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Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Abril de 2013 - Vol.18 - Nº 4

História da Psiquiatria

CONSIDERAÇÕES SOBRE A HISTÓRIA DA PESTE NEGRA (1)

Walmor J. Piccinini

Durante séculos o Khan Janipeg foi considerado o pai a Guerra biológica, fama alcançada sem que soubesse que estivesse espalhando o bacilo da praga na sua guerra contra os genoveses e seu entreposto comercial em Caffa (atual Feodosyiia) na Criméia. O bacilo que em 1884 recebeu o nome de Yersina Pestis teria vindo do interior da Ásia nos alforjes dos correios do Khan. Logo a doença espalhou-se nas tropas tártaras e centenas de soldados morreram. Imaginando afugentar os genoveses com o mau cheiro, Janipeg utilizou as cataduplas que antes jogavam pedras, para jogar cadáveres por sobre os muros da cidade sitiada e o efeito foi devastador. Como tudo na História existem outras versões, mas o resultado foi o mesmo, morreram os atacantes e os atacados e os que puderam fugir, rumaram nos seus barcos para a Europa e com eles levaram os agentes transmissores da doença. Os genoveses foram acusados de ter levado a praga para a Europa com seus navios mercantes. Contaminaram Constantinopla, a Sardenha, Genova e Marselha.

Em 1346 a doença se espalhou da Sicília para o continente, arrasou muitas cidades italianas e chegou à Inglaterra em 1347, depois de grassar pela França. De lá passou pela Alemanha, a Escandinávia e através dos Estados bálticos entrou pela Rússia e completou o círculo. O número de mortos foi terrível, calcula-se que 1/3 dos habitantes das áreas afetadas pereceram.  Esta epidemia é conhecida como a “Black Death” de 1348. Em 1665 tivemos outra epidemia que ficou conhecida como a Grande Praga de Londres.

    Nesta altura, o habitual leitor da Coluna sobre História da Psiquiatria deve estar se perguntando aonde queremos chegar com a história da Peste. Em primeiro lugar, o tema é fascinante. Em segundo lugar, ainda não se sabe bem os efeitos desta catástrofe na História europeia e do mundo. Segundo John Kelly a Escala de Foster, uma espécie de Escala Richter de desastres humanos, somente a Segunda Guerra Mundial produziu mais mortes, destruição física e sofrimento emocional do que a “Black Death”. A Comissão de Energia Atômica dos Estados Unidos utilizou a pestilência medieval como modelo para destacar as possíveis consequências de uma guerra nuclear. A “Black Death” chega perto de imitar a guerra nuclear na sua extensão geográfica, no início abrupto e na escala de perdas. Mulheres e crianças que permaneciam nas suas casas foram as mais atingidas.

    Torrey e Miller examinaram a doença mental sob a perspectiva da praga e publicaram um texto que não teve muita repercussão, mas que merece nossa atenção: A Praga Invisível: o crescimento da doença mental de 1750 até o momento atual.

    Ideias sobre as consequências da praga vão aparecendo aqui e ali, mas faltam dados mais conclusivos que permitam afirmar com certeza. Uma delas, é que a Black Death foi responsável pela mudança da relação entre o proprietário de terra e seus agricultores que até então, trabalhavam em troca de comida. A escassez de mão de obra passaram a ter seus braços requisitados e a ganhar salário. O poder do senhor feudal foi perdendo força e com as frequentes guerras foram empobrecendo.

Caixa de texto: A praga é causada por um bacilo carregado por uma pulga que parasita roedor, principalmente o rato marrom e ocorre de três formas: bubônica, pneumônica e septicêmica. A mais famosa e terrível foi a Peste Negra (Black Death)A Igreja perdeu o domínio absoluto e começaram os movimentos para um afastamento de Roma. Na Inglaterra, o Latim perdeu força e o afastamento culminou com o rompimento e fundação da Igreja Anglicana. Na Alemanha o processo culminou com a Reforma de Martinho Lutero. A perda do domínio intelectual pelos mosteiros trouxe novos desenvolvimentos para a medicina e as Ciências em geral. A ideia da quarentena, a de unidades para tratar os doentes que depois vieram a ser conhecidas como hospitais.

    Um fato extraordinário é que a Peste bubônica que devastou o mundo em 1346/52, só te seu bacilo identificado em 1844 em Hong Kong por Alexander Yersin e em homenagem a ele passou a se chamar yersina pestis.

 

 

Há grande produção literária sobre a Peste Negra, muitos questionam sua identidade, causas e efeitos de desastres epidêmicos do passado. Nós tentaremos discutir o impacto das epidemias do passado e a maneira como foram interpretadas. Antes do século XVII não havia uma noção clara que as doenças eram entidades específicas, pensava-se que uma doença se transformava em outra.

A epidemiologia da praga era difícil de entender, bem como sua etiologia. Alguns autores se perguntavam por que algumas cidades ou alguns países eram menos atingidos? As hipóteses são várias. Galeno observava a constituição da vítima para descobrir o que o predispunha ele ou ela para a infecção. Concluía pela desarmonia dos humores. Hipócrates atribuía ao meio ambiente, o tempo, as águas, condições de habitação e dieta prevalente em alguns lugares. Uma terceira abordagem eram as teorias de contágio. Estas três abordagens da doença, com foco respectivamente no indivíduo, no meio ambiente e modos de transmissão são comuns à maioria das civilizações suscetíveis a epidemias e doenças da aglomeração de pessoas.

A Praga foi especial por causa dos seus sintomas horríveis e, também por combinar alta mortalidade com altos riscos de infecção. Sua associação com as condições de vida e a pobreza é evidente.

    Aos poucos pretendemos estabelecer alguma relação com outras grandes epidemias. A de influenza de 1918/19 (gripe espanhola).  HIV/AIDS de 1981. A Influenza H5N1 de Hong Kong em 1997. A SARS em Toronto em 2003. A H1N1 do México em 2009.

Ao longo dos anos fui reunindo uma pequena biblioteca a respeito da Peste Negra E ela será minha fonte.

Cantor, Norman.  In the Wake of the Plague.  Harper Perenial 2002

Cartwright, Frederick E. Disease and History

Defoe, Daniel. Um Diário do Ano da Peste. Artes e Ofícios Editora. 2002 (O livro é de 1772).

Kelly, John. The Great Mortality.  Harper Perennial, 2005

McNeill, William H. Plagues and Peoples.  Monticello Editions, 1976

Scott, Susan e Duncan, Christopher.  Return of Black Death – The world’s Greatest Serial Killer. J.Willey, 2005

Slack, Paul. Praga: Uma curta introdução. Oxford University Press.  2012

Torrey, E. Fuller e Judy Miller.  A Praga Invisível: O crescimento da doença mental de 1750 até o Presente. Rutgers University Press.  2001


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