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Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

Maio de 2013 - Vol.18 - Nº 5

Psiquiatria na Prática Médica

ORGANICIDADE E CULTURA EM PSIQUIATRIA
UM OLHAR EPISTEMOLÓGICO

Prof. Dra. Márcia Gonçalves


Transtornos Mentais continuam apresentando uma taxa de prevalência em torno de 20% da nossa população, ocupando o quarto lugar nos gastos com internação do Sistema Único de Saúde (SUS), abaixo apenas das doenças Cardiovasculares; Gravidez, Parto e Puerpério e Doenças Sistema Respiratório.

Nós sabemos que os valores culturais e o sistema social influenciam a manifestação da doença mental e deveriam participar também do seu processo de recuperação
A interface entre o que é aceito como uma expressão cultural e a manifestação totalmente desregrada da doença mental e inadequação comportamentais é, a principio, o que pode ser o objeto de estudo da psiquiatria transcultural.

As manifestações psiquiátricas nas diferentes culturas utilizam disciplinas como psiquiatria epidemiológica, antropologia médica e psicologia transcultural para o entendimento destas manifestações.

Mas, apesar do olhar multifatorial O enfoque biológico sobre os sintomas mentais, através de medicações, está longe de ser a solução para compreensãos dos fenômenos comportamentais, e igualmente ineficiente é o enfoque exclusivamente psicológico.
A proximidade da psiquiatria com a clinica médica após as vastas pesquisas sobre neurociência determina o modelo curativo e farmacológico, como raciocínio para busca do equilíbrio, e esta forma de dimensionamento da sintomatologia psicopatológica, apesar de não abarcar todas as nuances dos meandros psicológicos, tem auxiliado sobremaneira na qualidade de vida, e no pragmatismo exigido na dinâmica atual do campo social.

Um dos fatores relevantes para o sucesso do modelo médico da psiquiatria também é A questão financeira , que em países e comunidades com vulnerabilidade social passam a ser um fator limitante para um trabalho psicoterápico individualizado.

A escassez de recursos financeiros que possibiletem a contemplação toda a gama emocional envolvida em manifestações psicopatológicas atraves de psicoterapias dão abertura às manifestaçoes religiosas e a ritos culturais, que muitas vezes, é o único acesso de uma escuta real de muitos enfermos.

Quem não tem poder aquisitivo não tem possibilidade de realizar um tratamento individualizado, principalmente se ele for longo.

 

Entretanto, paradoxalmente, comunidades com menos recursos acabam sendo mais salutares para portadores de patologias mentais.

Em 1998 Bassit e Louzão Neto mostram que você tem maior chance de ficar deprimido ou louco num país de primeiro mundo do que num país como Brasil, Peru, Índia, apesar do melhor acesso da população daqueles países aos serviços de saúde.

Num outro estudo, onde foi realizado um segmento de 5 anos do IPSS (International Pilot Study of Schizophrenia) mostrou-se que o curso do quadro esquizofrênico foi mais benigno em países "subdesenvovidos", com maior número de remissões completas e menor número de pacientes cronicamente psicóticos. (BASSITT & LOUZÃO NETO, 1998).
Isso é um tema instigante, pois diante de conclusões epidemiológicas como as acima referidas, notamos que os valores culturais acabam sendo fatores determinantes no prognóstico e na qualidade de vida das pessoas acometidas por transtornos mentais.

Se diante de fatos não existem argumentos o que nos intriga é exatamente o verdadeiro ponto de convergência onde a cultura tangencia a patologia e o físico, e onde está este ponto de encontro entre o físico e o social/cultural, que tem uma ação tão determinante na melhora ou na piora de um quadro psiquiátrico.

 

Hoje,sabemos, cientificamente, que este ponto de tangência tem suas bases estruturadas na neurotrasnmissão e modulação neuronal.

Desta maneira se apesar de não termos ainda toda a compreensão dos mecanismos da neurotransmissão, já podemos constatar que um dos mecanismos mais importantes da regeneração neuronal, que é a neuroplasticidade, já desponta como carro chefe das explicações etiológicas da doença mental.

 

Além disso a neuroplasticidade abre uma brecha relevante para a compreensão de como e onde a cultura, as vivências pessoais e individuais interferem neste processo de neurotransmissão, ou seja, aponta o ponto de intersecçao entre o orgânico e o cultural.

Para tentar explanar esta questão temos que enveredar pelos conceitos de rito, cultura globalizada, e neurotransmissão.

Sobre os ritos, nos mantendo nos limites sociologicos, temos os os "ritos de passagem", e podemos inferir que a sociedade empresta a seus membros, uma forma de amenizar a ansiedade frente a questões desconhecidas, como: de onde viemos e para onde iremos após a morte.

No rito, a história de uma sociedade é remodelada e atualizada numa linguagem simbólica, e a estrutura social é relembrada e reconstruída durante a execução ritualística.

Nos rituais, Os membros de uma sociedade imergem nas danças, cantos, vestes, pinturas e outras expressões, e desta forma modelam o significado e reconstroem a história do povo.

Os rituais constituem um alicerce simbólico de toda uma vivência coletiva,que foi construída pelo povo, aceita, reverenciada e agem como uma sensação acolhedora de união, delineando , desta forma o conceito de pertencimento.

O pertencimento e o aconchego do grupo também possui força simbólica que alivia as inseguranças e atuam na intersecção dos aspectos psicológicos e possivelmente nos orgânicos.

É por isso que o rito se torna eficiente. As sociedades se modernizam, mas não abandonam totalmente alguns de seus ritos.

Alguns autores, com ampla visão dos processos que podem acarretar um distúrbio psicopatológico, atribuem á cultura os mecanismos compensatórios da sociedade frente a sucessivos choques e perdas.

Um ponto crucial na modernidade é o que Barreto (1993) explicou que, a medida que os mecanismos culturais estão sendo destruídos com o advento da modernidade, os tratamentos biológicos se impõem.

Ainda esse autor alerta para a importância de se considerar os aspectos culturais no tratamento para recuperação e integração do indivíduo.

O luto, por exemplo, é um ritual da qual a sociedade moderna vem deixando de dar o seu devido valor.

É através do luto, que o indivíduo expõe sua dor para a sociedade e tem a chance de seu compadecimento, como também de receber dela a experiência para enfrentar a importante perda.

Sob um outro olhar , se apreciarmos o modelo psiquiátrico num continuum histórico veremos que em 1899, temos um direcionamento da neurologia para a psiquiatria, e em 1999, da psiquiatria para a neurociência.

Atualmente este movimento bidirecional segue os passos da cientificidade e começam a ser descartadas as antigas crenças destituídas de metodologias replicáveis para uma nova forma de avaliar e descrever os sintomas comportamentais, ou seja, já se pode inferir que existe uma intersecção do orgânico influenciando no comportamental e vice versa.

A plasticidade neuronal amplamente citada por Sthal no capitulo do livro Psicofármacos em 2010, e em milhares de trabalhos em todo o mundo, é uma área de estudo tão promissora, que mesmo sem todas as pedras do quebra cabeça, já consegue esboçar uma explicação sobre a tangencialidade das vivencias psicológicas e aquisição cultural.

Assim, a neuroplasticidade determina modificações neuronais que amenizam a sintomatologia psiquiátrica. Além disso, podem resgatar todo o comportamento individual, e a qualidade de vida, através dos mais diversos estímulos.

Os estímulos que influenciam na plasticidade neuronal e o desenvolvimento de novas redes neuronais podem ser diversos, e, como exemplo, podemos citar as psicoterapias, a aprendizagem formal e de artes, e o uso de psicofármacos .

Talvez tudo isso seja o início do fim deste movimento pendular ao qual a psiquiatria parecia estar condenada a viver, em função de estar o objeto de seus estudos efetivamente dois campos diversos, o orgânico e o simbólico.

A neuroplasticidade, como consequência do aumento da rede neuronal estimulados pelos diversos fatores culturais e sociais pode ser o ponto de intersecçao que diminui o abismo entre a psiquiatria organicista versus psiquiatria "dinâmica", a psicogênese contra a organogênese da doença mental.

O desafio que devemos enfrentar é justamente poder integrar estes dois campos, o que nos permitirá utilizar os diversos conhecimentos por eles produzidos.

No momento pendular em que vivemos, com a primazia quase exclusiva do tratamento farmacológico, a escuta do sujeito que sofre, do paciente, estava quase totalmente abandonada. A ciência da interface entre a recuperação da rede neuronal, desencadeada pelas psicoterapias, aprendizagem, etc, reafirmam a importância da cultura e de todos os processos sociais e simbolicos, como a história, as religiões , os rituais, a educação no processo de recuperação das patologias psiquiátricas.

A pesquisa da plasticidade neuronal tem como metodologias a neuroimagem funcional e as novas, entre outras e estas descobertas tecnológicas lançam luzes sobre qual caminho as pesquisas psiquiátricas vai se deslocar

Um artigo de Fernando Portela Câmara, intitulado Psiquiatria Transcultural Brasileira: Seitas Espiritistas e Saúde Mental Coletiva, refere:

“O saber psiquiátrico, como todo o saber médico em geral, é hoje essencialmente um saber acadêmico gerado em sua maior parte nos países do Primeiro Mundo, com paradigmas espelhados em sua realidades e teorias socioculturais e econômicas que influem nos modelos médicos assistenciais e nas teorias aplicadas à saúde mental.”

Assim, epistemologicamente falando, no dia de hoje a resposta para a questão do ponto de convergência entre a cultura e a organicidade aponta para a neuroplasticidade.

Outras vias de estudo apontam para os estudos genéticos e em pouco tempo devem  fazer parte das considerações sobre a etiologia das doenças mentais.

Mas naturalmente estas idéias ainda precisam ser refletidas com muita parcimônia.


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