que a criança, tendo uma maior identificação com sua mãe, partilhasse da sua fragilidade (o fato de não se alimentar, suas preocupações, seu "stress" etc.).

4.2. A experiência vivida

O modo como a mãe da criança desnutrida experimenta, vivência as circunstâncias adversas é outro aspecto a ser considerado, tendo sido, de fato, o nosso principal objeto de estudo.

Um olhar global para as experiências vividas identificadas a partir das descrições das entrevistas permitiu agrupá-las em categorias mais amplas, comuns a todas as mães, de modo a compor o primeiro esboço da estrutura da experiência vivida de mães de desnutridos.

Categorias experienciais

As categorias experienciais que encontramos a partir das análises das entrevistas foram: solidão, impotência, fatalismo, velamento, ter um ideal irrealizável/em realização, debilidade.

Solidão

Todas as mães demonstraram sentirem-se sozinhas em algum momento, sendo este o fator de sua experiência que mais se evidenciou no contato conosco. Todas elas foram unânimes em reconhecer que o simples fato de terem falado conosco era-lhes agradável e fazia-lhes bem, pois nunca tinham com quem conversar sobre aquelas coisas.

Essa experiência mostrou-se com maior evidência nas mães que não contavam com uma relação conjugal que as sustentasse afetivamente e lhes desse uma maior estabilidade emocional. Contudo, também a mãe que referiu ter tal relacionamento reconheceu sentir-se sozinha às vezes por não ter com quem conversar ou com quem dividir suas opiniões, sentimentos, preocupações:

F- Eu não tenho nem com quem conversar, né. É assim, direto dentro de casa... direto...

[...]

F - De vez em quando é que aparece, a menina, a que é a minha vizinha de lá. Ela agora tá de férias, ela tava lá conversando... Aí eu disse fica aí, [?]. Aí eu tranquei o portão por fora... e deixei eles lá, brincando... Eu não gosto muito da casa dos outros não porque... é um disse que me disse, e eu não gosto não. Dá uma confusão, e eu tenho medo de confusão [riso]. Tenho um medo de confusão medonho... [?] Eu fui criada lá no norte, não tinha quase ninguém lá... Não adianta sentir falta! [riso]

[...]

F - É, porque pra mim é importante, mas... não tem, com quem fazer amizade!

Impotência

As mães continuamente se deparavam com dificuldades frente às quais pouco ou nada podiam fazer.

A experiência de impotência para estas mães tinha um caráter muito mais dramático, uma vez que era potencializada por todo o conjunto de circunstâncias adversas e demais experiências negativas que elas já viviam.

Perceberem-se impotentes contribuía para sua autodesvalorização e, portanto, para uma baixa auto-estima, bem como para uma visão cada vez mais fatalista e sem esperança da sua situação. Essa experiência de impotência liga-se, pois, em última instância, a uma debilitação da pessoa.

Fatalismo

Estas mães assumiam uma postura fatalista frente à sua condição presente e até às suas perspectivas futuras. Tal postura caracterizava-se por um olhar e uma compreensão das próprias condições, em que não se vislumbrava possibilidades de mudança, contribuindo para a manutenção do "status quo".

Nesse sentido, o fatalismo assumia formas variadas, podendo ser expresso verbalmente ? é o "gostaria que fosse diferente mas é impossível", ou o "as coisas são como são" ?, ou podendo ser vivido concretamente como no caso da passividade e da submissão de uma delas frente ao fato de ser surrada por sua cunhada.

O fatalismo encontrava-se intimamente associado à impotência, sendo confirmado por esta e, ao mesmo tempo, reforçando-a, numa relação mútua catalisadora

Velamento

Velamento quer expressar aquilo que foi identificado como uma percepção parcial da realidade por parte das mães através, por exemplo, do não reconhecimento das conseqüências para si e para seus filhos de se manter isolada e sem amigos; ou do não olhar para sua experiência pessoal em relação às dificuldades que vivia; ou do não reconhecimento de sua responsabilidade frente ao próprio alcoolismo.

Nenhuma delas explicitava alguma responsabilidade pessoal na desnutrição dos filhos, ao contrário, tendiam a culpar o ambiente e até características pessoais das próprias crianças.

Esse velamento da realidade podia ser tanto fruto de uma reação de autoproteção da mãe frente às circunstâncias adversas em que se via inserida ? frente a tantas dificuldades, reconhecendo-se impotente para enfrentá-las, era como se lhes lançassem um véu que as poupava de olharem-nas como eram ?, quanto resultado de uma incapacidade ou limitação pessoal para perceber a realidade de modo diverso, fosse devido a limitações cognitivas, fosse devido a certos padrões socioculturais de enfrentar a realidade.

Esse véu poupava-as de um confronto direto e constante com as dificuldades. Ele podia dizer respeito à realidade como um todo ou a algum aspecto da realidade. Era como se fosse necessário deixar algo de fora, não considerado.

O velamento nem sempre era intencionalmente articulado pela mãe, contudo ele existia e era efetivado por ela: acontecia a partir de um movimento seu, realizava-se, existencializava-se na sua pessoa, por meio de seus gestos.

Ter um ideal irrealizável

Uma das mães explicitou claramente a importância para a vida dessas mulheres de terem um ideal ? ou seja, de acreditarem em algo e de poderem realizá-lo: desejava uma casa bonita, em ordem, limpa. O fato de não poder realizá-lo, deixava-a desanimada, sem forças, fazendo com que, aos poucos, desistisse de buscá-lo, de investir suas energias no espaço em que habitava, debilitando-se física e psiquicamente.

Assim, o ter um ideal irrealizável, ou seja, que não pudesse ser atuado dentro das condições precárias de vida das mães, configurava-se uma experiência negativa de fracasso, debilitando-as ainda mais.

Esta, contudo, podia ser minimizada por alguma outra experiência positiva. Para outra mãe, o ideal irrealizável expressava-se sob a forma de uma nostalgia do Norte, do qual "não adianta sentir falta", ou do fato de não possuir amigos. Porém, ele não tinha uma incidência tão determinante sobre sua vida como no caso da primeira, muito provavelmente pela ligação afetiva que vivia com sua família, em especial com seu marido, a qual lhe dava segurança e sentido à vida.

Ter um ideal em realização

Por outro lado, ter um ideal mostrou-se um fator positivo quando a mãe o experimentava como estando em realização. Por exemplo, tal dinâmica fez-se presente a partir da grande valorização que uma das mães dava aos estudos de seus filhos, como se sua realização pessoal passasse por aí. Isso lhe dava ânimo e energia ? apesar de sua fraqueza física (era muito magra e estava anêmica) e do alcoolismo e falta de apoio de seu marido ?, fazendo-a tomar iniciativas não só com relação ao acompanhamento do estudo das crianças, mas também com relação a buscar auxílio e recursos alternativos, como o atendimento médico e os remédios gratuitos oferecidos na creche vizinha à favela.

Debilidade

Finalmente, todas as mães referiram-se à vivência de algum tipo de debilidade, fosse ela física, psíquica ou cognitiva, tais como: magreza e anemia, "nervosismo" freqüente, muitas dores, perda das forças, incapacidade em compreender o contracheque ou de aprender a ler e escrever.

A estrutura da experiência vivida: um primeiro esboço

Passaremos, a levantar agora um primeiro esboço de como as categorias que identificamos podem ser compreendidas dinamicamente.

Dentro de condições adversas, as nossas entrevistadas fazem experiências que se potencializam mutuamente. A debilidade da mãe, a qual está muito associada a tais condições, unida a uma visão parcial da realidade (velamento) vem reforçar a sua impotência em lidar com os problemas, acentuando uma concepção fatalista da própria vida. Tal concepção tende a exacerbar a influência das condições adversas uma vez que a mãe, não vislumbrando perspectivas de mudança, resigna-se. A solidão só viria a reforçar a debilidade e o velamento experimentados pela mãe, já que ela não se percebe tendo com quem compartilhar seus problemas e dificuldades. Esta era claramente a experiência de uma delas que, além de ser alcoólatra, queixava-se de dores no corpo, sentia-se fraca e prestes a morrer. Sem amigos, ela não vislumbrava alternativas para si ou sua família, desistindo, aos poucos, de lutar por algo além da sobrevivência de seus filhos. Além disso, a não realização de seu ideal desanimava-a ainda mais, consumindo-lhe as forças. Nesse caso, o ideal irrealizável aumentava a sua debilidade e, portanto, a sua impotência e o seu fatalismo.

Esta, porém, não era uma dinâmica linear, mudando conforme o tipo de experiência que se fizesse mais presente para cada mãe num dado momento. Por exemplo, para outra mãe, as experiências inicialmente mais determinantes pareciam ser as de debilidade (não sabia ler, não compreendia seu contracheque) e de velamento (dava prioridade a manter-se distante dos vizinhos "para não ter confusão") sobre o fato de seus filhos ficarem trancados sozinhos o dia inteiro em casa e, portanto, não se alimentarem adequadamente. Neste caso, a solidão fazia-se bastante presente, mas como decorrência do velamento. Também para ela, o ter um ideal não se apresentava como na primeira dinâmica que descrevemos, uma vez que seu maior ideal (viver com o marido e os filhos aos quais amava muito) estava em realização. De fato, poderíamos dizer que isso provavelmente minimizava as experiências de impotência e de fatalismo, dando-lhe energias para seguir buscando, dentro do que era capaz de perceber como possível, recursos para o sustento de sua família (como a carne mais barata que encomendava no açougue).

Enfim, a estrutura da experiência vivida de mães de desnutridos que procuramos delinear não esgota toda a riqueza da vivência dessas mães, ou tampouco define certo padrão de experiência. Trata-se de um primeiro passo no caminho de conhecê-las.

Poder-se-iam encontrar categorias diferentes se, por exemplo, fossem entrevistadas mães adolescentes, ou mães solteiras, ou mulheres mais velhas, uma vez que a nossa amostra seguiu um certo padrão, ? mulheres casadas com cerca de 30 anos de idade ? que, mesmo não sendo intencional certamente influiu no aparecimento de algumas categorias e de outras não.

4.3. Aspectos da experiência da mãe que serviam como apoio a um enfrentamento das condições adversas

Apesar da desnutrição ser o tema gerador da conversa com as mães, a descrição dos relatos continha em si aspectos que contribuíam para um certo modo de enfrentar as dificuldades que viviam.

Tais aspectos foram identificados na medida em que indicavam um movimento contrário ao encontrado na descrição das condições adversas, seja através de um fortalecimento da mãe (afetivo, psicológico), seja proporcionando recursos materiais para a solução de seus problemas, ou seja ainda como uma característica já existente na mãe.

Filhos como fonte de significado para a vida

As mães falaram claramente que seus filhos eram o motivo pelo qual faziam todas as coisas: trabalhavam, cozinhavam, arrumavam a casa e mantinham-se. Para uma delas, as crianças eram a única razão que lhe restava para manter-se viva; se não fossem elas, dizia, teria desistido de tudo, teria ido embora, mas cada vez que tinha vontade de faze-lo, lembrava-se de "seus meninos".

Estabilidade familiar

O relacionamento estável com marido e filhos era um aspecto que claramente contribuía para enfrentar as condições adversas, dada a estabilidade emocional que resultava disso. Uma das mães entrevistadas seguia seu marido em tudo e orientava sua vida a partir dessa relação; era apaixonada por ele e ficaria desorientada se um dia não o tivesse mais junto a si.

Para as demais, esta ligação não era assim evidente. A primeira preocupava-se com seu marido; estavam juntos há dezessete anos e ele era o pai de seus filhos. A segunda, obedecia-o e discutia com ele; segundo ela, era o ciúme dele que os mantinha juntos, pois ele não a deixava ir embora. Ele bebia e batia nela, porém ela parecia de algum modo ser-lhe afeiçoada.

Nesse sentido, poder-se-ia levantar a hipótese de que tanto o ciúme deste marido quanto a preocupação da primeira mãe por seu cônjuge, sendo uma tênue expressão de um relacionamento amoroso, poderiam estar contribuindo de algum modo para uma certa auto-estima destas mães, mais do que se não estivessem vivendo com eles.

Abertura ao relacionamento com nossa equipe

Um outro aspecto comum a todas foi a abertura ao relacionamento com nossa equipe de trabalho. Este fato foi considerado como um ponto de apoio por contribuir para a melhoria das condições de vida dessas famílias, uma vez que, a partir desse contato, surgiam novos recursos, relacionamentos e alternativas de solução para os seus problemas. Tratava-se de uma certa abertura à realidade que era potencialmente humanizante.

Essa abertura tinha como conseqüência a possibilidade de as mães incrementarem suas redes de relacionamentos e, portanto, suas fontes de recursos, fosse no nível de alimentos, remédios ou mesmo atendimentos especializados como a assistência médica que oferecíamos, ou aquele proporcionado por outras entidades, fosse no nível do trabalho de cidadania desenvolvido por estudantes de Direito, ou os atendimentos sociais da igreja, e assim por diante.

Tal abertura era uma espécie de contraposição à experiência de velamento. Se, por um lado, este tendia fechar a mãe em seu mundo próprio, aquela atestava que tal fechamento não era definitivo.

Relacionamentos de ajuda

Decorrente do anterior, esse fator também foi, em maior ou menor escala, encontrado junto a todas as mães. Todas tinham alguém a quem recorrer em momentos de necessidade: profissionais da escola pública do bairro e do posto de saúde , ou, em termos de relacionamentos familiares, a cunhada, que era a pessoa que mais presente se fazia nesses momentos.

Estabilidade no trabalho

A estabilidade no trabalho, apesar de não garantir completamente a resolução das dificuldades financeiras da família, dava mais segurança para enfrentá-las: era possível saber quanto dinheiro estaria disponível naquele mês, permitindo uma melhor organização na procura de recursos complementares ao orçamento, como a carne mais barata do açougue.

Iniciativa

Faz-se necessária uma certa iniciativa para procurar recursos, para pedir e aceitar auxílio, para ir aos locais, enfrentar filas, buscar soluções. Todas as mães contavam com algum grau dessa iniciativa. Porém, apesar de este ser um fator importante para o enfrentamento das condições adversas, ele não era determinante em última instância, considerando que a mãe muitas vezes não possuía alternativas disponíveis: ela ia ao serviço de saúde e não era atendida, solicitava cesta básica na igreja e não conseguia etc.

A iniciativa, por sua vez, nascia de algo, existia a partir de uma motivação que lhe dava energia, significado e sentido, direção. A "fonte" de energia pareceu ser a afeição à família, em especial aos filhos.

5. SOBRE NOSSOS RESULTADOS

Uma primeira observação acerca de nossos achados refere-se à semelhança das condições adversas identificadas pelas mães com o que a literatura comumente define como fatores psicossociais de risco para a desnutrição energético-protéica. Esse fato parece confirmar a consciência que as mães têm das situações que de algum modo prejudicam o crescimento de seus filhos. Não que se apercebam da correlação dessas situações com a desnutrição, mas, como já dissemos, identificam-nas como dificuldades vividas.

Avaliando a influência da pobreza sobre os cuidados dispensados pelos pais às crianças em seus primeiros anos de vida, Halpern (1990) destaca o fato de que esta condição aumenta a probabilidade de que outros determinantes pessoais e situacionais, que agiriam como fatores de proteção para pais e crianças, tornem-se fatores de risco10. Nos Estados Unidos, são muitas as maneiras pelas quais a pobreza potencializa o risco com relação aos cuidados às crianças. Por exemplo, mulheres de baixa renda têm duas vezes mais chances de darem à luz a um bebê de baixo peso. Elas têm menores chances de serem casadas e, quando o são, maiores chances de enfrentarem mais conflitos conjugais. Além disso, elas têm índices de depressão mais altos do que qualquer grupo da sociedade americana. Finalmente, a pobreza aumenta a probabilidade de que numerosos fatores de risco estejam presentes simultaneamente 11.

Tais condições quase impossibilitam um cuidado adequado do filho por parte da mãe, geralmente tida como a responsável por ele (Alvarez & Wurgaft, 1992). Se esse cuidado já é dificultado quando ela permanece em casa, ele se torna ainda mais precário quando a mãe tem que trabalhar para incrementar a renda familiar: as crianças ficam sozinhas o dia todo, aos cuidados uns dos outros.

Podemos dizer, portanto, que a presença de um conjunto de fatores de risco ou, como dissemos, de condições adversas na vida de uma família gera o que poderíamos chamar de uma situação adversa que é muito mais do que a soma das condições isoladas que a compõem, favorecendo um certo tipo de experiência vivida dessa realidade.

Quanto à relação da criança desnutrida com sua mãe, a literatura comumente associa a desnutrição infantil a um vínculo mãe-filho enfraquecido. Dixon, LeVine e Brazelton (1982), estudando crianças desnutridas e normais numa tribo Bantu, na África, encontraram que o fator de risco comum e básico entre os desnutridos era uma alteração no vínculo normal entre a criança e a pessoa que cuidava dela (geralmente a mãe). Em algum momento, eventos sociais, familiares, individuais e econômicos combinaram-se produzindo esse fracasso no vínculo, sendo a desnutrição secundária a isso. Segundo os autores, a desnutrição energético-protéica, então, deveria ser rotulada como uma desordem de vínculo. Nesse sentido, muitos estudos têm sido desenvolvidos com o objetivo de caracterizar esse vínculo mãe-criança e sua correlação com a desnutrição (Zeitlin, Ghassemi & Mansour, 1990; Nóbrega & Campos, 1993). Nossos dados indicam, contudo, que, em alguns casos, parece ocorrer uma ligação entre ambos que é até mais forte do que aquela que a mãe tem com os demais filhos. Como dissemos, esse achado necessita de um maior aprofundamento.

Os aspectos da experiência da mãe que de certo modo contribuem para um enfrentamento das condições adversas assemelham-se ao conceito de processos protetores desenvolvido por Rutter (1987). Segundo o autor, as limitadas evidências existentes até hoje sugerem que os processos protetores incluem aqueles que: reduzem o impacto do risco em virtude de seus efeitos sobre ele ou pela alteração da exposição à situação de risco ou de envolvimento com ela; reduzem a probabilidade de reações negativas em cadeia que se seguem à exposição à situação de risco contribuindo para a sua perpetuação; produzem a auto-estima e a auto-eficácia mediante relacionamentos pessoais seguros e de apoio ou da realização bem sucedida de uma tarefa; e abrem novas oportunidades. Rutter (1987) destaca, ainda, a importância de se estudar os mecanismos e processos protetores às situações de risco, em vez de se considerar possíveis fatores protetores isoladamente, uma vez que estes, em si, podem ser favoráveis ou não, conforme o contexto em que aparecem.

Em nossos achados, a estabilidade familiar mostrou-se como um desses aspectos, corroborando o papel dos relacionamentos pessoais seguros e amorosos como um processo protetor. Embora o fato de que a experiência de relações precoces de apego seguras aumenta a probabilidade de que a criança crescerá com sentimentos de auto-estima e auto-eficácia, tais conceitos não são totalmente definidos na infância. Existem evidências de que eles se modificam por outras experiências ao longo da vida. Parece que bons relacionamentos íntimos, mesmo na vida adulta, podem fazer muito para sustentar conceitos positivos das pessoas sobre si mesmas e o seu valor aos olhos de outras pessoas (Rutter, 1987, p. 327-8).

Apesar de não se tratar do objeto de estudo dessa pesquisa, consideramos oportuno o desenvolvimento de pesquisas ulteriores investigando a experiência vivida da mãe com relação a esses mecanismos ou processos protetores.

A experiência da necessidade de um sentido para a vida diz respeito a todo ser humano e está ligada à sua realização enquanto pessoa. Se, por um lado, no dizer de Frankl "o problema do sentido, posto em toda a sua radicalidade, pode francamente abater um homem" (Frankl, 1986, p. 56), por outro, "nada no mundo contribui tão efetivamente para a sobrevivência, mesmo nas piores condições, como saber que a vida da gente tem um sentido" (Frankl, 1987, p.121). Assim, entendemos que o fato de nossas mães terem seus filhos como fonte de significado para suas vidas configura-se como um aspecto positivo, uma vez que parece sustentá-las e fortalecê-las na luta contra suas dificuldades.

Finalmente, um dos resultados da pesquisa de Onesti acerca da resistência psicológica em mulheres de baixa renda referia-se à criação dos filhos como um fator positivo para a saúde psíquica da mãe, na medida em que lhe permitia reconhecer o seu próprio valor. "Ver os filhos crescidos dá-lhes um sentido de eficácia e competência, o que é um fator de proteção psicológica" (Onesti, 1993, p.158).

6. INDICAÇÕES PARA UM TRABALHO

Nenhum progresso educacional ou terapêutico será real se não puder ser verificado em termos de transformação efetiva na relação com o mundo. Os resultados não são apenas interiores. Um saber novo ou um sentimento novo serão pura ilusão, e mesmo um saber errado e um sentir enganoso, se não forem o saber e o sentir de uma interação dinâmica, em movimento com o mundo, e solidária com outros homens que participem da mesma dinâmica.

(Amatuzzi, 1989, p. 87)

Finalmente, a partir dos resultados de nossa pesquisa, gostaríamos de tecer algumas considerações acerca da intervenção junto a mães de crianças desnutridas. Num primeiro momento, procuraremos elaborar algumas sugestões ou critérios gerais para o desenvolvimento de quaisquer propostas de intervenção junto àquelas mães que vivem em uma realidade semelhante à descrita no presente capítulo. Em seguida, faremos algumas sugestões mais específicas acerca de uma atuação psicológico-educativa.

Um primeiro aspecto a considerar refere-se à estrutura de experiências vividas de mães de desnutridos descrita acima. Frente à problemática da desnutrição, confrontando-se com ela, as mães remetiam-se a uma estrutura experiencial que tinha como elementos a solidão, a impotência, o fatalismo, o velamento, o ter um ideal e a debilidade. Uma intervenção que se refira diretamente a essa problemática, ignorando tal sua estrutura, corre grande risco de ser vivida da mesma forma. Por exemplo, uma proposta de modificação de hábitos alimentares ou uma sugestão de procura de novos recursos poderia ser encarada de diferentes modos dentro de cada uma das categorias experienciais. Talvez fosse vivida com ceticismo na dinâmica impotência-fatalismo, ou não fosse compreendida devido a uma experiência de velamento, ou, numa experiência de solidão, essas indicações talvez não fossem seguidas na medida em que implicaria que a mãe se concebesse dentro de um relacionamento pessoal e não mais sozinha.

Para que isso não ocorra, é preciso que a mãe faça outras experiências que se contraponham àquelas que até o momento vem tendo. Por exemplo, que ela não se perceba mais sozinha, que possa sentir-se mais forte em todos os aspectos, que deseje conhecer novos modos de compreender e enfrentar suas dificuldades. Engajando-se num relacionamento com a equipe de trabalho, é desejável, portanto, que ela se perceba em companhia dessa equipe, de modo a se obter uma sistematização e uma continuidade da própria intervenção. Um tal engajamento já é oposto a uma experiência de solidão. Além de não se conceberem mais sozinhas, seria importante que as mães pudessem sentir-se fortalecidas em sua auto-estima, em sua capacidade de iniciativa, e nos valores em que acreditam (ter um ideal), de modo que a esperança de alcançá-los possa ser fundada numa experiência presente, e possa ser buscada durante iniciativas cotidianas. Assim elas se sentiriam mais seguras e positivas com relação a si mesmas e às perspectivas futuras para si e para suas famílias.

Em suma, trata-se da necessidade de viverem circunstâncias que lhes permitam experimentar coisas diferentes daquelas que até então tinham experimentado, as quais "desconfirmem" suas experiências negativas, de modo que possam ter uma outra visão da realidade e enfrentá-la de outro modo.

Experimentar que a realidade pode ser diferente, implica não apenas uma mudança de olhar, mas também mudanças objetivas naquela realidade. Qualquer intervenção que se realize junto a essa população necessita promover o acesso a recursos materiais capazes de responder a algumas das carências encontradas, sejam elas alimentares, trabalhistas, de saúde, de saneamento básico etc. Caso contrário, o profissional viverá a impotência junto com a mãe, e o trabalho terá curta duração.

Um segundo aspecto a ser considerado refere-se ao modo concreto com o qual estas mães expressam e compreendem as suas próprias experiências: relatam-nas por meio de fatos, de acontecimentos; elaboram-nas dentro dessa dimensão. Este é o modo preferencial, primeiro, mais imediato e rápido em que isto se dá. Apresenta-se, pois, uma implicação metodológica: qualquer intervenção junto a essa população será facilitada quando se der numa dimensão experiencial, ou seja, quando aquilo que se quiser realizar passar pela experiência, puder ser experimentado pela mãe.

Na verdade, estes dois aspectos (ter necessidade de fazer outras experiências e o modo concreto de expressá-las e compreendê-las) são muito semelhantes. Entretanto, apesar de ambos referirem-se à dimensão da experiência, no nível da atuação eles têm conotações diversas. O primeiro fala da necessidade de um suporte de recursos sociais ou comunitários, enquanto o segundo diz respeito a uma proposta pedagógica com certas características, contando, por exemplo, com aulas práticas mais do que teóricas, com um ensino baseado na situação concreta de vida da mãe.

Numa dimensão especificamente psicológica, propomos uma intervenção que, ao mesmo tempo que seja informativa, seja também uma ocasião de reflexão, de partilha e de vivência de novas experiências. A solidão mostrou-se o aspecto mais presente na experiência das mães durante as entrevistas. Nelas, era como se as mães necessitassem de um espaço para falarem de si. Fizeram-no contando-nos fatos, acontecimentos de suas vidas, relatando-nos seu cotidiano, porém, de certo modo alheias à experiência que faziam.

Nesse sentido, um espaço mais adequado a essa necessidade deveria permitir-lhes um conhecimento e um contato maiores com as suas experiências. Algo como reuniões de grupo nas quais as mães, num primeiro momento, seriam "informadas" da existência de experiências ? como as levantadas aqui ? que elas já vivem, mas que podem não reconhecer como tais.

Os temas tratados seriam aqueles identificados no próprio contato com as mães num processo de compreensão fenomenológica semelhante ao desenvolvido pelo presente trabalho. Análogos aos "temas geradores" de Paulo Freire, os quais se definem como "conteúdos mobilizadores" levantados a partir de uma "investigação temática" (Amatuzzi, 1989, p.83), os conteúdos tratados nas reuniões diriam respeito prioritariamente à realidade psicológica das mães. Esse modo informativo de iniciar o grupo visaria introduzir uma nova maneira de contato e compreensão das próprias vivências no sentido de uma maior apropriação das mesmas por parte das mães. Trata-se, na proposta pedagógica de Paulo Freire, de iniciar uma caminhada em direção a níveis de compreensão mais críticos e aprofundados da própria realidade.

O passo seguinte consistiria num processo, partilhado com todo o grupo, de identificação dessas experiências em suas próprias vidas. A situação de grupo tornar-se-ia, pois, uma ocasião para a mãe perceber que outras mães vivem condições semelhantes às dela, ou seja, uma ocasião para perceber que ela não está sozinha em seus problemas.

Assim, mais conscientes dos acontecimentos que experimentam, e podendo refletir sobre eles em grupo, as mães teriam condições de começar a buscar novas alternativas para o enfrentamento de suas dificuldades, tanto no que se refere a uma mudança de atitude frente a elas, quanto no que diz respeito à identificação de outros recursos disponíveis.

Numa linguagem "freireana", Amatuzzi (1989, p. 78-79) descreve esse processo de mudança:

À medida que nos aprofundamos em compreensões, que conseguimos "ler leituras anteriores", vai havendo um desvelamento da realidade, concomitante com um aumento de possibilidades de ação. E ao mesmo tempo a própria leitura mais profunda (descobrindo sentidos sob sentidos por uma contextualização mais ampla do texto) só é possível na medida da disposição do sujeito para outras possibilidades de ação. Se não me abro para outros níveis de ação, não me abro para outros níveis de compreensão: os aspectos aqui são mutuamente condicionantes. [...] O que possibilita [...] esse caminhar na originalidade é, por um lado, o encontro com alguém que realmente ouça (no silêncio e para além da fala alheia ou imprópria) e, por outro lado, uma coragem de ser para além do medo da liberdade, para a qual, aliás, o testemunho do educador também pode ajudar.

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