Psyquiatry online Brazil
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Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Julho de 2013 - Vol.18 - Nº 7

France - Brasil- Psy

Coordenação: Docteur Eliezer DE HOLLANDA CORDEIRO

Quem somos (qui sommes-nous?)                                  

France-Brasil-PSY é o novo espaço virtual de “psychiatry on  line”oferto aos  profissionais do setor da saúde mental de expressão  lusófona e portuguesa.Assim, os leitores poderão doravante nela encontrar traduções e artigos em francês e em português abrangendo a psiquiatria, a psicologia e a psicanálise. Sem esquecer as rubricas habituais : reuniões e colóquios, livros recentes, lista de revistas e de associações, seleção de sites.

Qui sommes- nous ?

France-Brasil-PSY est le nouvel espace virtuel de “psychiatry on line”offert aux professionnels du secteur de la santé mentale d’expression lusophone et française. Ainsi, les lecteurs pourront désormais y trouver des traductions et des articles en français et en portugais  concernant la psychiatrie, la psychologie et la psychanalyse. Sans oublier les rubriques habituelles : réunions et colloques, livres récentes, liste de revues et d’associations, sélection  de sites

SOMMAIRE (SUMÁRIO):

 

  • 1. A DOR INVISÍVEL DOS ESQUIZOFRÊNICOS
  • 2. LIVROS RECENTES
  • 3. RÉUNIÕES E COLÓQUIOS
  • 4. REVISTAS
  • 5. ASSOCIAÇÕES


  • 1)A DOR INVISÍVEL DOS ESQUIZOFRÊNICOS

     

    Por  Florence Beaugé, do  Jornal Le Monde | 05.07.2013

    Tradução e resenha: Eliezer de Hollanda Cordeiro

     

    Polo Tonka(um pseudônomo) escreveu uma narrativa autobiográfica, um diálogo entre seu personagem e seu duplo.

     

    Ele tinha 21 anos quando entrou "no mundo das vozes". Foi há dez anos. A doença começou com uma depressão grave. Nicolas estudava para obter uma licenciatura em matemática. No seu grupo de amigos, cada um tinha uma namorada. Ele não. Ele pensou que  isto foi  a causa de seu mal-estar. Mas a depressão piorou. Ele tinha o hábito  de fumar maconha quando  as vozes  surgiam. Ele aprendeu então que isto não ocorreu por acaso: a maconha  desencadeia  muitas vezes essas sensações auditivas. Então,  Nicolas ‘’enveredou por um universo desconhecido donde nunca mais saiu’’.

    Em certos momentos , "ele se sente bem,apesar   dos tormentos  causados pelas vozes. Esses "companheiros de solidão”  podem ser  “pacíficos” ou, ao contrário,"cruéis"e mesmo"despóticos". Nesses casos, as vozes  tentam ditar sua conduta e "batem duro". "Tu não és um homem!", dizem,  zombeteiras, lançando-me desafios. Seu sofrimento psíquico é inimaginável.

    Queixar-se? Nicolas não pensa nisto. Há muito tempo   que ele conhece " as esferas da loucura". "De vez em quando, as vozes fazem tanto barulho na minha cabeça que eu tenho problemas para me concentrar", disse. Muito grande, magro, aspecto de desportivo, rosto emaciado,  o jovem se exprime com facilidade. Ele também é muito humilde. Polo Tonka ,cujas qualidades   alguram um futuro brilhante de pesquisador em matemáticas,  cujos amigos de infância  enfatizam a inteligência, a cultura e a sensibilidade, espera hoje ser reconhecido como incapacitado. Durante muito tempo, recusou este rótulo. Agora, ele o reivindica, na esperança de conseguir um emprego compatível com  a sua doença. "Fui diagnosticado psicótico," disse.Nicolas  se agarra a este  termo genérico, que inclui as doenças mentais caracterizadas por perdas de contato com a realidade. "Se você diz ouvir vozes, você é imediatamente classificado esquizofrênico, o que eu não sou", disse de maneira enfática.

    Durante anos, Nicolas '’jogou com o tratamento ". Ora o  tomava, ora não o tomava. Então, vagueava pelas ruas, especialmente à noite ,  às vezes livrando-se de situações  violentas, para desespero de seu pai, com quem ele vive, e da irmã, de quem gosta muito. Ele, o afetuouso, um dia agrediu  um estranho no metrô. "Pareceu-me que ele me dizia:Você é um veado" Outra vez, ele esmurrou , no meio da noite, dois homens que lhe tinham falado  "com um desprezo que ele não suportou". Um deles estava com um soco-americano embrulhado  numa lâmina. Nicolas acabou com a orelha esquerda cortada em duas... A lição valeu: "Desde então, eu tomo meus remédios," afirmou.No entanto, ele não consegue dizer a seu  psiquiatra  que continua ouvindo vozes. Ele teme, sem dizer, um tratamento mais adaptado. "Se as vozes desaparecem, ficarei desamparado. Elas  alertam-me quando há perigo. O que me acontecerá, se elas cessarem?", indaga ansiosamente.Quando lhe ocorre  ainda  acreditar no futuro, Nicolas sonha  em retomar às matemáticas. Ele fala delas como um pianista falaria  de música ou um poeta de  sonetos. Ele gostaria de "recuperar este prazer, este desejo". Manipular os objetos ou uma soma  de maneira quase completa  é a mesma coisa que achar o tom correto, ou colocar uma vírgula ou um ponto, disse. Agente fica tão bem durante a trajetória percorrida! " E acrescentou, em uma respiração: "Eu sonho encontrar este rigor no trabalho e na razão.Eu sonho que vou reencontrar  um espírito rigoroso."

    Dele, sua  irmã disse com carinho: "ele é bom. Tem coração. É altruísta. Pode-se contar com ele." Ela espera que a identidade de Nicolas “ não seja  reduzida pelos outros à sua doença". E ela teme que seu irmão seja rejeitado  pelos  amigos que ainda tem.Isto seria"a pior coisa que pudesse lhe ocorrer".

    Polo Tonka não conhece Nicolas. Portanto,ele  poderia ser o irmão mais velho. Mesma altura – um pouco  mais maciça - mesma inteligência, mesmo altruísmo, mesmo sofrimento, mesma coragem.  Mas ele tem as palavras para dizer "a dor invisível da  incomunicável provação",  pois  é um escritor. Mas,  acima de tudo, ele está  na fase de remissão aos  34 anos, ele que  foi diagnosticado esquizofrênico há vários anos, a psicose mais severa. Aprender a natureza de sua doença foi um choque por causa  de sua ‘’reputação bárbara", sinônima, desde que ela foi designada no final do século XIX, de "de demência sinistra  e psicose criminal”. Então,a verdade proporcionou-lhe um alívio e ajudou-o a sair  de seu confinamento destrutivo.

     

    Polo Tonka acaba de publicar na editora   Odile Jacob, um livro emocionante, Diálogo comigo mesmo. Ele o escreveu com rapidez, em quinze dias. Para Philippe Jeammet, o psiquiatra que prefaciou o livro, este relato autobiográfico é "um dos documentos clínicos mais importantes" que ele leu. "É incomum encontrar-se uma história de vida tão  bem analisada, tão verdadeira", disse, antes de recordar que cerca de 1% da população francesa, ou seja  600 mil pessoas, sofrem de distúrbios relacionados com a esquizofrenia. Polo Tonka  sofre de  "paroxismos de angústia, de desespero absoluto". Às vezes, parece-lhe que o seu corpo se cobre com insetos monstruosos, dos pés à cabeça. Em outros momentos, ele acredita que está  possuído pelo diabo. Ninguém imagina que seus acessos de dor psíquica sejam ainda mais intensos do que torturas físicas. Quando ele fica definhando em casa, "torturado e aniquilado por uma doença sobre a qual tão  poucos suspeitam o horror e a estranheza", ele pensa que  "um dia escreverá  um livro sobre o que lhe ocorreu, para dizer ao mundo a atrocidade desta  guerra do íntimo."

     

    Com a ajuda de sua família, o jovem vai findar encontrando  uma equipe médica capaz de tirá-lo do inferno. Ele vai ‘’melhorar, sim, mas não muito’’. Os médicos hesitam antes de  propor-lhe  o tratamento mais  adequado, e este tempo de latência é "um longo período de sofrimento". Se os efeitos colaterais do tratamento são imediatos, o melhoramento só vai acontecer muito mais tarde.

    Paradoxalmente,é quando ele  está melhorando  e descobrindo que "a felicidade existe para alguns" que Polo Tonka mede  "a profundidade do infortúnio".

     

    A redescoberta da fé vai ser para ele um ponto  de grande importância. Pouco a pouco, este jovem compreende que "a esperança é possível" e que "o mundo é menos perigoso  do que parece". Ele levou sete anos para subir a ladeira, sem  saber quanto tempo vai ficar assim . Ele se pergunta:um  dia"? Vinte anos? "Talvez até  morra,  antes de ficar  livre. Morrer de vergonha e desespero. Não conheço nada pior do que o que experimentei nesses  anos passados’’, se  recorda.

     

    Hoje, ele vive sozinho e se diz ‘'feliz'’, sem negar suas dificuldades, especialmente a solidão e a inatividade. Ele aprendeu  desenho industrial, depois  a pastelaria , na Escola Lenôtre.

     

    Ocupar um  emprego em tempo integral? O jovem não pode, tão grande é sua deficiência consecutiva ao  stress. Suas  alucinações cessaram, mas ele continua a sofrer   "de angústias  irracionais". Algumas noites, por exemplo, toda pessoa que  anda  detrás  dele se torna "um assassino" potencial. Arrumar, deitar fora  o lixo, são  desafios cotidianos.

     

    Polo Tonka sabe que ele nunca poderá interromper o seu tratamento, se o fizer seus demônios vão reaparecer  e sua vida  "se tornará insuportável". A tentação do suicídio ainda existe, mas é menos invasiva. Ele quer evitar que seus pais, que tanto o apoiaram,  sofram " o choque de um suicidio". "Foi o amor dos outros que me salvou",  disse simplesmente.

     

    Seus projetos: publicar outros livros, escrever crônicas culinárias, casar-se  um dia e ter filhos. E também mudar o olhar dos outros sobre a esquizofrenia. 

     

    ANTES DE TUDO, UMA DEPRESSÃO INTERMINÁVEL

    Sobre  o diálogo entre seu personagem e seu duplo, o jovem conta a sua infância (cinco irmãos, pais atenciosos e amantes), seus anos de escola, seu desejo de se tornar um físico, sua paixão pela escritura,  pela poesia e os primeiros sinais de sua doença. Uma depressão sem fim. Ele se considera boderline  e se repete constantemente: "você tem sorte, você não é esquizofrênico".”Mas o mal piora. Ele também experimentou o horrível tormento das vozes que sussurram-lhe: "Você é feio!", "Você é estúpido!", "Ninguém ama você!", ou, "suicíde-se!".

     

    A porcentagem de criminosos nas pessoas com esta doença é "menor do que a porcentagem  encontrada na população normal," sublinha  o Professor Philippe Jeammet. "O doente mental não é um estranho. Não é pela exclusão  mas pela compreensão compartilhada que ele  poderá progredir", insiste o psiquiatra. Para ele, o testemunho de Polo Tonka mostra-nos como um sujeito que sofre de esquizofrenia, pode, sob o efeito do tratamento adequado, "encontrar o que faz  uma parte essencial da nossa humanidade: a capacidade reflexiva".

     

    Polo Tonka   tem vontade de dizer às pessoas que encontra: "Não tenham medo de nós, porque somos as únicas vítimas dos nossos terrores internos. A psicose faz de nós, antes de tudo, não criminosos depravados  e perversos, mas crianças pequeninas. Não somos monstros. Os únicos que existem estão dormindo dentro de nós, em nossa imaginação. "Apesar da gravidade  de nossas distúrbios, cábe-nos enfrentá-los, domá-los e, finalmente, acalmá-los’’.

     

    MINHAS OBSERVAÇÕES

     

    Este artigo sobre o livro escrito por Polo Tonka suscita uma interrogação: ele é realmente um esquizofrênico?

    No Vocabulaire de la Psychanalyse de Laplanche e Pontalis (páginas 433-436),  podemos ler que o termo ‘’demência precoce’’ , criado por Kraepelin,  compreende tres formas: hebefrênica, catatônica e paranoide , conduzindo a um enfraquecimento cerebral e  à  demência.

     

    Mas como nem sempre era possivel  aplicar as palavras  demência e o qualificativo  precoce aos quadros clínicos forjados por Kraepelin,  E.Bleuler forjou o  termo esquizofrenia a partir de dois termos gregos que significam ‘’clivar’’ e ‘’espírito’’. Para Bleuler, mais além dos ‘’sintomas accessórios’’, que podem ser também  encontrados em outras afecções,   a Spaltung ou a  ‘’dissociação’’ das funções psíquicas as mais diversas,  é a  característica  principal  da esquizofrenia.

     

    Para resolver o problema, Kraepelin inventou o termo ‘’parafrenia’’  afim de designar as psicoses delirantes crônicas  que, como a paranoia, não se acompanham de um enfraquecimento intelectual e não evoluem para um estado de demência, embora se aproximem da esquizofrenia por suas construções delirantes ricas e mal sistematisadas, à base de   alucinações e fabulações.

     

    À luz destas considerações, podemos perguntar se os   sintomas psicóticos de Polo Tonka não correspondem, antes de tudo,  aos descritos na parafrenia.

     

    2) LIVROS RECENTES

    ** Le masochisme

    ANDRÉ Serge 

    Gironde, Lormont, Le Bor de l’eau, collection ‘’La Muette’’

    2013 - 7 €

    **Le sadisme 

    ANDRÉ Serge 

    Gironde, Lormont, Le Bor de l’eau, collection ‘’La Muette’’

    2013 - 7 €

    **Les enveloppes psychiques

    J.DORON, D. HOUZEL, E. MISSENARD

    Paris, Dunod, 2013- 24 €

    **Penser la psychanalyse : avec Bion, Lacan, Winnicott, Laplanche, Aulagnier, Anzieu, Rosolato

    GREEN, André

    Paris, les éditions d’Ithaqu, 2013- Br. 20 €

    **L’école de Palo Alto

    PICARD Dominique, MARC Edmond

    Paris, PUF, 2013- 9€

    **Joyce McDOUGALL

    Société Psychanalytique de Paris

    Colloque 2012

    Sous la direction de Bernard CHERVET  et Paul DENIS

    Paris,  Société Psychanalytique de Paris, 2013 – 15 €

    **Les théâtres de Joyce McDOUGALL : l’héritage d’une psychanalyste engagée

    Sous la direction de Sander KIRSCH, Jacques VAN WYNSBERGHE

    Toulouse, EPEL, 2012-  23 €

    **Évolution psychiatrique (L’). 78-1 Réhabilitation

    Issy-les-Moulineaux, Elsevier, 2013-28 €

    **Tristesse business : le scandale du DSM5

    LANDMAN, Patrick

    Paris : Max Milo, 2013-12 €

    **L’anthropologue et le monde global

    AUGE Marc

    Paris, Armand Colin, , 2013- 21,90 €

    **La bioéthique, pour quoi faire ?

    Par les membres du Conseil consultatif national d’éthique ; coordonné par Ali  Bemmaklouf

    Paris, PUF, 2013 -  13 €

    **Le fétichisme 

    ANDRÉ Serge 

    Paris, Dunod, 2013 - 7 €

    **Autour de l’œuvre de Jean-Paul VALABREGA : permanence et métamorphose

    Sous la direction de Jean-Jacques BARREAU

    Paris, In press, 2013 -  22 €

     

    3) RÉUNIÕES E COLÓQUIOS

    JUNHO 2013

    JULHO 2013

    *Em PARIS, dias 4 e 5: Psy et Crimino organiza um colóquio sobre o tems “Distúrbios da personalidade”.

    Informações e inscrições : Association Française de Thérapie du Traumatisme des Violences Sexuelles et familiales et de Prévention (AFTVS)

    Contactar Madame Valérie HERBST,  3 bis rue de l’Aigle, 92250, La Garenne6Colombes

    Telefone: 01 56 47 03 49

    Endereço eletrônico: [email protected]

    Site internete: www.psylegale.com

     

    4) REVISTAS

    L’Evolution pychiatrique

    L’Information psychiatrique

    Impacte Medecine

    La Revue Française De Psychiatrie Et De Psychologie Médicale

    L’Encephale

    Psychiatrie Française

    L’Autre, Culture et Sociétés

     

    5)ASSOCIAÇÕES

    *Mission Nationale d’Appui En Sante Mentale

    *Association Française De Psychiatrie Et Psychologie Legales (Afpp)

    *Association Française De Therapie Comportementale Et Cognitive (Aftcc)

    *Association Francophone De Formation Et De Recherche En Therapie Comportementale Et Cognitive  (Afforthecc)

    *Association De Langue Française Pour L’etude Du Stress Et Du Traumatisme (Alfest)

    *Association Pour La Fondation Henri Ey

    * Association Française de Thérapie du Traumatisme des Violences Sexuelles et familiales et de Prévention (AFTVS) Site internete: www.psylegale.com

    *Association Aquitaine pour L'information Médicale et l'Epidémiologie en Aquitaine AAPIMEP

    *Association Française des Psychychiatres. d'Exercice Privé AFPEP

    *Association  pour la Promotion de l'Assur. Qualité en Santé Mentale ANCREPSY

    *Association  Scientifique des Psychiatres de Secteur ASPS *Association Francophone de Formation et de Recherche en Therapie Comportementale et Cognitive (A.F.FOR.THE.C.C.)

     

     


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