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Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

Junho de 2013 - Vol.18 - Nº 6

Psiquiatria na Prática Médica

EFEITOS ORGÂNICOS E PSICOLÓGICOS DA MACONHA

Prof. Dra. Márcia Gonçalves


Introdução

Cannabis é o gênero botânico de algumas plantas, das quais a mais famosa é a Cannabis sativa, da qual se produz o haxixe e a maconha, que contém 489 compostos naturais, como o Δ⁹ - Tetraidrocanabinol (Maconha), canabidiol (CBN), canabigerol (CBG) e outros. 1

A intoxicação aguda da maconha é resultado da inalação do THC. Quando fumado, o THC é rapidamente absorvido pelos pulmões, chegando ao cérebro em poucos minutos. O pico em forma de leve elação (euforia) pode acontecer em 10 a 30 minutos e a pode durar por até 4 horas.

Período inicial de euforia seguido de disforia, sonolência e risos espontâneos; perda da discriminação de tempo e espaço; diminuição da coordenação motora; prejuízo da memória recente; falha nas funções intelectuais e cognitivas; retardo na capacidade de percepção sensorial, intensificando as sensações, os sentidos e exagerando a sensibilidade; taquicardia; olhos vermelhos (hiperemia das conjuntivas); alterações da  pressão sanguínea; aumento do apetite e secura da boca.

O efeito imediato é  a sensação de estar “alto”, com euforia, sensação de prazer, diminuição da ansiedade, relaxamento e aumento da sociabilidade.

Pode ocorrer, efeito contrário com desprazer com  ataques de pânicos, profunda sensação de tristeza, crises de ansiedade e isolamento do grupo.

Outros sinais psicológicos que podem ocorrer durante a intoxicação são: Pensamentos míticos; Distorções do tempo; Perda da memória recente; Diminuição da atenção e concentração; delírios persecutórios; Grandiosidade; Despersonalização

Além dos efeitos psicológicos, o consumo de maconha também desencadeia uma série de efeitos físicos que incluem: Taquicardia (aceleração dos batimentos cardíacos); hipertensão , entretanto em doses altas pode causar hipotensão; taquipnéia; hiperemia conjuntival (olhos vermelhos); Boca seca; hiperfagia; letargia e redução dos reflexos.

As alterações da concentração, dos reflexos e diminuição da atividade motora podem durar até 24h, e  podem estar presentes nos usuários que vão dirigir ou trabalhar no dia seguinte, apesar dos mesmos, muitas vezes, não terem consciência disto. Este fato pode ser especialmente perigoso em profissionais como pilotos, cirurgiões, motoristas e pessoas que manuseiam maquinaria pesada.

A liberação de adrenalina, o aumento da frequência cardíaca e a vasodilatação aumentam o consumo de oxigênio pelo coração podendo desencadear eventos isquêmicos em pessoas com doença cardíaca prévia. Para em pessoas com angina ou doença coronária, o aumento do nível de carboxiemoglobina e a cardioaceleração provocada pela maconha pode levar ao infarto fulminante

O risco de infarto para cardiopatas é 5x maior nos primeiros 60 minutos após o seu consumo. O consumo da maconha também pode desencadear arritmias cardíacas como a fibrilação atrial.

A fumaça da maconha possui 4x mais alcatrão e 50% mais substâncias carcinogênicas que o cigarro, além de ser fumado sem filtro e ser muito mais tragado, o que causa uma maior inalação de partículas irritativas para as vias aéreas e pulmões. O consumo de 3 cigarros de maconha parece equivaler ao de 20 cigarros comuns. Pessoas que fumam mais de 3 cigarros de maconha por dia costumam apresentar problemas respiratórios semelhantes aos fumantes comuns, incluindo tosse, catarro e diminuição da capacidade para exercícios. O uso crônico de maconha esta relacionado a um maior risco de DPOC (enfisema pulmonar/bronquite).

A maconha é lipossolúvel e ligada às proteínas plasmáticas (97 a 99%),  lipoproteínas pKa = 10,6; coeficiente de partição octanol / água em pH neutro da ordem de 6000. Após absorção é distribuído para tecidos bem vascularizados como cérebro, fígado, coração, rins e pulmões.

Então é redistribuído acumulando-se em tecidos menos vascularizados como o adiposo (reservatório) – [ ] 1000x maior que a plasmática.

Cruzam a placenta e são secretados no leite. O THC-COOH é o principal produto de biotransformação urinário, sendo um biomarcador de exposição à Cannabis

Em média, o tempo em que é possível ser detectado após exposição para fumantes eventuais é de 2 a 4 dias (positivo acima de 15 ng / mL). Para fumantes frequentes esse tempo se estende para um mês e, em casos excepcionais, três meses

Via de ação: Nós temos receptores CB e CB que são da família dos GPCR, O  CB (SNC) leva à inibição dos canais de cálcio operados por voltagem, diminuindo a liberação de neurotransmissores e abertura dos canais de potássio, diminuindo a transmissão de sinais, e o CB (Sistema Imune e Hematopoiético) que está envolvido com a  imunossupressão.

Os efeitos tóxicos à longo prazo :

   No sistema pulmonar ocorre redução do número de bronquíolos, com obstrução da entrada de ar; O sistema cardiovascular fica sobrecarregado para compensação.; diminuição da resposta imune; Redução dos níveis de testosterona; Diminuição da motilidade dos espermatozóides e infertilidade; Redução da libido; Impotência; Alterações do ciclo menstrual; Ginecomastia (crescimento de mamas em homens) ;Galactorréia (secreção anormal de leite pelas mamas); Alterações de memória; Aumento da incidência de periodontites.

Pacientes portadores de hepatite C que fumam maconha apresentam maior risco de evoluírem para cirrose e câncer de fígado

O uso crônico de maconha também aumenta os riscos de se desenvolver doenças psiquiátricas como esquizofrenia e depressão

Existe hoje uma síndrome chamada em inglês de “chronic cannabis syndrome”. Descreve usuários pesados de longa data que apresentam dificuldades cognitivas e menores conquistas profissionais e acadêmicas. Normalmente são pessoas com menos ambições profissionais e que acabam em empregos que exigem menor capacidade de raciocínio e concentração.

Apesar de todos esses problemas, a maconha também pode ser usada com agente medicinal. O THC e derivados podem ser encontrado em comprimidos, inaladores e adesivos para pele. Seu uso inclui: Tratamento de vômitos incoercíveis, Tratamento de soluços de difícil controle, tratamento da caquexia em SIDA (AIDS),  Tratamento do Glaucoma , Redução dos sintomas da esclerose múltipla.

 O consumo de maconha na gravidez pode levar ao risco de má-formações, abortos ou partos prematuros. Devido a falsa crença da inocuidade da maconha, esta é a droga ilícita mais usada durante a gravidez. Anormalidades comportamentais no recém-nascido são comuns e respostas alteradas à estímulos com choro agudo e tremor acentuado são outras consequência do uso de maconha..

Em gestantes que fumam mais de 6 cigarros de maconha por semana, os filhos apresentam, a partir dos 2 anos de idade, menor aptidão verbal e menor capacidade de memória que outras crianças. Estas crianças também apresentam maior risco de hiperatividade e depressão. Existe também trabalhos que mostram um maior risco de leucemias em crianças cujas mães fumaram cigarros comuns e maconha durante a gravidez

A tolerância é atribuída a uma des-sensibilização dos receptores; a analgesia tem tolerância de 3 a 7 dias, ao passo que efeitos na memória ou neuroendócrinos são extremamente resistentes, necessitando de semanas a meses para desaparecerem.

 A Síndrome de Abstinência é caracterizada por  desejo veemente pela maconha, diminuição do apetite, dificuldade para dormir, perda de peso, agressão, raiva, irritabilidade, inquietação e sonhos estranhos.

Referências

Moreira FA, Crippa JA. The psychiatric side-effects of rimonabant. Rev Bras Psiquiatr. 2009;31(2):145-53.         

Ashton CH. Pharmacology and effects of cannabis: a brief review. Br J Psychiatry. 2001;178:101-6.         

http://www.ebah.com.br/content/ABAAAemLgAB/drogas-abuso

Rev. Bras. Psiquiatr. vol.25 no.3 São Paulo Sept. 2003

http://www.mdsaude.com/2008/09/marijuana.html

·         Prof. Dra Márcia Gonçalves – Coordenadora do IMG (Instituto Marcia Gonçalves – Psiquiatria e Saúde Mental

Email: [email protected]

www.institutomarciagoncalves.com.br


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