Volume 22 - Abril de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Maio de 2011 - Vol.16 - Nº 5

História da Psiquiatria

LAURO DE OLIVEIRA PIMENTEL
PRECURSOR DA PSICOTERAPIA E DA PSICANÁLISE NO BRASIL

Walmor J. Piccinini

 “A terapêutica nas suas múltiplas variedades pode orientar-se pelos effeitos mórbidos, isto ê, por sintomas e lesões, assumindo um caráter, francamente, oportunista e ser sintomática; pode visar, unicamente, a causa,como nas doenças infecciosas e parasitarias, pretendendo parar a infecção no seu período prodrômico e evitar a sua evolução, a sua generalização, tornando-se etiológica; pode ainda se preocupar em opor ás perturbações mórbidas agentes medicamentosos, possuindo uma ação inversa sem se inquietar com a sua etiologia e patogenia e abstraindo das indicações verdadeiramente medicas e ser fisiológica; pode ser naturista, empírica e se orientar pelas condições da gênese das doenças e ser patogênicas”

(Lauro de Oliveira Pimentel-1916).

Nos tempos atuais falamos de neuroplasticidade, do efeito psicoterápico no cérebro, no aumento das defesas do organismo com a melhora do estado de ânimo, no valor da espiritualidade no enfrentamento das adversidades. Da resposta positiva da psicoterapia quando comparada com medicação e das novas psicoterapias com manuais de treinamento e boa resposta clínica.  É surpreendente encontrarmos afirmações com as encontradas nesta tese onde a relação médico-paciente poderia ser fator destacado no aumento da resistência à enfermidade.

O Dr. Lauro de Oliveira Pimentel acreditava no isolamento, na persuasão como parte da psicoterapia. Compreendia a psicanálise como uma outra forma de persuasão.

Neste artigo vamos seguir a seguinte ordem:

1.    Apresentar a Tese Inaugural do doutorando Lauro de Oliveira Pimentel apresentada na Faculdade de Medicina de Porto Alegre

2.    Algumas informações sobre o autor e como acessar seu trabalho on-line.

3.    Examinar aspectos da tese chamando a atenção para a maneira como compreendeu o trabalho de Freud.

4.    Considerações gerais.

 

 Uma das grandes iniciativas do Dr. Paulo de Argollo Mendes, presidente do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (www.simers.org.br) foi o de criar e patrocinar o MUHM, Museu da História da Medicina do Rio Grande do Sul (http://www.muhm.org.br). Tendo como meta básica preservar a memória médica, o MUHM, num trabalho conjunto com a Biblioteca da Faculdade de Medicina da UFRGS está digitalizando e colocando a disposição de todos, os livros, revista e teses que nos permitem conhecer as idéias, teorias e conhecimentos dos médicos gaúchos ao longo do tempo que vai da criação da Faculdade de Medicina de Porto Alegre-RS em 1898 até nossos dias. Este material está disponível para consulta no seu acervo. Foi lá que descobrimos a tese inaugural (doutoral) do Dr. Lauro de Oliveira Pimentel, apresentada na Faculdade de Medicina de Porto Alegre, em 1916.

 As informações sobre o autor são escassas, mas sabe-se que era natural do Pará e médico militar (10º Regimento de Porto Alegre). Começou como estudante na Escola de Guerra de Porto Alegre. Aluno da Escola Militar do Realengo no Rio de Janeiro de onde saiu aspirante a oficial. Servindo em Porto Alegre, entrou para a Faculdade de Medicina onde se formou em 1916. Como Oficial do Exército reformou-se no posto de tenente-coronel. Foi professor do Colégio Militar de Porto Alegre. Na sua pequena biografia publicada no MUHM há referências dele como escritor, jornalista e conferencista. Publicava no Correio do Povo sob o pseudômino de João Jaques. Na sua bibliografia, além da tese de doutoramento, consta uma Conferência sobre o Ressurgimento Pátrio em 17/11/1917 e o livro “Mentira e... Reticências Médicas”  em 1924, pela Livraria Americana  em Porto Alegre.

    O desconhecimento desta tese de Lauro de Oliveira Pimentel deixou-o fora da história da Psicanálise e da Psiquiatria no Brasil. Consultando os trabalhos de Roberto Sagawa, Maria Alzira Perestrello, Maria Lucia Valladares  e outros, nada encontramos sobre este autor. Credito o desconhecimento à falta de acesso ao material de pesquisa histórica que, aos poucos vai aparecendo, graças a iniciativas como esta do MUHM. Sagawa publicou sob o título de Um Recorte da História da Psicanálise no Brasil.(RYS)

(http://www.cocsite.coc.fiocruz.br/psi/pdf/artigos1.pdf), trata dos primórdios da psicanálise e dividiu os personagens em precursores e pioneiros, os precursores seriam os primeiros médicos a escrever ou falar sobre psicanálise no Brasil, entre eles Juliano Moreira, Genserico Aragão e Francisco Franco da Rocha. A eles seguiram-se os pioneiros que exerceram alguma forma de psicanálise, mesmo sem formação oficial, tais como J.P. Porto Carrero, Arthur Ramos e outros. Durval Marcondes pode ser considerado precursor e pioneiro, pois se dedicou a criar uma formação psicanalítica oficial no Brasil.

    Dos precursores citados, poucos apresentam uma visão tão clara do trabalho de Freud e sua aplicação na Psicoterapia como Pimentel.

    A tese do Dr. Pimentel está organizada em 5 capítulos, conclusão e resumos de alguns atendimentos psicoterápicos. Os capítulos são os seguintes:

CAPITULO I

Antigas e recentes concepções das psiconeuroses

 

CAPITULO 11

Tríade patológica passível da psicoterapia - Esboço

Concepcional das psiconeuroses e da neurastenia.

 

CAPITULO III

Métodos psicoterápicos em Voga - Hipnotismo -

Sugestão- Psicanálise - arétoterapia - Persuasão.

 

CAPITULO IV

Reeducação e reequilíbrio dos estados neuropsíquicos

 

CAPITULO V

Do isolamento como meio complementar do método persuasivo e como medida profilática

 

Conclusão e Casos Clínicos.

 

Vamos pinçar alguns detalhes das idéias expressadas pelo autor.

 

“E' um assunto novo, para o mundo médico rio-grandense, e a prova, demonstrativa desta minha asserção, reside no fato de não haver em todo o Estado, onde a corpo médico é numeroso e ilustrado, um único estabelecimento hospitalar no qual se pratique a Psicoterapia, havendo, no entanto, um número infindável de psiconeuróticos entregues aos acasos de uma cura em família”.

Em todas as situações humanas, seja de ordem física, seja de ordem moral, a Psicoterapia se exerce de uma decisiva maneira, solucionando as mais das vezes, os problemas extremamente embaraçosos e complicados de uma existência enxertada de dificuldades de toda ordem e eivada de preconceitos patológicos arraigados”.

Apresenta a relação médico-paciente como uma possibilidade de aumento das defesas orgânicas dando lugar a uma maior resistência à enfermidade.

Cap. I Antigas e Recentes concepções das psiconeuroses.

Neste capítulo ele parte das idéias de Cullen que cunhou o termo psiconeurose e a definição de doença de curso sem febre e apresenta as concepções diagnósticas até chegar à histeria e a neurastenia como modelos psiconeuróticos.

“WILLIAM CULLEN (1710-1790), médico escocês, formado em 1740 pela Universidade de Edimburgo e de quem o grande PHILIPP PINEL, ao traduzir para o francês o seu livro Instituitium of medicine, pode dizer que, nessa obra «se encontra uma historia fiel e exata das doenças, segundo a co-existência e a sucessão dos sintomas» e que «os recursos,

assim como os limites da nossa arte nela são expostos com uma candura ingênua», William Cullen foi quem, pela primeira vez, empregou a palavra neurose, com

o intuito de consubstanciar num só os estados patológicos que os seus antecessores denominavam de doenças nervosas, vapores e afecções vaporosas.

“Isto foi em 1776”.

Depois de citar várias concepções sobre neurose chega a Freud:

BREUER e SIGMUND FREUD, professores em Viena e edificadores de urna nova doutrina, relativa ao tratamento e á analise das neuroses e da qual tratarei proximamente em um dos capítulos deste modesto trabalho, concebem as psiconeuroses como uma anomalia do desenvolvimento genital, a qual é ignorada do próprio individuo que d'ela não se apercebe. E' uma anomalia psicogenital dissimulada, mascarada pela influência deformante da Censura, é o estado negativo da perversão. As psiconeuroses, representadas pela histeria e pela obsessão, resultam, na opinião dos abalizados fundadores da psicanálise, de complexos mal recalcados, remontando pelo passado individual até á juventude.

 

O ilustrado professor BERNHEIM, da celebrada Faculdade de Nancy de onde as mais belas doutrinas têm surgido aureoladas pelo justo renome de que goza, no mundo medico, a digna rival da Salpêtriere, o notável professor BERNHEIM concebe as psiconeuroses de um modo todo particular, traduzido pela seguinte definição que ele nos dá desses estados mórbidos:

 «Que é uma psiconeurose?  E' uma perturbação funcional, puramente dinâmica, sem lesão, nem toxina. De origem emotiva ou  psíquica e que pode ser entretida ou repetida por auto-sugestão.

 

A questão psíquica, ou melhor, a questão psicofisiológica, compreendendo esta expressão como a concebeu

EMILE LITTRÉ, isto é, psíquica por ser relativa aos sentimentos e ás idéias; fisiológica por exprimira formação e a combinação destes sentimentos e destas idéias em relação com a constituição e a função do cérebro, a questão psicofisiológica, aparece na interpretação das psiconeuroses de tal maneira notável que, desde logo, amparados pela Anatomia Patológica até' aqui impotente para descobrir uma lesão que justifique as diversas modalidades desses estados, que, desde logo" elas se insinuam no espírito medico, segundo a interpretação simplista partilhada pelos professores DUBOIS, RAYMOND e outros; isto é, como entidades mórbidas sem lesão conhecida.

 

Mas o professor Paul DUBOIS, completando o seu pensamento, acrescenta: «Tendo eliminado as neuroses cuja origem somática é provável, não conservo neste grupo das psiconeuroses senão as afecções nas quais predomina a influência Psíquica, aquelas que são mais ou menos passivas da psicoterapia que são: a neurastenia, a histeria, a histero-neurastenia, a psicastenia, as formas leves da hipocondria e da melancolia; em fim podem-se incluir aí certos estados de desequilíbrio mental mais graves frisando pela vesania e aqueles difíceis de classificar»-

 

DEJERINE E GAUCKLER « estudam, sob o nome de manifestações funcionais, o conjunto de perturbações e de sintomas persistentes, acusado pelos neuropatas e enxertando-se nestes doentes, fora de qualquer lesão somática antecedente.»

E esse aglomerado de modalidades patológicas eles a descobrem nos estados neurastênico, histérico e psicastênico, que são a tríade em torno da qual gira a nova concepção das psiconeuroses, que os referidos autores explanam no seu livro, por muitos títulos, apreciável.

 

E dessa maneira, derrotando as outras concepções elas psiconeuroses, RAYMOND chega á conclusão de que somente a histeria e a psicastenia podem fazer parte desse capitulo sem que o espírito cientifico, no entanto, se satisfaça com a interpretação, exclusivamente, de ordem psíquica que a Medicina até agora lhes pode dar.

 

CAPITULO 11

Tríade patológica passível da Psychoterapia – Esboço concepcional das psychoneuroses e da neurasthenia

 

Para el1es, como para um grande numero de autores, a significação da síndrome neurastênica é, antes de tudo, asthenza nervosa, nervous exhaust On dos ingleses e para o norte-americano BEARD, que propôs este nome em 1880, «é a insuficiência do potencial nervoso, a diminuição do funcionamento dos neurônios psíquicos, sensitivos, motores, vasos-motor, etc., com predominância sobre tais ou tais dentre eles, cefálicos, medulares ou simpáticos.

 

O professor DUBOIS encara a neurasthenia como uma psiconeurose pura e definida; chama-lhe de irmã mais nova da histeria. Para o admirável neuropatologista a neurasthenia é uma conseqüência da luta pela vida.

Existem neurastênicos desde que us homens se organizaram em sociedade e interesses e egoísmos se chocam a todo instante e por qualquer pretexto. Mas o livro de DUBOIS é de 1904.

 

Para BERNHEIM «todas as doenças toxicas ou infecciosas, criando uma intoxicação difusa, sem nítida localização orgânica ou antes, desta localização, dão lugar a manifestações gerais que simulam, aparentam  um estado neurastênico» .

 

PINEL classificou a histeria sob o titulo de Neuroses da geração, segunda sob ordem, intitulada: - Neuroses genitais da mulher, gênero XLVI e a definiu da seguinte maneira: «Sentimento de uma bola que parte do útero, conduz-se ao pescoço e constrange mais ou menos a respiração, produzindo fenômenos   variados nas diversas funções. »

Duas espécies se poderiam encontrar: Simples e complicadas

 

A Psicoterapia e seu papel nas psiconeuroses

 

Métodos psicoterápicos em Voga - Hipnotismo -

Sugestão- Psicanálise - arétroterapia -: Persuasão

 

A terapêutica nas suas múltiplas variedades pode orientar-se pelos efeitos mórbidos, isto ê, por sintomas e lesões, assumindo um caráter, francamente, oportunista e ser sintomática; pode visar, unicamente, a causa, como nas doenças infecciosas e parasitarias, pretendendo parar a infecção no seu período prodrômico e evitar a sua evolução, a sua generalização, tornando-se etiológica; pode ainda se preocupar em opor ás perturbações mórbidas agentes medicamentosos, possuindo uma ação inversa sem se inquietar com a sua etiologia e patogenia e abstraindo das indicações verdadeiramente medicas e ser fisiológica; pode ser naturista, empírica e se orientar pelas condições da gênese das doenças e ser patogênica.

 

Hipócrates «é o tratamento que faz conhecer a natureza da doença». Segundo Pimentel:

 

“A natureza das doenças e especialmente dos doentes é o que indicará o tratamento a seguir-se”.

 

Sobre os diferentes métodos: 1-Hipnotismo

O hipnotismo aparece para determinados mestres como o mé0hodo de escolha em casos especiais. Assim

PIÉRRE JANET exerce-o ha muito tempo em larga escala, colhendo, pelo que se depreende das suas observações, os melhores resultados definitivos no tratamento dos estados ditos psiconeuróticos.

Sobre hipnotismo no Brasil sugerimos a leitura do artigo de Fernando Câmara sobre a Instituição da Psicoterapia no Brasil 1887-1889 na Psiquiatria Online Brasil (http://www.polbr.med.br/ano03/wal0103.php)

 

Pimentel discorre sobre a opinião de vários autores sobre o hipnotismo e parece se agradar mais das idéias de Bernheim que cita:

“BERNHEIM, combatendo esta idéia de sono que todos os autores, desde BRAID, ligam á concepção do hipnotismo,com experiências irrecusáveis, diz-nos que «os fenômenos ditos hipnóticos não são em realidade senão fenômenos  de sugestibilidade; d'onde ele conclui que tudo «quanto se chama hipnotismo não é outra cousa senão acionamento de uma propriedade normal do cérebro, a sugestibilidade, isto é, a aptidão a ser influenciado por uma idéia aceita e a procurar a sua realização». Para esse autor não há hipnotismo ou «estado especial,anormal, anti-fisiológico, merecendo este nome», o que há são indivíduos . «mais ou menos sugestionáveis aos quais podem ser sugeridas idéias, emoções, atos, alucinações.

A opinião de Pimentel é expressa da seguinte maneira: Baseado nas doutrinas neuropsíquicas, eu quero ver nos fenômenos ditos hipnóticos, simplesmente, uma questão reflexiva pela qual os processos associativos se estabelecem de um modo todo especial, dando lugar a um estado de  passividade e de depressão provocado pelas reações mecânicas que os símbolos verbais, independente da vontade do paciente, podem produzir-lhe.

Esse estado é passageiro e corresponde a um complexo de reações variáveis para cada individuo, sendo que é mais facilmente provocado naqueles nos quais as impressões se distribuem segundo a lei que formulei no capitulo anterior. (A natureza das doenças e especialmente dos doentes é o que indicará o tratamento a seguir).

 

2. A sugestão:

 

Todos somos, na realidade mais ou menos sugestionáveis, sendo que isso depende do mecanismo da nossa vida psicofisiológica, das particularidades reflexivas e dos processos associativos especiais para cada individuo que caracterizam a nossa personalidade neuropsíquica.

 

Para o professor Dubois, sugerir «é surpreender em toda ou em parte a boa fé do paciente, levá-lo a uma idéia que poderá curá-lo, mas que não tem a mesma forma no espírito do doente e no do médico. Há para DUBOIS uma mentira medica na sugestão, uma piedosa mentira, á qual ele não recorreria senão no caso de serem negativos os processos de persuasão que pratica.

 

3. A Psicanálise ou Psyco-anlyse com escreve Pimentel em Porto Alegre e em1916:

 

Psycho-analyse é o termo que SIGMUND FREUD, celebrado médico de Viena, escolhera para sintetizar a doutrina que ha dezessete anos vem sustentando em relação ao tratamento e á analise do que ele chama neuroses.

Esta doutrina, que tem passado por transformações profundas, abre, hoje, para a psicoterapia um horizonte amplo do qual, mesmo no emprego de outro método que nos pareça aproveitave1 no tratamento das psiconeuroses, não devemos abandonar. E' de interesse capital para o psicoterapeuta a importância que ele atribue aos fenômenos da sexualidade no desenvolvimento d'esses estados mórbidos e na reconstituição do mecanismo por que passam.

(Atualmente, segundo o que escrevem REGIS e HESNARD) a psicanálise «é um método de exploração e de tratamento psíquicos das psiconeuroses, inspirado em um vasto sistema de explicação da maior parte das formas da atividade psíquica humana, quer normal, quer patológica, e caracterizada pela analise das tendências affectivas e de seus efeitos, estas tendências sendo consideradas pela grande maioria como derivadas do instinto sexual. »

FREUD, com: o emprego da sua doutrina descobre no intimo das entidades patológicas que se propõe tratar, traumatismos afetivos, isto é, acontecimentos emocionais concernentes ao instincto sexual e sobrevindos, mais comumente, antes da puberdade e na segunda infância.

Oportunamente, quando tiver ocasião de discutir o processo do medico vienense, discípulo de CHARCOT e de

BERNHEIM, estudarei a questão do «vasto sistema de explicação da maior parte das formas da atividade psíquica humana» e, sobretudo a interpretação que o citado autor dá aos fenômenos ditos afetivos.

 

5.   A arétoterapia ;(aretotherapia, grego virtude de virtudearete + terapia)

Um método de psicoterapia da neurose, com base na reforma sócio-ético, destinadas a estabelecer rico ideal social do paciente, de filosofia pessoal e atitude perante a vida. )

Coube ao professor JAROTZKV a descoberta e aplicação desse ramo terapêutico que consiste em levantar o estado moral do paciente não só despertando nele a coragem e a virtude, mas, ainda o desejo de realizá-las e, sobretudo, o de se aperfeiçoar moralmente. MARCINOWSCKI, secundando JAROTZKV nos seus trabalhos, não só entende que a arétoterapia tem por fim restabelecer ou, incutindo-lhe princípios novos, quer filosóficos, éticos ou estéticos com o fim de ampliar os horizontes intelectuais  circunscritos de todos quantos são passiveis da Psicoterapia pelo processo indicado.

 Para o Il lustre professor PAUL DUBOIS, a que tantas vezes me tenho referido no decurso d'este trabalho, «persuadir é submeter a alguém a idéia que se tem para si mesmo como verdadeira, é comunicar a esse alguém, que pode ser o doente, uma convicção com a qual se partilha completamente  é propor-se um tratamento psicológico que se aplicaria ao seu melhor amigo, a si mesmo."

A persuasão é, enfim, para o meu modo de: compreende-la, um método terapêutico psíquico de que se lança mão como meio seguro e eficaz na homogeneização dos reflexos neuro-psíquicos, na concatenação dos processos associativos das impressões recebidas e pelo qual se suprimem os effeitos retumbantes de excitações indefinidas. que os centros psíquicos em ação desdobram e desconjuntam, transformando-as, segundo o seu funcionamento se faz de acordo com a primeira, com a segunda,ou com a ultima hipótese estabelecida no capitulo anterior em relação á histeria, á psicastenia e á neurastenia.

Não ha senão um modo de persuadir que é esse que consiste em reintegrar o indivíduo; o doente é que pode variar, desde o mais ignorante até ao mais culto, do sentimental e romântico ao materialista intempestivo e rude, do monista puro ao lídimo dualista, do teólogo ao positivista.

 

Opinião sobre os diferentes métodos de tratamento.

 

1-   O hipnotismo é um método imoral, a meu ver.

Embora, CHARLES BURLUREAUX, 1) depois de concluir que o somno hipnótico não é no fundo senão uma simples (ou dupla) ilusão do hipnotizador e do hipnotizado, admita que, na pratica, esse sono, que, talvez não existe, oferece vantagens psicoterapêuticas tão certas, tão preciosas e tão incapazes de serem obtidas com o mesmo grau, por outra via, o que não me parece deixar duvidas é a desvantagem que advém para o individuo da criação nele d,:: um estado fictício pelo qual, mesmo sem o pretender, o operador se substitui á sua personalidade, modificando-a, trespassando-a, transformando-a, destruindo-a.

Em suma, esta anulação dos processos volitivos pessoais a que fica sujeito o hipnotizado, durante o sono hipnótico, e mesmo fora d'ele é, a meu ver, imoral:

a) porque pode resultar de uma burla;

b) porque não reintegra o paciente como personalidade moral;

c) porque alimenta o seu automatismo;

d) porque pode viciá-lo, criando nele a necessidade orgânica do sono hipnótico,

 e) porque, pela repetição das hipnotizações, segundo BERNHEIM avultam as influencias que se podem exercer sobre ele acentuado muitas vezes, num individuo por si só eminentemente sugestionável, a sua extraordinária sensibilidade á todas as sugestões.

 

2 - A psicanálise que, como vimos, se propõe descer ao fundo da consciência de cada doente, guiada pelas informações que lhe serão convenientes e através das quais ela anteverá o mecanismo do estado psíquico do paciente, e o reconstituirá, merece, de nossa parte, algumas considerações.

O principio em que se baseia o método de FREUD), resume-se em descortinar á luz da consciência as poderosas tendências das quais o paciente experimenta a influencia profunda, ignorando toda via a sua origem, tendências essas que ele não pode nem conhecer, nem combater em se dirigindo aos seus effeitos deformados; e, uma vez esclareci das' essas mesmas tendências, tornar possível senão a sua destruição, ao menos a sua utilização favorável e sua feliz adaptação á realidade.

1) Nisso, afinal. consiste a psicoterapêutica analítica.

FREUD admite como infalível na gênese das neuroses qualquer perturbação do instincto sexual e de tal maneira é a sua convicção que chega a afirmar que esses estados « têm uma origem muito profunda, remontando até a infância do doente.»

Para ele as crianças advinham muito bem o sexual nos ruídos insólitos, pois, os movimentos expressivos da sexualidade já existem nelas sob forma de mecanismos inatos. «Que a dispnéia, as palpitações do coração e as sensações de agonia nas neuroses sejam fragmentos destacados do ato do coito, diz ele, eu o tinha reconhecido desde longo tempo e análogos ao de Dora,

1) foram relacionados ao mesmo fato, á percepção fortuita do comercio sexual dos adultos. Sob o choque d'esta revelação - acrescenta - a criança bem pode substituir a tendência ao onanismo pela tendência á agonia cardíaca e, alguns dias após, sofrendo da ausência do pai, reproduzir esta impressão sob a forma de um acesso de dispnéa.»

 2) Ora, por um processo de reminiscência todo especial produzir-se-iam, então, as neuroses, segundo o medico vienense.

Era preciso, pois, empregar um meio pelo qual se pudessem enfocar todas as lembranças do doente numa recapitulação psicológica minuciosa.

De aí a psicanálise, que exige tacto excepcional, no seu manejo e que deve ser considerada como fazendo parte do método persuasivo, conforme bem diz ANDRÉ THOMAS.

3) Esse «vasto sistema de explicação da maior parte das formas de atividade psíquica humana» no qual se inspira a psicanálise consiste, especialmente, em pôr em foco os chamados complexos sexuais, percorrendo para isso toda uma escala cromática ao longo da vida psíquica do paciente até encontrar, nessa meada singular, a ponta do fio que se procura e que, escondido no inconsciente da primeira infância, conduzirá o medico á origem da doença.-

 

O que a Psicoterapia, porém, não poderá fazer é abandonar esse processo terapêutico excelente que é a psicanálise, cabendo, todavia, ao medico excluir, no seu emprego, tudo quanto seja inútil e prejudicial ao paciente e possa trazer resultados negativos ao seu trabalho de recomposição neuro-psíquica.

 

A Psicoterapia tem por escopo a reintegração moral do paciente, a sua reabilitação como individuo independente e autônomo, a recomposição regular e, ás vezes, minuciosa da sua personalidade. Ela não visa a doença mas o doente.

 

CAPITULO IV

Reeducação e reequilíbrio dos estados neuropsíquicos

 

O tratamento psicoterápico por persuasão é de efeitos morosos e, ás vezes, fracassa quando em pregado no meio habitual em que vive o paciente.

Como medida profilática, o isolamento deve ser reclamado insistentemente pelo psicoterapeuta que se esforçará por consegui-lo, no caso de relutância da parte da família.

 

Fica bastante claro que sua forma de trabalhar era utilizando a persuasão dentro das concepções do tratamento moral de Pinel. Sua simpatia pela psicanálise era por considerá-la uma forma de método persuasivo. Refere temor em abordar aspectos íntimos da sexualidade do paciente.

 

Um fato raro a se comentar é a bibliografia relacionada no final do trabalho. Praticamente toda de publicações vindas da França, mas com autores de diferentes nacionalidades. O exame desta bibliografia também nos permite ter idéia de que tipos de autores eram disponíveis no início do século XX no Brasil. Não há relação de qualquer trabalho de Sigmund Freud, tudo indica que sua fonte de c0onhecimento das idéias psicanalíticas se deva ao livro de E. REGIS e A. HESNARD - La psychoanalyse  des nevroses - Eel. 1914.

 

APÊNDICE – Acessando as biografias publicadas no Museu da História da Medicina do Rio Grande do Sul, apresentamos os membros da Banca Examinadora da Tese de Lauro de Oliveira Pimentel  

 

Tese apresentada no dia 30 de novembro de 1916 e defendida no dia 26 de dezembro do mesmo ano: A Psychoterapia e o seu papel nas psycho neuroses

Comissão Examinadora- Professores Olinto de Oliveira (presidente), » OLIVEIRA, (Olímpio) Olinto de).

 P. Alegre, RS, 5 jan. 1865 – Rio de Janeiro, 29 maio 1956. F.: João Olinto de Oliveira e Matilde das Chagas Oliveira. Est. prim. e sec. na cidade natal. Médico pela Fac. de Med. do Rio de Janeiro, 1887. Médico especializado em Pediatria em P. Alegre. Prof. de Química Biológica e de Pediatria da Fac. de Med. de P. Alegre, desde 1899. Diretor da referida Fac., 1910-1913. Médico no Rio de Janeiro, a partir de 1913. Diretor do Departamento Nacional da Criança, Rio de Janeiro, no decênio de 1930. Musicista e crítico de arte. Foi o fundador do Clube Haydn. P. Alegre, 1897, e do Instituto de Belas Artes, id, 1908. Co-fundador e 1o presidente da Acad. Rio-Grandense de Letras, 1a fase, id, 1901. Pertenceu à mesma instituição na sua 2a fase, 1934-1944. Membro de Honra da Acad. Sul-Rio-Grandense de Letras, P. Alegre, 1944-1946. Pai de Mário Olinto de Oliveira, sogro de Gonçalves Viana e (tardiamente) de Raul Pilla. Patrono da cadeira 54 da Academia Sul-Rio-Grandense de Medicina e que foi ocupada pelo Prof. Mario Rigatto.

 Bibl.: Das Paralisias na Infância, tese de doutoramento, Rio de Janeiro, 1887. O Fetichismno Terapêutico e a Medicina Moderna, conferência, id, 1920. O Sindicalismo e as Velhas Idéias, id, no 1o Congresso Médico Sindicalista, id, 1921. O Problema da Saúde dos Nossos Filhos. Um Grande Apelo em Favor da Criança Brasileira. Postos de Puericultura por Toda Parte, Rio de Janeiro, Departamento Nacional da Criança, 1939. A Proteção à Infância em Alguns Países da Europa, relatório de viagem de estudos, id, Serviço Gráf. do MES, 1940. A Casa da Criança, id, Departamento Nacional da Criança, 1946. A Proteção à Infância e o Departamento Nacional da Criança, id, Imprensa Nacional, 1946. “Críticas de Arte”, sob o pseudônimo de Maurício Boehm, Correio do Povo, P. Alegre. “Palestras médicas”, ibid. “Dr. Sebastião de Leão”, necrológio, Almanaque Popular Brasileiro, Pelotas, 1904. “Os progressos da Medicina e a atitude moral do médico através do tempo”, Revista Brasileira de Medicina, Rio de Janeiro, v.4, n.5, 1947. Discurso de Paraninfo, na formatura da 1a turma da Fac. de Med. de P. Alegre, P. Alegre, 1904.

 

Victor de Britto, Valença, BA, 15 out. 1856 – P. Alegre, RS, 24 out. 1924. Médico pela Fac. de Med. da Bahia em 1878. Médico em sua terra natal até 1891, quando se transferiu para Pelotas, RS. Veio em 1902 para P. Alegre, onde dirigiu, em princípios deste século, a Casa de Saúde Porto-Alegrense. Co-fundador da Fac. de Med. de Porto Alegre, de que foi vice-diretor de 1912-1914 e Professor de Clínica Oftalmológica. Dep. Federal pelo RS, 1912-1914. Co-fundador da Soc. de Med. de P. Alegre. Foi membro da Acad. Nacional de Med. Pai de Alberto de Britto e avô de Carlos de Britto Velho.

 Aurelio Py, » PY (FILHO), Aurélio (de Lima).

Bagé, RS, 10 fev. 1882 – P. Alegre, RS, 28 ago. 1949. F.: Aurélio de Lima Py (do Partenon literário) e Florência Lucas de Lima Py. Estudou na Escola Brasileira do Prof. Inácio Montanha e terminou o curso de Humanidades no Rio de Janeiro, onde também se formou médico pela Faculdade do Rio de Janeiro. Em 1907 foi contratado como professor da Faculdade de Medicina de Porto Alegre. Após concurso em 1908 passou a catedrático e o foi em três diferentes cátedras. Foi diretor da Faculdade e presidente do seu Conselho Administrativo. Em 1937 foi escolhido Reitor da então Universidade de Porto Alegre. Lutou pela federalização da Universidade e sua ampliação. Provedor da Santa Casa foi o grande responsável pela construção do Hospital São Francisco. Dirigiu os Arquivos Rio-Grandenses de Medicina e foi presidente do Sindicado Médico do Rio Grande do Sul. Organizou e chegou à inspeção médica escolar e foi deputado à Assembléia de Representantes (1924-1928), constituinte em 1935 e deputado à Assembléia Legislativa em 1935-1937. Por várias vezes foi presidente do Grêmio Football Porto-Alegrense, seu primeiro patrono, e presidente da Federação Gaúcha de Futebol. Sogro de João Gomes da Silveira, e avô de Gustavo Py Gomes da Silveira. Patrono da cadeira 8 da Academia Sul-Rio-Grandense de Medicina, hoje ocupada pelo professor Ivo Nesralla.

 Bibl.: Estudo Clínico da Aortite Ateromatosa – tese inaugural (1904). Educação física (1908). Alcoolismo do Ponto de Vista Social (1908). Ensino Primário, Secundário e Superior da República. Discurso à Assembléia de Representantes (1927). Arritmias, Estado Atual, Aula Magna da Fac. de Medicina (1928). Inspeção Médica Escolar, tese no Congresso das Municipalidades (1929), Aptidões do Escolar, publicada pelo Governo do Estado (1930). Ensino Médico e Exames por Decreto, tese no Congresso Sindicalista Brasileiro (1933). Exercício Ilegal da Medicina no Rio Grande do Sul (1937).

 

Fabio de Barros » BARROS, Fábio (Nascimento) de.

Uruguaiana, RS, 28 ago. 1881 – P. Alegre, RS, 5 mar. 1952. F.: João Rodrigues de Barros e Corina Nascimento de Barros. Est. prim. na cidade natal e no Colégio Corseuil, P. Alegre; secundário no Ginásio São Pedro, id; Escola Militar, id; curso iniciado na Fac. de Med. de P. Alegre e terminado no Rio de Janeiro em 1906. Funcionário público estadual em P. Alegre, onde foi diretor da Higiene. Médico neurologista; catedrático de Fisiologia e depois de Clínica Neurológica da Fac. de Med. de P. Alegre a partir de 1908. Médico da 19a Secção da Santa Casa de Misericórdia, P. Alegre. Jornalista fundou e dirigiu a rev. Máscara, 1918. Dirigiu A Manhã, 1920-1921, e o Correio do Povo, 1929-1930; redator deste, de O Diário e de A Federação. Foi membro do Conselho Penitenciário do Estado, da Soc. de Neuropsiquiatria do RS e da Acad. de Letras do RS – 2a fase. Cronista e crítico de arte. Usou os pseudônimos de J. da Ega, Victor Marçal e Victoriano Serra. Pai de João Júlio de Barros e genro de José da Costa Gama.

 

    Bibl.: Esmeralda – Ópera, 1898 (fev.), cantada por Stela Teixeira no Teatro São Pedro, P. Alegre. Nota: Música de Fábio de Barros e João C. Fontoura. Libreto: de V. Oliveira, Arnaldo Damasceno Vieira e Velasco Vereza. A Dor, tese de doutoramento, Rio de Janeiro, 1906. O Ritmo na Arte, conferência, P. Alegre, Globo. 1908. A Liberdade Profissional no Rio Grande do Sul: A Medicina e o Positivismo, ibid, 1916. Saudação ao Prof. Georges Dumas, discurso na Fac. de Med. P. Alegre, Globo, 1917. Palavras Ocas, crônicas e comentários, ibid, 1923. Abertura Oficial dos Cursos, discurso, ibid; 1923. Colheita, 1a série, crônicas e contos, P. Alegre, Globo, 1944.Palestras Médicas”, série de artigos, Correio do Povo, P. Alegre, a partir de 1911. “Crônica dos Sete Dias”, comentários semanais, sob o pseudônimo de Victoriano Serra, ibid, de 1938-1952. “Eduardo Guimaraens”, rev. Lanterna Verde, Rio de Janeiro, n. 8, jul. 1944.

 

Luiz Masson (sem dados).

 


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