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Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

Novembro de 2013 - Vol.18 - Nº 11

Psiquiatria na Prática Médica

O NOVO SUPER HOMEM DA MODERNIDADE CONSTRUÍDO PELA TECNOLOGIA

Prof. Dra. Márcia Gonçalves*


Esta é uma reflexão inicial sobre as novas tendências de comportamento de nossa época, e tenta alinhavar um raciocínio na busca de compreensão sobre a questão: Existe algum lucro social secundário entre as pesquisas voltadas para o individualismo e consumismo estéticos?.

Em uma época em que a aparência física é altamente valorizada, tanto na busca de realizações profissionais como nas relações afetivas, e a paixão passa a ser mais um “objeto de desejo”, e sendo os hormônios a chave para a manutenção da forma e do comportamento é inevitável que eles passem a ser alvo de pesquisas que busquem a obtenção destes ideais culturais.

Oras, a beleza é um dos ingredientes para se confeccionar o “bolo” de ser apaixonável, sedutor, desejável, comestível, andrógino e sobretudo, perfeito!

 O modelo que mais se aproxima do ideal sedutor da atualidade é aquele onde narcisismo esbarra no conceito de ser completo onde  existe uma associação da beleza estética à auto-suficiência profissional e comportamental.

Esse modelo está refletido no modus vivendi, no comportamento social, na qualidade de vida e na saúde, ou seja, pessoas autônomas, livres, belas e com comportamento equilibrado é o modelo utópico do “new super-homem” da modernidade. Um modelo quase a la Nietchze.

Naturalmente as pesquisas e a tecnologia de consumo são um aliado imprescindível para se atingir a meta apoteótica de se tornar o “new super-homem”. As pesquisas científicas, rendidas a este novo critério de “necessidades imprescindíveis” já se aliaram a uma nova forma de consumismo, que objetivam a obtenção do ideal anatômico e comportamental.

Não podemos esquecer que além de uma reconstrução e transformação corporal, o novo modelo visa o equilíbrio emocional para que o “new super-homem” seja adaptado e tenha um comportamento cativante.

Comportamentos disfuncionais como déficit de atenção e hiperatividade, agressividade, alteração de humor, entre outros, destoam completamente do ideal comportamental, e as pesquisas em ritmo acelerado tentam encontrar substâncias que reorganizem o comportamento disfuncional, além das correções corporais que retardam, camuflam o envelhecimento.

O prazo de validade da beleza aumentou consideravelmente com as novas tecnologias. E, no novo modelo, Jesus Cristo jamais poderia ter o acesso de ira diante dos mercadores da fé.

No intento de se atingir a forma e o equilíbrio ideal um aliado essencial é a manipulação dos hormônios corporais, e estas pesquisas passam a ter um interesse ímpar na medida em que vão propiciar a almejada “forma perfeita”, bem como, estão sendo correlacionados com desequilíbrios do comportamento.

Nesta linha de pesquisa os anabolizantes e esteroides passam a exercer um papel de destaque, pois apresentam efeitos que estimulam o crescimento corporal e o aumento de massa muscular.

Vamos abrir um parênteses para uma rápida avaliação dos papeis exercidos pelos hormônios no metabolismo.

Estruturalmente, fazem parte da família dos hormônios esteróides, que são derivados do colesterol e se compõe por um esqueleto básico de quatro anéis de carbono. Além dos androgênios, fazem parte desse grupo a progesterona, o estradiol, o cortisol, a aldosterona, entre outros (Rubinow & Schmidt, 1996).

A testosterona é um esteroide que faz parte do grupo androgênio e é produzido naturalmente pelo corpo humano, feminino e masculino, mas são mais comumente conhecidos como o hormônio sexual masculino. Existem diferenças entre (anabolizantes) esteroides e testosterona e os efeitos no organismo humano

Esteroide é um tipo de composto, de quatro anéis cicloalcano que são unidos uns aos outros. São compostos orgânicos produzidos naturalmente no corpo. Os hormônios esteróides naturais geralmente são sintetizados a partir do colesterol nas gônadas e nas glândulas suprarrenais.

Eles aumentam a síntese de proteínas no interior das células, o que resulta na formação de tecido celular (anabolismo), especialmente nos músculos. Sua ação está associada ao crescimento reprodutivo, síntese de calorias, regeneração tecidual.

Esteróides artificiais (também conhecidos como corticosteróides), são usados no tratamento de doenças, tais como: processos inflamatórios , processos alérgicos, estimulação do crescimento e apetite, aumento de massa muscular, e manipulação das alterações da puberdade em casos de atrasos.

Também existem esteróides e testosterona sintéticos, e frequentemente são utilizados em academias para aumentar os músculos. Os chamados anabolizantes são derivados sintéticos da testosterona e foram desenvolvidos com o objetivo de minimizar seus efeitos masculinizantes, maximizando assim os efeitos sobre a síntese proteica e o crescimento muscular (Haupt & Rovere, 1984).

São compostos por dois grupos: derivados esterificados e derivados alcalinizados. Os primeiros (propionato de testosterona, enantato de testosterona e cipionato de testosterona) são produtos de administração intramuscular e permanecem ativos por dias a semanas, enquanto os componentes do segundo grupo devem ser tomados, por via oral, diariamente (Wilson, 1988).

Uma vez que tanto os androgênios como os anabolizantes não têm efeitos puramente androgênicos ou anabolizantes, o mais adequado é chamar a todos de esteróides anabólico-androgênicos (EAA) (“American College of Sports Medicine _ ACSM”, 1987), denominação que utilizaremos a partir desse ponto.

A via de administração dos esteroides são:  via inalatória, injetável, oral ou na forma de gel para aplicação tópica. O uso esteroides artificiais pode também apresentar efeitos colaterais graves,  tais como: danos hepáticos, hipertensão, calvície, insuficiência cardíaca, etc. 

Nos mamíferos, a testosterona é secretada principalmente nos testículos (em homens) e nos ovários (nas mulheres), enquanto pequenas quantidades são também secretadas pelas glândulas suprarrenais. Machos produzem testosterona 20 vezes a mais se comparado com o sexo feminino.

Nos homens, a testosterona desempenha um papel importante no desenvolvimento de tecidos reprodutivos masculinos como os testículos.

Existe uma íntima correlação entre testosterona e sintomas psiquiátricos... Já foram amplamente descritos os transtornos de humor como depressão, alterações de humor rápidas e irritação. A agressividade e os pensamentos suicidas também são descritos.

Nas mulheres, elevadas quantidades de testosterona podem afetar o ciclo menstrual, o ganho de peso e pode causar a perda de cabelo,  entre outros.

Já foi observada uma correlação entre o transtorno de personalidade e testosterona.

Além dos níveis de testosterona, aspectos biológicos que não são de natureza genética, também interferem no desenvolvimento da personalidade. Como exemplo, um comportamento de maior agressividade pode estar relacionado a níveis maiores do hormônio testosterona. Por outro lado, níveis aumentados de serotonina podem gerar um comportamento mais sociável. (Morana.H;.C.P.-2006).

Outra importante linha de pesquisa correlaciona o TDAH (transtorno de déficit de atenção e hiperatividade) com altos níveis de testosterona. A incidência é maior em meninos, chegando a 80% dos casos, do que em meninas, e por esse motivo pode estar relacionado ao hormônio masculino, testosterona. Em alguns casos, meninas com TDAH apresentam gestos masculinos e fala grossa como e um aumento nessa taxa de hormônio.

Uma linha interessante de estudo é aquela que correlaciona hormônios como a testoterona com a compreensão do “processo” e entendimento da “paixão”.

Segundo pesquisadores a paixão pode ser um indicador de saúde mental. O psiquiatra James Leckman da Universidade de Yale (USA), afirma ainda que existem pessoas que nunca se apaixonarão; é o caso de autistas que desconhecem os sentimentos de ligação com outro ser por exemplo.

A psiquiatra e pesquisadora italiana Donatella Marazziti apresenta um estudo científico, realizado na Universidade de Pisa, em que explica mudanças nos níveis de testosterona onde o homem apresenta uma diminuição e a mulher um aumento deste hormônio enquanto estão apaixonados.

A estudiosa refere um equilíbrio hormonal que auxilia na aproximação entre os indivíduos; com menos testosterona os homens ficam menos agressivos e as mulheres mais confiantes. Trata-se de alterações químicas e hormonais e podem durar de seis meses a três anos.

Os androgênios são hormônios que têm como função a diferenciação, o crescimento e o desenvolvimento do trato reprodutivo masculino, assim como o desenvolvimento e a manutenção das características sexuais secundárias (Veldhuis, 1991).

Desta forma podemos inferir que muitas das pesquisas atuais estão à disposição da criação do ser “perfeito e apaixonável”, num momento adônico, narcisista dos padrões sociais, onde a ciência sucumbe impotente diante do consumismo e dos padrões.

Como tudo cabe no espaço da relatividade, não perdemos a esperança de o verdadeiro espirito da ciência que objetiva o bem comunitário e humanitário; a sociedade acaba por ter um aproveitamento e um lucro secundário na melhoria da qualidade de  vida de pessoas com deficiências reais através dessas descobertas inicialmente voltadas para a vaidade individual.


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