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Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Dezembro de 2013 - Vol.18 - Nº 12

Artigo do mês

APLICAÇÕES DA REALIDADE VIRTUAL NA DETECÇÃO E CONSCIENTIZAÇÃO DOS NÍVEIS DE ANSIEDADE EM PACIENTES SOB TRATAMENTOS PSICOTERAPÊUTICOS E PSIQUIÁTRICOS

Luís Junqueira
Doutorando em Engenharia Biomédica
Laboratório de Tecnologia Assistiva
Universidade de Mogi das Cruzes

1. Introdução                       

 

O desenvolvimento da tecnologia computacional tem permitido a criação de ambientes de simulação cada vez mais próximos da realidade. São conhecidos como ambientes de Realidade Virtual (RV) e permitem simular em computador diversas localidades, como o ambiente de uma casa ou de um hospital, e diversos cenários ou situações às quais se queira expor o usuário. A aplicação da RV em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) tem sido relatada em diversos estudos associados com o seu uso em pacientes que sofrem de estresse pós-traumático, transtornos de ansiedade, dependência química, e fobias diversas tais como medo de aranhas, medo de voar, agorafobia, acrofobia, etc. (HERBELIN et al, 2002; GORINI e RIVA, 2008; GERARDI et al, 2010). A exposição de pacientes à cenários de ambientes virtuais para fins de terapia é conhecida como Terapia de Exposição por Realidade Virtual (CUKOR et al, 2009).

 

2. Terapia de Exposição por Realidade Virtual

 

Para permitir a interação com o usuário é possível incluir Humanos Virtuais, também conhecidos como Humanóides, nos ambientes de RV (MAGNENAT-THALMANN & THALMANN, 2005). Humanóides têm sido amplamente utilizados em simulações, jogos e animações gráficas computacionais. No Brasil, a utilização do biofeedback e a modelagem e aplicação de Humanóides para detecção de estados ansiosos tem sido investigada no Núcleo de Pesquisas Tecnológicas (NPT) do Programa Integrado de Pós-graduação em Engenharia Biomédica da Universidade de Mogi das Cruzes, e pode ser apreciada em diversas publicações da área (MARTUCCI et al. 2006, 2008, 2010; SILVA et al. 2007, 2008).

 

Em um dos trabalhos realizados, o autor desenvolveu um Humanóide capaz de simular a expressão do paciente, ao passar de um estado relaxado para um estado ansioso, e exibi-la em um ambiente de Realidade Virtual (MARTUCCI et al. 2008), com o objetivo de conscientizar o paciente das situações que comprometem a eficácia do seu tratamento.

 

No estudo desenvolvido por Silva et al (2007), sobre determinação de ansiedade através da detecção computadorizada de sinais biológicos, verificou-se que, a partir da análise dos dados da aquisição de sinais biológicos de pacientes voluntários submetidos à estímulos capazes de eliciar estados ansiosos, houve o aumento dos batimentos cardíacos, aumento da freqüência respiratória e diminuição da resposta galvânica da pele (GSR), quando os mesmos se mostravam ansiosos, evidenciando a relação entre as variações fisiológicas e o estado de ansiedade dos pacientes. Os autores concluem que “A mensuração dos sinais biológicos realizados neste trabalho, proporcionou meios de obter dados objetivos e quantitativos sobre a ansiedade do paciente em sessões de terapia durante tratamento” (SILVA et al, 2007, p. 121).

 

Também no campo da detecção, quantificação e avaliação do estresse, sistemas computadorizados baseados na medição de variáveis fisiológicas (JUNQUEIRA, 2013) e protocolos de avaliação baseados em características de sinais biológicos (GIAKOUMIS et al, 2013) têm sido propostos em estudos recentes.

 

Já na área de pacientes sob tratamentos psicoterapêuticos  e psiquiátricos, Martucci et al (2006, p. 4), em seu trabalho de auxílio à conscientização de dependentes químicos, em relação à sua dependência, relata que “Percepções positivas obtidas com a abstinência reforçam a perseverança pela recuperação, e a determinação por melhorias durante o tratamento ocorre através da conjunção entre a consciência do problema e a vontade de mudar. O humanóide deste projeto visa auxiliar justamente neste processo de conscientização do problema”. Os autores desenvolveram um Humanóide capaz de expressar a variação da respiração, por meio da movimentação torácica (dilatação e contração), quando a captação do sinal biológico do usuário evidenciar mudanças na respiração devido à ansiedade (emuladas por um software de simulação de variação da freqüência respiratória). Efeitos sonoros acompanham a variação da respiração, em complemento ao apelo visual do Humanóide, e auxiliam na conscientização do estado ansioso pelo paciente.

 

Os autores consideram que o Humanóide poderá ser utilizado como biofeedback para pacientes em tratamento, em que um terapeuta simule exposição às situações de risco para o mesmo, permitindo ao paciente identificar a alteração de seu nível de ansiedade, prevenindo-o sobre as possibilidades de recaída e concluem que “O humanóide é útil como uma ferramenta auxiliar para endossar o diagnóstico subjetivo do terapeuta, facilitando a aceitação por parte do paciente. E conseqüentemente, para demonstrar, explicitamente, que algumas situações específicas provocam alterações em seu estado de ansiedade e que podem comprometer seu tratamento” (MARTUCCI et al. 2006, p. 4).

 

3. Dispositivos Móveis

 

Soluções de ambientes de Realidade Virtual para tratamento de desordens de ansiedade também já são disponibilizadas para utilização em telefones móveis, conforme Pallavicini et al (2009). Uma tendência observada no desenvolvimento de novos sistemas de monitoramento do estresse e da ansiedade é a de utilização de tecnologias que permitam a criação de dispositivos móveis, que possam ser transportados juntos com os usuários e transmitir as informações coletadas via sistemas sem fio.

 

Encontramos exemplos do desenvolvimento dessas soluções em Sanchez et al (2012), com o desenvolvimento de uma aplicação para uso em celulares, Lu et al (2012), com a utilização dos Smartphones, em Massot et al (2012), com o desenvolvimento de um dispositivo de uso ambulatorial com comunicação sem fio, e em Vilarejo et al (2012), com um sensor de estresse baseado em GSR e controlado por ZigBee, uma interface para comunicação wireless (sem fio).

 

 

REFERÊNCIAS

 

CUKOR, J. et al. Emerging Treatments for Post Traumatic Stress Disorder. Clinical Psychology Review, v. 29, n. 8, p. 715-726, 2009.

 

DUNSTER, C. Treatment of Anxiety and Stress with Biofeedback. Global Advances in Health and Medicine, v. 1, n. 4, p. 76-83, 2012.

 

GERARDI, M. et al. Virtual Reality Exposure Therapy for Post-Traumatic Stress Disorder and other Anxiety Disorders. Current Psychiatry Report, v. 12, n. 4, p. 298-305, 2010.

 

GIAKOUMIS et al. Subject-dependent Biosignal Features for Increased Accuracy in Psychological Stress Detection. International Journal of. Human-Computer Studies, 71, p. 425–439, 2013.

 

GORINI, A.; RIVA, G. The Potential of Virtual Reality as Anxiety Management Tool: A Randomized Controlled Study in a Sample of Patients Affected by Generalized Anxiety Disorder. Biomed Central Trials, p. 9-25, 2008.

 

HERBELIN, B. et al. Virtual Reality in Cognitive Behavioral Therapy: a Study on Social Anxiety Disorder. In: 8th International Conference on Virtual Systems and Multimedia, 2002.

 

JUNQUEIRA, L. Sistema Computadorizado de Quantificação do Estresse Baseado em Avaliação de Variáveis Fisiológicas. Anais do II Simpósio de Engenharia Biomédica: Simpósio de Produção Científica do Programa Integrado em Engenharia Biomédica da Universidade de Mogi das Cruzes, UMC, 2013.

 

LU, H. et al. StressSense: Detecting Stress in Unconstrained Acoustic Environments using Smartphones. Proceedings of the 2012 ACM Conference on Ubiquitous Computing (UbiComp), p. 351-360, September 2012.

 

MAGNENAT-THALMANN, N.; THALMANN, D. Virtual Humans: Thirty Years of Research, What Next? Visual Computing, v. 21, n. 12, p. 997–1015, 2005.

 

MASSOT, B. et al. EmoSense: An Ambulatory Device for the Assessment of ANS Activity—Application in the Objective Evaluation of Stress With the Blind. IEEE Sensors Journal, v. 12, n. 3, p. 543-551, March 2012.

 

MARTUCCI, H.; SILVA, M.; FRÈRE, A. Modelagem de Humanóide e Simulação da Respiração para Auxiliar a Conscientização de Dependentes Químicos. In: X Congresso Brasileiro de Informática em Saúde, 2006.

 

MARTUCCI, H.; SILVA, M.; FRÈRE, A. Análise de Sinais Fisiológicos para Quantificação da Ansiedade e Auxílio à Reabilitação. In: XXII Congresso Brasileiro de Engenharia Biomédica, 2010.

 

MARTUCCI, H.; SILVA, M.; SLAETS, A. Humanóide Virtual como Biofeedback para Identificação da Ansiedade. In: XXI Congresso Brasileiro de Engenharia Biomédica, 2008.

 

PALLAVICINI, F. et al. Biofeedback, Virtual Reality and Mobile Phones in the Treatment of Generalized Anxiety Disorder. Journal of Cyber Therapy & Rehabilitation, v. 2, n. 4, 2009.

 

SANCHEZ, D. et al. Cellular Phone-based Biofeedback to Treat Physical and Mental Disorders. The 14th IEEE International Conference on e-Health Networking, Applications and Services (Healthcom), p. 411-414, 2012.

 

SILVA, M.; FRERE, A.; MERCADANTE, L. Processamento de Sinais Fisiológicos para Quantificação da Ansiedade. In: XXI Congresso Brasileiro de Engenharia Biomédica, 2008.

 

SILVA, M.; MARTUCCI, H.; DE SANTI, R.; SLAETS, A. Determinação Automática da Ansiedade por Detecção Computadorizada de Sinais Biológicos. In: Proceedings of IV Congresso Latinoamericano de Ingeniería Biomédica, v. 18, p. 118–121, 2007.

 

VILAREJO, M. et al. A Stress Sensor Based on Galvanic Skin Response (GSR) Controlled by ZigBee. Sensors, 12, p. 6075-6101, 2012.


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