Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

Setembro de 2011 - Vol.16 - Nº 9

Psiquiatria na Prática Médica

A DIREÇÃO DAS PESQUISAS QUE CORRELACIONAM DOENÇAS DERMATOLÓGICAS E ASPECTOS PSÍQUICOS

Prof. Dra. Márcia Gonçalves


                                                     INTRODUÇÂO

Atualmente estima-se que pelo menos um terço dos pacientes com doença dermatológica possua aspectos emocionais associados.1

A pele é um órgão visível, que tem importância nas relações interpessoais e pode trazer prejuízos quando lesionada.2

Muitos estudos se voltam para esta correlação. Em um trabalho realizado por LUDGWIG (2008), avaliou-se stress e localização da lesão dermatológica e a associação entre essas variáveis, comparando níveis de stress em pacientes com lesões no rosto e/ou mãos e pacientes com lesões em outras partes do corpo.2 Tratou-se de um estudo transversal, descritivo, de associação. Participaram 205 pacientes, que responderam ao Inventário de Sintomas de Stress para Adultos de Lipp, às Fichas de Dados Sócio-Demográficos e de Localização da Lesão. 2 Quanto aos resultados, houve presença de sintomas de stress na maioria dos pacientes; a fase de resistência e a sintomatologia psicológica foram predominantes.2 Na comparação entre grupos com diferentes localizações de lesão, não houve diferenças significativas quanto aos resultados de stress (p=0,495; p=0,873 e p=0,815). Os achados corroboram a necessidade de um atendimento biopsicossocial aos pacientes. O stress repercute nas doenças de pele.2

                                       DIREÇÂO DAS PESQUISAS ATUAIS

Os temas das pesquisas revelam que a dermatose não está relacionada somente à pele, às questões orgânicas, mas que influencia e é influenciada por outros aspectos da vida do indivíduo, tanto questões emocionais quanto o próprio contexto em que vive.3

O stress psicológico e a ansiedade têm sido reconhecidos clinicamente pelos dermatologistas como fatores relacionados à piora das lesões de pele. Em dois grupos, um com e outro sem dermatoses, foram encontradas associações entre altos níveis de ansiedade e stress em pessoas que sofrem de dermatoses inflamatórias crônicas.4   

Souza et al. (2005) referem que o stress emocional comumente acompanha os problemas dermatológicos, influenciando, então, as alterações da pele.  No aspecto da sintomatologia, entre sintomas somáticos, psicológicos ou ambos, os sujeitos apresentaram predominantemente sintomatologia psicológica, ilustrada por sintomas como angústia/ansiedade diária, dúvida quanto a si próprios, vontade de fugir de tudo, entre outros.5

Os avanços da psicodermatologia, psico-neuroimunologia e do entendimento da influência dos aspectos emocionais nas doenças de pele caminham não apenas em direção a um entendimento integrado do indivíduo, mas principalmente em direção a um trabalho integrado médico-psicológico.2

Mais recentemente a psiconeuroimunologia vem também contribuindo para a compreensão das doenças sob um enfoque multidimensional. Por exemplo: A psoríase, uma das doenças de pele que causa mais restrições aos pacientes, pode ser vista sob esse enfoque, sendo considerada em um contexto em que os prejuízos físicos, psíquicos e sociais possuem igual relevância.6

Segundo Mingorance, Loureiro, Okino e Foss (2001), muitos estudos têm sido realizados associando o funcionamento mental do paciente com psoríase a correlatos psíquicos: o impacto emocional da doença, o aumento de preocupações e a ansiedade estão associados à piora das lesões, o alto nível de depressão, à presença de distúrbios no ambiente familiar e outros.7

Com relação á classificação dos trasntornospsicocutâneos) , segundo Warnock (2001)  Temos:8       

http://www.scielo.br/img/revistas/abd/v80n4/a04qdo01.gif8

Segundo TABORDA et al (2005) existe uma alta prevalência de sofrimento psíquico em pacientes com algumas dermatoses. Algumas doenças crônicas, segundo o autor,  como vitiligo, podem estar associadas a maior grau de sofrimento nessa população. Os resultados, apesar de não significativos para a associação de dermatoses em geral e sofrimento psíquico, demonstraram forte tendência para este sofrimento.9

Diversas categorias de teorias psicológicas tentam enfocar a correlação das patologias dermatológicas. Uma das teorias psicológicas que envolvem a relação do afeto com a pele é a teoria do vinculo. Dentre estas manifestações do desenvolvimento do vínculo mãe-criança, a necessidade do toque, do carinho, se destaca.10

A importância deste contato através da pele fica bem demonstrado por René Spitz, que em seu livro "O Primeiro Ano de Vida" relata a comparação entre dois grupos de bebês. A conclusão do autor foi de que a criança, para ter um desenvolvimento normal, necessita ser estimulada, assim como que a privação de contato físico em crianças por tempo prolongado pode levar à morte. Chama este tipo de privação de "privação afetiva" e sugere que a forma mais eficaz de suprir essa necessidade é através do contato físico.10

As tentativas de associação com teorias psicológicas também enveredam por considerações sobre personalidade e impacto emocional. A angústia, por exemplo, é considerada a principal origem de todos os nossos sintomas.11 Faz-se necessário considerar as características de personalidade dos sujeitos, visto que a forma como o indivíduo percebe e interpreta as situações ao seu redor, inclusive a própria dermatose, é influenciada por suas características pessoais.11,12  Estas características individuais  podem determinar uma maior vulnerabilidade para transtornos orgânicos ou não,  em diferentes gravidades.

Avaliar a gravidade da doença na percepção do paciente seria também uma medida importante. A literatura traz dados variados em relação à importância da gravidade da doença, apresentando trabalhos em que a qualidade de vida não está relacionada a esta variável, outros em que a extensão da visibilidade é mais importante que a gravidade, ou ainda de que a qualidade de vida não varia de acordo com o local do corpo afetado, mas proporcionalmente à percepção de gravidade por parte do paciente.13

Levando em consideração a exposição ao outro a que fica submetido o indivíduo com problema dermatológico, alguns autores indicam a necessidade de adaptação à doença.14

                                 QUALIDADE DE VIDA E DOENÇAS DERMATOLÓGICAS

Qualidade de vida e psicologia, cada vez mais são aspectos indissociáveis, e precisamos ter clareza sobre a importância de psicólogos preocuparem-se com a qualidade de vida geral dos sujeitos, principalmente para fins de prevenção de problemas futuros, especialmente quanto a manifestações de afecções físicas.15

 A contribuição maior seja no que tange à dermatologia e psicologia, promovendo o estreitamento das relações esta na  construção de  idéias que,  possam ser foco de outros estudos, que priorizem não apenas biológica do adoecimento.15

Com relação a qualidade de vida em pacientes com psoríase, quanto à qualidade de vida geral, o domínio social é o que apresenta o maior prejuízo, tanto na amostra total como nos dois grupos de localização da lesão.16

O impacto psicossocial da dermatose, referindo situações de discriminação ou outras experiências estigmatizadoras, relativas a problemas de auto-estima, isolamento social e rejeição são evidenciados quando alvo de  avaliação.16

Ludwig em uma pesquisa demonstra que independente da localização da lesão, o sentimento de exposição e os prejuízos a que fica sujeito o paciente dermatológico são semelhantes. As doenças da pele, ao que parece, provocam sentimento de exposição e constrangimento, independente do local do corpo acometido, pois na aproximação mais íntima de outra pessoa está implicada certa exposição.17  

Ludwig (2009) afirma ainda que os dados desta pesquisa demonstram um maior prejuízo quanto mais regiões do corpo estiverem afetadas pela dermatose, assim como piora na

qualidade de vida específica nos pacientes com vitiligo ou psoríase em relação aos demais.17

Aspectos como gravidade da doença, percepção do paciente sobre si e sobre a dermatose, características pessoais e de personalidade, bem como questões climáticas são variáveis implicadas nesta compreensão. Sazonalidade, relações interpessoais, auto-imagem, auto-estima e auto-conceito também merecem ser investigados.17

SILVA et al (2006) avaliou estratégias de enfrentamento para preservação da qualidade de vida em pacientes com psoríase, no sentido de estruturar fatores e as correlações nas  afeçções dermatológicas crônicas. 18

Em um trabalho com pacientes com psoríase fatores podem contribuir para a exacerbação da psoríase entre 40 e 80% dos casos, causando grande impacto na qualidade de vida desses pacientes. 18

Em um estudo transversal, com amostra de 115 pacientes, divididos em 61 com psoríase e 54 do grupo controle com dermatoses crônicas avaliados com o Inventário de Estratégias de coping e Inventário de Sintomas de Estresse para Adultos de Lipp. concluíu que pacientes com psoríase utilizam estratégias de coping específicas para o enfrentamento da doença de pele, quando comparados a outros pacientes com doenças crônicas de pele demonstrando relevante nível de estresse.18

                                                                CONCLUSÃO

Corroborando a idéia de Koblenzer: “Nunca se deve esquecer que saúde mental e física existem quando o nível de estresse e as respostas defensivas do organismo para esse fator estão em equilíbrio. Quando, porém, o estresse é suficiente para aniquilar as defesas, então os sintomas poderão se desenvolver, podendo as respostas ser físicas ou psicossociais.  A avaliação dos níveis de estresse e das estratégias de coping é de suma importância para uma melhor compreensão da maneira como o paciente portador de psoríase maneja o estresse e, conseqüentemente, pode buscar melhor qualidade de vida.19 “

                                                REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. Gupta MA, Gupta AK. Psychodermatology: an update. J Am Acad Dermatol. 1996; 34:1030-46.         

2. LUDGWIG, Martha Wallig Brusius et al . Localização da lesão e níveis de stress em pacientes dermatológicos. Estud. psicol. (Campinas),  Campinas,  v. 25,  n. 3, Sept.  2008.  

3. Mingorance, R. C., Loureiro, S. R., Okino, L., & Foss, N. T. (2001). Pacientes com psoríase: adaptação psicossocial e características de personalidade. Medicina, 34, 315-324.  

4. Fortune, D. G., Main, C. J., O'Sullivan, T. M., & Griffiths, C. E. M. (1997). Assessing illness related stress in psoriasis: the psychometric properties of the psoriasis life stress inventory. Journal of Psychosomatic Research, 42 (5), 467-475.         

5. Souza, A. P. F. S., Carvalho, F. T., Rocha, K. B., Lages, M. N., Calvetti, P. Ü., & Castoldi, L. (2005). Associação de eventos estressores ao surgimento ou agravamento de vitiligo e psoríase. Psico, 36 (2), 167-174.

6. Silva Juliana Dors Tigre da, Muller Marisa Campio, Bonamigo Renan Rangel. Estratégias de coping e níveis de estresse em pacientes portadores de psoríase. An. Bras. Dermatol.  [serial on the Internet]. 2006  Mar [cited  2011  Sep  26] ;  81(2): 143-149.

7. Mingorance, R. C., Loureiro, S. R., Okino, L., & Foss, N. T. (2001). Pacientes com psoríase: adaptação psicossocial e características de personalidade. Medicina, 34, 315-324.  

8. Folks DG, Warnock JK. Psycocutaneous disorders. Current Psychiatry Reports. 2001; 3:219-25

9. Taborda Maria-Laura V. V., Weber Magda Blessmann, Freitas Elaine Silveira. Avaliação da prevalência de sofrimento psíquico em pacientes com dermatoses do espectro dos transtornos psicocutâneos. An. Bras. Dermatol.  [serial on the Internet]. 2005  Aug [cited  2011  Sep  26] ;  80(4): 351-354. Available from: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0365-05962005000400004&lng=en.  http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962005000400003

10. Spitz R. O primeiro ano de vida. São Paulo: Martins Fontes; 1998.   

11.  Kent G, Keohane S. Social anxiety and disfigurement: the moderating effects of fear of negative evaluation and past experience. Br J Clin Psychol. 2001;40:23-34.    

12. Champion RH, Parish WE. Atopic dermatitis. In: Champion RH, Burton JL, Ebling FJG, editors. Textbook of dermatology. Oxford: Blackwell Scientific Publications; 1994. p. 589-610.     

13. Thomson KF, Wilkinson SM, Sommer S, Pollock B. Eczema: quality of life by body site and the effect of patch testing. Br J Dermatol. 2002;146:627-30.         [ Links ]

14. Ludwig MWB, Redivo LB, Zogbi H, Hauber LS, Facchin TH, Muller MC. Aspectos psicológicos em dermatologia: avaliação de índices de ansiedade, depressão, estresse e qualidade de vida. Psic Rev Psicol Vetor Ed. 2006; 7: 69-76.         [ Links ]

   15 Zogbi H, Muller MC, Protas JS, Kieling CM, Driemeier FM - Adaptação e validação DLQI (Dermatology Life Quality Index) para uma amostra brasileira: avaliando qualidade de vida em dermatologia in. PsiqWeb, Internet, disponível em <http://www.virtualpsy.org/psicossomatica/dermato3.html> 2004

16 Schmid-Ott G, Jaeger B, Kuensebeck HW, Ott R, Lamprecht F. Dimensions of stigmatization in patients with psoriasis in a "Questionnaire on experience with skin complaints". Dermatology. 1996;193:304-10.

17 Electronic Document Format (Vancouver) Ludwig Martha Wallig Brusius, Oliveira Margareth da Silva, Muller Marisa Campio, Moraes João Feliz Duarte de. Qualidade de vida e localização da lesão em pacientes dermatológicos.

18. Silva Juliana Dors Tigre da, Muller Marisa Campio, Bonamigo Renan Rangel. Estratégias de coping e níveis

de estresse em pacientes portadores de psoríase. An. Bras. Dermatol.  [serial on the Internet]. 2006  Mar [cited  2011  Sep  26] ;  81(2): 143-149.

19. Koblenzer P. A brief history of psychosomatic dermatology. Dermatol Clin. 1996;14:295-397. 

·         Professora coordenadora da Disciplina de Psiquiatria – UNITAU 

·         Email: [email protected]


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