Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Novembro de 2010 - Vol.15 - Nº 11

História da Psiquiatria

AO MESTRE OTHON BASTOS, COM CARINHO

Walmor J. Piccinini

Quando cito Othon Bastos não estou me referindo ao famoso ator e sim a Othon Coelho Bastos Filho, médico, psiquiatra, professor, reitor, ex-presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria, nascido no tradicional Bairro do Recife, Apipucos em junho de 1936. Bairro tradicional que, entre outras figuras ilustres abrigou  Gilberto Freyre (1900-1987).

Formado pela Faculdade de Medicina da Universidade do Recife em oito de dezembro de 1959, destacou-se como aluno laureado e com futuro promissor. Passados quase 50 anos, tudo que prometia como aluno dedicado e interessado cumpriu como profissional.  Após 50 anos de atividade como médico psiquiatra e professor de psiquiatria podemos afirmar que enobrece e deixa marcas perenes na psiquiatria brasileira.

No recente Congresso Brasileiro de Psiquiatria, realizado em Fortaleza, fiquei a observá-lo percorrendo os corredores, sempre com um objetivo definido, participar com jovens psiquiatras uma sessão de casos clínicos, fazer uma conferência sobre Fernando Pessoa, participar de lançamento de livros. Nesse momento de admiração pela sua energia juvenil resolvi escrever alguma coisa sobre essa figura extraordinária. Aproveitei a oportunidade para comentar o lançamento do seu livro: A História da Psiquiatria em Pernambuco e outras Histórias. Bastos, Othon, Recife: EDUPE, 2010 2ª. Edição.

É um livro que, alem da História da Psiquiatria conta uma vida dedicada a pratica e ao ensino desta especialidade médica. O que mais chama atenção sobre o autor é sua coerência, sua integridade profissional e sua imensa gratidão para com seus mestres. Na minha escala de valores, para avaliar uma pessoa, considero a capacidade de gratidão como a mais bela manifestação de valor e de  caráter. Othon Bastos se mostra eternamente grato às lições dos três “Zés” da sua vida, José Lucena, José Leme Lopes e José Otávio de Freitas Junior. Outra figura que marcou sua formação psiquiátrica foi o Professor Henri Ey em cujo Serviço estagiou nos anos de 1962-63. Chegou a condição de Assistente Estrangeiro mediante a apresentação de dois “Memoirs”, ambos publicados em L´Evolution Psychiatrique (1963). O trabalho “L´Activite Onirique dans les États Depressifs” foi traduzido em 1963 para o Psychiatric Digest.

A primeira edição da História da Psiquiatria em Pernambuco e outras Histórias foi apresentada ao público brasileiro no ano de 2002. Esta segunda versão em 2010 é uma ampliação, é uma forma de testamento em dois volumes que o autor nos oferece para conhecermos sua vida e de uma parte da sua grande atividade pública. O trabalho da Gráfica da Universidade de Pernambuco é de excelente qualidade.

Na apresentação do livro o Professor Luiz Salvador Miranda de Sá Júnior, destaca as qualidades pessoais do autor e o apresenta como líder e maior figura atual da Escola Psiquiátrica de Ulysses Pernambucano ou da Escola Psiquiátrica do Recife.  Para configurá-la enumera uma série de pilares em que a mesma se sustenta: Cientificidade rigorosa – Largueza e liberdade de visão – Humanismo configurado no cuidado intransigente ao doente, nunca perdendo de vista sua humanidade. –Tolerância com a diferença (raciais, culturais e religiosas e políticas) – Perspectiva biopsicossocial – Consciência política – Identidade Médica.

Othon Bastos enriquece seu livro com suas memórias e seu conhecimento da História.  Considera-se no Outono da velhice e não esquece a família que o acompanha nesta longa jornada. A esposa Sarita, os filhos Luís Othon e Carlos Othon, a nora Jaqueline e os netos Othon Neto, Marília, Felipe e Rodrigo.

Os capítulos do livro são apresentados de forma agradável e mostram a coerência do pensamento do autor durante sua vida.  Entremeia aspectos da historiografia psiquiátrica brasileira com conceitos sobre doença, tratamento, supervisão e prática clínica. Mesmo navegando agilmente na história da psiquiatria brasileira lembra seguidamente que:

 “Na realidade, ainda estão por serem escritas as histórias da Psiquiatria e da Psicopatologia brasileiras. Ambas são personagens pirandelianos à procura de um autor”.  Talvez fosse mais adequado se pensar no desenvolvimento da prática psiquiátrica no Brasil, suas peculiaridades e a aplicação de conhecimentos desenvolvidos em outros países. Sendo a psiquiatria uma Ciência, seus paradigmas são globais, seu colorido é que pode ser local.

No capítulo em que aborda “Breve Histórico da Psicopatologia no Brasil”, o autor demonstra grande conhecimento sobre os momentos em que o pensamento psiquiátrico brasileiro  recebia e integrava idéias provindas de outros países. Para isto pesquisou inúmeras teses das Faculdades de medicina da Bahia e do Rio de Janeiro do final do século XIX e início do século XX até o momento atual.  É dele esta afirmação sobre o momento da psiquiatria em nosso país.

Não me canso de repetir o refrão que formulei em 1987, na USP, por ocasião de um concurso de Livre-Docência: “Já não se fazem mais psiquiatras como antigamente!” Sem dúvida, vem mudando o modelo, que se torna cada vez menos filosófico, literário e humanista, em favor de um figurino francamente biológico e cientificista. Mas, nem mesmo assim, torna-se possível afirmar que já existe um “logos” psiquiátrico brasileiro particular. Pode-se repetir ainda, com segurança, o que foi afirmado em 1987: “Reconhece-se apenas uma “práxis” psiquiátrica nacional, uma prática profissional e científica inspirada em modelos alienígenas, ora franceses, germânicos e mais recentemente anglo-saxões ou norte-americanos”.

Sua viagem pela Vida associativa psiquiátrica brasileira é marcada por sua memória presencial, pois participou de quase todos os congressos  realizados nos últimos cinqüenta anos. Participou é uma afirmação modesta, na verdade foi protagonista na maioria destes encontros.  Sua figura altaneira, seu riso descontraído, suas frases eruditas, sua participação científica, e/ou como organizador dos encontros, marcaram o tom afetivo e inteligente desses encontros da psiquiatria brasileira.      Seu relato dos 40 anos da ABP é preciso e rico em detalhes, sua leitura é imprescindível para quem desejar se enfronhar na historia da entidade maior dos psiquiatras do Brasil.

Alguns capítulos foram dedicados a necrológicos e biografias de grandes psiquiatras brasileiros. Os três Zés estão presentes nas suas homenagens. Temos capítulos dedicados a Ulysses Pernambucano, José Lucena, a José Leme Lopes e José Octavio de Freitas Júnior. Muitos outros foram homenageados por terem conquistado sua admiração, Arnaldo Di Lascio, Galdino Loreto, Zaldo Rocha, Ulysses Viana Filho, Luiz Cerqueira, Álvaro Rubin de Pinho.

No segundo volume do seu livro, Othon Bastos nos descreve aspectos pouco conhecidos do grande  psiquiatra Henri Ey. Abre-nos o mundo de Camile Claudel e Fernando Pessoa. Neste segundo volume o autor abriu espaço para alguns colaboradores e ente eles tive a honra de ser escolhido.

Este livro não pode faltar na estante de quem se interessa pela história da psiquiatria brasileira e é uma oportunidade de conhecer a vida e as idéias desse grande psiquiatra brasileiro Othon Bastos.   No seu currículo Lattes encontramos um resumo da sua vida acadêmica e fizemos uma relação dos alunos orientados por ele.

Othon Coelho Bastos Filho

Possui graduação em Medicina pela Universidade do Recife (atual UFPE, 1959). Especialização em Psiquiatria (França, 1963), Assistente Estrangeiro do Prof. Henri Ey (1962/1963). Possui Mestrado em Psicologia Médica e Psiquiatria, reconhecido em 1973; Livre-Docência em Psicologia Médica e Psiquiatria em 1974. Ainda possui Doutorado pela UFPE, reconhecido em 1981 e Pós-Doutorado na Universidade de Londres (1991). Atualmente, é Professor Titular de Psicologia Médica e Psiquiatria das Universidades Estadual (1981) e Federal (1998) de Pernambuco. É também, Professor Emérito da UPE (2006). Tem experiência nas áreas de Psiquiatrias e Neurociências: Suicidologia, Psicogeriatria, Epistemologia Psiquiátrica, Estados Depressivos e Esquizofrenias.

Alunos de mestrado e doutorado                                                

2. Mestrado     

   2.      Kátia Cristina Lima de Petribú    1996 -

   2       Antônio Medeiros Peregrino da Silva       1997 -

   2       Flávio Soares    2000 -

   2.      Rosimeire Rodrigues Cavalcanti 2005 -

   2.      Joana D'Arc Vila Nova Jatobá     2006 -

   2       Tannuri Ferreira Lima Falcão      2006 -

   2.      Jaéllya Rodrigues de Souza       2006 -

   2.      Angela Tavares Bezerra 2006 -

   2       Lívia Pires         2007 -

   2.      Bruno Marcelo Mendonça Nascimento    2007 -

   2       Suzana Azoubel de Albuquerque e Silva 2009 -

   Doutorado.     (Co-orientador)

   Jaéllya Rodrigues de Souza. Esquizofrenia e Parricídio: estudo de fatores preditivos em pacientes homicidas e parricidas do Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico de Pernambuco. 2009.

Na sua infatigável tarefa de ensinar está atualmente com três alunos de mestrado e três de doutorado.

Sobre ele assim se referiu o professor José Lucena por ocasião da posse como Professor Titular de Clínica Psiquiátrica da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade de Pernambuco, em 1982; “As qualidades de mestre, demonstradas em seu notável concurso de provas vieram confirmar a brilhante sequência de títulos e trabalhos científicos, que desde os bancos acadêmicos o credenciavam como um dos valores exponenciais de nossa psiquiatria de hoje”. Depois de enumerar a vasta produção acadêmica e os títulos conquistados, Lucena acrescenta. “Da pessoa de Othon Bastos, mais do que qualquer discurso acadêmico, diz a aura de afeição simpática, generalizada e constante, que o cerca e que acrescenta o reconhecimento dos dons generosos com que foi cumulado”.


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