Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Junho de 2010 - Vol.15 - Nº 6

História da Psiquiatria

A HISTÓRIA SE REPETINDO

Walmor J. Piccinini

Voltaire (François Marie Arouet 1794-1878). Em seu Dicionário Filosófico assim definia a loucura: “A loucura (folie) é uma doença do cérebro que impede o homem de pensar e agir como os outros homens fazem. Se ele não pode cuidar sua propriedade, ele é posto sob tutela; se sua conduta é inaceitável, ele é isolado; se for perigoso ele é confinado; tornando-se  furioso ele é amarrado”. Numa curta frase, é resumida a maneira de como o louco era visto ou considerado antes de Pinel e de Esquirol. (autor da primeira lei de proteção dos insanos na França em 1838. Esta lei serviu de modelo para muitos outros países.)

Resumindo o dicionário, Voltaire cria um diálogo entre o louco e os doutores. Porque sou louco? Se os doutores tiverem ainda um pouco de bom senso lhe responderão “Ignoro absolutamente”. Eles não compreendem porque um cérebro tem idéias incoerentes; não compreenderão melhor porque o outro cérebro tem idéias regulares e coerentes. Se disserem que sabem, seriam tão loucos como ele.

A Medicina, nos séculos XVII XVIII apresentava uma curiosa mistura entre Ciência genuína, lealdade a doutrinas antiquadas e novos sistemas irracionais, todos os três no mesmo homem. Nesse mesmo período crescem o numero de instituições mentais na Europa. Elas derivavam de dois modelos opostos a prisão e o monastério. Com Pinel e Esquirol, principalmente este, surgiu à idéia de que um “asilo para insanos é um instrumento terapêutico nas mãos de um médico hábil, e nossa arma mais poderosa contra a doença mental.”

Não pretendemos examinar nesse trabalho a história dos asilos e sim discutir como certas concepções, apareceram no início do Século XX, e tem grande semelhança com certas idéias no final do mesmo século.

O primeiro passo, para abordar esta questão, é examinar o trabalho de Benedict Augustin Morel (1809-1873), que inaugurou a aplicação psiquiátrica da antropologia física e da genealogia. Ele fotografava os pacientes, media seus crânios, fazia moldes de suas cabeças, investigava suas vidas e as vidas dos seus parentes e dos ancestrais. Todo este trabalho resultou na publicação em 1857 do seu “Traité des Dégénérescences” que teve grande influência no pensamento psiquiátrico, principalmente no final do Século XIX e início do Século XX que nascia com os asilos super-povoados, sobrecarregados de pacientes e sem conseguir exercer funções terapêuticas.

Seu trabalho não era baseado na genética, (As Leis de Mendel só seriam publicadas em 1865),  e sim numa concepção religiosa, Católica. O homem fora criado perfeito por Deus.  

A degeneração, correlativa do pecado original, consistiria na transmissão à descendência das taras, vícios e traços mórbidos adquiridos pelos antecessores. À medida que esses estigmas fossem sendo transmitidos através das gerações, seus efeitos tenderiam a se acentuar, levando à completa desnaturação daquela linhagem, chegando até sua extinção pela esterilidade.

Em decorrência dessa teoria, muitos projetos de intervenção social de

cunho higienista foram desenvolvidos, de modo a impedir a propagação

da degeneração da raça. (Pereira. MCE)

 

Alcoolismo, alimentação deficiente, meio social miserável, conduta sexual desregrada e imoralidade dos costumes, doenças na infância, a presença de doenças mentais nos antepassados, seria causa de degenerescência.  Impedir esses flagelos sociais deu origem a ações sanitárias e higiênicas.   É importante salientar que o Higienismo nasceu dessa concepção de Morel e tinha mais uma característica moral a serviço da melhoria social. Já o Eugenismo veio das teorias de Galton sopre o aprimoramento racial e deu origem ao movimento eugênico conforme examinamos no artigo: Eugenia e Higiene Mental (http://www.polbr.med.br/arquivo/wal0901.htm).

Um terceiro problema a ser considerado e tem muita literatura a respeito é sobre a influência desses conceitos na questão racial que era discutida em termos de porque o Brasil não era uma nação mais adiantada e civilizada. Atribuía-se isso a miscigenação que enfraqueceria a raça. Fato completamente oposto a realidade, pois nossas maiores expressões em vários campos do saber e atividade eram mestiços, mulatos ou negros. (Podemos citar André Rebouças, Machado de Assis, Juliano Moreira e tantos outros).

Neste trabalho vou examinar algumas questões relativas à Psiquiatria e a prática psiquiátrica em relação a isso tudo.

A idéia do asilo terapêutico foi se tornando irrealizável na segunda metade do século XIX, os asilos estavam superlotados, decadentes e sem condições de atender seus propósitos de cura dos insanos. A falta de perspectivas terapêuticas se evidencia pelas conclusões do Congresso Internacional de Psiquiatria de Paris, em 1889. Sua proposta para a solução do problema dos asilos era a de criação de Colônias para doentes crônicos, abrindo vagas para doentes curáveis nos asilos. Não funcionou.

O século XX começou sem perspectivas para a melhoria do atendimento dentro dos asilos e criou outros problemas que vamos tratar a seguir.

O medo de receber um diagnóstico psiquiátrico e ser confinado a uma dessas instituições de onde raramente alguém saia. Uma das pessoas que conseguiu ter alta após três anos de confinamento foi Clifford Beers e seu livro narrando sua odisséia no asilo “Um espírito que achou a si mesmo” teve grande repercussão nos Estados Unidos da América em 1908. No mesmo ano ele fundou o Movimento de Higiene Mental que se espalhou pelo mundo. No Brasil, vindo de um Congresso em Cuba, Gustavo Riedel deu início ao Movimento Brasileiro de Higiene Mental que deu origem a Liga Brasileira de Higiene Mental. A expedição de Belisário Pena pelo interior do país e seu diagnóstico que os brasileiros não eram inferiores, mas doentes, deu novo vigor a prevenção sanitária.

No início do século XX, ainda sob a influência da teoria degenerativa, o medo do asilo tornou-se um temor a beira do desespero para evitar que um familiar fosse internado num asilo de  insanos. Shorter cita o caso dos pais de um jovem profundamente melancólico, moradores de Zurich, que resistiam à idéia de interná-lo porque isso iria prejudicar suas três irmãs que estavam entrando na idade casadoira e não encontrariam pretendentes se fosse descoberto que elas pertenciam a uma família com doença mental. A doutrina da degeneração não criava apenas uma ameaça quanto ao internamento num asilo, mas a psiquiatria em si se tornava uma 

ameaça, o mesmo acontecia com os psiquiatras e seus diagnósticos.

A noção que a doença mental acontecia em família e era transmitida por hereditariedade provocava um grande temor no público. As conseqüências eram funestas, os doentes eram escondidos, eram mantidos em casa e tudo era feito para evitar um internamento em asilo.

Essa situação determinou uma mudança de termos. Alguns médicos passaram a evitar o diagnóstico de insanidade e começaram a atribuir um novo nome para a doença mental, doença dos nervos. “Esta forma disfarçada de apresentar a doença mental tornou-se uma opção, para os pacientes escaparem do estigma da loucura e as implicações da doença hereditária e a degeneração.” (Shorter)

A “doença nervosa” na maioria dos casos não era atribuída à hereditariedade e, por isso não marcava a família do doente. Este temor logo foi aproveitado por alguns alienistas que desenvolveram uma atividade clínica longe dos asilos e passaram a adotar outros nomes para sua atividade profissional, especialistas em doenças nervosas, neuropsiquiatras, hidroterapistas e eletroterapistas.

Eles tinham uma atuação bem diferente dos psiquiatras que passaram assim a serem chamados principalmente depois da Segunda Guerra Mundial.

Surgiram as Clínicas para tratamento das doenças nervosas, As clínicas eletroterápicas, as Clínicas de banhos.

No início do século surgiram movimentos anti-psiquiátricos onde eram contadas histórias de troca de identidade em que uma pessoa sadia era internada no lugar de um insano. O alienista-psiquiatra era visto como um inimigo. Se eles eram vistos como inimigos, os asilos muito mais e uma das soluções inventadas foi à mudança de nomes. Nossos hospícios passaram a se chamar de hospitais. O Louco, alienado passou a ser paciente ou interno.

Shorter relata o caso do professor Robert Sommer in Gissen que conseguiu persuadir o ministro da saúde para mudar o nome do seu departamento de psiquiatria de “Clínica para Insanidade” para “Clínica para Distúrbios Psiquiátricos e Nervosos”.

A História se repetindo nos levou a comparar esse início de século com o alienista mudando de nome e as críticas dos anti-psiquiatras da época, para o fim do século XX com os psiquiatras se denominando neuroscientistas ou psicofarmacologistas. A proposta dos novos anti-psiquiatras  são mais drásticas:  Começou com uma campanha para fechar as instituições psiquiátricas por eles chamadas de manicômios e aos poucos foi se configurando como uma guerra ao psiquiatra.

“Doença mental não existe”.

“O que é chamado por tal nome não é nada mais que o produto artificial da repressão social”.

“O tratamento psiquiátrico não é nada mais que uma forma disfarçada de punição, de violência social”.

“Um internamento em hospital mental nunca cura um paciente. Os hospitais devem ser fechados e os psiquiatras mudarem de profissão”.

No século XXI, o enfoque não é mais no fechamento de asilos, pela inexistência dos mesmos. A maioria dos psiquiatras trabalha em serviços ambulatoriais, o atual enfoque passou a críticas ao sistema diagnóstico, principalmente o DSM-IV que criaria novas entidades ao sabor do interesse da indústria farmacêutica. A acusação não é mais de recolher os desvalidos procurando uma higiene social, mas a medicalização da sociedade com o uso indiscriminado de drogas.

É paradoxal que tantos jovens médicos se interessem pela psiquiatria, os cursos de formação proliferam, os congressos são muito concorridos e a produção científica de inúmeros Centros Universitários são valorizadas em nível nacional e internacional.

Um fenômeno que merece destaque é que, na bibliografia que tenho registrado no meu Índice Bibliográfico  (http://www.biblioserver.com/walpicci) , no período de 1831 a 1950 registramos 2.138 artigos, teses e livros, e só 15 trataram de assuntos históricos. Num apanhado rápido dos últimos 10 anos, de um total de 5.195 artigos, encontramos 443 trabalhos sobre história da psiquiatria no Brasil. Ao lado de excelentes trabalhos de pesquisa, vicejam inúmeros trabalhos acusadores aos psiquiatras e a psiquiatria. A simples observação dos trabalhos psiquiátricos produzidos na primeira metade do século XX se observa a preocupação com alcoolismo, (179) Alcoolismo, Eugenia e Higiene Mental (256), Nuerolúes (112) e Psiquiatria Forense (332).

Nestes trabalhos sobre alcoolismo e Higiene mental se observa a preocupação dos psiquiatras em tentar evitar que o indivíduo adoecesse, pois pela experiência adquirida, depois que ia para o hospital, sua alta era difícil. No congresso de 1967 da Associação Brasileira de Psiquiatria, Neurologia e Higiene Mental, um dos temas foi a Aplicação da Psicanálise no Hospital Psiquiátrico. Nos dias atuais alguns historiadores colocam a psicanálise como experiência do passado, mas naquela época, os conhecimentos psicanalíticos forneceram aos psiquiatras uma nova maneira de entender o paciente e muitos psiquiatras-psicanalistas invadiram a cidadela da loucura e fincaram pé num terreno que antes apenas era objeto de repressão. Fica sempre na minha memória a invasão do pátio da divisão Pinel do Hospital Psiquiátrico São Pedro para estabelecer consultórios mais próximos dos doentes. Foi como a invasão da Normandia da loucura. Depois disso o pátio nunca mais foi o mesmo e nos anos 70 foi conseguida a redução drástica de pacientes com um trabalho psiquiátrico bem feito. 

Na década de 30, os hospitais públicos começaram a ser sucateados, a deteriorar seu atendimento e a se tornarem lugares inadequados para tratamento, mas isso é outra história. Muitos historiadores trazem na memória este período e tiram conclusões definitivas. Voltaremos a este assunto em novo artigo.


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