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Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

Fevereiro de 2013 - Vol.18 - Nº 2

Psiquiatria na Prática Médica

CRONOBIOLOGIA E PSIQUIATRIA
SONO E QUALIDADE DE VIDA

Prof. Dra. Márcia Gonçalves


 O estudo do sono e vigília fazem parte de uma área muito promissora de pesquisa: a Cronobiologia. Um conceito fundamental da Cronobiologia é o de Organização Temporal Interna.1,2

O professor Menna Barreto da USP sintetiza-se a seqüência de eventos orgânicos que compõem um dia de um organismo. “Em linhas gerais, ocorre o seguinte: algum tempo depois de iniciarmos nosso sono noturno, aumenta a produção do hormônio do crescimento, enquanto isso, já existe uma concentração elevada de outro hormônio, a melatonina, e as diversas fases do sono vão se sucedendo até um pouco antes de acordarmos, quando nossa temperatura corporal chega a seus valores mais baixos e um outro hormônio, o cortisol, tem sua concentração aumentada”. 1,2,3,4

O comportamento de dormir regularmente durante o dia, denominado cultura de sesta, é influenciado por fatores circadianos, culturais e ambientais. O fato de uma criança poder ou não cochilar dentro de uma escola ou numa creche, quando tem necessidade, influencia diretamente o seu nível de atenção e traz conseqüências para o seu desempenho e a aprendizagem. 5,6,7

Estudos descrevem um melhor desempenho após o sono, quando comparado com a vigília, mostrando melhoras na eficiência de 4% a 46% na memória para pareamento de palavras após uma sesta. 8

Ricardo Cury, ortopedista e professor da faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo refere que "O benefício do repouso e da recomposição, ganhos com o cochilo após as refeições, é muito importante para quem pratica esportes, tanto a força empregada pelo indivíduo nos exercícios quanto a energia gasta estarão renovadas depois deste descanso", Numa próxima disputa ou mesmo nos treinamentos diários, o atleta terá mais energia e perceberá facilmente a melhora na performance. 8

Do ponto de vista psicológico, cochilar depois das refeições também é positivo. "A quebra da rotina e a sensação de estar pronto para retomar as responsabilidades do dia-a-dia, acabam tornando o cotidiano mais prazeroso",. Além de privilegiar o descanso físico, as propriedades anti-estresse permitem que a calma, a concentração, o foco e a atenção estejam garantidos durante os treinamentos. 8

Estudos publicados no início de 2007, na revista exaltaram a eficácia do sono vespertino contra o estresse e também na prevenção de distúrbios cardíacos. Nos países que adotam a "siesta" há muito menos registros de mortes por problemas do coração, como o infarto ou as isquemias e melhora a memória. 9

Uma outra  grande preocupação do cochilo esta no ganho de peso, mas essa possibilidade está ligada ao tipo de alimento consumido, e não necessariamente ao sono. Manter uma dieta equilibrada, fracionar as refeições durante o dia e evitar a ingestão de altos índices de gordura já são medidas suficientes para trabalhar o metabolismo sem riscos de ganho de peso. 9

Uma pesquisa realizada nos Estados Unidos mostrou que dormir até 30 minutos depois do almoço estimula a memória, o raciocínio e até a concentração.  Em São Paulo, existem empresas apostando na ideia para aumentar o rendimento de seus funcionários. Segundo Luiza Nizoli, diretora de uma empresa que adotou o método, no primeiro ano o ganho de produtividade na empresa foi de 30%.10

Até um cochilo rápido, em torno de cinco minutos, melhora a eficiência da memória em relação à vigília. Já uma soneca mais prolongada, de 35 minutos, mostra resultados muito superiores. Curiosamente, uma série de experimentos mostra que o sono beneficia a memória independentemente da hora em que se dorme, o que destaca o potencial cognitivo do cochilo após as refeições.9

e De uma forma geral estudos voltados para a cronobiologia demonstram que o sono contribui para uma melhor qualidade e vida 9

Referências

1.                    MENNA-BARRETO, L.  WEY, D. Ontogênese do sistema de temporização: a construção e as reformas dos ritmos biológicos ao longo da vida humana. Psicol. USP [online]. 2007, vol.18, n.2, pp. 133-153. ISSN 0103-6564.  doi: 10.1590/S0103-65642007000200008.

2.                    Weissbluth, M. (1995). Naps in children: 6 months - 7 years. Sleep, 19(2), 82-87.   

3.                   Koch, P., Soussignan, R., & Montagner, H. (1984). New data on the wake-sleep rhythm of children aged from 2½ to 4½ years. Acta Paediatrica Scandinavica, 73, 667-673.

4.                   Louzada, F., & Menna-Barreto, L. (2004). Relógios biológicos e aprendizagem. São Paulo: Editora do Instituto Esplan.   

5.                   Dahl, R. E. (1996). The impact of inadequate sleep on childrens daytime cognitive function. Seminars in Pediatric Neurology, 3(1), 44-50.    

6.                   Wey, D (2002). Ciclo vigília/sono de crianças: transição da Educação Infantil para o Ensino Fundamental. Dissertação de Mestrado. Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo.

7.                   REIMÃO RUBENS, Souza José Carlos, Gaudioso Carlos Eduardo Vilela, Guerra Hellen Da Costa, Alves Andrea Das Chagas, Oliveira Jolene Cristina Ferreira et al . Siestas among Brazilian native Terena adults: a study of daytime napping. Arq. Neuro-Psiquiatr.  [serial on the Internet]. 2000  Mar [cited  2011  May  04] ;  58(1): 39-44. Available from: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0004-282X2000000100006&lng=en.  doi: 10.1590/S0004-282X2000000100006

8.                   http://endorfinomanos.blogspot.com/2008/08/cochilo-ps-refeio-aumenta-rendimento-as.html

9.                   Juliana saporito: http://correndocorridas.blogspot.com/2009/04/cochilo-pos-refeicao-aumenta-rendimento.html

10.                Dormir após o almoço melhora o rendimento no trabalho http://www.uae.com.br/index.php/diversos/209-dormir-apos-o-almoco-faz-bem-a-memoria

 

** Coordenadora da Disciplina de Psiquiatria da UNITAU

Email: [email protected]


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