Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Fevereiro de 2011 - Vol.16 - Nº 2

Psicanálise em debate

O DIVÃ E A BOLHA FINANCEIRA (*)

Sérgio Telles *
psicanalista e escritor

A grande crise econômica de 2008 – tida por muitos como a maior da história e cujos desdobramentos continuam em expansão - pegou a todos de surpresa por ter passado inadvertida pelas instâncias reguladoras que supostamente deveriam detectá-la, ficando assim evidenciada a necessidade de serem revistos protocolos e procedimentos, bem como de serem elaboradas novas abordagens que permitam um maior entendimento da própria economia.

Com este objetivo, foi criado o Institute for New Economic Thinking (INET), graças à doação de 50 milhões de dólares feita por George Soros. Sediado em Nova York, o instituto visa proporcionar parcerias acadêmicas e grupos de trabalho interdisciplinares que possibilitem novos enfoques sobre a economia, alargando ou ultrapassando os atuais paradigmas que a regem. Seu programa inaugural de bolsas para pesquisas, dotado com uma verba de 7 milhões de dólares, recebeu mais de 500 propostas realizadas por especialistas e estudiosos provenientes do mundo inteiro, das quais 34 foram selecionadas em dezembro último e serão implementadas a partir deste ano.

Dentre elas, merece especial atenção “A proposal to develop an emocional finance” (“Proposta para desenvolver uma finança emocional”), de David Tuckett, membro do Instituto de Psicanálise de Londres e professor visitante de Psicanálise no University College London.

Nela Tuckett afirma que, por mais sofisticadas que possam parecer, as teorias econômicas sobre os mercados financeiros são bastante fantasiosas quando vistas a partir de uma perspectiva interdisciplinar. Afinal, é humanamente impossível saber o quanto valerão no futuro os ativos manipulados pelo mercado financeiro. Mas aqueles que trabalham com isso são forçados a agir como se tivessem tal conhecimento, criando conjecturas fictícias com as quais constroem um futuro imaginário, minimizando a intrínseca incerteza na qual está ele imerso. 

Tuckett diz ser fundamental reconhecer e aceitar esta incerteza, pois os ativos financeiros são abstratos, oscilam com facilidade com altas e baixas, provocando alterações no estado mental dos gestores que lidam com eles – deixando-os excitados quando ganham ou em pânico quando perdem. Mais ainda, não pode ser negado que o estado mental dos gestores pode oscilar, independentemente dos fatos do mercado.

Na pesquisa financiada pelo INET, Tuckett pretende mostrar que as tomadas de decisão no mercado financeiro são baseadas não em conclusões racionais e lógicas, e sim em estados emocionais dos gestores e em histórias fantasiosas criadas por eles mesmos.  Caso suas hipóteses se comprovem, os responsáveis pelo mercado financeiro terão uma maior consciência da vulnerabilidade que cerca suas decisões.

O conceito de “finança emocional” tem sido trabalhado pelo psicanalista desde 2006, quando recebeu uma bolsa da Leverhulme Research para pesquisar o comportamento dos mercados financeiros sob o ponto de vista psicanalítico, procurando entender a razão da instabilidade destes mercados, de tão desastrosas e amplas conseqüências para a humanidade. Mostra ele como a compra, a posse e a venda de ativos financeiros, em condições de intrínsecas instabilidade e ambigüidade, necessariamente levam os envolvidos nestas transações a desenvolverem, frente a elas, uma forte ambivalência emocional, bem como inúmeras fantasias inconscientes.

A hipótese de Tuckett é que são justamente as fantasias inconscientes dos gestores, as oscilações em seu estado mental e o funcionamento da psicologia de grupo o que pode explicar a formação das bolhas financeiras, um grave problema para o qual as teorias econômicas convencionais não oferecem explicações satisfatórias. Supõe que no processo de tomada de decisão financeira ocorre o mecanismo inconsciente de cisão, em função do qual ficam separados e expulsos da consciência os pensamentos que provocam emoções dolorosas, como a dúvida, a angústia e o medo. Isso faz com que fique impedida uma avaliação mais realística da situação, aumentando o risco de futuras instabilidades financeiras, com funestas e globalizadas conseqüências. Uma teoria interdisciplinar que integre os conhecimentos psicanalíticos pode ser mais útil para os agentes econômicos que as teorias vigentes, pois estas contrastam as tomadas de decisão entre racionais e irracionais, levando em conta apenas o pensamento lógico consciente.

Desta forma, Tuckett pretende criar uma nova abordagem teórica sobre a economia dos  mercados financeiros, salientando a importância das inevitáveis pressões e conflitos emocionais decorrentes da responsabilidade de gerir grandes ativos, o que pode ter sérias conseqüências sobre o estado psíquico dos próprios gestores bem como para a estabilidade do mercado como um todo.

Tais idéias estão expostas em seu livro “Minding the Market: An Emocional Finance View of Financial Instability”, a ser lançado em junho próximo pela editora Palgrave-Macmillan, em Londres e Nova York.

Depois de Marx, não é possível ignorar a importância central da economia na sociedade. Que uma instituição como o INET tenha escolhido a proposta de Tuckett entre tantas outras é um reconhecimento da vitalidade do pensamento psicanalítico, imprescindível para a compreensão dos fenômenos humanos.  

 

(*) Publicado no Caderno 2 do jornal “O Estado de São Paulo” em 19/02/11


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