Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Novembro de 2010 - Vol.15 - Nº 11

Psicologia Clínica

A MEDÉIA DE EURÍPIDES COMO ELEMENTO DE TRABALHO PARA A TERAPIA FAMILIAR

Braz Werneck
Mestre em Psicologia (UFRJ)
Terapeuta Cognitivo-Comportamental

Resumo

O presente trabalho tem como objetivo discutir a terapia familiar atual a partir da Medéia de Eurípides. Sugere-se que as tragédias sejam importante elemento para auxílio no tratamento de famílias. Analisamos o tema da tragédia em questão comentando temas como o matrimônio e seus motivos, a importância das crenças do individuo antes de seu casamento e sua influência nos problemas conjugais. Buscamos uma breve explanação sobre Eurípides e suas claras tendências humanistas sofistas. Tais tendências, segundo percebemos, o levam a um pensamento realista ao extremo, sem poupar o homem de sua responsabilidade na tragédia em que se transforma a sua vida. Então passamos a uma exploração breve de alguns conceitos da terapia sistêmica de família atual, relacionando ao tema de Medéia. Por fim, uma reflexão sobre a utilidade de histórias como as clássicas tragédias para um bom entendimento e uma possibilidade de novas rotas alternativas para a família com problemas.

 

Descritores: Terapia Familiar, Medéia, Eurípides.

Introdução

As tragédias gregas são constantemente utilizadas como orientação para um melhor entendimento dos processos relacionais que ocorrem no contexto familiar. As histórias criadas por Eurípides, Sófocles e tantos outros retratam a complexidade da convivência entre diferenças num ambiente que não se escolhe, com pessoas que não se escolhem para ocupar o mesmo espaço. As agruras de Medéia são apenas uma parte das muitas histórias que podem retratar e auxiliar na compreensão das relações familiares.

            Para nós, terapeutas de família, um sem-número de peças das mais antigas, podem servir como elemento auxiliar em metáforas muito próximas da realidade de alguns lares caóticos.         

            No início, propomos uma reflexão baseada na obra de Kierkegaard sobre os motivos para o casamento. Como se dá essa união que inicia a formação das famílias como hoje conhecemos? Vale ressaltar que não trataremos com distinção a formação de famílias com casamentos homossexuais. Muito mais para evitar a discriminação do que para fugir ao tema.

            Destacamos neste trabalho, duas tragédias de Eurípides por entendermos que este autor retratava a vida como ela realmente era. Não se furtava às complicações de caráter dos heróis, não construía heroínas infalíveis. Podemos observar nestas duas histórias e em várias outras que Eurípides trazia consigo algo que nos é útil ainda hoje, e cada vez mais. Uma irreverência frente ao que se esperava que devesse acontecer.

            A partir da história de Medéia, pretendemos refletir sobre o que observamos na clínica da terapia familiar, no que diz respeito às alianças construídas entre alguns membros das famílias. Alianças que muitas vezes deixam outros membros sem referência, desprotegidos e prontos a assumir o papel de problema dentro da convivência familiar.

            Uma ideia que perpassa todo este trabalho é de que, caso essas alianças (mortais nas tragédias gregas e dramáticas no contexto familiar atual) encontrem rotas alternativas, a relação familiar pode também caminhar por uma estrada de menor sofrimento.

 

Um Retorno ao Trágico

Obviamente, as tragédias gregas não representam a realidade atual. No entanto, um olhar para as relações familiares pode se beneficiar de metáforas relativas à fábula de que falamos aqui.

            Antes de explorarmos a obra em questão, parece-nos importante um breve comentário sobre a noção do trágico na vida humana.

            A questão que consideramos relevante é levantada por Rollo May (1972) e diz respeito à falta de senso trágico do homem contemporâneo. Segundo esse autor, o senso trágico estava presente à época de grandes autores como Sófocles, Eurípides e mesmo, Shakespeare. Ora, não nos parece que o homem contemporâneo tenha perdido a noção do trágico ou, pelo menos, resistimos antes de aceitar esta hipótese como verdadeira, pois consideramos que o drama familiar vivido atualmente pode ser avaliado como um reflexo desse senso trágico, que segundo Rollo May, demonstra toda a potência empregada no homem para ser o que é: ser humano (1972).

            Justamente por acreditarmos que o senso trágico esteja ainda presente no homem de hoje, buscamos uma analogia com as histórias contadas na antiguidade. Pode ser uma demonstração de que as situações dramáticas familiares podem ser diferentes em intensidade, mas não será exagero dizer que sejam de natureza, no mínimo, semelhante. Em situações que presenciamos no ambiente da terapia familiar podemos ver que não é comum que, como Medéia, as mães de hoje matem seus filhos para gozarem a vingança de seu amor odiado. Vemos, com frequência, entretanto, mães e pais que reduzem sensivelmente as interações saudáveis, quando condenam seus filhos a uma vida de objeto de barganha ou chantagem contra o cônjuge.

Casamento e Necessidade de um Outro

Em nossa atuação clínica, encontramos, amiúde, tratamentos de famílias inteiras que se encaminham naturalmente para uma terapia de casal. A reflexão que propomos refere-se a uma ideia de complementaridade essencial frequentemente observada em nossa prática. Tal ideia vem representada por alguns objetivos de vida como “encontrar a outra metade da laranja” ou, mesmo, simplesmente, encontrar a “pessoa certa”.

            A partir de observações, profissionais ou não, vemos que o homem geralmente procura um par que possa ser testemunha ativa em sua construção de vida. Na obra de Cyrulnik encontramos uma inequívoca proposta que concorda com essa ideia de complementaridade necessária:

Curiosa exigência da condição humana: sem a presença de um outro não podemos nos tornar mesmos, como revelam na tomografia as atrofias cerebrais de crianças privadas de afeto. Para desenvolver nossas aptidões biológicas, somos obrigados a nos descentrar de nós mesmos para experimentar o prazer e a angústia de visitar o mundo mental dos outros. Para nos tornarmos inteligentes, temos de ser amados. O cérebro, que era a causa do impulso para o mundo externo, torna-se aqui a consequência de nossas relações. Sem apego não há empatia. (...) Sem empatia tornamo-nos sádicos, mas o excesso de empatia nos leva para o masoquismo. (2009, p. 05).

            A necessidade de um outro como companhia para a construção de nossa história afetiva e de nossa felicidade, aliada à necessidade biológica de manutenção da espécie culmina na instituição que dá início a um núcleo familiar: o casamento.

            O casamento pode ser avaliado e analisado de várias maneiras, o que exigiria um estudo muito mais amplo apenas sobre este tema. Propomos aqui a ideia de que o casamento pode trazer em sua história (do apaixonamento ao compromisso formalizado) embriões de relações permeadas por dificuldades em manter projetos em comum.

            De acordo com Kierkegaard, podemos observar alguns porquês para o casamento. Esse autor ressalta em sua obra as grandes consequências motivadas por uma pequenina causa. Na mesma obra, intitulada O Matrimônio, Kierkegaard propõe algumas razões para que aconteçam os casamentos: para cultivar e enobrecer o caráter, para ter filhos ou para escapar à solidão (1994). Atualmente, é comum testemunharmos os casamentos que servem para noivo ou noiva sair de casa. Em outras palavras, as coisas podem não ser tão diferentes assim do que eram à época do filósofo dinamarquês, que produziu suas obras principais no fim da primeira metade do século dezenove. Uma pergunta que podemos fazer, caso nos embrenhemos nas fábulas, como muitos se emaranham nas novelas hoje, seria: o que levou Medéia a casar-se com Jasão? Muitos de nós, terapeutas familiares, estamos acostumados a vivenciar a curiosidade sobre como foi o apaixonamento entre duas pessoas que ora só faltam se matar.

            Antes do casamento, os indivíduos já existem como adultos, já possuem uma história. As suas relações com o mundo já estão, espera-se, estabelecidas e o casamento vem para ampliar o círculo social e afetivo do noivo e da noiva. Entretanto, a atenção deve ser redobrada à história e à construção pessoal dos dois personagens que iniciam uma nova família. Dattilio e Padesky ressaltam a importância dada por Beck ao que o sujeito era ates de se casar:

As crenças básicas sobre os relacionamentos e sobre a natureza da interação do casal, frequentemente, são aprendidas precocemente na vida, por fontes primárias como os pais, regras da cultura local, meios de comunicação e primeiras experiências românticas. Esses esquemas, ou crenças disfuncionais sobre os relacionamentos, frequentemente, não são articulados claramente na mente do indivíduo, mas podem existir como conceitos vagos daquilo que deveria ser. (1995. p. 19). 

 

            Assim, é razoável a ideia de que as razões e expectativas que um dos noivos construiu para si, sem nenhuma participação do outro, estejam fortemente ligadas ao destino de sua união com esse outro.

Eurípides: humanismo e complexidade

Para uma exploração do drama de Medéia, consideramos interessante nos aproximar do autor das peças. Eurípides construiu um repertório de tragédias que traduziam, de acordo com alguns registros antigos, a sua própria visão de mundo. O conflito existencial era tema comum em sua obra. A crítica aos dogmas e às leis sociais e religiosas parece ter sido uma constante.

            Para a nossa concepção de terapia familiar, a obra de Eurípides fornece situações perfeitas para reflexões alternativas e questionadoras sobre aqueles acontecimentos que teriam sido determinados por leis ou dogmas externos ao homem. Eurípides figura como um dos discípulos dos sofistas, tão criticados por mercantilizar o ensinamento filosófico, mas que deixaram o legado do “homem como medida de todas as coisas” [1].

            A exploração das contradições humanas e a exposição do conflito como tema central da vida, podem figurar como algumas das principais características da obra de Eurípides, e também podem marcar uma diferença essencial entre este autor e Sófocles. Atribui-se a este exposição ou versão das coisas como elas deveriam ser e a Eurípides a exposição das coisas como elas eram[2].

            As palavras de Lesky sobre Eurípides dão uma ideia do que ele pode representar para o pensamento complexo e para as novas (e também para as antigas) formas de conceber a terapia familiar:

...na verdade, Eurípides não se filiou a nenhuma doutrina determinada. Para ele, não era decisiva a determinação de um sistema, mas sim a entrega ao novo espírito da época e a espécie de indagação que este exigia. Por isso torna-se vão o esforço de querer encontrar em seus dramas uma visão de mundo nitidamente delineada, em todos os seus traços individuais. Se nos abstrairmos do fato de que muitas declarações só podem ser entendidas por nós como expressão da personagem atuante, ainda assim restam numerosas contradições, que nem sempre se deixam inserir de algum modo a linha de uma evolução espiritual. (2003; p. 192).

            Com isso, podemos contar com o autor para deslizar por uma estrada cheia de descaminhos, que nada mais é do que a estrada que qualquer um é obrigado a trilhar vida afora. Um traço peculiar e bastante contundente pode ser encontrado no que Lesky ressalta a respeito de Eurípides. Traço, sem dúvida, condizente com uma postura humanista diante dos dramas da vida. Nas palavras de Lesky:

Uma luta incessante, uma busca apaixonada percorre toda a obra do poeta, e precisamente no fato de que para ele a tradição perde o valor quando se trata de enfrentar uma nova questão, e de que muitas vezes, em suas cavilações, em lugar de um claro conhecimento, se lhe evidenciam [...] os aspectos contraditórios das coisas [...]. No homem, e só no homem, foi que eles [os sofistas] situaram todo o conhecimento e toda a decisão. No seu mundo, afora o sentir e pensar humano, não atua nenhuma potência capaz de determinar o agir e pensar do indivíduo. (ibidem).

            Quando trabalhamos a terapia familiar orientada pela visão sistêmica de segunda ordem – uma visão mais atual da terapia familiar – frequentemente nos deparamos com situações onde o que nos parece mais importante e mais saudável é promover um ambiente onde os pacientes e suas famílias possam assumir o papel de construtores de suas próprias histórias. Escolhas, responsabilidades, consequências boas e ruins assam a fazer parte de um roteiro de vida escrito por quem vive essa vida.

Medéia e as famílias onde os filhos desaparecem

A tragédia de Medéia é uma das mais famosas e mais interessantemente violentas de todas as que nos chegaram desde os tempos da produção de tais peças.

            A tragédia está relacionada a outras histórias e tem a participação de personagens muito conhecidos por suas próprias peças.

            A história é repleta de humilhação sofrida pela protagonista. Depois de apaixonar-se por Jasão, ajudar o então herói na sua busca pelo velocino de ouro, casar-se com ele e ter filhos, o sofrimento começa e não tem mais fim. No início das desventuras, Jasão se apaixona pela filha de Creonte, rei que acolhera a ele e Medéia e repudia a esposa, para logo casar-se com a filha desse mesmo rei, chamada Glauce. Além disso, Creonte resolve decretar a expulsão de Medéia e de seus filhos do reino (Kury, 2007).

            O que se segue é a cortante transformação do amor em ódio. Um ódio que transcende às concepções plausíveis para quem quer que se depare com a história. Medéia decide vingar-se do marido, sem colocar qualquer outra coisa ou pessoa acima dessa vingança. Kury descreve bem a transformação da personagem e de todo o clima ao seu redor:

A peça evolui de uma Medéia abatida pela repulsa do marido, esposa traída que definhava no leito e nem sequer levantava as pálpebras para abrir os olhos, aparentemente conformada com a sorte, para uma mulher animada por um terrível desejo de vingança e extermínio, que não se detinha diante do infanticídio, como vindita extrema ara o aniquilamento do marido perjuro. (2007; p. 13).

            Kury ainda comenta que tais sentimentos primitivos eram esperados numa pessoa que cresceu em um ambiente de barbárie (ibidem.). Vemos confirmada aqui, uma das ideias propostas por Beck (in Dattilio e Padesky) sobre a importância que deve ser dada à história de vida da pessoa que se casa, como um dos fatores mais relevantes para a compreensão de problemas ocorridos na vida conjugal.

            Muito comum é em nossa clínica nos depararmos com um problema que parece insolúvel: crianças que apresentam os chamados transtornos de aprendizagem e de relacionamento, que se tornam agressivas, ou, em casos mais graves, vivenciam situações de abandono e abuso.

            Algo realmente difícil de fazer é mostrar aos pais que a criança, dificilmente cria um problema na família. Parece-nos mais comum e viável que ela venha a desmascarar indiretamente algumas questões que não são trazidas à tona.

            O problema que acaba se manifestando em grande parte dos casos que começam com a “necessidade” de uma terapia infantil é a falta patológica de atenção, cuidado ou mesmo, amor. 

            No caso da tragédia de Medéia, podemos observar o tratamento dispensado aos filhos pela mãe, de forma clara e ativa, pois é ela quem mata os filhos. Por outro lado, podemos observar a forma como o pai, Jasão, deixa que as coisas aconteçam. Toda a trama para livrar-se de Medéia e das crianças tem a aprovação do pai. Nas reflexões das quais nos servimos na terapia familiar atualmente, devemos atentar para as duas figuras. Quando não ocorre uma tragédia em que pai ou mãe seja diretamente responsável por morte de um filho, podem-se avaliar as relações mantidas entre os membros da família.

            O que se encontra sobre a história de vida antes da união do casal, sobre as crenças e formas de se relacionar com o mundo, sobre a capacidade de fazer concessões para que seja construída uma vida, geralmente nos auxilia na terapia, que deve ser conduzida para que o espaço de reconstrução ou de construções completamente diferentes seja estabelecido.

Medéia e terapia familiar

Como seria, se é que seria possível, um tratamento para uma família com as características, guardadas as devidas proporções, da família de Medéia e Jasão?

            A primeira ideia que nos ocorre é de que não podemos procurar uma receita para lidar com todos os problemas. Embora as famílias se comportem de maneiras semelhantes, são famílias diferentes.

            Passamos a discorrer brevemente sobre os processos reflexivos, propostos por Tom Andersen, sobre a Terapia Narrativa e sobre a Terapia Familiar Sistêmica.

            A terapia familiar sistêmica está ancorada nos pressupostos da teoria geral dos sistemas, proposta por Bertalanffy. Segundo este autor, teoria dos sistemas pretendia, entre outras coisas, aplicar conceitos organizacionais a sistemas, principalmente os biológicos e sociais. (Rapizo, 1996).

            Em sua origem a terapia sistêmica mergulhava na confluência relativa entre a teoria dos sistemas e a cibernética – concepção que tratava o sistema a partir de seus fluxos de retroalimentação. Com o passar do tempo, entretanto, Bertalanffy começou a trabalhar com a necessidade de que os sistemas apresentassem características abertas, com possibilidades de evoluir para estados de maior complexidade (ibidem).

            Com essa evolução, podemos trabalhar atualmente com situações críticas, sem assumir que um membro ou outro da família esteja certo ou errado. É possível buscar a complexidade dos conflitos humanos e compreender os funcionamentos caóticos para depois possibilitar a construção de novos caminhos.  A quantidade de respostas certas é infinitamente menor, mas a condição de considerar o humano em toda a sua imprevisibilidade surge e toma forma para dar base à emergência de novas ideias que considerem a complexidade.

            A evolução paa uma forma de pensar e trabalhar considerando a complexidade humana foi a linha de base para o surgimento da chamada equipe reflexiva, criada por Tom Andersen e seus colaboradores. Nesse momento, a terapia familiar passa a contar com uma equipe que divide as suas impressões, sensações e reações com a família, no ambiente da sessão (Nichols e Schwartz, 2007).

            Ninguém, entretanto, conseguiria definir melhor a peculiaridade filosófica e prática da utilização de uma equipe reflexiva, quanto o próprio Tom Andersen. Em suas palavras:

Os significados são múltiplos e mudam com os contextos mutáveis. Como suas origens não podem ser indicadas, os significados dificilmente podem ser explicados. Nem podem ser previstos. [...] E também impossível definir o que os significados “realmente” são. Não podem ser guiados ou controlados e, é claro, ao existem leis universais que possam nos orientar para compreendermos como os significados são explicados e controlados. Nossas tentativas são o ponto mais próximo a que podemos chegar para compreender os significados e os pensamentos dos outros. Minha compreensão é o ponto mais próximo a que posso chegar para a compreensão do outro. (1991, p. 144).

            As ideias de Tom Andersen servem de inspiração para todo o trabalho atual em terapia familiar. Com as palavras acima, podemos nos aproximar das concepções humanistas de Eurípides. Podemos ainda, questionar a tragédia necessária dentro de uma família mergulhada no caos. Quando assumimos que a verdade é relativa, conseguimos, ao menos, dar o benefício da dúvida aos transgressores, aos doentes mentais, aos filhos-problema. A ideia de que a realidade é construída e de que o próprio construtor da verdade, o homem, é construído nos leva a um campo fértil para novas possibilidades.

            Para o caso da família de Medéia, podemos questionar a forma como ela foi se transformando em vilã. Caso algo parecido acontecesse hoje, como poderíamos proceder? Mais uma vez, guardadas as devidas proporções, a possibilidade de uma reflexão junto ao ser que mais sofre poderia ser uma ação diferente, um alento em momentos de tanta angústia. As ideias de Tom Andersen se encaixam ao longo de toda a nova forma de se conceber a terapia sistêmica. A equipe reflexiva poderia trazer à tona, diversos sentimentos que todos nós experimentamos ao ler a trágica sina da protagonista. Estudos mostram que a reflexão feita junto à família tem trazido substanciais diferenças no decorrer do tratamento. O questionamento de verdades seria uma outra forma de se atingir a mãe ou o pai da família. O comportamento dos dois é agressivo ou passivo, mas sempre radical, sempre com um fim determinado por qualquer meio. Com a equipe reflexiva, a terapia familiar pode se aproximar ainda mais de sai clientela, algo que talvez tivesse feito alguma diferença para o caso de Medéia.

            No caso da Terapia Narrativa, que tem como seu principal expoente, Michael White. Para este trabalho, não podemos deixar de trazer uma, dentre tantas outras contribuições interessantes da terapia narrativa. A formulação das chamadas perguntas de influência relativa. Trata-se de definir o que a pessoa sente como principal problema e qual a influência da pessoa sobre o seu próprio problema (NIchols e Schwartz, 2007). Podemos nos imaginar perguntando à Medéia sobre a sua parcela de responsabilidade nas agruras pelas quais passou. Aém da responsabilidade óbvia de Jasão, seria possível atentar para as influências de Medéia sobre o problema, não para dividir a culpa, mas para fazer com que a deprimida mulher do início da peça pudesse enxergar uma forma de resolver pelo menos parte do problema.

Conclusões

Apesar de não existirem mais Jasões e Medéias, como os retratados por Eurípides, existe, sim, o sofrimento familiar de filhos que são abandonados por seus pais em meio a disputas judiciais. Existem os filhos vítimas de violência e de abuso sexual dos pais. Todas essas famílias apresentam um pouco de Jasão e Medéia, a partir do momento em que não conseguem abrir mão de seus próprios interesses para cuidar de quem não tem condições de se cuidar sozinho.

            Sustentamos aqui a ideia de que uma visita aos personagens das grandes tragédias da antiguidade pode ser útil no trabalho da terapia familiar, posto que ofereça uma ampla gama de metáforas bastante diretas.

            Cabe ressaltar ainda, a importância dada ao fator humano por Eurípides tão parecida com a importância dada à complexidade humana por Tom Andersen e outros nomes da Terapia Sistêmica contemporânea.

Referências Bibliográficas

Andersen,T. Processos Reflexivos. Rio de Janeiro; NOOS. 1991.

Eurípides. Medéia (in Medéia Hipólito As Troianas)Tragédia Grega VOL III. Rio de Janeiro, Jorge ZAhar; 2007.

NIchols, M. P., Schwartz, R. C. Terapia Fmailiar: conceitos e métodos. Porto Alegre; ARTMED, 2007.

Leskin, A. A Tragédia Grega. São Paulo, Perspectiva. 2003.

Rapizo, R. Terapia Sistêmica de Família: da instrução à construção. Rio de Janeiro; NOOS. 1996/2002



[1] Palavras atribuídas a Protágoras (Lesky, 2003).

[2] O próprio Sófocles teria anunciado esta característica diferencial entre os dois.


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