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Volume 22 - Outubro de 2017
Editor: Walmor J. Piccinini - Fundador: Giovanni Torello

Outubro de 2017 - Vol.22 - Nº 9

Psicanálise em debate

“MÃE!”, DE DARREN ARONOFSKY

Sérgio Telles
psicanalista e escritor

O espectador sente um crescente incômodo durante a exibição de “Mãe!” (2017), último filme do premiado diretor Darren Aronofsky, autor do bem sucedido “Cisne Negro” (2010). Talvez por não conseguir enquadrá-lo de imediato em nenhuma das categorias às quais está habituado. Seria esse um filme realista ou surrealista? Seria um filme de suspense, um drama psicológico, um policial, uma grande farsa? Tampouco consegue ele se identificar com as situações e personagens, o que o deixa confuso e perdido.

Vemos um casal, formado por um homem maduro e sua jovem mulher, morando numa grande casa antiga que ela está restaurando sozinha, algo que de imediato soa estranho, pouco verossímil. A casa se situa na clareira de uma mata, cercada de árvores por todos os lados. Ele é um escritor que procura a reclusão visando reencontrar a inspiração, vencer o bloqueio que o impede de escrever. Ela zela pela casa e pelo conforto do marido. Mas logo eles começam a receber visitas inesperadas de desconhecidos que se transformam em hóspedes, à revelia da dona da casa, mas com a total beneplácito do proprietário, para a perplexidade dela e dos espectadores. O incessante e crescente afluxo de visitantes instala o caos na casa, até a explosão que a destrói, provocada pela mulher.

As situações bizarras, as reações desconcertantes do personagem principal, o escritor, tudo impõe ao espectador o trabalho de interpretação. Como entender sua infinita tolerância e complacência, sua ilimitada hospitalidade que não leva em conta os apelos da mulher? Estaria ele louco? E quem são aquelas pessoas, o que elas querem, o que significa tudo aquilo? A própria casa aos poucos mostra peculiaridades surpreendentes, as paredes parecem respirar, têm feridas, cicatrizes, responde como um corpo orgânico vivo, reagindo às intempéries. 

A confusão permanece até o fim, quando num bom exemplo do que nós psicanalistas chamamos de “compreensão a posteriori” ou “posteridade” (em francês “après-coup” ou “Nachtraglichkeit”, em alemão), de repente entendemos tudo, as peças do quebra-cabeça até então misturadas se encaixam e o quadro se apresenta em sua evidência última e definitiva.

Aquilo que até então nos parecia uma obra manqué, mal executada, bisonha, um passo em falso de Aronofsky, que é seu roteirista e diretor, entendemos que deliberadamente ele criou uma narrativa na qual situações e personagens não facilitam a identificação costumeira e habitual dos espectadores, algo arriscado que poderia fazer fracassar o projeto e que fica caracterizado pelo uso frequente da câmera fechada no rosto da atriz, artifício que gera no espectador uma sensação claustrofóbica, de estar fechado num espaço pequeno, de não ter a visão do todo, de não conhecer o contexto geral – como de fato ocorre, desde que o espectador não entende bem o que está acontecendo - tal como acontece com a mulher, cercada de estranhos que a ignoram ou desconsideram.

Quando compreendemos, ficamos rendidos pela ousadia de Aronofsky em enfrentar um tema tão abrangente, empreendimento que poderia ser excessivamente pretensioso, mas no que, no frigir dos ovos, saiu-se muito bem. Ele cria uma espécie de cosmogonia, na qual representa a relação de Deus com os homens em sua versão judaico-cristã. Nela alinhava dois episódios decisivos do Primeiro e do Segundo Testamento: a chegada de Adão e Eva com seus filhos Caim e Abel, e o nascimento de Cristo com seu subsequente sacrifício na cruz, dando origem ao sacramento da comunhão, onde é ingerido pelos seguidores.

Para tanto, mostra as incongruências que dificultam as relações entre os homens e a divindade.  Enquanto a mulher vive ansiosa buscando uma relação de exclusividade com ele e em zelar por sua propriedade, ele se interessa por todos e é indiferente à propriedade, a casa está aberta e todos tem livre acesso a ela. Mas este é também um deus autocentrado, narcisista, que goza ao ser adorado por suas criações, indiferente ao destino individual de cada um e tolerante ou impassível frente aos desvarios da humanidade, como os que ocorrem de forma alegórica na própria casa, sem que ele procure impedi-los - o aparecimento dos rituais religiosos e o fanatismo que deles decorre, levando a manifestações de violência como nas guerras, na segregação, nos campos de concentração, nas massas ensandecidas à procura de um pai que as guie e console. Um deus que, em sua posição desumana ou sobre-humana, permite o sacrifício do filho e deixa que a multidão o devore e, quando a mulher – mãe! – reclama, ele diz apenas que daquela tragédia poderá nascer algo valioso.

No diálogo final, o escritor -  Deus - diz que só sabe criar, só pode fazer isso. E de fato, contrapondo-se à destrutividade dos homens, que se matam e eliminam mesmo aquilo que consideram o mais sagrado, só resta a infinita criatividade divina, estabelecendo com isso o ciclo infindável de criação e destruição que se observa não só entre os homens, mas no próprio universo,  conceito muito bem construído no filme, na medida em que ficam equiparados o começo e o fim.

Uma outra alegoria possível da casa, viva e pulsante, é o nosso planeta Terra. A proposta do diretor não deve ser vista como apenas mais um produto politicamente correto. É muito mais uma reflexão sobre a condição humana, a procura de um deus pai que garanta que nossa própria destrutividade não prevalecerá, que ela será contraposta pela criatividade que precisamos acreditar que está em deus, quando, na verdade, ela está também em nós. O próprio título do filme “Mãe!”, um tanto enigmático, indicaria isso. Remete evidentemente a Maria, a que dá luz ao filho de Deus para que os homens o destruam e posteriormente o comam no maior dos sacramentos do cristianismo, mas também, de maneira mais abrangente, representa a própria criatividade. A mãe é um grande símbolo da criatividade humana.       


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