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Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Outubro de 2013 - Vol.18 - Nº 10

Psicologia Clínica

INTERFERÊNCIAS DE CARACTERÍSTICAS DOS PAIS NO COMPORTAMENTO DOS FILHOS: REFLEXÕES SOBRE PROTEÇÃO E PROMOÇÃO DE AUTONOMIA

Braz Werneck Filho
Terapeuta Cognitivo-Comportamental
Terapeuta Familiar
Mestre em Psicologia (UFRJ)


Resumo

O objetivo deste trabalho é trazer para discussão a possível interferência que características parentais exerçam sobre o comportamento dos filhos. Para ilustração das ideias aqui expostas, tem-se a apresentação e discussão de dois casos clínicos. Pretende-se discutir de que maneira a proteção contra as frustrações que um pai ou mãe às vezes dá aos seus filhos pode comprometer a aquisição de uma autonomia ou mesmo, o amadurecimento da criança. Com contraponto à ideia da figura protetora, trago a ideia da figura autonomista, como figura que não tenta poupar o filho dos dissabores.  Vale ressaltar que o estudo tem limitações diversas e não pretende chegar a uma conclusão radical, pois é um trabalho que se propõe a suscitar discussões, principalmente na questão da relação de pais e mães com os limites de seus filhos. Pode-se perguntar o que é mais saudável: proteger os filhos das quedas ou deixar que eles lidem com elas, aprendendo assim, a se levantarem sozinhos.

 

Descritores: terapia familiar, limites, autonomia, terapia infantil.

 

Introdução

Frequentemente, no ambiente clínico, aparecem questões dos pais em relação ao comportamento de seus filhos. Em alguns casos, o psicólogo, ou outro profissional especializado, é colocado no lugar de pessoa que vai fazer com que a criança modifique o comportamento e não traga mais tantas angústias ao convívio da família. Em outras palavras, o filho aparece como uma pessoa que precisa ser corrigida em seus comportamentos. Naturalmente, um tratamento que envolva a correção de comportamentos inadequados, trará em seu desenvolvimento a experimentação de frustrações, como se vê, por exemplo, na construção de limites. Nesse ponto venho observando, ao longo de anos no trabalho com crianças e adolescentes, que a ideia de que o filho irá se deparar com alguma situação frustrante não é simples para um pai ou uma mãe, constituindo-se em um momento chave para todo o desenvolvimento do tratamento.  

            O que se pretende neste pequeno estudo é propor uma reflexão sobre o modo como os pais lidam com a possibilidade frustração dos filhos. Os atendimentos e os processos pelos quais tenho passado com crianças, adolescentes e seus pais, apontam para a hipótese de que o desenvolvimento de comportamentos inadequados por parte da criança e do adolescente seja influenciado pela relação que a figura parental estabelece com a possibilidade iminente de seu filho se deparar com as frustrações da vida.  

            Pretendo ilustrar as ideias aqui propostas com a apresentação de fragmentos de dois casos clínicos[1]. Além disso, partirei de uma reflexão sobre termos como proteção e autonomia para discutir sobre as ideias que os pais possuem sobre esses processos na educação de seus filhos e como essas ideias podem interferir diretamente na construção de comportamentos inadequados.

 

Primeiro Caso Clínico: o menino que não brigava

João, de 12 anos, chegou ao consultório acompanhado por seu pai e sua mãe. A queixa que os pais traziam era sobre os comportamentos impulsivos e agressivos do menino[2]. Segundo os pais, ele era um menino muito tranquilo, mas, quando era admoestado, a primeira coisa que fazia era apresentar uma pequena explosão de raiva. Xingava a mãe ou o pai, que geralmente eram as pessoas que estavam por perto, e depois voltava a se acalmar, muitas vezes pedindo desculpas . Assim como aparecia, a explosão ia embora  menos de um minuto depois.

            O menino começou a apresentar o comportamento em casa, alguns anos antes, na sua relação com o irmão mais velho. Os pais só procuraram um  especialista quando ele começou a apresentar problemas na escola. Suas notas estavam baixas e ele corria sério risco de perder o ano. Além disso, os pais relataram que ele estava cada vez mais isolado da companhia de outras crianças. Diziam que o seu filho estava virando uma pessoa que ninguém queria por perto.

            Alguns dados me pareceram, desde o início, muito interessantes no decorrer dos problemas enfrentados pelo menino e pela família. Um deles era o tempo que levaram desde o surgimento dos problemas até a procura do profissional. João apresentava um comportamento muito agressivo com o seu irmão, que tinha cinco anos a mais do que ele. Em alguns momentos, João se atirava sobre o irmão mais velho, Bruno, e começava a desferir socos cegos nele. Bruno, algumas vezes, tinha paciência suficiente para apenas conter o irmão fisicamente até que o rompante de raiva cedesse. Outras vezes, no entanto, Bruno revidava as agressões de João, tendo chegado a machucar o irmão menor algumas vezes. Sempre que Bruno tomava uma postura ativa em relação às agressividades de João, a mãe intervinha e brigava com Bruno, dizendo que ele não podia bater no irmão mais novo. Bruno tentava argumentar que não estava batendo, apenas segurando, mas a mãe, via de regra, deixava o mais velho de castigo e se punha a consolar o mais novo. Essa situação se manteve por cerca de dois anos, até que João aparecesse em casa com um ferimento na testa, provocado, segundo a mãe, por uma covarde agressão que sofrera de um colega de escola. O detalhe era que o colega que agredira João era três anos amis novo e muito menor. Em minha percepção, a mãe e o pai deram a entender que tentaram lidar com o problema sem admitir envolver algum profissional no caso, talvez por medo do que isso pudesse provocar na família. Um filho em tratamento psicológico ou psiquiátrico não era uma ideia muito bem aceita por eles.

            O segundo dado que muito me chamou a atenção foi o modo como a família se comportava nas sessões comigo. Alguns fatos são dignos de nota. O filho mais velho nunca foi a nenhum dos atendimentos. A mãe sempre justificava a ausência do adolescente, dizendo que ele não gostava da ideia e que tinha muitos compromissos. No início, o pai esboçou discordar da justificativa levantada pela mãe, mas logo depois assumiu o discurso dela, como se tentasse proteger o seu filho mais velho ou a própria esposa de uma confrontação comigo. Isso se arrastou por todo o tempo do tratamento, cerca de dez meses, e eu não cheguei conhecer Bruno.

O comportamento de cada um dos membros da família era bastante significativo. O pai raramente falava e nunca discordava abertamente da mãe do menino. A mãe era a que sempre falava e demonstrava os sentimentos. Dizia que estava muito preocupada com o filho e que não estava vendo melhoras em seu comportamento. Sempre mantinha uma atitude cooperativa em excesso. Demonstrava alguma irritação quando eu pedia que ela me deixasse a sós, por alguns momentos com o menino e o pai. Sempre fazia muitas perguntas teóricas sobre o tratamento e declarava que tinha condições de ajudar mais do que estava ajudando. Nesses momentos, eu sinalizava que qualquer ajuda que eu precisasse dela eu pediria, o que lhe fazia ficar visivelmente contrariada. Apesar disso, ela nunca reclamou abertamente do meu trabalho, assim como nunca estabeleceu um vínculo de confiança comigo.

Mas o comportamento do menino era sem dúvida o que mais chamava a atenção. Todo o seu histórico de agressividade e de inadequação parecia uma invenção quando ele estava dentro do consultório. O menino que fora apresentado a mim como um menino que brigava muito com a família e com os colegas de escola, nunca brigou comigo, nunca me enfrentou e sempre acatou as normas que foram ditadas por mim.  Sempre adequado em seu comportamento, falava da preocupação que sentia com a dificuldade de controlar a raiva. Queria muito melhorar e parar de agredir o irmão, porque o irmão era uma pessoa querida e também porque ele acabava apanhando dele, muitas vezes. Quando os atendimentos aconteciam com seus pais (no início quinzenalmente, e depois, uma vez a cada quatro sessões) ele parecia constantemente inibido e algo incomodado. Nessas situações, geralmente acontecia uma situação em que ele se sentia acuado pela mãe, nunca pelo pai. Ele começava a demonstrar uma atitude irritadiça e a mãe se punha a criticá-lo. Nos momentos em que o limite era necessário, a mãe sempre se mostrava angustiada e aparentemente temerosa, possivelmente de ser avaliada negativamente em sua função. Em pouco tempo, o menino passou a mostrar que tinha inteiras condições de acatar um limite que lhe fosse explicado e não apenas imposto, mas tinha dificuldades quando mãe ou pai não lhe explicavam o motivo de qualquer limite. No caso de sua relação comigo, foi possível estabelecer um combinado de que eu não iria explicar sempre o motivo do limite apresentado. A regra básica que funcionava entre mim e ele dizia que ele estava no meu local de trabalho e, portanto, deveria se comportar de acordo com as regras que eu construíra para aquele lugar.

            As mudanças observadas pelos pais dentro do consultório não foram suficientes para manter a ideia da terapia. Nos dois últimos meses de tratamento, a mãe  passou a se queixar da violência como o seu filho era tratado muitas vezes e deixou escapar um dia que não suportava ver o seu bebê (sic) sendo maltratado. Tentei abordar o assunto perguntando o porquê dela se referir ao seu filho como um bebê, ou tentando investigar o que ela achava que seria um tratamento digno para o menino, mas a minha comunicação com a mãe ficava a cada dia mais difícil. Até que ela resolver suspender o tratamento, alegando dificuldade de horários. Entrei em contato algumas vezes, mas não consegui conversar nem com os pais, nem com o menino.

 

Segundo Caso Clínico: o menino que brigava sempre

Celio tinha oito anos e entro no consultório acompanhado por sua mãe, para o primeiro atendimento. A queixa da mãe era clara e simples: o menino começara um ano antes a apresentar alterações severas de comportamento na escola e era uma criança difícil com ela e com o pai. Na escola, vinha apresentando impulsividade e agressividade com colegas e professores, além de uma recusa constante em fazer os deveres de casa.

            Nas primeiras sessões, a mãe acompanhou o menino. Os pais de Celio eram separados havia seis anos e o menino pouco convivia com o pai. Ao primeiro contato, Celio era um menino bem humorado, curioso e com disposição para as brincadeiras. Quando perguntado se sabia o motivo por que sua mãe o teria levado a um psicólogo, ele respondeu que sabia, mas que não queria falar. Celio apresentava também, uma agitação importante, que levara o terapeuta anterior a suspeitar de TDAH, como comorbidade para um Transtorno de Conduta.

            Os primeiros atendimentos em que não tivemos a presença da mãe se mostraram produtivos na questão do estabelecimento de limites. No entanto, os limites não se mantinham quando a mãe estava presente. Celio apresentava, então, uma espécie de comportamento regredido, falando como um bebê e chegando por vezes a engatinhar, na presença da mãe. Era-me muito difícil manter os limites estabelecidos com ele, quando a mãe estava presente na sessão. Resolvi fazer mais alguns atendimentos com a mãe, sem a presença do menino.

            Em pouco tempo, consegui estabelecer um vínculo forte com a mãe. Ela se apresentava de maneira espontânea e cooperativa, apesar de questionadora. Em seu discurso, aparecia constantemente a sobrecarga que precisava enfrentar por causa do trabalho e da distância do pai do menino, além das alterações que ele vinha apresentando na escola. Aos poucos, pude perceber como um trabalho terapêutico poderia ajudar a mãe em todos os problemas pessoais que deveria estar enfrentando por causa das demandas que chegavam, principalmente por parte da escola de Celio.

            Em pouco tempo, como que numa transferência de confiança, o menino começava a me autorizar mais, provavelmente por observar a relação que eu mantinha com a mãe. O principal tema que surgia nas sessões com Celio eram os desenhos animados e os jogos de computador. Falar sobre os comportamentos agressivos de Celio era sempre um problema. O menino se recusava a tocar no assunto, me convidando a brincar ou a jogar alguma coisa. Foi um manejo complicado decidir quando dizer sim para as sugestões de Celio e quando dizer não. Quando eu dizia não ele geralmente ficava agitado e esboçava alguma reação agressiva. No entanto, aquele menino que vivia brigando na escola; que já quebrara janelas e até jogara uma cadeira na direção da professora, agrediu-me apenas uma vez, com um tapa na perna. Imediatamente, eu segurei seu pulso com firmeza e disse que ele não podia fazer aquilo e que eu não iria deixar que ele fizesse outra vez. O menino se mostrou assustado e concordou com a cabeça. Depois disso, naquela sessão, tentou fazer tudo o que eu propunha, para que eu deixasse de ficar chateado com ele. Demorou algum tempo para que ele percebesse que eu não ficara chateado, apenas não iria permitir que ele fizesse algo que não era permitido fazer.

            Essa postura da impessoalização do limite foi algo que funcionou muito bem no caso de Celio. A minha elação com o menino estava mito bem fundamentada a ponto dele dizer que precisava dos limites que eu dava. Era preciso, em minha opinião, que ele tivesse alguém com pulso firme o suficiente para manter o limite a todo custo e, ao mesmo tempo, conseguir não tornar o limite uma punição pessoal, que mostrasse simplesmente a pessoa que detinha o poder nas mãos. Celio era uma criança que naturalmente desafiava as figuras de poder; e quando a pessoa que aplicava o limite se mostrava pessoalmente afetada, ou mesmo pessoalmente satisfeita, parece que ele se sentia provocado, e não tinha ainda recursos simbólicos para suportar os limites dessa forma.

            Um dos fatores determinantes para o bom andamento da construção do vínculo com o menino foi a forma como a mãe se posicionou diante do tratamento e de minha abordagem. É necessário dizer que a construção de um bom vínculo é apenas uma parte, o início de um processo bem sucedido. Assim, não se pode dizer que o vínculo forte signifique sucesso terapêutico. A mãe, que mantinha uma postura questionadora durante os atendimentos, também apresentava um bom repertório de habilidades sociais, sendo que as suas mais claras habilidades eram a empatia e a assertividade. Em todos os atendimentos que fizemos, a mãe de Celio se mostrou muito boa ouvinte, geralmente avisando que iria perguntar muitas coisas porque queria muito saber como proceder ou no que estaria errando. Desde o primeiro momento, o discurso da mãe trazia a confiança nos profissionais que já haviam trabalhado com seu filho. Mesmo após algumas decepções e frustrações, a mãe de Celio depositava na figura do terapeuta uma confiança inicial, como se fosse o beneficio da dúvida. Essa atitude foi essencial para o prosseguimento da terapia. A mãe trazia a necessidade de ajuda que sentia para criar o menino. A ausência de uma figura paterna no cotidiano e a personalidade da mãe culminavam em uma postura materna mais voltada para descobrir e resolver realmente os problemas. Ela dizia, por exemplo, que sabia que seu filho precisaria ser contido algumas vezes; que não gostava da ideia, mas que aceitaria, caso o profissional fosse avaliado por ela como competente.

            O caso de Celio ainda não tem os resultados desejados pela mãe, o que não é tema direto deste trabalho. No entanto, ele ainda está sendo atendido e alguns avanços foram alcançados, segundo avaliação da mãe. Um resultado tão importante quanto os avanços do menino tem sido o engajamento da mãe em sua própria terapia.

 

Discussão

Considerações sobre as características parentais

A divergência entre opiniões é uma constante quando se trata do assunto “limites” na educação das crianças. Já podemos iniciar a polêmica perguntando se os limites devem ser impostos, oferecidos, construídos, ou tudo isso junto, dependendo da situação. Correntes de pensadores muito respeitados na Psicologia, Pedagogia, Psiquiatria etc. mostram opiniões opostas e radicais, o que pode levar os pais a uma verdadeira confusão, quando escutam pareceres divergentes.

            Neste trabalho, portanto, não é minha intenção oferecer mais uma opinião para figurar no meio de tantas outras, com a mesma fé propagada por outros profissionais, que só irá criar mais um grupo de seguidores e questionadores que dificilmente encontrarão uma eficácia na prática com as crianças.

            Penso que a discussão seja mais eficaz para que possamos aprofundar algumas questões dentro do assunto, em vez de criar novos posicionamentos.

            No trabalho com crianças e adolescentes, venho observando em minha prática clínica, algo que já pensava antes mesmo de ser um terapeuta: aparentemente, o modo como os pais se relacionam com o mundo interfere diretamente no modo como os seus filhos irão se relacionar. Não posso dizer qual será a interferência, mas em todas as modalidades terapêuticas encontramos algum espaço reservado para o entendimento da história do paciente.

Com o objetivo de trazer novos dados para reflexões futuras, proponho o foco em alguns termos e em alguns detalhes dos casos aqui apresentados. Como pretendo falar da interferência das características parentais no comportamento dos filhos, acho necessário esclarecer algumas reflexões sobre as características de cada uma das figuras parentais presentes nos dois casos.

O pai de João, no primeiro caso clínico exposto, me parece uma figura de pouca autoridade sobre a criação do menino, ainda eu ele fosse uma referência muito forte para o menino e mesmo para a mãe. No entanto, me parece que o tipo de referência que ele era não atuava com muita força nas decisões sobre o tratamento do filho, para dizer o mínimo. Este papel parece ter sido deixado de bom grado para a mãe, que aceitou-o e fez o melhor possível para não precisar de orientações.

A mãe de João não mostrou nada de muito significativo em nosso primeiro encontro. No entanto, a sua força foi aparecendo à medida que eu observava que todas as suas pequenas reclamações eram atendidas e todo o tratamento do menino tinha a última palavra dada por ela.

            As características desses dois parceiros acabavam por proporcionar um equilíbrio muito forte. Quando a figura do terapeuta entra nesse sistema, esse equilíbrio vai ser posto à prova e, necessariamente será reavaliado. Ora, toda avaliação acarreta um risco de reprovação ou, pelo menos, de uma restrição ao que está vigorando até ali. Em minha opinião, o que aconteceu no caso do menino João foi que a mãe protegeu com todas as suas forças o sistema que estava funcionando de alguma maneira. Uma maneira que dava dor de cabeça, que deixava todos muito preocupados e cansados, mas ainda parecia ser uma forma possível de lidar com as coisas. Deixar o menino no lugar de problema poderia ser mais fácil de lidar com a hipótese de se colocar como uma engrenagem tão problemática quanto o filho.

            Mas qual o motivo para que um equilíbrio tão forte fosse gerado a partir dessa dupla parental? Esta é uma pergunta pertinente e para a qual, felizmente, não tenho resposta. Uma das explicações que fazem sentido para mi é a de que uma pessoa que não se acha na condição de realizar determinada tarefa vai acabar delegando essa tarefa para alguém competente para isso. Vale ressaltar que quanto mais importante for a tarefa, maior confiança será necessária para que ela seja delegada. Imagino que não seja muito fácil para qualquer pessoa citar tarefas mais importantes para um adulto do que criar seus filhos. Assim, se o pai de João for uma pessoa que não se vê com condições para assumir a complexidade afetiva da vida de seu filho, ou se ele julgar que essa seja uma tarefa mais adequada para a mãe, nada impede que ele a autorize a dar a última palavra nas questões relacionadas à criança.

            Embora possa haver críticas e restrições quanto ao modo de funcionar dessa família, vale dizer que não me sinto autorizado a questionar, neste caso, as decisões que eles sempre tomaram durante a terapia. O comentário que acho necessário fazer sobre as relações daquela família diz respeito ao modo protetor como a mãe se comportava. Proteção parecia ser a mais forte tendência da mãe, quando se tratava de sua família.

            Já no segundo caso aqui exposto, o pequeno Celio não contava com uma dupla parental, para início de conversa. O relacionamento com o pai era quase inexistente, depois de anos de afastamento. Além disso, o modo como a mãe tratava o menino refletia uma relação muito mais aberta para dúvidas do que a família de João.

            Pode-se construir a hipótese de que uma mãe crie o seu filho de forma mais aberta para o mundo por causa da ausência da figura paterna, o que já avaliei como sendo verdade em outros casos. Mas neste, especificamente, o que pareceu mais importante para a relação entre os dois e dos dois com o mundo, foi a forma como a mãe lidava com a vida. A personalidade marcante e voltada para a praticidade fez com que os dois, mãe e filho, desenvolvessem uma relação de muita proximidade e, atrevo-me a dizer, de muita amizade. Todavia, esta era uma característica que não poderia ser enxergada a olho nu, por assim dizer.

            A necessidade de construir logo cedo uma vida independente pode ter reforçado as características de Marina, no que diz respeito à sua forma de se relacionar com as pessoas e com o mundo. Seu comportamento espontâneo foi aos poucos mostrando como ela conseguia dominar o ilho nos momentos em que ele ameaçava uma crise de agressividade perto dela. Um dos primeiros entraves no trabalho com Marina e seu filho foi combater a ideia de que a mãe pudesse bater nos seus filhos, caso julgasse necessário. Muitas conversas aconteceram até que ela começasse a se dizer tendo errado por ter dado uma chinelada no menino. Nos últimos tempos, em conversas telefônicas de puro desabafo, eu me sentia no lugar da única pessoa que poderia impedir que o menino Celio levasse uma tremenda surra.

            No início do trabalho com Marina, eu já observava que a dificuldade de entrada no caso, pela via do afeto, eu não teria. Desde sempre, tanto mãe quanto filho se ofereceram para uma aproximação intensa e eu percebi que aquele poderia ser o melhor caminho para que a mãe suportasse as frustrações que o comportamento de seu filho ainda lhe renderia.

            O pedido de ajuda, apesar de não acontecer de maneira formal, estava geralmente implícito na forma como Marina se expressava. Costumava dizer que não estava mais suportando ser mãe do menino. A situação veio a se agravar por um tempo, quando da matricula de seu filho em uma escola que começou a cobrar de marina uma postura menos agressiva com a criança. A escola trabalhava com pressupostos que eram veementemente contrários à prática de punição como parte da educação das crianças, o que se chocou com a prática de marina e com toda a sua história, tanto de mãe quanto de filha.

            A postura de apoiar a mãe, mesmo contra a orientação da escola, pareceu ser a mais adequada do lugar onde eu acompanhava os acontecimentos. Eu via uma mãe que estava acompanhando seus únicos trunfos na educação do filho serem questionados a ponto de ela vir sendo responsabilizada por todos os comportamentos inadequados do menino. O ápice desta situação foi quando um dos profissionais que trabalhava para a escola entrou em contato comigo para conversar sobre Marina, dizendo que ela precisava de tratamento, pois estava muito agressiva com o filho.

            Eu podia dizer duas coisas sobre Marina: uma, que ela já havia batido no filho várias vezes; outra, que ela não era uma pessoa agressiva com ele. Tomando conhecimento de como os profissionais trabalhavam com Celio, fui compreendendo como os limites não funcionavam. O discurso de que a pessoa que recebe uma punição acaba se voltando contra a pessoa que detém o poder para punir era amplamente utilizado pela escola. Acontece que ninguém dava alternativas possíveis para a mãe conseguir refrear os impulsos agressivos do filho sem que lhe aplicasse alguma punição. E mais, quando sofria as punições aplicadas pela mãe, Celio acatava e cumpria as ordens dadas por ela.

            Como aconteceu com a família de João, comecei a observar qual era o movimento natural daquele sistema. A mãe tinha uma personalidade ativa e voltada para o movimento, o humor e a comunicação; além de ser intensa em seus afetos. Para criar o filho, não seria justo exigir que ela abdicasse de suas características essenciais para que o menino viesse a ser um Lord. Resultado: o menino, tendo na mãe a referência principal e não tendo o contraponto da figura masculina, parece ter desenvolvido fortes trações da mãe, o que fazia com que a comunicação entre eles fosse intensa e os afetos estivessem sempre à mostra.

            Aos poucos, construí a sólida hipótese de que aquela família precisava ser respeitada na sua forma peculiar de funcionar, que não era nenhuma aberração, diga-se de passagem. Essa percepção facilitou ainda mais a minha vinculação com os dois e a minha condição de impor limites ao menino, que realmente precisava de limites impostos, também acompanhou esses movimentos.

            Outro complicador na relação entre a escola e Celio foi a aparente insegurança que algumas cenas vividas por profissionais de lá me passaram. Tomando emprestada a ideia exposta por Tania Zagury, a pessoa que aplica um limite em uma criança é uma pessoa que está sendo avaliada como uma espécie de agente estruturador e organizador do mundo para essa criança. Se o adulto não demonstrar segurança os limites que aplica, é razoável esperar que a criança também fique mais insegura e mais desorganizada em seu comportamento. Na escola, acontecia que Celio era sempre alvo dos olhares dos professores, como uma criança que seria difícil. Com relação aos limites, o agente limitador geralmente estava inseguro porque o garoto exigia um limite mais firme, ou contundente e a filosofia da escola não permitia algo mais do que uma admoestação.

Celio precisava de contenção física. Só que para conter o menino fisicamente e essa contenção surtir o efeito desejado era imprescindível que houvesse alguma vinculação afetiva a ele. Pareceu-me que os profissionais da escola podem ter dissociado o vínculo afetivo da eficácia do limite e o menino escapou-lhes por entre os dedos nessa lacuna.

Na relação comigo, o menino continuou respeitando os limites que eu aprendi a impor porque estive próximo a eles; estive no convívio com ele e com sua mãe. Assim, pude observar o que funcionava naquela família e pude me adaptar ao modo como eles administravam os problemas. O menino demonstrou capacidade para compreender e para acatar limites, embora sua tendência ainda seja a de burlar regras e testar os adultos que o cercam, o que pode estar relacionado com a ausência da figura paterna, sugerindo uma vivência de abandono.

A principal propiciadora de tal eficácia terapêutica foi a mãe, com o seu modo de encarar o mundo, passando esse modo um pouco para seu filho, chegou até mim com a postura de quem realmente quer e sabe que precisa de alguma ajuda.

 

Reflexões sobre a mãe protetora e a mãe autonomista

Didaticamente, podemos explorar a questão por dois caminhos, ou dois polos de discussão. Numa comparação superficial entre os dois casos, podemos erigir a hipótese de que, naquele momento da vida, a mãe de João se comportava essencialmente como mãe protetora e a mãe de Celio como mãe autonomista.

            Antes de qualquer coisa, quero deixar bem claro que não quero dizer que a mãe de Celio não o protegia. A questão aqui é do que ela protegia seu filho. Para mim, a mãe de João o protegia de qualquer frustração, o que acabou fazendo com que ela o protegesse também da terapia. Já a mãe de Celio o protegia do que as mães devem proteger os filhos: da maldade, da privação de serviços básicos e de maus tratos, além de outras coisas, obviamente.

            A questão lapidar deste trabalho é que, aparentemente e por características pessoais, aliadas às suas histórias, a mãe de João o protegia de frustrações, enquanto que a mãe de Celio não o fazia. Assim, construí a hipótese de que a mãe de João era uma mãe protetora e a mãe de Celio, uma mãe autonomista. Considero que a proteção deva ser avaliada profundamente, antes que se diga que é uma característica louvável ou positiva apenas. Penso que João possa vir a sofrer com as consequências do comportamento protetor de sua mãe, do mesmo modo que penso que Celio irá sofrer muitas coisas por seu jeito de ser, sim, mas não porque a sua mãe o tenha preservado do contato real com as consequências de seus atos.

            Imagino que a mãe de João, na verdade, não suportasse ver o filho sofrer frustrações, passando então a protegê-lo, tanto quanto possível. Sobre este detalhe, duas considerações: não acredito que se possa proteger um filho de todas as frustrações e acredito que as frustrações sejam necessárias para o amadurecimento.

            Já para a mãe de Celio, o mais importante era que o menino aprendesse a viver.  Talvez ela estivesse esperando que ele aprendesse isso um pouco cedo demais, mas isso constituiria outro problema. O que aconteceu no caso de Marina foi que sua forma de lidar com o tratamento do filho favoreceu o desenvolvimento do processo terapêutico.

            Enfim, com o panorama até aqui exposto, uma pergunta que imagino poder ser feita, a partir deste trabalho, que pode levar a uma reflexão interessante seria: o que é mais saudável: impedir a queda de seus filhos, ou permitir que eles caiam, supondo que eles irão aprender assim, a se levantar sozinhos?

            Obviamente, o assunto é muito mais complexo do que foi apresentado aqui. Esta distinção entre as tendências a proteger e a promover a autonomia pode ser apenas o início de uma ideia para novas investigações. É claro que seria muito interessante saber o que levou as mães aqui retratadas, não sei se com a devida justiça, a se desenvolverem dessa maneira no relacionamento com seus filhos. Mas isso, por si só, se constitui um tema para outro estudo.

 

Referência bibliográfica

 

Zagury, T. Sem Padecer no Paraíso: em defesa dos pais ou sobre a tirania dos filhos. Rio de Janeiro; RECORD. 1991.

 



[1] Nesses casos, os dados serão modificados para preservar a identidade dos participantes, de maneira que não comprometa a exposição das ideias.

[2] O relato do caso é baseado na história como contada pelos pais do menino.


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