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Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Julho de 2013 - Vol.18 - Nº 7

Psicologia Clínica

PROBLEMAS OCULTOS E O PROCESSO DE DIFERENCIAÇÃO EM TERAPIA FAMILIAR: CONSIDERAÇÕES FENOMENOLÓGICAS

Braz Werneck Filho
Mestre em Psicologia (UFRJ)
Terapeuta Familiar (IPUB-UFRJ)
Terapeuta Cognitivo-Comportamental
Acompanhante Terapêutico


Resumo

O objetivo deste trabalho é introduzir uma discussão sobre manejos clínicos possíveis com problemas que inicialmente estão ocultos no ambiente da terapia familiar. Como hipótese para a ocultação de tais problemas, trazemos a ideia do paciente oculto e das dificuldades no  processo de diferenciação. Para que o processo de diferenciação seja retomado e para que os pacientes e os problemas ocultos sejam revelados sem que haja um  rompimento provocado por verdades insuportáveis, propomos a adoção de uma atitude fenomenológica. O terapeuta norteado pela fenomenologia poderá dialogar teoricamente com qualquer área do conhecimento e poderá frequentar a família de forma muito mais compreensiva do que explicativa, passando a fazer parte do sistema em determinado momento. Uma vez membro honorário da família, suas ponderações e reflexões, espera-se, não serão sentidas pelo sistema como um mero trabalho externo de quem não conhece o que se passa ali, mas sim um trabalho de alguém que, na convivência compartilhou inúmeras situações com aquela família.

Descritores: terapia familiar, diferenciação, fenomenologia.

 

Introdução

O ambiente da terapia familiar tem se revelado como um campo fértil para o aparecimento de várias situações caóticas que, antes da terapia, eram consideradas situações normais da vida. O funcionamento familiar muitas vezes engloba um sem número de comportamentos esquisitos, bizarrices para quem está de fora, que são formas de existir completamente assimiladas pelo meio interno do sistema familiar.

            Pretendemos discutir neste trabalho um manejo clínico para casos em que algumas personalidades complicadas tenham sofrido grande influência do meio familiar, com reforçamentos constantes ao longo do tempo, culminando em adultos jovens e socialmente inúteis, além de despreocupados e sem compromisso com ideias de futuro. Estes seriam alguns dos problemas inicialmente ocultados pela família, que poderiam vir à tona com a terapia.

            Primeiramente, falaremos sobre o que vamos chamar aqui de paciente oculto, na terapia familiar. Ressaltaremos a indicação clínica para alguns casos de uma terapia individual paralela, já que algumas questões podem ser descobertas, mas dificilmente poderão ser trabalhadas no ambiente terapêutico familiar.

            Em seguida, trazemos uma breve reflexão sobre os sistemas relacionais que se engendram dentro do sistema familiar e sobre a utilidade desses sistemas para a manutenção do modo de existir de determinadas famílias. Como este assunto se mostra demasiado abrangente, nos concentraremos na questão da diferenciação entre o jovem adulto e suas figuras parentais.

            Por fim, discutimos a funcionalidade de uma abordagem fenomenológica, preocupada com o histórico familiar, para o processo de avaliação e estabelecimento do projeto terapêutico para determinados casos clínicos.

 

O paciente oculto: terapia familiar no manejo da inércia

Nos estudos de língua portuguesa do meu ginásio (o que se conhece hoje por ensino fundamental) comecei a me interessar pelo jogo de palavras que poderia aparecer na própria gramática.

Durante algum tempo, me vi particularmente interessado no que se costumava chamar de “sujeito oculto” da oração, nas classes gramaticais. O sujeito oculto designava um sujeito que não estava presente na oração, mas que dava a ideia de quem era. Diferentemente do sujeito inexistente, quando não conseguíamos identificar na oração e nem na ideia que ela expressava, um sujeito agente do verbo, o sujeito oculto existia, mas estava escondido. Não poderia, portanto, ser caracterizado como sujeito simples, posto que não fosse simples identificar o sujeito, já que não aparecia ou não se definia o agente do verbo. Assim, orações do tipo: “Choveu muito ontem” eram definidas como orações sem sujeito; “João jogou pedra no vidro da janela”, como sujeito simples (João) e as do tipo “Joguei pedra no vidro da janela”, como sujeito oculto. 

            O que interessa para este trabalho é exatamente a ideia de que o sujeito oculto é uma expressão que não se sustenta, mas ainda assim, persiste. Obviamente, o sujeito da frase “Joguei pedra no vidro da janela” é o agente EU; com o detalhe mínimo de que a palavra “eu” foi suprimida da frase. O sujeito, todavia, está lá. Logo, somos inicialmente iludidos pela falta de sinais claros da presença do sujeito. Essa ilusão não resiste a uma análise mais criteriosa, mas é uma ilusão muito comum e muito persistente, haja vista a validade da expressão “sujeito oculto” na gramática.

É muito comum, no ambiente da terapia familiar, nos encontrarmos diante de situações em que o problema essencial esteja presente justamente naqueles indivíduos que nomeiam outro membro como problema. Como levamos algum tempo para perceber o que realmente acontece, podemos dizer que o problema esteja oculto, e que sejamos iludidos por outros elementos.

 A situação é bem simples. Tomemos como exemplo o caso em que a mãe e o pai levem o seu filho de vinte e cinco anos ao consultório porque ele precisa “dar um jeito na vida”, ou algo parecido.  Tenho observado que muitas vezes a família não se dá conta do que acontece, o que para nós, terapeutas de família e membros de nossas próprias famílias não é novidade. No entanto, vale ressaltar que é um trabalho muito complicado construir um ambiente de conversação e perguntas que possa fazer com que cada membro da família comece a refletir sobre sua própria posição nesse jogo.

            No caso do jovem de vinte e cinco anos que não sabe o que fazer da vida, posso dizer que já trabalhei com esse tipo de funcionamento muitas vezes. Geralmente o que acontece segue um caminho parecido com este: o filho não trabalha ou não estuda. Assim, com a falta de cooperação de um adulto em idade francamente produtiva social e laboralmente falando, mãe e pai começam a sentir-se questionados e pressionados, mesmo que não o sejam, a exigir um posicionamento diferente do filho. Com a dificuldade que a mãe e o pai encontram em modificar o modo de existir de uma determinada família, caso pensemos que seja um sistema estável, é preciso que alguém ocupe o lugar de doente ou de desviante, palavra que seria mais adequada para este caso.

            Cabe, no entanto, refletir sobre os motivos que levariam uma família a manter um funcionamento visivelmente adoecido para os olhos de fora. Uma das razões pelas quais isto pode ocorrer é a dificuldade que será enfrentada para uma mudança de direção. A inércia é um conceito poderoso. Como tantos outros, transcende o campo da Física e pode ser observado nas relações humanas.

No caso de uma família que tem um rebelde dentro de casa, que não se comporta de acordo com as regras, que não procura um funcionamento social adequado, em relação a estudos ou trabalho, pode ser mais difícil lidar com as mudanças necessárias em todos os membros do que arcar com as despesas financeiras constantemente crescentes no orçamento, em decorrência de um adulto improdutivo.

O que não se percebe de dentro, mas é visto claramente de fora é que todos poder-se-iam beneficiar de uma mudança real no comportamento e no manejo das questões familiares. Tenho ouvido muito famílias reclamarem que não tem mais forças para mudar o que é mais difícil. Pais e mães colocam no peso dos anos a dificuldade; já os filhos e as filhas, muitas vezes não enxergam o próprio comodismo, que impedem que projetem uma imagem da vida sem os seus pais.

Chamamos neste trabalho de pacientes ocultos, aqueles com características pessoais mantenedoras do funcionamento previamente avaliado como adoecido na família; características essas percebidas no ambiente da terapia familiar.

Esses pacientes frequentemente esboçam uma reação de desagrado quando são confrontados com a indicação de fazerem uma terapia individual, ou mesmo com intervenções oportunas na terapia familiar. Essas indicações e essas intervenções oportunas são movimentos que contrariam a inércia em que se encontra a família.

Muitas vezes as pessoas ou famílias procuram a terapia com a intenção, nem sempre consciente, de fazer a terapia participar do jogo que estão acostumados a jogar. No caso da terapia individual se torna mais fácil para o paciente fugir das provocações de movimento. Basta que não apareça mais, ou coisa que o valha. No caso da terapia familiar, é muito comum que um ou outro membro da família apresente algum potencial para sair desse equilíbrio. Geralmente, é esse membro que provoca as maiores brigas e acaba sendo visto como uma outra espécie de problema para a família.

            Para que o paciente oculto se torne descoberto, é necessário que algum movimento seja feito. Alguma força precisa atuar contra a inércia que se estabeleceu no seio familiar. Toda a falta de movimento é justificada, toda a falta de produtividade tem uma razão de ser. Tudo tem uma função bem estabelecida. Por que existe um problema, então?

            Em nossas reflexões, com amparo no Construcionismo Social e na Fenomenologia, nos deparamos com a ideia de ampliação da potência existencial de cada família. Algum pressuposto se faz necessário, até porque as famílias não chegam satisfeitas ao consultório. Geralmente, estão reclamando a esmo, uns dos outros, sem que suas reclamações tragam uma proposta de funcionamento mais eficaz. Resumindo, existe o problema porque acreditamos que a inércia de que aqui falamos limita a vida das pessoas, e a terapia costuma trabalhar para uma ampliação dos laços sociais, visando a um sentido existencial. Existe o problema também, porque as famílias sofrem com isso. São inertes, muitas vezes incapazes de sair do lugar de inertes, mas sofrem. Sofrimento é problema.

            A terapia familiar pode fazer o papel de estimular o membro da família com maior potencial para sair da inércia a fazê-lo efetivamente. As chamadas perguntas adequadamente incomuns descritas por Tom Andersen têm participação crucial nesse processo.

            É desejável para nós, terapeutas, ajudar a modificar o modo limitado que algumas famílias apresentam de se relacionar com o mundo, mas também é preciso que se respeite cada pessoa que esteja em nosso consultório.

            Chamamos aqui de manejo da inércia tão somente o processo pelo qual os terapeutas se vinculam às famílias, com o objetivo de poder, em algum momento, trabalhar com as provocações e as perguntas adequadamente incomuns de Tom Andersen.

            Supomos que, com uma vinculação bem estabelecida, seja possível ao terapeuta deslizar pelas regras inertes do jogo familiar onde se insere. Em algum momento ele poderá ser autorizado a mudar uma pequena regra ou manejá-la de forma diferente, a fim de que não seja tão radicalmente inerte. A vinculação, mais uma vez, desponta como elemento crucial para o trabalho do terapeuta, em direção a alguma mudança possível.

 

O Processo de Diferenciação e sua Relevância Clínica

A convivência dentro de um sistema familiar não deixa dúvidas, muitas vezes, sobre as semelhanças e diferenças entre seus membros. O terapeuta representa um papel de membro honorário das famílias que atende. Uma vez nesse lugar, pode se deixar afetar por todos os sentimentos que circulam no sistema da família, adquirindo maior propriedade para avaliar e mesmo perguntar o que lhe venha à cabeça.

            Nessas condições, muitas vezes o estranhamento que de nós toma conta tem a ver com a sensação que experimentamos de que algumas pessoas não conseguem ou não desejam se separar das relações com seus elementos parentais. Algo como o que se dizia antigamente, sobre ‘cortar o cordão umbilical’.

            Quando se fala em diferenciação, no entanto, procuramos expressar uma ideia mais complexa. A diferenciação a que nos referimos diz respeito a uma condição global de adquirir autonomia em relação ao que pai e mãe, ou figuras equivalentes, pensem ou queiram. Podemos observar problemas relativos à diferenciação entre filhos e pais quando, por exemplo, observamos homens de 25 ou 30 anos não apenas morando com os pais, mas também, dormindo na cama de um deles, geralmente da mãe, no caso dos homens.

            A nossa atitude fenomenológica nos coloca em uma posição de sensibilidade a esse tipo de questão, que geralmente é trazido pela família como uma questão de menor importância. É comum ouvirmos o filho reclamar do ronco da mãe, por exemplo, passando batido pelo “detalhe” de ainda dormir com ela. As dificuldades na diferenciação entre filhos e mãe, ou pai, muitas vezes são mais sutis do que isso, demandando um trabalho ainda maior de sensibilidade por parte do terapeuta.

            Muitas vezes, aquele elemento do jogo familiar que aponta as imperfeições ou incoerências da família, mesmo que seja um participante grudado ao jogo, tem menos questões em relação à sua diferenciação como pessoa. Talvez por isso, ele tenha condições de se separar do sistema para falar como se estivesse momentaneamente de fora, assumindo assim, um papel de personagem que abandonou o barco, o que levará toda a família a criticá-lo.

            As relações dos indivíduos que não se diferenciam dentro de uma família, são relações simbióticas. A ideia que o termo expressa nas Ciências Biológicas é de uma relação vantajosa para ambos os indivíduos. Ora, se a relação é vantajosa, não haverá motivo para modificações. Pelo menos até que alguém de fora introduza algum dado novo de realidade, geralmente social, nessa relação.

            A sensibilidade do terapeuta é fundamental para que a relação simbiótica seja pelo menos questionada, por um ou mais elementos da família. A partir daí, pode-se investigar outras formas de relação que não excluam alternativas como costuma acontecer com as relações simbióticas.

            Quando observamos uma relação entre mãe e filho/filha onde possamos identificar elementos de simbiose, é razoável pensar que o processo de diferenciação não aconteceu de forma eficaz. Nessa dificuldade de diferenciação, no modo de proceder, pensar e sentir das pessoas que não conseguiram se diferenciar de pai ou mãe, para adquirir uma autonomia existencial, podemos identificar mais pacientes ocultos. Esse, por si só, já é um problema mais profundo do que o que aparece geralmente nas queixas das famílias.

            O terapeuta familiar deve atentar para o que chamamos aqui de problemas ocultos, geralmente apresentados de forma camuflada e inconsciente pela família.

 

 

O que fazer? – Abordagem Fenomenológica na Terapia Familiar

Uma das coisas mais importantes na proposta de uma abordagem fenomenológica é o esforço para que a abordagem fenomenológica não esteja vinculada necessariamente à ideia de uma terapia fenomenológico-existencial.

            A essência da proposta fenomenológica, de base husserliana, é a apreensão das essências em vez de uma categorização e de uma classificação de transtornos, sinais e sintomas. A ideia principal é de que compreender seja mais importante do que explicar.

            A atitude fenomenológica no campo da terapia familiar se mostra particularmente eficaz por causa da inserção do terapeuta no sistema. Dentro do sistema, onde se insere por meio de conversações, vinculação e estabelecimento de uma relação terapêutica, o terapeuta pode funcionar simbolicamente como membro da família.

            Esse funcionamento, embora laboratorial, pode trazer alguns benefícios reais para o processo terapêutico. Com a relação estabelecida entre terapeutas e família, pode-se observar e inserir novos dados para a realidade daquela família. É possível ser uma espécie de membro desviante numa família cujo processo terapêutico seja justamente o de desviar para um caminho que seja reconhecidamente mais saudável.

            No campo da fenomenologia, encontramos a descrição do método fenomenológico como método de diagnóstico singular. Esse método se utiliza da intersubjetividade e da intuição como elementos eficazes para a elaboração objetiva de um diagnóstico.

            O terapeuta norteado pela fenomenologia vai encontrar-se com a família e oferecer-se como membro honorário e momentâneo para que todas as energias relacionais passem também por ele. Assim, de certa forma, ele vai poder ser atingido por todas as dimensões de relação que existem naquela família. Quando for emitir uma opinião ou hipótese diagnóstica, o estará fazendo de um lugar não neutro, mas sim afetado de forma autêntica por todos os membros ali presentes. Por todo o sistema, enfim.

            Sugerimos que a utilização do método fenomenológico como método de captação das essências, segundo a proposta de Husserl, irá auxiliar o terapeuta familiar a desvendar os problemas ocultos sem quebrar a possibilidade de deslocamento daquela família. É como trazer à tona algumas verdades sem que se cultive o rompimento entre as partes. É como contar os segredos familiares sem deixar que eles abalem ou enfraqueçam os laços familiares.

            Uma vez descobertos os problemas ocultos, os pacientes ocultos, pode ser modificada a forma como a família se relaciona com tais problemas. A forma como a família se relaciona com tudo será questionada, sem que esse questionamento leve a uma quebra do sistema.

            Vale lembrar que não queremos dizer com isso que os membros da família devam estar sempre unidos ou sempre próximos. Muitas vezes, manter laços significa promover afastamento, para que as relações se tornem possíveis.

            Pensamos que a atitude fenomenológica, por se preocupar mais em compreender do que em explicar, seja indicada também na clínica da terapia familiar, como para qualquer outro tipo de terapia, porque favorece o surgimento de novos diálogos, de questionamentos quanto ao lugar que alguém ocupa em uma família, sem estabelecer regras ou metas específicas e diretivas, mas encontrando na convivência a principal ferramenta clínica para a intervenção do terapeuta. 


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