Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Fevereiro de 2011 - Vol.16 - Nº 2

Artigo do mês

O FILME “CISNE NEGRO” – UMA INTERPRETAÇÃO PSICOLÓGICA

Prof. Herberto Edson Maia, Médico Psiquiatra

Fiquei bastante impressionado com o filme que basicamente trata da batalha quase diária de crescer em contato com as dificuldades da vida. É uma bailarina que tem uma enorme ambição de ser a estrela principal de um dos mais famosos balés da dança clássica o “Lago dos Cisnes”.

No começo vemos uma luta constante da bailarina para chegar à perfeição deixando de lado qualquer outra preocupação e só pensando em se aperfeiçoar mais e mais ensaiando em todos os tempos possíveis e quase que só parando para dormir. Nesta empreitada ela é acompanhada o tempo todo pela mãe, que também foi bailarina e deixou a carreira quando ficou grávida da filha com 28 anos.

À medida que o filme se desenvolve, começam a aparecer condutas obsessivas no comportamento da bailarina, como em quase todas as pessoas que buscam a perfeição. No caso dela, uma necessidade de se coçar que leva ao sangramento num lugar um tanto insólito: a altura da omoplata direita. Em outras vezes, junto às cutículas das unhas, levando sempre ao sangramento. Durante os ensaios, além dos professores há a figura do professor mor,  aquele que dá a aprovação final para aquela que será a estrela principal.

Este, por sua vez, começa a notar cada vez mais que a bailarina tem as condições necessárias para encarnar o papel central. Entretanto, à medida que ela se desenvolve na técnica, ele começa a notar que falta a esta a sensualidade necessária para seduzir o príncipe durante o balé.

Neste momento, além de ensinar-lhe a técnica, ele necessita despertar-lhe,  de alguma forma,  a sensualidade adormecida  na dança, traduzida como uma falta de integração. Ou seja,  na exclusiva perfeição técnica transparece uma frieza e uma distância do papel a ser representado.

No palco a bailarina principal tem que transmitir além da perfeição técnica, o “calor sedutor” do amor pelo príncipe e mais do que isso, o ódio desencadeado ao ser posta de lado por uma rival na trama da historia. Isto tudo a conduz à proximidade de uma zona limite, sempre com o intuito de despertar-lhe a sensualidade (aqui vista como avanço na integração pessoal). Estes episódios, nas cenas onde há uma mistura de papéis, foram mal entendidos pela maioria das bailarinas que assistiram ao filme bem como a maioria das pessoas. A crítica ao filme foi desfavorável.

As forças externas que a pressionam a bailarina para haver essa integração começaram a ultrapassar seus limites psicológicos a ponto de  surgirem alucinações, falsos reconhecimentos, divisões e cisões internas que a fazem a entender cada vez menos as realidades circunstantes.

No inicio há uma indução pelo mestre ao autoerotismo ctônico - forma de despertar uma sensualidade primitiva não representável para ela que, na seqüência do desenvolvimento narcísico, passa pela homossexualidade integradora desse nível básico de desenvolvimento, mas cheio de desconfianças que aparecem  como uma forma de conspiração contra ela vinda do mundo externo, sem nenhuma possibilidade de perceber que seriam apenas projeções do seu mundo interno, pois nesse momento não havia possibilidades de integração.

Esse momento é muito bem descrito no filme na  relação homossexual com a bailarina tecnicamente inferior e substituta da bailarina/artista principal. Neste momento poderíamos falar em esquizofrenia, já que no filme as cenas aparecem como alucinações. Entretanto, mas que eu preferiria interpretá-las como sonhos vividos carregado de consciência vigil misturando o mundo fantasmático com o mundo real. Entendo esse processo como algo muito difícil e complexo que é facilmente visto em seus momentos intermediários com formas de interpretações geralmente preconceituosas de tipo moral.

Como a linha que estamos examinando tem como intuito central uma integração pessoal cada vez mais sofisticada, poderíamos aqui levantar a idéia de um duplo autoerótico originado do narcisismo primitivo infantil, aqui apenas como uma potencialidade não integrada que gradativamente poderia ser assimilada pelo autoerotismo secundário que organizaria o transito da continuidade anímica que se manifesta como o reinvestir constantemente no corpo erógeno, apropriando-se assim das próprias zonas erógenas despertadas precisamente pelo contato do objeto anímico que é o outro ou o fantasma do outro como no caso do filme e que vai aparecer então como criatividade anímica numinosa dando vida à frieza da bailarina.

Se voltarmos a falar em esquizofrenia, teremos que falar numa forma de esquizofrenia pós-moderna, condutora a uma forma de integração criativa.  Este caminho é induzido nitidamente pelo professor ao beijá-la e ser mordido por ela, mas como a integração autoerótica não estava pronta, ele lhe surge que ela se masturbe. Outra lembrança importante é a dificuldade de integrar a sensualidade devido à  ação repressiva da mãe quanto à sexualidade. É interessante registrar  que a condição básica para ser a escolhida  foi sua agressividade ao papel do cisne negro. Neste momento, a criatividade intuitiva do diretor do filme faz essa integração passar para nível homossexual. Estamos, portanto, diante de outra situação que dificulta muito o entendimento geral devido à trama complexa do preconceito basicamente moral. Entretanto, se deixarmos de lado as tramas morais preconceituosas, essa passagem fica bem clara,  com a poderosa cena da relação homossexual da bailarina com a rival, o que a leva a um orgasmo integrador como descrito acima. Neste caso específico podemos entender melhor essa poderosa vivência como uma experiência de integração com o duplo anímico erógeno que nela existia apenas como potencialidade.

Para isso, quero registrar o final da cena que aparece como uma vivência assustadora em que tudo fica escuro e negro. Essas são assustadoras para um ego em evolução, que ainda não tem um sistema representacional que as absorva rapidamente. Usando uma metáfora para melhor entender esse momento, podemos dizer que o duplo autoerótico misturado com a vivência homossexual representa um espelho endopsíquico semelhante ao escudo de Perseu frente à Górgona ou Medusa, afasta o perigo de a bailarina ficar petrificada, catatônica, sem capacidade de integrar esse momento e ir em direção à realidade. Agora estamos diante de uma complexidade maior, já que neste caminho temos que lidar com o oposto do amor que é a destrutibilidade (que aparece na mordida durante o beijo sentido como intrusão) e que é  melhor representada pela agressividade, ciúmes, inveja e o ódio mortal.

Neste contexto, aquilo que chamo de “duplo integrador da sexualidade” aqui aparece na configuração da mãe exigente, que nos seus avatares, passa para a rival e ao mesmo tempo amiga intima, que certamente vai tomar o seu lugar como primeira bailarina. Parece que a luta de morte com a rival é de novo a forma de integrar na personalidade total um potencial agressivo que vai tomando forma cada vez mais nítida, passando pela agressividade com a mãe até agressividade com o pai totalmente ausente, mas presente no professor e ainda potencial amante.

Lembramos o beijo sumarento no mestre num dos intervalos do balé. Neste momento, o duplo anímico negativo será integrado novamente de uma forma fusional destrutiva, mas ao mesmo tempo capaz de dar a ela a capacidade de representar no palco de uma forma perfeita e contundente na presença da morte. A cena plástica em que ela se transforma no cisne negro me levou a uma vivencia empática extraordinária.

À medida que a agressividade vai se integrando na vivência de corpo vemos o nascimento de uma espécie de demônio que vai se transformando num anjo negro que na realidade do balé é a incorporação plena do Cisne Negro. E o interessante aqui é que de novo no simbólico aparece o espelho de que falei antes, quebrado durante a luta e que, por isso, a deixa vulnerável à petrificação da Medusa. Por outro lado, o pedaço do espelho é que propicia a integração do duplo negativo ao se autoatingir na altura do plexo solar. Podemos dizer que temos aqui uma perfeita integração entre a vida e a morte levando a um momento culminante de perfeição.


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