Volume 11 - Março de 2006
Editor: Giovanni Torello


Setembro de 1997 - Vol.2 - Nş 9

Como ficar atualizado: informação só para cientistas?

Denise Razzouk
Psiquiatra pós-graduanda do
Depto de Psiquiatria da Unifesp e Editora da Psychiatry On-line Brazil

Em meio à euforia que o mundo "web" traz aos meios acadêmicos, a "democratização" da informação provoca o seguinte questionamento: a informação por si só, é suficiente? Ou manter-se "bem" informado depende de se estar "bem" formado?

A questão é que se por um lado a maioria dos médicos tem pouco tempo para se atualizar (ler revistas, ir à bibliotecas, congressos, cursos de aperfeiçoamento...etc) por outro lado, como manter-se mínimamente informado com o maior volume de informação no menor tempo possível?

Mas onde selecionar o que é relevante se em uma simples busca pelo MEDLINE podemos encontrar 100, 200, 1000 referências? E, uma vez selecionado o artigo (de forma aleatória ou não) como julgar se tal informação é adequada?

Recentemente, em um simpósio internacional, foi relatado que apenas 7% dos estudos clínicos publicados em revistas renomadas têm qualidade científica rigorosa! Independentemente desta cifra ser exata ou não, é nítido o despreparo de muitos profissionais médicos em avaliar um estudo sobre tratamento com uma determinada medicação. É freqüente o comentário entre alunos de graduação, residência médica e mesmo entre os profissionais mais experientes de que lêem apenas as conclusões dos artigos, uma vez "que os métodos e resultados são muitos complicados de serem entendidos". E quais são as implicações desta prática?

Muitas vezes toma-se uma decisão sobre uma conduta terapêutica ou se conclui "algo" sobre a condução de um tratamento baseando-se em impressões subjetivas e informações contidas nas conclusões de artigos e, outras vezes, "experimentando" condutas sugeridas no corredor por um representante da indústria farmaceutica.

Não fosse o extenso arsenal técnico a ser assimilado, um obstáculo mais profundo se interpõe ao médico que se lança inadvertidamente em busca do conhecimento relevante: desenvolver o raciocínio e o senso crítico a cerca do conhecimento disponível. Será isto possível? Ou apenas os cientistas mergulhados em seus "trials e números magicamente significantes" podem julgar o que é conhecimento relevante?

Enfatizando estes problemas, o British Medical Journal, em sua edição de julho de 1997, publicou uma série de artigos direcionados ao clínico, intitulados "How to read a paper". Essa coletanea de publicações representa um esforço notável de delinear toda essa problemática e de possibilitar maior clareza e reflexão quanto à atuação prática do médico em seu cotidiano. Ainda nesta edição, o artigo "New connections between medical knowledge and patient care" aponta para a dificuldade do médico em se apoiar em seu conhecimento que se perde por limitação da memória e se torna obsoleto rapidamente. Esse artigo discute ainda sobre utilitários que podem auxiliar no processo de decisão médica.

Não fosse a dificuldade em se avaliar criticamente um artigo científico, ainda, assim, o consenso é raramente observado. Muitos estudos de boa qualidade podem ter resultados controversos e opostos. Atualmente, discute-se ferverosamente que a técnica de revisão sistemática da literatura seria a palavra final, ou melhor, seria o caminho para se concentrar na "melhor evidência". Sem dúvida, trazer rigor, método, avaliação criteriosa, organizar informações e otimizar resultados contribuem de forma substancial para a prática clínica. Mas, como o médico participa deste processo?

Ultrapassando-se as fronteiras virtuais, o médico tem acesso a informações de países e culturas diferentes, contato com personalidades e serviços variados. Quais práticas seriam aplicáveis fora do mundo virtual?

Esses elementos apontados acima mostram a necessidade de se reavaliar a formação médica em sua origem. No desenvolvimento de um raciocício direcionado a avaliar mais criticamente o conhecimento e minimizando a passividade na obtenção das informações. Na quase impossibilidade do médico atuar sozinho. Da premência em compartilhar decisões. De não poder confiar apenas na memória ou no livro texto de cabeceira.

Não podemos esquecer que a "web" disponibiliza o acesso à informação não apenas para os profissionais, mas para os pacientes também. Então, formam-se grupos de apoio a diversas patologias na web, listas de discussão, guias e manuais de orientação sobre doenças, novas drogas disponíveis, novas pesquisas etc. O paciente atual também ganha uma postura mais ativa, mais participativa.

A "web" constitui inegavelmente uma fonte extraordinária para a troca de conhecimento, desenvolvimento de novas idéias, novos projetos e um papel educacional já imprescindível. O que nos falta, no momento, não é o instrumento para o aprendizado, mas uma reflexão mais direcionada do que é relevante na formação médica, de uma reestruturação no processo de desenvolvimento de uma postura mais ativa e de um raciocínio crítico do conhecimento disponível.


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