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Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Janeiro de 2013 - Vol.18 - Nº 1

História da Psiquiatria

CRÔNICAS DA HISTÓRIA, OLMSTED E A HIGIENE SOCIAL

Walmor J. Piccinini

    A falta de conhecimento sobre a transmissão de doenças permitiu durante séculos que se atribuísse aos miasmas, a culpa pelas doenças que atormentavam a população, principalmente das cidades. Desde a Idade Média, atribuía-se aos vapores malignos – a teoria dos miasmas – a culpa pelas infecções. Esta teoria começou a ser abandonada a partir de 1854, quando o médico inglês John Snow , num trabalho de detetive médico, descobriu a origem de uma epidemia de cólera numa fonte de água contaminada em Londres.

    A descoberta de Snow é vista como o começo da Epidemiologia científica e da moderna teoria dos germes como causadores de doença. Enquanto a teoria dos miasmas corretamente via a conexão entre doença e condições sanitárias, tornou-se claro como consequência do trabalho de Snow que o mecanismo da doença não era o transporte por mau ar. Os trabalhos de Koch (1843-1910) e de Pasteur (1822-1895) mudaram o paradigma causal das doenças de miasmas para o de micro-organismos bacterianos e virais. Surge a Microbiologia.

    A higiene passa a ser uma questão social e surge o higienismo. Pasteurização dos alimentos, o tratamento da água com cloro, rede de esgotos, banheiros públicos, recolhimento do lixo. Não mais eram tolerados animais mortos nas ruas, prevenção da tuberculose com escarradeiras e muitas outras medidas profiláticas.

    As teorias higienistas não eram vistas como uma ameaça, embora também naqueles primórdios existissem descontentes com as normas impostas pelos governos. Uma das áreas de atuação que será objeto desta nossa crônica foi o urbanismo. As cidades foram abertas para a circulação dos ventos e purificação do ar.

   A ideia de minorar e enfrentar as péssimas condições de saúde nas cidades levou os governos a criar uma estrutura de fiscalização que determinasse o que se deveria fazer para coibir os males da florescente vida urbana.

“Em 1764, Wolfgang Thomas Rau publicou um livro "Reflexões sobre a utilidade e a necessidade de um regulamento de polícia médica para um Estado". Foi a primeira vez que o termo “polícia médica” foi empregado e consistia nos seguintes pontos: Registro dos diferentes fenômenos epidêmicos ou endêmicos. normalizar o ensino através de um controle pelo Estado dos programas de ensino e da atribuição dos diplomas; criação de um departamento especializado para coletar informações transmitidas pelos médicos, e para controlar a atividade dos profissionais da saúde junto à população; e, finalmente, a criação de um corpo de funcionários médicos competentes, nomeados pelo governo, para interferir diretamente com o seu conhecimento e sua autoridade sobre uma determinada região”.

(Citado por Miranda. C.A.) http://www.ufpe.br/proext/images/publicacoes/cadernos_de_extensao/saude/policia.htm

 Os princípios de funcionamento desta polícia médica estão registrados na obra de Johann Peter Frank, System einer vollständigem medicinischen Polizey, "Sistema duma polícia médica geral". Os volumes suplementares do sistema aparecem de 1822 a 1827 e tratavam, entre outros assuntos, da importância dos dados estatísticos, hospitais militares, doenças epidêmicas e venéreas. Pelo sistema de Frank, o médico deveria controlar todos os polos da vida, inclusive os mais íntimos, para o bem estar da comunidade. Assim, questões como a proteção às grávidas, a saúde infantil, a alimentação, o vestuário e a recreação das crianças deveriam ser objetos de intervenção por parte da medicina.

 Há referências sobre as condições da higiene das moradias, sua disposição física, sua edificação e das instalações de limpeza pública nas cidades e noutros lugares habitados.  Casas com pé direito acima dos 2 metros, janelas amplas para que entrasse o sol e circulasse o ar.

    A nova abordagem na relação saúde e sociedade foi desenvolvida, através das noções de polícia médica, medicina urbana e medicina da força de trabalho. Essas três etapas, segundo Foucault, permitiram o desenvolvimento da medicina social na Europa do final do século XVIII”.

    Frank propunha novo layout para as residências que deveriam permitir a entrada do sol e a ação dos ventos purificantes. Criou normas para as indústrias poluentes, matadouros, curtumes, tinturarias e quaisquer outras atividades poluidoras. Elas deverias se estabelecer fora das cidades. Sugeriu, também, uma maior fiscalização por parte das autoridades contra a prática de se jogar animais mortos e outros gêneros de "imundices" nas ruas.

 “Atribui grande importância à instalação no subterrâneo das ruas de um sistema de canalização, que deve ser suficientemente largo e com um declive conveniente para que o escoamento pudesse se processar corretamente. Pelo pouco que foi exposto da grande obra de Frank, podemos afirmar que o seu Sistema de uma polícia médica geral alicerçou as bases das concepções higiênicas do século XIX”. (Miranda, C.A.)

 

    Personagens da história que realizaram obras espetaculares são muitas e isso serve para comprovar que temos mais homens dignos do que tiranos e assassinos. Um desses personagens, pouco conhecido no Brasil, foi o arquiteto Frederick Law Olmsted. ( Hartford, Connecticut, 26 de abril de 182228 de agosto de 1903)  Se acrescentarmos que Olmsted foi o arquiteto paisagista que criou o Central Park de Nova Yorque e vários outros dentro dos Estados Unidos, começamos a ter uma noção do valor deste homem. Meu particular interesse na sua obra se deve a sua interpretação e aproveitamento das ideias médicas da época, muitas delas, depois se mostraram inadequadas, mas seu aproveitamento por Olmsted foi interessante. Este arquiteto criou o termo “pulmões da cidade”. A ideia médica girava em torno dos ares pútridos provenientes dos miasmas pantanosos como provocadores de doença. Em consequência foi proposta a ideia de criar áreas verdes para purificar este ar. Avenidas largas favoreceriam a propagação dos ventos e as árvores prestariam o serviço de purificar o ar. Drenagem das áreas pantanosas, criação de cursos d´água, lagos e estradas sinuosas onde as pessoas poderiam circular sem a preocupação com o tráfego. Outro aspecto que se relaciona com a psiquiatria, foi o fato de ele propor áreas envidraçadas onde o verde entraria nas casas. Segundo ele, como nos asilos psiquiátricos, isso levaria o sossego e a paz dentro das casas. Todas estas concepções estão presentes na construção das cidades americanas, depois adotadas por cidades europeias. Paris com suas grandes avenidas seguiu estes princípios. Haussmann foi o reformador de Paris e Pereira Passos, o homem que reformou o Rio de Janeiro, para alguns é o Haussmann brasileiro.

    As cidades europeias foram construídas dentro da ideia de cidades fortalezas. Tudo se concentrava intramuros, casas coladas uma nas outras, ruas estreitas e insalubres. O império romano era famoso pelo poder militar, mas também pela construção de estradas, de aquíferos e drenagem dos esgotos. Segundo alguns autores, Roma no ano um tinha melhor sistema de distribuição de água e esgotos que Paris e Londres em 1800.

A inspiração de Olmsted teria partido da Leitura de um Suíço, Zimmermann que descreveu em livro (Ueber Die Einsamkeit, or Solitude Considered, with Respect to Its Influence on the Mind and the Heart ) como enfrentou profunda melancolia com passeios num jardim “cultivado com gosto inglês, na periferia de Hanover. Despertada sua curiosidade, Zimmermann começou a pesquisar uma explicação sobre a habilidade da natureza em curar os distúrbios da mente. Ele concluiu que a paisagem tinha um poderoso efeito sobre a imaginação.

    Olmsted leu o livro de Zimmermann ainda menino, o redescobriu aos 22 anos e o guardou como um tesouro. Às teorias do medico suíço ele acrescentou o aprendizado sobre a importância da “influência inconsciente” ensinada por Horace Bushnell, que por muitos anos foi ministro de sua família em Hartford.

 

Description: http://www.jssgallery.org/paintings/Frederick_Law_Olmsted2.JPG

Frederick Law Olmsted 

John Singer Sargent -- American painter 

1895 

Biltmore House, Asheville, North Carolina 

Oil on canvas 

254 x 139.7 cm (100 x 55 in.)
Inscribed: (Lower right:) John S. Sargent

 Jpg: Friend of the JSS Gallery 

Filme sobre a obra de Olmsted: http://watch.thirteen.org/video/1887541606/

 

    Olmsted concluiu  que aprendeu muito de paisagismo com seu pai que era um observador silencioso e aos poucos combinou sua própria experiência com as ideias de Zimmermann e Buschnel para produzir sua própria teoria sobre o efeito da paisagem no homem. A paisagem entraria na mente do homem de forma inconsciente e produziria resultados sem acontecimentos espetaculares. Ela agiria de uma maneira que o próprio beneficiário não a perceberia. Olmsted destacava a influência sanitária no estilo do desenho paisagístico que refletia seu desejo que suas paisagens produzissem um efeito sobre todo o organismo humano.  "Service must precede art," he declared, "since all turf, trees, flowers, fences, walks, water, paint, plaster, posts and pillars in or under which there is not a purpose of direct utility or service are inartistic if not barbarous. … So long as considerations of utility are neglected or overridden by considerations of ornament, there will be not true art."

    Quem visita Nova Yorque não imagina a cidade sem seu parque e não imagina que tudo se devia a um jovem americano sonhador. Durante a guerra de secessão americana, durante dois anos Olmsted administrou o serviço de saúde do exército do norte. De início os militares não permitiam que entrasse nos acampamentos. Depois de uma fragorosa derrota no início da guerra passaram a aceitar suas propostas de melhoria das condições dos acampamentos, melhor alimentação para os soldados, hábitos sanitários e de higiene.

    Destacando a figura de Olmsted e suas noções de higienismo, podemos resumir que a microbiologia ajudou a fundar o higienismo cujo objetivo foi o de curar as doenças e prevenir epidemias. A Revolução Francesa, muito antes disso já tratava da assistência aos pobres e humanização dos serviços. Aí se destaca o tralho de Pinel.

        Nos anos que se seguiram a Segunda guerra mundial, com a população se alimentando melhor, os indivíduos aumentaram de estatura, houve uma seleção natural que podemos constatar nos esportes em geral. Hoje em dia, jogador de voleibol com menos de 1,95m é raro nos times de ponta. Nosso Pelé tinha 1,72 de altura e na época era considerado alto. Nos dias de hoje seria mais um baixinho a lutar por um lugar no meio dos altos. Esta pequena consideração é para mostrar que Darwin estava certo, há uma seleção natural. A natureza é eugênica. A ideia de acelerar este processo de seleção natural é que criou mais uma palavra maldita, a eugenia. Voltaremos ao assunto em futuras crônicas.


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