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Volume 22 - Junho de 2017
Editor: Walmor J. Piccinini - Fundador: Giovanni Torello

Abril de 2017 - Vol.22 - Nº 4

Psicanálise em debate

SOBRE O FILME “FRANCOFONIA” DE ALEXANDER SOKUROV

Sérgio Telles
psicanalista e escritor

O extraordinário filme “Francofonia”, de Alexander Sokurov reflete sobre o Louvre, a arte, o poder, o papel dos museus.

O pano de fundo do filme é o episódio real ocorrido em 1940 na Paris ocupada pelos alemães, quando o funcionário francês Jacques Jaujard, responsável pelo Louvre, se encontra com o Conde Franz von Wolff-Metternich, oficial nazista encarregado de supervisionar o acervo francês, visando eventualmente levá-lo para Berlin. Naquele momento, o Louvre está esvaziado, suas obras escondidas em várias outras cidades, com o objetivo de preservá-las do temido saque que os alemães poderiam fazer. Os dois homens superam as posições opostas que necessariamente ocupavam e terminam trabalhando em comum para preservar as obras e não as expor ao risco de serem destruídas. O amor à arte e às humanidades prevalece sobre a paixão imediata das posições inimigas impostas pela ideologia, pela política, pela guerra.  Os museus só querem ser deixados em paz, não se importam muito com o que ocorre em seu redor, diz o narrador.

A estrutura do filme, como era de se esperar, é bastante complexa. Começa com Sokurov filmando em Paris e conversando via Skype com o capitão de um navio que carrega um container com obras de arte e teme vir a perdê-las em função da tempestade que está enfrentando. É uma imagem muito transparente da preocupação na conservação dos museus e obras de arte num mundo em permanente conflagração bélica. O mar da história é turbulento e o navio pode soçobrar a qualquer momento.

Mesclando documentários (como as cenas de Hitler passeando pelas ruas desertas de Paris à procura do Louvre) com partes ficcionais, Sokurov traça um rico panorama da cultura europeia.

Um dos significativos e alegóricos trechos mostra Marianne, a tradicional representação da república francesa, com sua vestimenta típica e seu barrete frígio, a perambular pelos salões do Louvre, repetindo sem cessar o bordão da Revolução Francesa: Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Encontra então o fantasma de Napoleão, que a confronta com o fato de que muito do que está ali foi trazida por ele mesmo como espólio de guerra. Não foi o exercício da “liberdade, fraternidade, igualdade” que fizeram a riqueza e o esplendor do Louvre e sim o poder das guerras imperiais napoleônicas.

É interessante o contraponto feito por Sukorov, pois mostra que o que Hitler planejava fazer com as obras do Louvre, Napoleão fizera anos atrás nos países conquistados por ele. Os vencedores das guerras saqueiam os tesouros artísticos dos países vencidos. Assim tem sido no correr da história. Os impérios passam, os poderosos são esquecidos, as civilizações desaparecem, mas sobrevivem as obras de arte. Talvez mais por essa razão simbólica do que pelo valor material, os tesouros artísticos desde sempre são saqueados pelos vencedores nas  guerras. Além de representarem a resistência ao tempo e à finitude, a arte também demonstra a criatividade humana, o oposto da destrutividade mortal que os guerreiros se veem obrigados a exercer. Quem sabe ao saquearem a arte, tentam também se apossar da dimensão amorosa e criativa de suas próprias subjetividades, da qual estão apartados para melhor exercer as tarefas combativas que lhe são impostas.   

A perenidade da arte e a fugacidade da vida dos homens é mostrada por Sokurov ao contrapor o esplendor atual do Louvre e as lápides obscuras de Jaujard e Metterlich, personagens que tiveram importância decisiva e que hoje estão praticamente esquecidos,

Em última instância, o filme fala do eterno embate de Eros e Tânatos. A brutalidade e a selvageria da guerra, a sublimação das pulsões gerando obras de arte que representam o mais alto ponto da cultura e da civilização.

Sokurov mostra que história e arte estão intimamente ligados, impossível entender uma sem a outra. E elas estão preservadas nos museus, esses lugares de imensa importância que devem ser preservados a todo custo.


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