Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Fevereiro de 2010 - Vol.15 - Nº 2

Psicanálise em debate

FREUD EM DOMÍNIO PÚBLICO

Sérgio Telles *
psicanalista e escritor

A propriedade intelectual é protegida por convenções internacionais, às quais os países aderem de forma variada. Uma decorrência importante da propriedade intelectual é sua cessação, momento em que a obra cai em domínio público, podendo ser livremente utilizada.

Na maioria dos países ocidentais, as obras caem em domínio público 70 anos após o falecimento de seus autores. É o que ocorre neste ano desde  o 1º. de janeiro (Dia do Domínio Público) com a obra de 563 autores, entre eles Freud, W.B. Yeats, Ossip Mandelstam e Ford Madox Ford.

A questão do domínio público é de grande relevância e o advento da internet só fez aumentá-la de forma exponencial. Com a internet, coisa inédita na história da humanidade, fica possibilitado a um grande número de pessoas o acesso gratuito à informação e ao conhecimento

No caso da obra de Freud, sua entrada em domínio público implica de imediato que qualquer editora no mundo todo pode providenciar novas traduções sem pagar direitos autorais e sem qualquer tipo de controle ou supervisão, como ocorria até agora, quando instituições psicanalíticas davam sua chancela para determinadas editoras e tradutores, configurando “versões autorizadas” da obra freudiana.

E é justamente aqui que reside o nó do problema. Como ficaria a leitura descontextualizada dos escritos de Freud? Até que ponto traduções descuidadas deturpariam um acervo de inestimável valor? Como preservar o complexo edifício teórico que Freud nos legou sem mumificá-lo em dogmas?  Seria necessário um “nihil obstatur” e um “imprimatur” das instituições, partindo-se do fato de que a obra freudiana, para ser plenamente compreendida, necessita ser lida de forma cronológica, desde que os conceitos se modificam e reorganizam no correr do tempo?

A obra de Freud, escrita em alemão, foi traduzida do original e publicada integralmente em apenas outras quatro línguas – inglês, italiano, espanhol e japonês. Nas quase sessenta outras línguas nas quais foi publicado, Freud foi traduzido não do alemão e sim do inglês, principalmente da famosa “Standard Edition”, de James Strachey, publicada entre 1943 e 1974.

Ligado ao grupo Bloomsbury, do qual participava Virginia Woolf, Strachey fez uma  tradução extraordinária, organizando um sistema de referências cruzadas que permitem ao leitor seguir a evolução dos conceitos e linhas de pensamento. Entretanto, Strachey substituiu termos corriqueiros da língua alemã por neologismos inexistentes na obra original e mesmo em inglês, como “catexia”, “ego”, “ id”, etc. Em semelhante equívoco incorreria atualmente a equipe liderada por Jean Laplanche na França, que afirma ter Freud usado não a língua alemã e sim um “freudianês”, uma língua especial, levando sua equipe a criar neologismos em francês para dar conta de tais supostas peculiaridades. Roudinesco critica tais distorções, dizendo que Laplanche está produzindo uma “versão patológica da obra freudiana”.

Tais distorções são compreensíveis. Mestre da língua, Freud recebeu o Prêmio Goethe, maior honraria literária para os escritores de língua alemã. Sua obra está vazada num alemão escorreito, acessível a qualquer leitor culto. Entretanto, ao ser levada para outras línguas, sua rica linguagem parece aos tradutores deixar pouco “sérias” algumas construções teóricas, fazendo-os providenciar formulações mais “técnicas”, por eles julgadas mais adequadas para apresentá-las ao mundo “científico”.

Essas distorções são sintomáticas, mostrando como o estatuto da obra escrita de Freud reflete as ambigüidades do lugar que a própria psicanálise ocupa no campo do saber. Literatura ou texto cientifico? Arte ou ciência? Qual é o caráter de cientificidade da psicanálise? Como aferir a veracidade de seus conceitos, seus resultados terapêuticos? Estas são questões epistemológicas que já preocupavam Freud e que permanecem de máxima importância. Sabemos que a psicanálise produz conhecimento, suas hipóteses teóricas têm coerência interna, mas – como era de se supor, em função da matéria com a qual trabalha: a singularidade do psiquismo e a sensibilidade - sua prática não pode ser mensurável ou replicável como nas ciências naturais. 

Talvez sem o engessamento institucional e o peso das versões “oficiais”, os leitores se sintam menos intimidados de se aproximar de Freud, podendo assim descobrir a beleza de seu estilo, a fluência de seu discurso, a força convincente de sua argumentação. Ao contrário do que ocorre com a escrita de alguns de seus discípulos, como Melanie Klein e Lacan, o texto de Freud é de uma clareza cristalina, estabelece um permanente diálogo com o leitor, que tem sua curiosidade intelectual despertada e o acompanha prazerosamente no desdobrar de seus raciocínios.

Como mostra a forma transparente e pedagógica com a qual compôs sua obra, Freud tinha o maior interesse em torná-la acessível a todos, em divulgar seu pensamento. Com este explícito objetivo, escreveu vários textos, como as “Cinco lições de Psicanálise”, conferências pronunciadas em 1909 na Clark University (Estados Unidos); o verbete “Psicanálise” para a Enciclopédia Britânica (1926) e as 35 “Conferências Introdutórias” (1917 e 1932).

Ainda hoje alguns temem que a divulgação da psicanálise a tenha banalizado ou superficializado. Vemos que não é o que pensaria o próprio Freud. É preferível a divulgação do conhecimento, mesmo correndo o risco da vulgarização, do que retê-lo e deixar prevalecer a ignorância e o desconhecimento.

Que as futuras traduções arregimentem novos amigos para Freud, reforçando a defesa de seu pensamento permanentemente atacado por ter mostrado a dimensão inconsciente do psiquismo, com isso fazendo desmoronar certezas até então tidas como inabaláveis.

 

(*) Artigo publicado no suplemento Cultura do jornal “O Estado de São Paulo” em 13/02/2010

 


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