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Volume 22 - Abril de 2017
Editor: Walmor J. Piccinini - Fundador: Giovanni Torello

Abril de 2017 - Vol.22 - Nº 4

História da Psiquiatria

ENTREVISTA-DEPOIMENTO:
MANOEL ANTONIO PITTA PINHEIRO ALBUQUERQUE (1927-2010)

Walmor João Piccinini


Sempre interessado em preservar a história da psiquiatria, procurei registrar depoimentos e memórias de grandes psiquiatras do nosso tempo. Um dos mais ativos dentro da política médica em geral e da psiquiatria em particular foi o Professor Manoel Albuquerque. Insisti que registrasse fatos da sua vida e pude produzir uma pequena biografia para a Psychiatry Online Brasil que foi publicada ainda ele estando vivo. Ela pode ser lida em www.polbr.med.br/ano09/wal1009.htm Antes disto eu o provocava em busca de um registro das suas memórias e de um destes depoimentos construí esta lembrança do Professor Manoel. (Graças à generosidade de sua esposa, também psiquiatra, a Dra. Iracema Campos de Albuquerque tenho em mãos muitos dos seus escritos com relatos sobre a psiquiatria brasileira e sul-americana.

Não tenho lembrança da data deste depoimento, mas posso colocá-lo no início do século XXI, com o professor Manoel um pouco debilitado, me honrou com suas informações:

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Seu depoimento assim está registrado:

 

Caro Walmor. Vou tentar atender a teu pedido por partes. Falando em itens separados posso ser mais sintético e facilitar tuas modificações e censuras. (É claro que não modifiquei ou censurei seu depoimento).

1 – Início e Motivação: Comecei muito cedo, quando meu avô, Dr. João Pitta Pinheiro, fundou o Gabinete de Neuropsiquiatria Infantil, no Asilo São Joaquim, Hoje FEBEM (FASE). Lá começou meu interesse e admiração pelos estudos psicológicos.

2. Pródromos: Imagina a curiosidade e o interesse com que participei de reuniões para decidir sobre a “eliminação da última cepa de malária no Hospital”. O tratamento da sífilis, especialmente a nervosa, era feito pela inoculação de Malária. Os treponemas não resistiam à febre (calor) e a doença era curada. Para isto havia uma enfermaria exclusiva para inocular, controlar e tratar sifilíticos com Malária. O advento de terapêuticas menos iatrogênicas (Penicilina) foi reduzindo o número de internações até chegar ao último “infectado” que, uma vez curado deixaria o Hospital sem a “cepa” para injetar em outros pacientes. Claro que a discussão levou a

 

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eliminação desta forma de tratamento e ao fechamento da enfermaria.

3 – Congraçamento com os colegas psiquiatras.

       Minha aproximação foi através dos meus mestres Paulo Guedes e Celso Aquino, que presidiram a Sociedade de Neurologia, Psiquiatria e Neuro Cirurgia do Rio Grande do Sul.

    Promovia jantas mensais, geralmente no Restaurante Renner, o melhor da cidade, onde havia grande confraternização entre os psiquiatras, neurologistas e neurocirurgiões. (O restaurante era no nono andar, o prédio foi destruído por um incêndio nos anos 70 com várias mortes).

    Quem conheceu o Paulo Guedes sabe que ele era o inspirador e organizador maior destas reuniões. Com freqüência recebia em sua casa, inclusive para reuniões rotineiras da Cátedra. Mesmo nestes dias não eram raros os finais musicais.

   Nas posses de novas diretorias o jantar era dançante, muitas vezes no “Palácio do Comércio”. Grandes banquetes também eram realizados nas ocasiões que recebíamos convidados conferencistas.

    Havia luta política e disputas eleitorais, tanto entre as especialidades como no tocante a serem mais ou menos

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“esquerdistas” ou “direitistas”. Os que nos considerávamos “esquerdistas” confiávamos na simpatia do Paulo, quando mais não fosse, por ser irmão do Fernando, líder político comunista.

4 – Psiquiatria Forense. Em 1965 notando reiteradamente o conflito entre a dificuldade de prever o futuro de pacientes longamente internados e a exigência de laudos conclusivos sobre a “cessação da periculosidade”, tomei a iniciativa pioneira no Brasil de sugerir em laudo e obter a aprovação em sentença da “alta progressiva”.

5. A Psiquiatria Gaúcha no Cenário Internacional. Em 1966, no Congresso Mundial de Psiquiatria em Madrid, da sociedade compareceram Manoel Albuquerque, Enio Arnt e Albino Lima Filho. Como presidente, Albuquerque requereu a filiação da Sociedade de Psiquiatria do Rio Grande do Sul à Mundial, obtida no congresso seguinte. ( A correspondência entre Manoel e Henry Ey encaminhei para os Arquivos da APRS que está preparando a festa dos 80 anos de fundação).

6. O Exame AMRIGS foi planejado, defendido, instituído com base no Vestibular da UFRGS. Participando, durante anos das Comissões Permanentes de Seleção de Alunos para ingresso na Medicina da UFRGS, verifiquei que as matérias incluídas nos Vestibulares passavam automaticamente a figurar no ensino secundário,

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especialmente nos “Cursinhos”. Era exatamente o de que necessitavam as associações médicas para influir na “Educação Médica”. “Logo se concluiu pela conveniência de um Exame de Estado”, mas todos achavam antidemocrática sua obrigatoriedade. A iniciativa sendo autônoma poderia fornecer ao governo e às próprias faculdades uma avaliação que as orientaria no aperfeiçoamento da educação médica. Instituído pela Diretoria da AMRIGS, é aplicado até hoje, situando-se entre a oposição de alguns corpos docentes temerosos de serem reprovados e o apoio de outros que utilizam seus resultados na seleção de residentes.

7. Influência da Psiquiatria na Medicina do Estado.

    Em 12 anos a AMRIGS foi presidida por três psiquiatras totalizando 11 anos de mandato (Albuquerque, Harri Graeff e Hans Schreen).

    A Formação Médica Continuada, em Porto Alegre e em todo o estado, teve grande influência e participação dos psiquiatras. A partir de 1957, os alunos da Faculdade Federal de Medicina de Porto Alegre, começaram a ter contato com os aspectos psicossociais da prática médica no primeiro ano. Em duas oportunidades o Colegiado do Curso Médico da UFRGS (CONCARMED) foi coordenado por um psiquiatra (Roberto Pinto Ribeiro e Manoel Albuquerque).

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O Hospital Universitário da PUCRS foi dirigido por um psiquiatra. O INAMPS foi dirigido por um psiquiatra, Harri Graeff, que o modernizou tendo até tentado proporcionar psicoterapia aos beneficiários.

8. Primeira Jornada Sulriograndense de Psiquiatria dinâmica (organizada pela Cadeira de Clínica Psiquiátrica da Faculdade de Medicina de Porto Alegre). Foi o Paulo Guedes que teve a intuição de, percebendo que a pouca freqüência das reuniões em Porto Alegre se devia ao costume de passarem os fins de semana em Gramado, planejar uma em Hotel daquela região. O sucesso, em 12 e 13 de novembro de 1960, sábado e domingo em Gramado, no Hotel do Lago, foi acima do esperado. Houve grande produção científica, todos se consideravam autorizados a contribuir, e a maior confraternização. Como característica da mentalidade da época, as homenagens se concentraram na pessoa de Zuleica (Zuleica Rosa Guedes, ainda ativa nos seus 98 anos de idade). Ela as merecia por todos os títulos, professora universitária, hospitaleira, mas também como alter ego do Paulo.

Presidente organizador Paulo Guedes, Secretários; Fernando Luiz Vianna Guedes e Luiz Carlos Meneguini. Comissão Organizadora: Manoel Antônio Albuquerque, Emília Pinto Messias, Ellis Busnello, Moysés Roitman e Enio Arnt.

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9. Associação Encarnación Blaya.

    Em 28 de março de 1960, Marcelo Blaya Perez, recém chegado de estágio-residência na Menninger School of Psychiatry, fundou a Clínica Pinel, empreendimento individual, para internamento de doze pacientes particulares. (encaminhei a primeira paciente e fui fiador do prédio). Introduziu em nosso meio a “millieu therapy e a hospitalização parcial. Para nós os psiquiatras porto alegrenses, formados na psiquiatria clássica e psicanalítica, constituiu grande e agradável surpresa podermos almoçar e jogar vôlei com os pacientes. Deu ênfase ao trabalho em equipe de saúde. Observava os “papéis” de pacientes, funcionários e técnicos. Criou uma Residência em tempo integral e dedicação exclusiva. Mais tarde também, iniciou a “Pensão Protegida”.

    Em 1961 saiu o primeiro número dos Arquivos da Clínica Pinel que teve grande influência na psiquiatria brasileira divulgando os novos métodos.

    Em 1962 iniciou os Cursos de “Psicologia Clínica”, “Assistência Social Psiquiátrica” e “Enfermagem Psiquiátrica”.

    Em 1964, transformou-se em sociedade civil sem fins lucrativos. Marcelo doou os móveis da Clínica.

Os primeiros diretores foram Marcelo Blaya e Manoel  

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Albuquerque. Havia dez fundadores, entre eles; Mário, Cyro, Lemmertz, David, Wagner, Roberto, Paulo e Meneguini.

    Marcelo Blaya defendeu docência Livre. A Docência do Marcelo foi rápida, brilhante e inesperada. Talvez por indicar candidatura à cátedra, esfriou os convites para colaborar na Faculdade.

   Em 1970 a Pinel construiu sua nova sede (inaugurada em 1972) na Rua Santana, com 2.000 m2 em terreno de cinco mil metros. O dinheiro veio quase todo do INPSA, já que a clínica privada era pequena e ficou menor com o ingresso dos previdenciários.

    Foram primeiros alunos da Clínica Pinel: Nelson Lemos, David Epelbaum Zimerman, Isaac Sprinz, Bernardo Brunstein, Flávio Rotta Correa, Álvaro Medeiros, Eufrides Silveira Matte, Carlos Gari Faria, Hans Ingomar Schreen, Milton Shansis, Themis Groisman, Marlene Silveira Araújo,

Carmen Tuma Rotta, Harri Valdir Graeff, Walmor João Piccinini, Carmen Dametto, Paulo Juchem, Carlos Roberto Hecktheuer, Ricardo Toledo Piza. Carmen e Walmor começaram com Atendentes na Pinel. Os enfermeiros Baltazar Lápis e Jorge Rodrigues, mais tarde professores da Faculdade Federal de enfermagem da UFRGS, também

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começaram na Pinel. Sem esquecer a Ruth Myllius que abriu o caminho para eles.

10 – Influências Externas decisivas que inspiraram o movimento e o progresso porto-alegrense:

Hernán Davanzo Corte, didata da IPA e Professor da  USPRibeirão Preto, visitou Porto Alegre várias vezes entre 56-63. Tinha as vantagens de ser “psicanalista", portanto insuspeito de “acting out”, ser moço, jogar futebol conosco e conhecer Epidemiologia, por trabalhar com grandes especialistas da Faculdade de Ribeirão Preto.

I.Matte Blanco, 1958, Chile, que estabeleceu sistema semelhante na Faculdade de Medicina, inclusive com tratamento em Grupo para estudantes. Estabeleceu vários contatos férteis com o grupo de Porto Alegre.

Carlos Alberto Seguin, de Lima, Peru que de 1958 a 1964 teve vários contatos estimulantes com o grupo de Porto Alegre.

11. Introdução da Psicanálise no Estado

    Em 1947 Mário Martins, formado em três anos pela Associação Psicanalítica Argentina, iniciou a prática em Porto Alegre. Tratou desde logo, como candidatos, na ordem de início; Ernesto La Porta, Paulo Guedes, José de Barros Falcão e David Zimmermann. Este foi, também, o

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primeiro grupo a fazer seminários e supervisões para formação psicanalítica em Porto Alegre. O segundo foi: Fernando Guedes, Leão Knijnick, Luiz Carlos Meneguini, Manoel Antonio Albuquerque e Sérgio Annes.

    Depois, já formados como didatas, vieram José Lemmertz e Cyro Martins da Argentina e Celestino Prunes do Rio de Janeiro.

    O Centro de Estudos Psicanalíticos, embrião da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre buscava a filiação à Associação Psicanalítica Internacional que permitisse o treinamento oficial de psicanalistas no Estado. Em agosto de 1961, sob o patrocínio da Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro, o grupo de Porto Alegre foi reconhecido como “Study Group” da IPA, por indicação favorável da Executiva Central na Reunião Administrativa do Congresso Internacional de Edinburgh.

    Com este reconhecimento, os três membros titulares passaram a Didatas: Mário, Lemmertz e Celestino. David, Paulo de candidatos passaram a Associados. Os demais foram convidados a demitir-se de membros Fundadores e passaram a condição de candidatos. Wagner e Roberto logo foram promovidos, os demais penaram a condição de candidatos. (Manoel Albuquerque não aceitou a condição e afastou-se da SPPA).

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As atividades psicanalíticas regulares iniciaram em 1948.

    A partir de 1953, a Cátedra de Psiquiatria começou a contar com a colaboração da Cátedra de Medicina Legal, na organização e execução do Curso de Psicologia Médica para as 1ª,2ª,e 3ª, séries do curso médico.

    O fundamento da inovação era que os médicos precisavam conhecer e tratar a pessoa como um todo, bio-psico-social, ao mesmo tempo em que podiam melhorar seu desempenho médico com os conhecimentos que a psiquiatria lhes dava para aperfeiçoamento da anamnese e da relação médico/paciente.

12. Fim do Isolamento da Psiquiatria Rio-grandense e associação com os colegas brasileiros. Os líderes da nossa Psiquiatria, tanto na clínica como no magistério e nas sociedades estavam, em sua quase totalidade, em “Análise Didática”. Não precisava mais para que o comparecimento a quaisquer atividades da Psiquiatria “não analítica” fosse considerado “acting out” e reprovado.

    Presidindo a Sociedade, aproveitei circunstâncias favoráveis: um colega e amigo, Levy Albuquerque Souza, era coronel Médico da Aeronáutica e muito ligado ao Brigadeiro Eduardo Gomes, Ministro da Aeronáutica.

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Mandei um ofício invocando seu título de “Brigadeiros da Integração Nacional” e informando-o que os psiquiatras gaúchos iam a todos os congressos de Buenos Aires e Montevidéu e não aos brasileiros. Forçando um pouco a verdade, transformei o motivo em por falta de dinheiro para as passagens. Como conseqüência autorizou o Avro Presidencial para transportar psiquiatras gaúchos, 35 ao todo. Claro que os analistas esqueceram o dogmatismo e se inscreveram. Graças a esta possibilidade, em assembléia geral, resolvemos que só iria quem levasse trabalho. Mais ainda, que fossem temas diversos, sem repetições. Colocamos o Índice do Noyes no quadro e cada colega escolheu um tema.

    Ao chegarmos a Fortaleza houve uma surpresa. Colocaram todos numa sala não prevista no programa. Não aceitei com o argumento de que não viajáramos tantos quilômetros para falar uns para os outros. Em conseqüência decidiu-se colocar um gaúcho em cada sala, o que nos deu a oportunidade para conviver com todos os demais psiquiatras brasileiros. Chamaram mais a atenção os trabalhos ligando a Psicanálise à Psiquiatria e as Técnicas Sociais apresentadas pelos que trabalhávamos na Pinel.

    Não é forçar muito a realidade dizer que estava lançada a semente da fundação da ABP. Em realidade ficou 

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decidido que o próximo congresso seria em Porto Alegre. A ABP foi fundada no interregno e figurei no primeiro Conselho.

13 – Expansão pela América. Minha eleição para Tesoureiro, depois Vice e finalmente Presidente da Associação Latino Americana de Psiquiatria (APAL) formou um vínculo novo, rico, entusiasmado e interativo com os colegas de todo o continente, sem excluir os do Norte. A culminância foi o Congresso de 1983, da APAl e da Sociedade Nacional de Neurologia Psiquiatria e Higiene Mental, que reuniu em Porto Alegre os maiores nomes de nossa especialidade em toda a América.

14 – A aproximação com outras Entidades Brasileiras ficou determinada pela convocação, e realização de reuniões simultâneas em todos os Congressos e Jornadas realizados aqui.

15 – O Encontro Nacional de Interconsulta Médica (1992), pela sua originalidade e influências generalizadas e importantes, é um marco na integração da Psiquiatria com outras especialidades médicas em situação igualitária. Sua organização e realização em nosso meio acresceu motivos de prestígio da psiquiatria no Rio Grande do Sul.


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