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Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Walmor J. Piccinini - Fundador: Giovanni Torello

 

Fevereiro de 2015 - Vol.20 - N 2

Artigo do ms

SONHOS EM PSIQUIATRIA E EM PSICOTERAPIA PARTE 14

Carlos Alberto Crespo de Souza**

1. Introdução.

No artigo anterior – Parte 13 – as próprias palavras de Jung, escritas um pouco antes de seu falecimento em junho de 1961, passaram a ser comentadas, aprofundando seu conhecimento. O escrito de Jung, encontrado no livro “O Homem e seus Símbolos”, pode ser adquirido no Brasil, em tradução do inglês original de 1964 para a língua portuguesa, junto à Editora Nova Fronteira Participações, de 2008. 1

Nesse livro, concebido e organizado pelo próprio Jung, enriquecido por fotos e imagens exemplares, ele escreveu somente um dos capítulos, denominado “Chegando ao inconsciente”. Os outros capítulos foram escritos por autores escolhidos pelo próprio Jung entre seus principais seguidores, e não serão aqui estudados conforme mencionado anteriormente.

Embora sendo um capítulo único, ele é muito extenso ao ocupar mais de cem páginas (18-131). Foi dividido por Jung em nove subtítulos, sendo que o primeiro, denominado de “A Importância dos Sonhos”, mereceu a atenção no artigo anterior ou Parte 13. Agora, neste novo artigo, nosso foco será o segundo subtítulo, denominado pelo autor como “O Passado e o Futuro no Inconsciente”.

Num olhar prospectivo, é bem possível que cada um dos subtítulos do capítulo de Jung passe a corresponder a novos artigos a serem estudados por nós. Enquanto isso, passemos ao escrutínio do subtítulo abaixo.

2. Chegando ao Inconsciente (Carl Gustav Jung).

2.1 – O Passado e o Futuro no Inconsciente.

Ao iniciar o subtítulo “O Passado e o Futuro no Inconsciente”, Jung assinala que esboçou, até aqui, alguns dos princípios em que se baseou para chegar à questão dos sonhos, pois quando se deseja investigar a faculdade humana de produzir símbolos, os sonhos são, comprovadamente, o material fundamental e mais acessível para isso. 2

Enfatiza que os dois pontos essenciais a respeito dos sonhos são os seguintes: em primeiro lugar, o sonho deve ser tratado como um fato a respeito do qual não se fazem suposições prévias, a não ser a de que ele tem certo sentido; em segundo lugar, é necessário aceitarmos que o sonho é uma expressão específica do inconsciente. Pondera ainda que se julgarmos um sonho um acontecimento normal (o que, na verdade ele é), temos de considerar que ou ele é causal – isso é, há uma causa racional para sua existência – ou, de certo modo, intencional, ou ambos.

A partir dessas colocações, Jung analisa um pouco mais de perto os diversos modos pelos quais se ligam os conteúdos conscientes e inconscientes da nossa mente. Através de exemplos simples com que todos estão familiarizados, ele menciona o fato de que, de repente, não podemos lembrar-nos do que íamos dizer, apesar de a instantes o pensamento estar perfeitamente claro. Ou talvez queiramos apresentar um amigo e o seu nome nos escape na hora de pronunciá-lo. Diremos que não conseguimos nos lembrar, porém ele explica: na realidade, o pensamento tornou-se inconsciente ou, pelo menos, momentaneamente separado do consciente. A seguir, prossegue: “Ocorre o mesmo fenômeno com os nossos sentidos. Se ouvirmos uma nota contínua emitida no limite da audibilidade, o som parece interromper-se a intervalos regulares para começar de novo. Essas oscilações são causadas por uma diminuição e um aumento periódicos da nossa atenção e não por qualquer alteração na nota.

Dentro do mesmo diapasão, ele mostra que quando alguma coisa escapa da nossa consciência, essa coisa não deixou de existir, do mesmo modo que um automóvel que desaparece na esquina não se desfez no ar. Apenas o perdermos de vista. Assim como podemos, mais tarde, ver novamente o carro, também reencontraremos pensamentos temporariamente perdidos.

No contexto, Jung refere que “Parte do inconsciente consiste, portanto, de uma profusão de pensamentos, imagens e impressões provisoriamente ocultos e que, apesar de terem sido perdidos, continuam a influenciar nossas mentes conscientes. Como exemplo dessa afirmativa, cita que um homem desatento ou distraído pode atravessar uma sala para buscar alguma coisa. Ele para, parecendo perplexo; esqueceu o que buscava. Suas mãos tateiam pelos objetos de uma mesa como se fosse um sonâmbulo; não se lembra do seu objetivo inicial, mas ainda se deixa, inconscientemente, guiar por ele. Percebe então o que queria. Foi o seu inconsciente que o ajudou a se lembrar.

Muitas observações de Jung sobre a presença do inconsciente nas manifestações neuróticas (cabe lembrar que o termo neurótico deixou de ser mencionado nas últimas classificações diagnósticas) podem ser encontradas nesse texto, as quais podem ser sintetizadas pela ausência da consciência em algumas ações praticadas. Como exemplo, a pessoa ouve, mas está surda, vê, mas está cega, sabe e parece ignorante. Entretanto, quando se discute esse assunto, de acordo com Jung, “Traz-se, habitualmente, o testemunho da observação clínica. Por essa razão, muitos críticos alegam que o inconsciente e todas as suas sutis manifestações pertencem unicamente à esfera da psicopatologia. Consideram qualquer expressão do inconsciente como um sintoma de neurose ou de psicose, que nada teria a ver com o estado mental normal. Mas os fenômenos neuróticos não são, de modo algum, produtos exclusivos de uma doença. São, na verdade, apenas exageros patológicos de ocorrências normais; e é apenas por serem exageros que se mostram mais evidentes do que seus correspondentes normais. Sintomas histéricos podem ser observados em qualquer pessoa normal, mas são tão reduzidos que em geral passam despercebidos.

Outra importante contribuição de Jung sobre o comportamento humano em sua prática diária diz respeito ao ato de esquecer. Segundo ele, o ato de esquecer é um processo normal em que certos pensamentos conscientes perdem a sua energia específica devido a um desvio da nossa atenção. Quando o interesse se desloca, deixa em sombra as coisas com que anteriormente nos ocupávamos, exatamente como um holofote que, ao iluminar uma nova área, deixa outra mergulhada em escuridão. Isso é inevitável, pois a consciência só pode conservar iluminadas algumas imagens de cada vez e, mesmo assim, com flutuações nessa claridade. Os pensamentos e ideias esquecidos não deixaram de existir. Apesar de não poderem se reproduzir à vontade, estão presentes num estado subliminar – para além do limiar da memória – de onde podem tornar a surgir espontaneamente a qualquer momento, algumas vezes anos depois de um esquecimento aparentemente total.

Sobre esse fenômeno humano, Jung se pronuncia: “Refiro-me aqui a coisas que vimos e ouvimos conscientemente e que em seguida esquecemos. Mas todos nós vemos, ouvimos, cheiramos e provamos muitas coisas sem notá-las na ocasião, ou porque a nossa atenção se desviou ou porque, para os nossos sentidos, o estímulo foi demasiadamente fraco para deixar uma impressão consciente. O inconsciente, no entanto, tomou nota de tudo, e essas percepções sensoriais subliminares ocupam importante lugar no nosso cotidiano. Sem percebermos, influenciam a maneira segundo a qual vamos reagir a pessoas e fatos”.

Segundo Jung, além do esquecimento normal, Freud descreveu vários casos de “esquecimento” de lembranças desagradáveis – recordações que estamos prontos para perder. Assinala, como observou Nietzsche, quando o orgulho está em jogo, a memória prefere ceder. Assim, entre as recordações perdidas encontramos várias cujo estado subliminar (e que não podemos reproduzir voluntariamente) se deve à sua natureza desagradável. A propósito, refere que os psicólogos chamam a isso de “conteúdos recalcados”.

Para ele, um bom exemplo é o da secretária que tem ciúmes de uma sócia do seu patrão. Frequentemente ela esquece de convidar esta pessoa para reuniões, apesar de o nome estar nitidamente marcado na lista que utiliza. Se interpelada fosse sobre esse fato diria, simplesmente, que “esqueceu” ou que a “perturbaram” no momento. Jamais admitiria – nem para si mesma – o motivo real de sua omissão.

Jung explica essa ocorrência: “Muitas pessoas superestimam o papel da força de vontade e julgam que nada poderá acontecer à sua mente que não seja por decisão e intenção próprias. Mas precisamos aprender a distinguir cuidadosamente entre o conteúdo intencional e o conteúdo involuntário da mente. O primeiro se origina da personalidade do ego; o segundo, no entanto, nasce de uma fonte que não é idêntica ao ego, mas à sua outra face. É esta outra face que faz a secretária esquecer os convites”.

No contexto, o autor menciona que há muitas razões para esquecermos coisas que vemos ou experimentamos. Cita um fato ocorrido com ele próprio nesse processo por ocasião da leitura do livro de Nietzsche Assim falou Zaratustra . Neste livro, Nietzsche reproduziu quase que literalmente um incidente relatado num diário de bordo no ano de 1686 *. Por mero acaso, segundo Jung, ele havia lido um resumo dessa história num livro publicado em 1835, meio século antes do livro de Nietzsche. Ao encontrar a mesma passagem, espantou-se com o estilo tão diferente do de Nietzsche, e ficou convencido de que esse lera aquele antigo livro, apesar de não lhe ter feito qualquer referência. Impressionado, escreveu à irmã de Nietzsche, que ainda estava viva na ocasião, e ela confirmou a ele que, na verdade, o livro fora lido tanto por ela quanto pelo irmão, quando esse tinha 11 anos de idade. *Cabe uma correção nessa data: ao invés de 1686, o livro foi escrito por Nietzsche entre 1883-1885. No ano de 1686 Nietzsche ainda não era nascido, o que ocorreu em 1844.

Comentando o fato, Jung mostra que é inconcebível pensar que Nietzsche tivesse qualquer desconfiança de estar plagiando aquela história. De acordo com seu pensamento, acredita que, simplesmente, cinquenta anos mais tarde a história entrou em foco na sua consciência. Sobre esses casos, explica Jung que há uma autêntica recordação, mesmo que a pessoa não se dê conta do fato. A mesma coisa pode acontecer com um músico que tenha ouvido na infância alguma melodia folclórica ou uma canção popular e que vem encontrá-la, na idade adulta, presente como tema de um movimento sinfônico que está compondo. Dessa feita, uma ideia ou imagem deslocou-se do inconsciente para o consciente.

Avançando em suas ideias sobre esse tema, Jung escreve: “O que expliquei até aqui a respeito do inconsciente não passa de um esboço superficial da natureza e do funcionamento dessa complexa parte da psique humana. Mas talvez tenha feito o leitor compreender o tipo de material subliminar de que se podem, espontaneamente, produzir os símbolos dos nossos sonhos. Este material subliminar pode consistir de todo tipo de urgências, impulsos e intenções; de percepções e intuições; de pensamentos racionais ou irracionais; de conclusões, induções, deduções e premissas; e de toda uma imensa gama de emoções. Qualquer um desses elementos é capaz de se tornar parcial, temporária ou definitivamente inconsciente”.

A seguir observa: “Esse material torna-se inconsciente porque – simplesmente – não há lugar para ele no consciente. Alguns de nossos pensamentos perdem a sua energia emocional e tornam-se subliminares (isto é, não recebem mais a mesma atenção do nosso consciente) porque parecem ter deixado de nos interessar e não tem mais ligação conosco, ou então por existir algum motivo para que desejemos afastá-los de vista”.

Segundo Jung, esquecer, nesse sentido, é normal e necessário para dar lugar a novas ideias e impressões na nossa consciência. Se tal não acontecesse, toda a nossa experiência permaneceria acima do limiar da consciência e nossas mentes ficariam insuportavelmente atravancadas. Ele mostra que assim como o conteúdo consciente pode se desvanecer no inconsciente, novos conteúdos, que nunca foram conscientes, podem “emergir”. Podemos ter a impressão, por exemplo, de que alguma coisa está a ponto de se tornar consciente – que “há alguma coisa no ar” ou que “aqui tem dente de coelho”.

A descoberta de que o inconsciente não é apenas um simples depósito do passado, mas que está também cheio de germes de ideias e de situações psíquicas futuras – segundo seu pensamento – levou-o a uma atitude nova e pessoal em relação à psicologia. Eis suas palavras: “Muita controvérsia tem surgido a esse respeito. Mas o fato é que, além de memórias de um passado consciente longínquo, também pensamentos inteiramente novos e ideias criadoras podem surgir do inconsciente – ideias e pensamentos que nunca foram conscientes. Como um lótus, nascem das escuras profundezas da mente para formar uma importante parte de nossa psique subliminar”.

Ao avançar no texto, Jung mostra que encontramos exemplos disso em nossa vida cotidiana, onde às vezes os dilemas são solucionados pelas mais surpreendentes e novas proposições. Por exemplo, muitos artistas, filósofos e mesmo cientistas devem suas melhores ideias a inspirações nascidas de súbito do inconsciente. Menciona que o matemático francês Poincaré e o químico Kekulé devem importantes descobertas científicas – admitidas por eles mesmos – a repentinas revelações pictóricas do inconsciente.

De igual forma, revela que o filósofo Descartes passou por uma experiência mística através da qual teve uma revelação repentina em que viu, num clarão, “a ordem de todas as ciências”. Acrescenta ainda que o escritor inglês Robert Louis Stevenson levou anos procurando uma história que se ajustasse à sua “forte impressão da dupla natureza do homem” quando, num sonho, lhe foi revelado o enredo de o Médico e o monstro.

Ao encerrar esse tópico, Jung revela que mais adiante irá descrever, com mais detalhes, como esse material surge do inconsciente, examinando então a sua forma de expressão. No momento, de acordo com suas palavras “Desejo apenas assinalar que a capacidade da nossa psique de produzir esse material novo é particularmente significativa quando se trata do simbolismo do sonho, pois a minha experiência profissional provou-me, repetidamente, que as imagens contidas no sonho não podem ser explicadas apenas em termos de memória; expresssam pensamentos novos que ainda não chegaram ao limiar da consciência”.

3. Comentários.

O texto de Jung que acabamos de ler foi capaz de nos mostrar como ele atingiu os propósitos do livro pela simplicidade de suas palavras. Sua argumentação sobre o inconsciente, sua existência e importância para nós foi feita de forma compreensível principalmente pelo fato de se utilizar de situações do cotidiano ou da vida diária. Os exemplos por ele apresentados também tiveram o mesmo caráter, ou seja, representados por pessoas de carne e osso, sem qualquer atributo teórico a esconder sua humanidade.

Ele também mostrou como o inconsciente está mais próximo de nós, bastante diferente do apregoado por Freud. O inconsciente junguiano não é uma coisa assustadora ou arcabouço de nosso lixo detestável ou de tensões intrapsíquicas, ao contrário, ele também possui características positivas dispostas até a nos auxiliar em nossa vida cotidiana.

Outro aspecto a salientar é a importância que Jung dá aos sonhos, sendo muito interessante constatar sua afirmativa de que eles podem expressar pensamentos novos que ainda não chegaram ao limiar da consciência.

No artigo seguinte, Parte 15, seguiremos com Jung ao examinar o tópico chamado por ele de “A Função dos Sonhos” de seu capítulo “Chegando ao Inconsciente”.

4. Referências.

1. Crespo de Souza CA. Sonhos em Psiquiatria e Psicoterapia – Parte 13. Psychiatry on line Brasil. Janeiro 2015, vol.20, nº 1.

2. Jung CG. Chegando ao inconsciente. In: O Homem e seus Símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.

* Estudo realizado no Departamento de Pesquisa do Centro de Estudos José de Barros Falcão – Porto Alegre, RS.

** Professor e Doutor em Psiquiatria.

Endereço p/correspondência: [email protected]


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