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Volume 22 - Outubro de 2017
Editor: Walmor J. Piccinini - Fundador: Giovanni Torello

Outubro de 2017 - Vol.22 - Nº 10

Psiquiatria Forense

HILDA MORANA EM CAPÍTULOS
CAPÍTULO 1

Hilda Clotilde Penteado Morana


O Psicopata

Em geral as pessoas sabem quem é o psicopata. É o serial killer, o estuprador, o bandido que mata, mas as pessoas não sabem que os psicopatas incidem de 1 a 3% da população, ou seja, nasce em qualquer lugar do mundo 1 a 3 % de pessoas que são psicopatas. Isso é muito? Ou seja, no mundo onde hoje vivem 7,2 bilhões de pessoas temos pelo menos 70 milhões de psicopatas entre nós. No Brasil onde somos 207.516.998 temos, entre nos 207.517 mil psicopatas.

Costumo comparar a incidência de psicopatia ao vitiligo que também tem uma incidência de 1 a 3 %. Se você já viu no cinema, no teatro, no restaurante, alguém com vitiligo é a mesma chance de ter estado ao lado de um psicopata.

“Só quem tem na família portadores com essa predisposição genética é capaz de avaliar a importância do assunto em questão. Difícil também é encontrar profissionais qualificados na área da saúde mental aptos a formar tal diagnóstico. São anos percorrendo consultórios de psicólogos, terapeutas e psiquiatras, que na maioria das vezes chegam realmente a acusar os pais por esse tipo de comportamento. Ao encontrar um profissional que nos dê esse terrível diagnóstico, a dor é grande, mas é quando chegamos à conclusão de que, se erramos, erramos tentando acertar. E, até chegarmos a esse ponto, muita tristeza e muito dinheiro foram necessários”.

CÉLIA RUIZ, Guarujá, SP

 

O psicopata tem uma alteração do caráter. O caráter nos dá o grau de respeito que temos aos outros, os seres normais gostam uns dos outros, nós gostamos dos outros só porque eles são seres humanos como nos. Dessa forma, conversamos com as pessoas no elevador sem as conhecermos, nas filas e em toda situação de espera. Nós respeitamos as pessoas. Se virmos alguém precisando de ajuda prontamente lhe ajudaremos isto é natural nas pessoas normais de caráter, para nós, normais de caráter é impossível passar por uma pessoa caída na rua, ou que se machucou, ou que está com dificuldade para realizar algo e nos simplesmente ignorarmos esta pessoa, a isso chamado de indiferença afetiva, ou seja, não fomos nós que praticamos aquela maldade, mas simplesmente deixamos de ajudar quem sabemos que precisa. O psicopata, ele não só é insensível aos outros como ele é indiferente, a insensibilidade do psicopata o leva a atos de crueldade. A crueldade pode se manifestar por matar alguém ou prejudicar gravemente outras pessoas então, considerando o caráter como o respeito que temos ao outro.

Existem três formas convencionadas de transtorno do caráter: a primeira delas é o traço anormal de caráter, ou traço disfuncional, nessa condição a pessoa é mentirosa, aproveitadora, não tem muita responsabilidade com a vida, engana, mas consegue manter uma atividade na vida, seja profissional, seja terminar um curso. Todos percebem que o traço anormal de caráter é uma pessoa em que não se pode confiar. Ele trabalha ou estuda com a gente, mas percebemos que ele não é boa pessoa. Mas, como ele consegue de alguma forma trapaceando, mentindo, mas ele consegue manter uma atividade social, ele não é considerado patológico. O segundo nível de alteração de caráter é o transtorno da personalidade, ou defeito da personalidade, ou o que eu chamo de transtorno parcial da personalidade. Esse sujeito já é patológico, ele mente muito entra facilmente em atrito com os outros e não consegue ter uma vida social normal, ele consegue trabalhar por curtos períodos. Só vai terminar um curso se alguém o ajudar, não vai conseguir manter uma família ou uma roda de amigos. Os transtornos da personalidade incidem de 7 a 15% da população. (1). Por isso temos a ideia de que vivemos numa sociedade de pessoas ruins, porque até 15% da população pode ter um transtorno da personalidade. A pessoas costumam dizer “tenho mais dó de cachorro abandonado do que de gente”. A diferença entre o traço disfuncional e o defeito de caráter é quantitativo. È uma questão de intensidade do comprometimento. O terceiro nível de alteração do caráter é a psicopatia, ou também chamado de transtorno global da personalidade. A diferença entre transtorno da personalidade e psicopatia é que o psicopata é cruel, portanto completamente insensível ao outro. O outro só existe pra ele, não como ser humano, mas como meio para ele conseguir os seu propósitos egoístas, dessa forma o psicopata não tem amigos, não ama, mas é extremamente sedutor, ele estuda a sua vítima e passa a fazer tudo por ela, ele busca saber do que ela gosta, do que ela precisa e prontamente aparece com o objeto ou a solução para a pessoa que ele escolheu como vítima, ele trata esta pessoa muito bem e a pessoa vítima do psicopata pensa que teve muita sorte em conhecer alguém que é tão gentil consigo. E, assim o psicopata vai agindo fazendo tudo pra pessoa tratando a muito bem até que um dia ele pede a ela o carro emprestado, dinheiro ou algo que a pessoa tenha e a pessoa vitima já está tão habituada ao psicopata que ela lhe entrega o bem requerido sem desconfiar de que é o início do seu calvário, o psicopata vai começar exigir coisas dela, se aproveitando dela e quando ela reclamar de algo o psicopata vai mostrar sua face negra, vai passar a ameaçá-la, a desprezá-la e fazer com que ela faça tudo que ele quiser. E isso não tem fim, a pessoa que se envolve com um psicopata, porque este lhe tratava muito bem, terá uma encrenca para o resto da vida, além de ficar pobre porque o psicopata vai lhe tomar todos os seus bens. Não adianta reclamar para ninguém de que está sendo vítima de um psicopata, não existe nenhuma lei no país que lhe proteja. É muito comum as pessoas casarem com psicopatas e na maioria das vezes elas casam com os psicopatas por que além deles lhe tratarem muito bem eles fazem sexo de uma maneira excepcional e as pessoas acham que tiveram muita sorte em conhecer alguém sexualmente tão ativo. O psicopata faz sexo intenso por que ele está em busca de um prazer máximo neste ato, ele não se preocupa com o parceiro ou com a parceira. Houve um paciente meu que me disse: “Dra. eu casei com ela porque o sexo era ótimo, ela até me propunha coisas que eu nem aceitava fazer de tão intensas que era”. Enfim, transar bem é coisa de psicopata! Ai, eles tem filhos e depois do nascimento destes filhos é que a pessoa vai perceber que está casada com um psicopata, vai tentar se separar dele e pedir a guarda do filho, mas não existe nenhuma lei no Brasil que aceita tirar a guarda do cônjuge por ele ser psicopata, o psicopata vai maltratar o filho e usá-lo como moeda de troca, o filho vai querer morar como o cônjuge não psicopata e não vai conseguir causando ainda maior sofrimento no cônjuge não psicopata e, como eles são muito sedutores eles conseguem convencer advogados, promotores e juízes de que são excelentes pessoas, bons pais e que o cônjuge é que é o monstro da história. Muitas mães quando o marido ou companheiro sai de casa para se vingar deles elas matam o filho e vão a delegacia sujas com as roupas rasgadas dizendo ao delegado que foram assaltadas e que mataram o seu filho, quando na verdade foram elas próprias que mataram seus filhos. Um caso em particular me comoveu muito, era o caso de uma moça cujo companheiro saiu de casa e ela tinha um bebe que ainda usava fralda, deveria ter menos de um ano de idade, ela vai no shopping e alimenta o bebe, troca sua fralda, passeia com o bebe pelo shopping até que decide levá-lo para um terreno baldio perto do shopping e com uns pedaços de lata que ela encontrou no terreno, ela furou o bebe várias vezes. Daí ela se desalinha, se suja e vai na delegacia e diz para o delegado que foi assaltada e que pegaram o seu bebe, o delegado percebendo que ela mentia, faz com que ela confesse aonde ela tinha deixado o bebe, o delegado manda os policiais no terreno baldio que encontram o bebe vivo, mas comido por ratos e veio a falecer. Esta é uma psicopata. Há também vários casos de mães que se separam e quando ficam sabendo que seu ex está com outra mulher, ela o acusa de molestar sexualmente o filho nas visitas quinzenais ao pai, elas fazem um processo de abuso sexual de menor ocasionado pelo pai dizendo que a criança chegou em asa com o bumbum vermelho, dizendo que o papai pôs o pipi no bumbum. Imediatamente qualquer juiz suspende a visita do pai que apenas vê seu filho no visitório público junto com outras crianças e na presença de uma assistente social. De 100 casos aonde eu fiz a perícia de mães que alegaram abuso sexual do pai nas visitas quinzenais apenas um caso era verdadeiro, o que acontece é que esses processos são demorados e o pai que só vê a criança a cada 15 dias no vistorio público acaba por formar outra família, ter outros filhos e se desinteressar por aquele. Quem perde é a criança.

A psicopatia é a forma mais grave de transtorno de personalidade, são os casos em que acabam por cometerem crimes violentos.

A diferença entre defeito do caráter e psicopatia é qualitativa. O Psicopata é cruel, tem uma crueldade fortuita, apenas porque é da sua natureza ser insensível ao outro.

As pessoas têm que começar a perceber e se afastar de pessoas com transtorno de personalidade, ou seja, do caráter, elas acham que o sujeito é meio esquisito, meio individualista, meio fechado. Percebem que não é uma pessoa com bons sentimentos para com os outros, mas como estão envolvidas, seja no plano conjugal ou pessoal, acabam relevando certos comportamentos que percebem como anormais. Podem acabar mortas! E, como já dissemos, é muito comum ao sujeito com psicopatia que para seduzir alguém, mostra se muito bonzinho. Costumam presentear com exagero para seduzir a pessoa e a maioria delas se deixa mesmo seduzir por presentes e atenção, quando os psicopatas conquistam a confiança de alguém é aí que vem o golpe! E, se a pessoa se opuser ao sujeito vai ver quem de fato ele é.

As vítimas de psicopatas costuma ser as bem boazinhas, as ingênuas, as prestativas, enfim, pessoas boas.

Enfim, o caráter é a maneira como o sujeito expressa as suas disposições afetivas e é evidenciado através do comportamento interpessoal.


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