Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Junho de 2010 - Vol.15 - Nº 6

Psicanálise em debate

FREUD E SAUERWALD, UMA SURPREENDENTE ALIANÇA

Sérgio Telles *
psicanalista e escritor

O estudo da vida de Freud tem conotações especiais. Se há um grande número de biografias já publicadas, novas pesquisas ficam dificultadas, pois uma pequena parte dos dados permanece inacessível aos estudiosos. O Arquivo Freud, a instituição que os detinha, doou-os à Biblioteca do Congresso, impondo que, por questões de confidencialidade, os mesmos só poderão ser liberados em distantes datas futuras, que chegam até o ano de 2057, decisão que tem desencadeado críticas e polêmicas.  Por isso mesmo, suscita curiosidade quando aparece novo material biográfico, como é o caso do livro de David Cohen, “The Escape of Sigmund Freud” (JR Books, London, 2009).

Cohen propõe-se focalizar os últimos seis anos de vida de Freud. Ater-se a este único período não é fácil, pois é necessário remetê-lo aos muitos e conhecidos episódios da vida do criador da psicanálise. Talvez venha daí a forma um tanto desorganizada com qual Cohen expõe o material.

Ao pesquisar sobre os parentes de Freud que imigraram para a Inglaterra e se estabeleceram em Manchester, Cohen, num golpe de sorte, encontrou na biblioteca daquela cidade as anotações do psicanalista norte-americano Leslie Adams que, em 1952, planejara escrever uma biografia de Freud, projeto que por algum motivo abandonou, deixando lá depositadas suas anotações, até então ignoradas por todos. Além do mais, Cohen ali pode examinar com vagar as 258 cartas de Freud para o sobrinho Sam, filho de seu irmão Emanuel. 

Através deste material, pode colher mais pistas sobre o episódio envolvendo o oficial nazista Anton Sauerwald, que foi de importância capital para Freud escapar de Viena e se transferir para Londres.  Sauerwald guardou consigo as provas, especialmente as ligadas às contas de Freud  em bancos suíços, que, se expostas, dificultariam ainda mais as negociações em torno de sua liberação. O episódio - que não era de todo desconhecido, pois apesar de ignorado por Peter Gay, é mencionado rapidamente por Max Schur - é mostrado por Cohen com riqueza de dados, como a retribuição de Anna Freud, cujo testemunho foi definitivo para libertar Sauerwald nos tribunais do pós-guerra.

Embora seja esta sua peça de resistência, o livro de Cohen está recheado de informações sobre a família de Freud, que – na opinião do autor - se assemelha com as atuais famílias reconstituídas após os divórcios dos pais e a convivência entre meio-irmãos.  Cohen cita uma bibliografia a seu ver pouco recorrida por estar não traduzida do alemão, como a correspondência entre Freud e Minna, sua cunhada com quem teria tido uma intimidade suspeita aos olhos de alguns; o texto de Anna Bernays-Freud, irmã de Sigmund, que demorou 50 anos para ser publicado; ou o relato de Paula Fichtl, a fiel empregada, que traz detalhes do cotidiano da família Freud.

O autor se surpreende com o que considera uma omissão por parte dos estudiosos da vida de Freud no que diz respeito a Sauerwald e a Harry Freud, cujos papéis estão arquivados em separado na Biblioteca do Congresso. Harry era o sobrinho de Sigmund que se envolveu profunda e equivocadamente com Sauerwald, sendo o responsável direto por sua perseguição e prisão, no que teve de ser detido por Anna Freud, que lhe explicou de ter sido Sauerwald não o ladrão do patrimônio familiar, como pensava Harry, e sim o salvador de todos. 

Cohen mostra como o final da vida de Freud é pouco ressaltado nas biografias mais conhecidas, o que não lhe parece justo.  Apesar das circunstâncias extraordinariamente adversas como o caos social trazido pelos nazistas e a perseguição aos judeus, o sofrimento físico provocado pelo câncer, os transtornos decorrentes da mudança de cidade e país, de forma quase inacreditável Freud continuou trabalhando, atendendo a pacientes – como a poeta Hilda Doolittle, que deixou um interessante registro de suas sessões, além de manter uma produção teórica importante. Foi justamente nesta ocasião que escreveu “Análise Terminável e Interminável”, “Moisés e o Monoteísmo”, “Woodrow Wilson” (em co-autoria com William Bullitt) e “Esboço de Psicanálise”.

Vida e obra de Freud se confundem e continuam despertando grandes paixões. No momento, na França, o filósofo Michel Onfray ataca ambas em seu livro – “O crepúsculo de um ídolo, a fabula freudiana”, sendo rebatido por autores como Elizabeth Roudinesco e Julia Kristeva.

Talvez seja mais fácil defender Freud dos freqüentes ataques decorrentes da ignorância ou má fé, como os de Onfray, do que defendê-lo da idealização que muitos lhe dedicam, privando-o da cota de falibilidade, imperfeições e limitações à qual, enquanto humanos, todos temos direito.

 

Publicado no caderno Cultura do jornal  “O Estado de São Paulo” em 01/05/2010, sob o título “Uma viagem aos seus últimos anos”.


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