Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

Maio de 2010 - Vol.15 - Nº 5

Psiquiatria na Prática Médica

REVISTA BAIANA DE SAÚDE PÚBLICA
Órgão Oficial da Secretaria da Saúde do Estado da Bahia
abr./jun. 2009 v.33, n.2, p. 28-37

ARTIGO ORIGINAL
AVALIAÇÃO DOS FATORES DE RISCO DE SINTOMAS DEPRESSIVOS EM POPULAÇÃO DE DIABÉTICOS DA REDE PÚBLICA MUNICIPAL DE SAÚDE DE TAUBATÉ (SP)

Márcia Gonçalves (a)
Fernando Portela Câmara (b)

Resumo

Este artigo tem como objetivo analisar fatores de risco biológicos (história pregressa de doença grave) e fatores psicossociais, para Transtornos Depressivos em estudo transversal com amostra de pacientes com diabete melito da rede de atenção primária à saúde da Prefeitura de Taubaté (SP). Participaram da pesquisa 192 pacientes de um programa de atenção primária de diabetes da cidade de Taubaté (SP). O grupo controle foi constituído de oitenta e quatro (84) voluntários sem história de transtornos depressivos e/ou diabetis. Foram utilizadas escalas de Beck para Depressão e questionário de fatores psicosociais amplamente utilizado na literatura. Os riscos associados aos fatores foram analisados por regressão logística binária e a análise. Foi utilizado o software Minitab 4.0. Encontraram-se dois tipos de riscos:

riscos de estresse biológico, no qual a presença de diabetes e história pregressa de doença grave (estressores biológicos considerados em nosso experimento) constituíram os únicos riscos para depressão na amostra examinada; e riscos psicossociais, nos quais a presença de filhos e escolaridade tiveram uma participação significativa entre os fatores de risco para depressão na população com diabetis. Concluiu-se que a presença de diabetes e história pregressa de doença grave, bem como a presença de filhos e escolaridade foram os fatores de >risco encontrados.

Palavras-chave: Depressão. Fatores de risco. Diabetes. Regressão logística.

a Professora Assistente Dr. IV de Psiquiatria e Psicologia médica da Universidade de Taubaté (SP).

b Professor Associado da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de Microbiologia, onde dirige o Setor de

Epidemiologia de Doenças Infecciosas. Responsável pelo departamento de informática da Associação Brasileira de

Psiquiatria.

Endereço para correspondência: Rua Carlos Rizzini 26, apto. 21, Centro, Taubaté, SP. CEP: 12 030-140.

[email protected]

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Revista Baiana de Saúde Pública abr./jun. 2009 v.33, n.2, p. 28-37

ASSESSMENT OF DEPRESSIVE SIMPTOMS RISK FACTORS IN DIABETES MELLITUS

POPULATION IN THE CITY OF TAUBATÉ’S (SÃO PAULO) PUBLIC PRIMARY CARE CENTER

Abstract

The purpose of this study was to investigate the biological and psycho-social risk factors to depressive disturbances in a sample of patients with diabetes mellitus in the city of Taubaté’s – São Paulo – public primary care center. One hundred-ninety-two patients under diabetes mellitus treatment on the public primary care center had the psycho-social status assessed through interview and the Beck’s scale for depression. Eighty-four patients with no such pathology were used as control. Techniques of logistic regression were used to measure biological and psycho-social stress agents. The statistical analysis was conducted by using the Minitab 4.0 software. Diabetes mellitus in association with other severe pathologies is a risk factor for depression in adults. The vulnerability to depression condition is increased in female patients with diabetes mellitus.

Key words: Depression. Risks Factors. Diabetes. Logistic regression.

INTRODUÇÃO

A diabetes melito é a principal causa de cegueira, de doença renal terminal e amputações não traumáticas em membros de jovens em idade produtiva; predispõe a doenças cardíacas, vasculares cerebrais e periféricas, sendo também uma importante causa de mortalidade na população em geral e no período neonatal. A maioria das complicações pode ser evitada ou retardada com o tratamento da hiperglicemia e dos fatores de risco.1

Estima-se que no Brasil existam 10 milhões de diabéticos,2 sendo 90% do tipo não-insulino-dependente (Tipo 2), 5-10% do tipo insulino-dependente (Tipo 1) e 2% do tipo secundário ou associado a outras síndromes. 3,4,5 A prevalência da diabetes melito entre nós varia de 2,7% para a faixa etária de 30-39 anos, até 17,4% para a de 60-69 anos.3

Pacientes com diabetes tem um risco elevado de depressão6,7,8,9,10,11 com impacto desta comorbidade na qualidade de vida do paciente e seu efeito negativo no manejo do tratamento da diabetis,6 especialmente no controle da glicemia.12,13,14,15 Portanto, a associação entre diabetes e depressão torna-se um importante fator de complicação.16

A depressão acarreta ao diabético uma precária qualidade de vida17,18,19,20,21 maior irregularidade no uso dos medicamentos, descontrole alimentar e não aderência ao tratamento.4,5 Aumenta também o risco de desenvolvimento de outras doenças e de afastamento do trabalho, além dos custos do tratamento.12,13 30

Em relação ao grau de depressão (leve, moderado e grave), pacientes com depressão grave e moderada apresentam uma significativa perda na aderência ao tratamento (dieta e medicação) em comparação àqueles com depressão leve.12 Eles também apresentam pior funcionamento mental e emocional e maior índice de emergências médicas.12 Usam mais os serviços de saúde primário, ambulatórios, aumentando consideravelmente os custos de tratamento.12 As taxas de glicemia e de complicações secundárias à diabetes são significativamente maiores nestes pacientes que naqueles que não apresentam a comorbidade depressão.20,21

O tratamento da depressão pode melhorar a qualidade de vida e contribuir para reverter algumas de suas consequências negativas para a saúde, tais como o controle da glicemia e a adesão ao tratamento.18

OBJETIVO

Este trabalho tem como objetivo avaliar fatores de risco biológicos (história pregressa de doença grave) e fatores psicossociais para Transtornos Depressivos em um estudo transversal com uma amostra de pacientes com diabete melito da rede de atenção primária à saúde da Prefeitura de Taubaté (SP).

MATERIAL E MÉTODO

Amostra: foram selecionados aleatoriamente e convidados a participar do estudo 192 pacientes de um programa de atenção primária de controle da diabetes no serviço público de saúde da cidade de Taubaté (SP). Estes pacientes foram orientados pela equipe multidisciplinar que os assiste.

Grupo controle: oitenta e quatro (84) voluntários sem história de transtornos depressivos e/ou diabetis foram selecionados como grupo controle.

Caracterização da amostra: dados biométricos, psicossociais (estado civil, número de filhos, escolaridade, renda familiar, religiosidade, emprego) e estressores biológicos (diabetes melito e história de doença grave) foram obtidos de cada indivíduo através da aplicação de um questionário de dados psicossociais. Todos os participantes formam informados sobre a natureza desta pesquisa e assentiram em colaborar através do consentimento livre e esclarecido, conforme as disposições contidas na Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde, sobre Diretrizes e Normas Regulamentadoras de Pesquisa Envolvendo Seres Humanos.

Avaliação da presença de sintomas depressivos (Anexo A): foi usada a Escala de Beck para Depressão.22

Análise: foi utilizado o software Minitab 4.0. 31

Revista Baiana de Saúde Pública abr./jun. 2009 v.33, n.2, p. 28-37

RESULTADOS

Nas populações estudadas — a saber: diabéticos (n = 192) e não diabéticos (n = 84) com ou sem sintomas depressivos clinicamente detectados — foram encontrados os seguintes resultados:

a) Idade

Não foi encontrada diferença estatisticamente significativa (teste t) entre as idades dos grupos com pontuação acima de 18 estudados através da escala de Beck para depressão (com ou sem diabetes) nas populações de estudo avaliadas indistintamente e selecionadas aleatoriamente. (respectivamente 56,19 ± 13,30 e 57,91 ± 10,77 anos).

No grupo com diagnóstico de diabetes, a diferença entre as idades foi estatisticamente significante (teste t, p = 0,001), sendo a média das idades do grupo com escore acima de 18 (BDI) significativamente maior (56,19 ± 13,30 anos) do que a do grupo com escore abaixo de 18 (BDI), (49,18 ± 15,57), ou melhor, (56,19 ± 13,30 anos versus 49,18 ± 15,57).

Os riscos associados aos fatores descritos em Material e Métodos foram analisados por regressão logística binária.

b) Fatores Biológicos (histórico de doença grave e presença de diabetis) Para os pacientes que apresentaram escores de depressão mensurados pela BDI maior que 18, dois estressores biológicos (Presença de Diabetes Melito e História Pregressa de Doença Grave) foram detectados com fatores de risco significativamente importantes.

As razões de chance para o risco de depressão na presença de diabetes melito e de histórico de doença grave foram, respectivamente, 3,6 vezes (z = 3,14, p = 0,002) e 2,2 vezes (z = 2,39, p = 0,017), para o intervalo de confiança de 95%.

A regressão com estas duas variáveis preditivas foi altamente significativa (p < 0,001) e o modelo preditivo foi Log[p/1-p] = -2,38 + 1,28 diabetis + 0,78 dogra (doença grave).

Outros índices psicossociais não se revelaram fatores de risco para a amostra com pontuação para depressão maior que 18 ( BDI), com ou sem diabetes associada.

c) Filhos e com Escolaridade

Dois índices psicossociais mostraram-se significativamente relevantes como fatores de risco para a diabetes melito, quando foram excluídos os demais fatores psicossociais e os estressores biológicos. São eles: presença de filhos e escolaridade acima do primeiro grau. As razões de chance para o risco de diabetes melito no paciente com filhos e com 32 escolaridade foram, respectivamente, 22,8 vezes (z = 8,02, p < 0,001) e 7,1 vezes (z = 3,53, p < 0,001), para o intervalo de confiança de 95%.

A regressão com estas duas variáveis preditivas foi altamente significativa (p < 0,001) e o modelo preditivo foi Log[p/1-p] = -3,16 + 3,29 filhos + 1,96 escolaridade.

Os estressores biológicos (história pregressa de doença grave) não se revelaram fatores de risco para a amostra de diabéticos com escores de depressão abaixo de 18 (BDI).

DISCUSSÃO

Os grupos com pontuação acima de 18 (BDI) para depressão, com ou sem diabetes associada e com diabetes, mas sem pontuação para depressão, pertenciam à mesma faixa etária. Isto sugere que diabetes e depressão possuem uma faixa etária de risco comum, situando-se entre a quarta e a sexta décadas.

Analisando a participação de estressores biológicos (história pregressa de doença grave) e a correlação com outros índices psicossociais como fatores de risco para depressão, verificamos que a presença de diabetes e história pregressa de doença grave (estressores biológicos considerados em nosso experimento) constituíram os únicos riscos para depressão na amostra examinada. Nenhum dos índices psicossociais analisados (estado civil, idade, filhos, renda familiar, escolaridade, emprego, religiosidade) influenciaram o risco. Isto sugere que o estresse biológico é um importante fator na patogênese da depressão.

Por outro lado, os riscos associados aos fatores psicossociais, no caso, a presença de filhos e escolaridade, tiveram uma participação significativa na população com diabetis.

Podemos inferir que ambos os fatores sugerem um perfil de indivíduos com alto grau de responsabilidade (criação dos filhos, prover educação, cuidados etc.), e a escolaridade implica em vida social e profissional mais competitiva, em que a busca de melhor status social pode condicionar a maior nível de tensão psicológica.

Aparentemente, a maior chance de risco para diabetis associada à presença de filhos (22,8) sugere ser a criação de filhos um importante fator de estresse psíquico. Estes fatores (filhos e escolaridade) podem caracterizar indivíduos com níveis de ansiedade mais elevados e podemos inferir que, possivelmente, exista uma associação entre alterações hormonais e os altos níveis de ansiedade e tensão crônicos.

CONCLUSÃO

Riscos de estresse biológico: verificamos que a presença de diabetes e história pregressa de doença grave (estressores biológicos considerados em nosso experimento) constituíram os únicos riscos para depressão na amostra examinada. 33

Revista Baiana de Saúde Pública abr./jun. 2009 v.33, n.2, p. 28-37

Os riscos psicossociais, no caso, a presença de filhos e escolaridade tiveram uma participação significativa entre os fatores de risco para depressão na população com diabetis. Outros estudos para aprofundamento destas questões são sugeridos.

REFERÊNCIAS

1. Sherwin RS. Diabetes melito. In: Bunnett JC, Plum F. Tratado de medicina interna. 20ª. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 1997. p.1391-413.

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3. Fraguas RJ, Figueiró JAB. Depressão no diabetes. In: Fráguas Jr R.; Figueiró JAB. Depressão em Medicina interna e outras condições médicas. São Paulo: Atheneu; 2001. p. 237-241.

4. Rubin RR, Peyrot M. Psychological issues and treatments for people with diabetes. J. Clin Psychol; apr. 2001;57(4):457-78.

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8. Lustman PJ, Anderson RJ, Freedland KE, Groot M, Carney RM, Clouse RE. Depression and poor glycemic control: a meta-analytic review of the literature Diabetes Care jul. 2000;23(7):934-42.

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10. Kawakami N, Takatsuka N, Shimizu H, Ishibashi H. Depressive symptoms and occurrence of type 2 diabetes among Japanese men. Diabetes Care Jul. 1999;22(7):1071-76.

11. Cechanowski PS, Katon WJ, Russo JE, Walker EA. The patient-provider relationship: attachment theory and adherence to treatment in diabetes.

Am J Psychiatry jan. 2001;158(1):29-35.

Governo do Estado da Bahia

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