Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Junho de 2011 - Vol.16 - Nº 6

História da Psiquiatria

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A PSIQUIATRIA

Walmor J. Piccinini

      O século XXI está nos apresentando interessantes e ao mesmo tempo ameaçadoras  concepções sobre a psiquiatria e a condição do psiquiatra.  Se por um lado temos um crescente número de psiquiatras, uma Associação Brasileira de Psiquiatria cada vez mais forte e atuante, uma produção científica com expressão internacional, do outro lado as críticas a psiquiatria e a hostilidade contra os psiquiatras são cada vez mais ferozes.  No mundo assistimos a luta constante da Cientologia contra a psiquiatria, são páginas de anúncios em jornais, passeatas nos congressos psiquiátricos e até uma exposição itinerante que é estrategicamente colocada nas proximidades dos centros de convenções que abrigam congresso de psiquiatria. Essa atuação não chega a incomodar e é um direito que eles têm de criticar. No Brasil esta situação é no mínimo contraditória, o mesmo governo que, através das suas entidades universitárias estimula a pesquisa, atua através do Ministério da Saúde para desprestigiá-las.  Tomando por base o Índice Bibliográfico Brasileiro de Psiquiatria (www.biblioserver.com/walpicci) que atualmente está próximo das 19 mil referências bibliográficas, temos quase seis mil a partir do ano 2000. Em apenas 11 anos temos a produção de quase um terço dos trabalhos publicados nos últimos 170 anos. Acrescente-se a essa boa produção científica, o fato dela ser publicada em revistas de alto impacto e submetida a “peer review”.

    Sobre a assistência psiquiátrica pública, o presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria apresentou ao novo ministro da saúde os seguintes dados:

“Acreditamos inclusive que esta atitude de mudança deva atingir a Coordenação de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas, a partir da substituição de seu coordenador. Essa medida se concretizada, pode dar início à recuperação do sistema de assistência em saúde mental no Brasil.

Para seu conhecimento, há cerca de 20 anos a estrutura de atendimento em saúde mental vem sendo sistematicamente desmontada no país por grupos de interesses diversos.

Nos últimos dez anos, o número de leitos psiquiátricos privados mais que duplicou, e o número de leitos públicos diminuíram de 120 mil para 36 mil; e isso ocorre ao mesmo tempo em que assistimos à escalada do Crack, à judicialização da saúde e ao aumento de moradores de rua com transtorno psiquiátrico.

Outro dado assustador é o crescimentos da população carcerária com doença mental, cerca de 12 %, sendo em números absolutos próximo de cerca de 60 mil desassistidos no sistema prisional, muitos que são doentes que cometeram pequenos delitos por ser moradores de rua, serem exploradores por traficantes etc. Estamos transformando as prisões em novos manicômios.

Fora isso, temos a crescente necessidade de ferramentas terapêuticas para o tratamento dos portadores de Transtornos alimentares, Transtornos Bipolares, Transtornos de Déficit de atenção e Hiperatividade, transtornos de ansiedade, transtornos depressivos, dependentes químicos e outros que não têm alternativa real de tratamento na rede pública.

Existe hoje um quadro grave de desassistência na área de saúde mental no Brasil. Saímos de um modelo Hospitalocêntrico falido e entramos em um modelo “Capscêntrico” sem eficiência provada. Este cenário, em grande parte, foi construído a partir do afastamento dos psiquiatras do planejamento das políticas públicas, de planejamento e de atendimento. Não temos nada na área de promoção da saúde, prevenção da doença e assistência escalonada 1ª, 2ª, 3ª implantado de forma resolutiva. Defendemos um modelo em rede que seja efetivo, com comprovada eficácia, eficiência e efetividade. Veja as Diretrizes aprovadas em resolução pelo CFM em Julho de 2010.

A Associação Brasileira de Psiquiatria há tempos tem alertado para a condução equivocada da saúde mental no país e sempre foi ignorado pela Coordenação de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas. Confiamos na capacidade e na disposição do Ministério da Saúde em reverter esse quadro alarmante....” Antônio Geraldo da Silva
     A questão da doença mental é tão importante que, mesmo com a união de todas as profissões, entidades e profissionais ela não será vencida sem muita luta. A desunião e guerrilhas internas é um prenúncio de fracasso. A luta contra as más condições de atendimento não deve ser confundida contra o atendimento em si. A preocupação orçamentária não deve se sobrepor às necessidades da população. Infelizmente, o tsunami da drogadição está colocando a realidade triste diante dos olhos de todos. 

    Num artigo publicado na Psiquiatria On Line Brasil em junho de 2001 sob o título: A Psiquiatria em Transformação ou A Visão de uma Nova Psiquiatria (Junho de 2001 - Vol.6 – No. 6) http://www.polbr.med.br/ano01/wal0601.php , ainda sob influência da psiquiatria americana, apresentamos uma perspectiva para a nova psiquiatria que apresentamos aqui em resumo. Começamos com a observação das mudanças em geral:

1. Redução significativa do tempo de internamento

2. Uso generalizado de psicofármacos

3. Abandono das psicoterapias de longa duração em favor de técnicas psicoterápicas breves comprovadas em pesquisa, como a IPT (Interpersonal Psychotherapy de Klerman e Weissmann e a Cognitive-Behavioural Therapy de Aron Beck)

4. Integração com as demais especialidades médicas. Interconsulta

5. Co-morbidade

6. Afastamento da psicanálise do meio acadêmico.

7. Maior precisão diagnóstica

8. Casos mais graves e presença importante de álcool e drogas

Mudanças no Paradigma da Psiquiatria.

Áreas em transformação: comparando a Psiquiatria Tradicional com a Nova Psiquiatria

1.    Integração com os colegas da área da saúde.

2.    Avaliação e tratamento

3.    Manutenção e Resultados

4.    Prioridades nas pesquisas

5.    Financiamento e apoio)

1) Integração (com a área da saúde.)

Psiquiatria Tradicional

Nova Psiquiatria

Diferente da Medicina

Totalmente integrada na Medicina

Isolacionista

Participativa

Ideológica (mente)

Científica (cérebro)

Confidencialidade

Co-tratamento

Setting (ambiente) psiquiátrico

Setting na comunidade e Cuidados primários.

2) Avaliação e Tratamento

Psiquiatria Tradicional

 

Paciente Internado

ambulatorial

Longas avaliações

Triagem rápida

"worried well"

Casos mais severos

Tratamentos longos

Tratamentos curtos

Psicoterapia

Abordagem biológica/ biopsicossocial

Psicodinâmica                    CBT, IPT, Breve                                                                       Álcool e drogas                   Crack                                    

 

3) Manutenção e Resultados

Psiquiatria tradicional

Nova Psiquiatria

Doença Reativa

"Lifetime illnesses"

Tratamento episódico

Tratamento de manutenção

Conseqüências, os estudos interferem

Conseqüências, estudos são essenciais.

4) Pesquisa

Psiquiatria tradicional

Nova Psiquiatria

Fundos crescentes

Fundos diminuindo

Temas mecanísticos

Temas sobre serviços e molécula

Pesquisa, ensino e tratamento numa só pessoa

Pesquisadores indicados e exclusivos

Projetos individuais

Projetos colaborativos

Fundos governamentais

Outras fontes.

5) Financiamento e Suporte

Psiquiatria Tradicional

Nova Psiquiatria

Pagamento por serviço

Per capita /gerenciado

Psiquiatria cresce

Cuidados primários crescem

Custos crescentes

Economia de custos

 

A Este quinto item poderíamos acrescentar a diminuição de oferta de leitos em hospitais psiquiátricos, a tentativa de aumento em hospitais gerais e em Centros de Atenção Psicossociais.

A diminuição de leitos não significa fechamento puro e simples de hospitais e sim sua transformação em centros de atendimento modernos e de resposta imediata.

    No período pré-psicofármacos, o grande problema dos hospitais era a destruição das suas instalações por doentes difíceis de controlar. Hoje em dia, é raro um doente estar sem uso de um anti-psicótico o que os torna mais tratáveis, seja dentro ou fora de um ambiente hospitalar. Vamos ter um grande problema na medida em que a Indústria (Big Pharma para os críticos), se desinteressar do campo das drogas psiquiátricas, coisa que parece estar acontecendo, pois nenhuma droga nova apareceu nos últimos anos e as antigas estarão sem o domínio das patentes.

    Algumas pesquisas médicas apresentam alguns resultados inquietantes. Na medida em que aumenta a capacidade de resolução da medicina, aumentam as queixas da população contra ela. Com a psiquiatria está acontecendo a mesma coisa, os tratamentos estão cada vez mais eficazes e com menor desgaste na vida pessoal de quem sofre, mas por outro lado,  certos intelectuais se mostram agressivos contra esta mesma psiquiatria. Essa atitude favorece ao estigma contra o doente mental e quem o trata.

     Esperamos que os progressos da psiquiatria que podemos ver em prática na atenção aos doentes particulares pudesse ser estendida aos doentes do SUS que estão sendo relegados a receber um tratamento de menor qualidade. 


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