Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Julho de 2010 - Vol.15 - Nº 7

Psicanálise em debate

FICÇÃO E REALIDADE - UMA TRAMA INEXTRICÁVEL? (*)

Sérgio Telles *
psicanalista e escritor

Em “Represálias Selvagens – Realidade e Ficção na literatura de Charles Dickens, Gustave Flaubert e Thomas Mann” (Companhia das Letras, 2010), Peter Gay, prolífico historiador, mostra que, por ser de ficção, um texto não está impossibilitado de expor profundas verdades humanas, bem como, por ser realista, um texto não está isento de expressar a mais intensa subjetividade do autor.

Para tanto, Gay estabelece as diferenças entre o realismo e o romantismo, escola literária que o antecede. No realismo é dada grande importância à verossimilhança.  Cenários, situações e personagens devem parecer “reais”, plausíveis, situados o mais próximo possível da vida comum e distantes dos excessos imaginativos da visão romântica.

Apesar de o romance realista oferecer ao historiador uma grande massa de informação sobre os costumes, a moral, as formas dos relacionamentos pessoais e a organização social, não deve ser esquecido que o realismo literário não é sociologia ou estudo histórico, pois nele estão presentes as inevitáveis alterações produzidas pela fantasia do autor.

As antinomias entre o realismo literário e a realidade atingem um ponto de tensão máxima no chamado “romance histórico”, no qual os personagens não são criações arbitrárias do autor e supostamente devem respeitar os fatos verídicos. Gay mostra como isso não ocorre nem mesmo em Shakespeare (em “Ricardo III”) ou Tolstoi (em “Guerra e Paz”), que terminam por distorcer os personagens históricos em função dos interesses estéticos da obra.

Gay contrapõe os escritores realistas voltados aos relatos de fatos, costumes e ações dos personagens àqueles que chama de “novos realistas”, influenciados por  Joyce, Proust e Virginia Woolf. Estes privilegiam o psiquismo de seus personagens, muitas vezes detectando-lhes a dinâmica inconsciente. Assim, poder-se-ia dizer que tais escritores praticam um realismo voltado para a realidade psíquica de seus personagens.  Gay cita o importante ensaio “Mr. Bennett and Mrs. Brown” de Virginia Woolf, no qual ela afirma que a função precípua do romance é a análise do caráter dos personagens e não “pregar doutrinas, cantar canções ou celebrar as glórias do Império Britânico”.

Para que se examine a presença da realidade na ficção e da ficção na história é necessário, lembra Gay, reconhecer a existência de um mundo externo real, deixando de lado as formulações do idealismo filosófico que trata tal mundo como algo criado ou inventado pela mente. 

Partindo desta posição, o autor aponta dois tipos de crítica que recebem os historiadores em sua pretensão de estabelecer a verdade dos fatos em seus trabalhos.  A mais antiga delas diz que romancistas e poetas são observadores mais acurados do que os historiadores, pois detectam os aspectos mais relevantes dos acontecimentos humanos. A objeção mais recente provém dos pós-modernistas, que consideram veleidades de romancistas e historiadores as afirmações concernentes à veracidade de qualquer fato, pela simples razão de não haver uma verdade. O que há é interpretações e reinterpretações de fatos. Como mostra Derrida, os textos não têm uma identidade estável, sendo sempre susceptíveis de releituras. Levado este raciocínio às últimas conseqüências, não haveria diferença entre um texto de ficção e um de história.

Para desenvolver estes interessantes temas, Gay analisa a “Casa Sombria” de Charles Dickens, “Madame Bovary” de Gustave Flaubert e “Os Buddenbrooks” de Thomas Mann.

Ao mostrar os desmandos do Tribunal de Chancery em “Casa Sombria”, Dickens denuncia o sistema judiciário inglês que, devido à corrupção, ineficácia e morosidade, destrói os demandantes em sua busca de justiça - crítica que curiosamente poderia parecer familiar a alguns ouvidos brasileiros de hoje.

Em “Madame Bovary”, Flaubert desanca o prosaísmo filisteu da pequena burguesia provinciana e Thomas Mann traça em “Os Buddenbrooks” um largo painel da decadência de uma família de aristocráticos mercadores da Liga Hanseática, cedendo espaço para o advento dos modernos e vulgares capitalistas.

Tais textos, segundo Gay, mostram como o realismo não pode ser confundido com neutralidade objetiva no trato dos temas, na medida em que decorrem de questões íntimas dos autores. São verdadeiras “vinganças” apaixonadas contra situações e circunstâncias por eles vividas. Como tal, não fazem justiça à realidade social que pretendem retratar fielmente.

“Represálias Selvagens” é um saboroso livro para os que amam a literatura, para historiadores, escritores e homens de letras em geral que, como diz Gay, “não têm medo de Freud”.

 

(*) Artigo publicado no suplemento “Sabático” do jornal “O Estado de São Paulo” em 10/07/10


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