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Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Maio de 2013 - Vol.18 - Nº 5

Pensando a Psiquiatria

O CÉREBRO DOS PEDÓFILOS

Dr. Claudio Lyra Bastos


O assunto para discussão de hoje edição parte de um artigo sobre achados neuroanatomicos em pedófilos, feitos com recursos de neuroimagem (Association between brain structure and phenotypic characteristics in pedophilia; Poeppl TB, Nitschke J, Santtila P, Schecklmann M, Langguth B, Greenlee MW, Osterheider M, Mokros A; Journal of Psychiatric Research - Feb 2013). Alguns aspectos podem suscitar reflexões interessantes.

De acordo com os autores, os estudos prévios de neuroimagem na pedofilia mostraram resultados heterogêneos. No seu estudo, a menor idade das vítimas foi associada com a redução da matéria cinzenta no córtex orbitofrontal e nos giros angulares bilaterais.

Concluem que estruturas neurais comprometidas poderiam estar especificamente relacionadas com algumas características fenotípicas, o que explicaria os resultados heterogêneos dos estudos anteriores de neuroimagem sobre pedofilia, constituindo um aspecto dimensional, multifacetado, ao invés de uma entidade categórica.

À parte os dados neurofisiológicos específicos, que não deixam de ter o seu interesse, o que nos surpreende aqui é a obviedade dessa conclusão geral. O que será que eles esperavam? Encontrar algum nucleus paedophilicus? Lembramos aqui dos frenologistas do século XVIII, que pareciam querer investigar antes de compreender o objeto investigado. Será que os autores achavam mesmo que a pedofilia seria uma entidade específica, alguma "coisa", per se?

Para quem tem alguma prática na área forense, a baixa idade das vítimas parece ter tudo a ver com a baixa capacidade cognitiva e com traços psicopáticos, e os achados podem ter a ver com uma coisa, e não com outra. Tais indivíduos podem atacar crianças não porque tenham necessariamente algum especial apetite depravado, mas simplesmente porque são indefesas, relativamente aos adultos.

Outros indivíduos podem ter outras motivações. Colocá-los todos no mesmo saco só leva a conclusões óbvias e raciocínios circulares, desperdiçando um maravilhoso aparato tecnológico com questões ingênuas.

Entendo que a neurofisiologia e os estudos de imagem tem um enorme potencial para ampliar o conhecimento psiquiátrico, assim como o uso inteligente dos dados estatísticos.

No entanto, entendo também que antes de se chegar às respostas, é preciso se saber formular as perguntas. Objetos complexos, como as atividades mentais, não podem ser definidos ingenuamente. Pedofilia, evidentemente, não é uma entidade clínica, nem mesmo um conceito psicopatologicamente consistente. Basear pesquisas em objetos como este não produz muito, em termos de conhecimento real.

Usar instrumentos científicos para pesquisar objetos inexistentes, ou que só existem como parte do mundo da cultura, não nos leva muito longe. Observamos tais tendências nos infindáveis debates sobre “Violência”, “Dependência Química”, “Comportamento Criminoso”, etc.

Ignorando a advertência de J. Stuart Mill de que se dar nome a alguma coisa não significa dotá-la de existência própria – muita gente parece crer que entulhar conceitos diversos em uma determinada categoria produz, por milagre, uma nova entidade real e palpável.


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