Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Junho de 2011 - Vol.16 - Nº 6

COLUNA PSIQUIATRIA CONTEMPORÂNEA

O QUE É PATOLOGIA DUAL?

Fernando Portela Câmara
Coordenador do Depto Informática da ABP e do Depto de Neurociência Computacional da Aperj

A aplicação da epidemiologia clinica à psiquiatria, uma matéria da qual esta última cada vez mais se aproxima, revelou uma condição sindrômica suficientemente conspícua para ser considerado um paradigma na disciplina de psiquiatria e saúde mental. Trata-se da existência de uma alta prevalência de comorbidade em dependência química e doenças mentais, que chega a atingir quase dois terços das coortes. Tão significativa é esta associação que ela passa a se comportar epidemiologicamente como uma entidade clínica, e por isso foi denominada “patologia dual”.

A designação nasceu do fato de existirem, concomitantemente no mesmo doente, uma patologia psiquiátrica e uma patologia aditiva (álcool, drogas ou outra). Isto, contudo, não se limita apenas a uma associação estatística. A condição interfere no tratamento e conduta tradicionais da psiquiatria em relação ao doente mental, pois a abordagem de uma ou outra condição não é suficiente para um tratamento responsivo. Em outras palavras, se tratado para uma e outra condição a resposta não é satisfatória para nenhuma delas, o que exige uma abordagem que considera ambas as patologias como parte de um mesmo cluster.

Alguns aspectos genéticos são evidenciados nesta questão. Somente 10%, em média, dos que fazem uso ou abuso de substâncias desenvolvem adição ou dependência, sugerindo uma diátese genética. Por outro lado, a alta prevalência de adição entre doentes mentais sugere ser a patologia dual um fenótipo psicopatológico. Uma das teorias atualmente em evidência considera que a dependência química produz alterações neurobiológicas que aumentam significativamente a vulnerabilidade do sujeito a transtornos mentais. É possível que indivíduos com baixa atividade dopaminérgica pré-frontal, anedônicos, que tendem a buscar drogas que minimizem sua apatia e disforia sejam os alvos principais da patologia dual.

A dificuldade diagnóstica desta condição decorre em grande parte do fato de os complexos sintomáticos estarem compartimentalizados diferentemente nas classificações psiquiátricas atuais (CID-10 e DSM-IV), que não levam em consideração que complexos supostamente diferentes estejam relacionados aos mesmos substratos neuronais e etiológicos. Neste sentido, a patologia dual é uma nova entidade clínica sindrômica.

Citando Néstor Szerman, presidente da Sociedade Espanhola de Patologia Dual, “as altas taxas de prevalência de patologia dual nos orientam a afirmar que todos os programas dirigidos a indivíduos com doença mental grave deveriam se organizar como programas de patologia dual, já que isto é mais a regra que a exceção”. 

Vários países têm hoje suas Sociedades de Patologia Dual. Mais próximas de nós estão as de Portugal e Espanha, que podem ser acessadas nos respectivos sites abaixo:

http://www.patologiadual.pt/

http://www.patologiadual.es/


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