Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Outubro de 2010 - Vol.15 - Nº 10

Psicologia Clínica

A DUPLA TERAPÊUTICA: REFLEXÕES SOBRE AS INFLUÊNCIAS DAS RELAÇÕES INTERPESSOAIS NO TRABALHO TERAPÊUTICO

Braz Werneck
Mestre em Psicologia (UFRJ)
Terapeuta Cognitivo-Comportamental

Introdução

Uma das grandes novidades proposta pela terapia sistêmica atual, a partir de uma visão que considere como salutar a constante movimentação dos paradigmas, é o formato de atendimento clínico, para grupos e famílias, com a dupla terapêutica.

            A partir de um começo inusitado, com a experiência de Tom Andersen e de seus colaboradores, podemos atualmente, mergulhar em um universo completamente diferente do que nos sugeriu a prática da terapia de família até as últimas décadas do século passado.

            O objetivo deste trabalho não é fazer uma revisão científica da evolução ou das mudanças teóricas em terapia de família. Pretendo, a partir de uma breve reflexão, estimular o pensamento de que as relações entre os profissionais que trabalham com um material tão variável e imprevisível devem ser privilegiadas. As relações de trabalho em uma dupla terapêutica podem passar pelas mesmas interferências pelas quais passam as relações entre funcionários administrativos de uma repartição pública. Entretanto, as consequências que as agruras relacionais podem provocar devem ser cuidadas, pois serão motivos até de avaliação no que diz respeito à conduta ética dos profissionais.

Considerações sobre a dupla terapêutica

O que se entendo por dupla terapêutica, inicialmente, é a dupla que trabalha dentro do consultório, ao mesmo tempo. Duas presenças junto ao grupo ou à família. Vale ressaltar, todavia, que este não é o único par que está afetado pelas características das relações pessoais. Pode-se dizer que encontros de supervisão, grupos de reflexão, ou quaisquer outras formas que envolvam outras pessoas direta ou indiretamente no atendimento clínico, provocarão consequências. Neste trabalho, escolhemos falar apenas da dupla terapêutica, para atingir um dos principais objetivos: a comunicação clara e breve.

            A primeira questão a respeito da dupla terapêutica está, para nós, em sua formação. Como se faz uma dupla terapêutica? É preciso que duas pessoas apresentem características específicas para que possam conduzir um trabalho que promova algum movimento subjetivo e coletivo dentro de uma família?

            Esta questão nos leva a refletir sobre as diferenças entre afinidade e entrosamento. O que nos ocorre, sem o temor de uma restrição ou radicalização, é que a dupla deve apresentar um bom entrosamento, podendo prescindir de afinidades pessoais. Entendemos por entrosamento algo diferente da afinidade e do consenso nas formas de ver e ser no mundo dos terapeutas. Tratados aqui o entrosamento como uma habilidade, quase um requinte, ilustrado na capacidade de conjugar visões diferentes em prol do que no fim das contas é um trabalho. Defendemos, portanto que a formação de uma dupla não deve obedecer a um critério de afinidade entre os membros para que seja uma dupla funcional.

            O que se nos mostra na prática, entretanto, é que as duplas terapêuticas privilegiam as relações pessoais, quando observamos que alguns terapeutas (não poucos) preferem trabalhar dentro deu uma mesma sala com pessoas que lhes sejam agradáveis, ou com as quais já possuam uma relação de amizade anterior ao trabalho. Neste caso, observamos que seja muito comum alguma resistência em discordar do amigo terapeuta, quando se percebe que uma de suas posturas (produtivas ou não) causou algum incômodo. Muitas vezes, discussões potencializadoras do trabalho deixam de acontecer porque um amigo preferiu preservar a relação com outro a questionar seu método ou sua postura dentro de uma sessão.

            Esta parece a crítica mais lógica a ser feita ao relacionamento de amizade como fator para uma boa dupla de trabalho. No entanto, é na verdade, apenas a crítica mais óbvia. Com algum aprofundamento em discussões, podemos perceber e nos interrogar sobre o que acontece quando um grande amigo, ou mesmo uma pessoa apenas bem conhecida nos fala alguma coisa. Nas palavras de Liora Berer: “as pessoas acabam assumindo que já sabem o que o outro vai dizer, ou o que ele quer dizer porque já o conhecem...”[1]

            Pelo que temos observado, este é um problema mais sutil e, consequentemente, mais difícil de ser detectado. Um dos fatores essenciais do trabalho sistêmico norteado pelos processos reflexivos é a legitimação ao que se sente mais profundamente. Pode ser mais difícil identificar um incômodo quando provocado por um amigo do que quando provocado por um não amigo. Diversas características das relações de amizade se sobrepõem instantaneamente e talvez inadvertidamente ao olhar clínico, em muitos momentos.

            Apresentamos como possível solução a ideia de que o trabalho clínico é um trabalho de amadurecimento profissional e pessoal que, portanto, envolveria a ampliação dos questionamentos e da curiosidade sobre as relações interpessoais que mantemos. Este é um dos principais argumentos, por exemplo, para que seja recomendada a posição de paciente em um processo terapêutico, para qualquer terapeuta.

            Deve ser fundamental no trabalho em dupla, que cada um dos envolvidos esteja ciente de que acontecimentos imprevisíveis irão, necessariamente ocorrer. Não há como controlar e planejar um relacionamento humano, qualquer que seja.

            O trabalho com pessoas que se conheçam bem ou se gostem muito, entretanto, não é por nós considerado ruim. Pensamos antes, que o trabalho deve ser constantemente avaliado e, só então, será possível dizer se uma dupla funciona ou não. Caso dois bons amigos trabalhem juntos, eles irão, forçosamente, experimentar novas formas de vivenciar a amizade que os aproxima.

            Podemos dizer que nas vivências do trabalho em dupla com uma pessoa bem conhecida e muito querida, os sentimentos em relação ao que um amigo pensa e sente acabam vindo à tona. Muitas vezes, pessoas que se consideravam muito conhecidas, acabam por descobrir novidades, nem sempre boas, sobre os seus parceiros-amigos. Caso sejam duas pessoas que se respeitem e se dediquem ao trabalho com alguma disciplina, o trabalho será provavelmente recompensado.

            Como conclusão, podemos dizer que o entrosamento é considerado por nós, mais importante do que a afinidade pessoal. Entretanto, caso a afinidade pessoal se encontre somada ao modo de ser mais interativo, mais voltado às descobertas em si mesmo e mais aberto a novos movimentos internos, certamente será um potencializador do trabalho.

            Um dos mais importantes argumentos para que questionemos a amizade entre os componentes da dupla como positiva é justamente quando um dos membros apresenta uma rigidez maior. A flexibilidade pode ser o antídoto para o problema que a amizade injeta, em alguns casos, no trabalho terapêutico.

Considerações sobre o trabalho em dupla

Não há como negar que é um trabalho singular. Estar dentro de um consultório com um colega elimina uma simples variável que é muito comum nos atendimentos psicológicos em geral: a autoridade do terapeuta sobre o que se é visto. Normalmente, apenas o terapeuta e o cliente podem dizer o que se passa em seu ambiente, em seus domínios. Estar em um consultório conduzindo um trabalho com tamanha responsabilidade e ser observado e ter que interagir, talvez ser corrigido, ou sofrer algum tipo de intervenção, ainda que passiva é, para nós, uma novidade complexa.

            Podemos observar nas duplas que funcionam no binômio terapeuta de campo-equipe reflexiva uma primeira atitude de constrangimento, surpresa, dificuldade em ser espontâneo. A tendência, muitas vezes, é de nos protegermos de que nossos erros sejam trazidos à tona. Ainda que se considere naturalmente desagradável ter um erro veiculado publicamente, quando trabalhamos a partir de concepções que considerem a complexidade, que contestem as relações cartesianas de causalidade, para partirmos em direção a um paradigma que conteste a noção de certo e errado, podemos nos ver em outra parte desta curva.  

            Faz parte do amadurecimento profissional, mas também do amadurecimento pessoal, a condição de promovermos movimentos internos a partir do que em nós é apontado como improdutivo ou contraproducente.

            Uma das características que consideramos necessárias num trabalho em dupla é a autorização mútua. Os dois terapeutas devem estar previamente autorizados, um pelo outro, a emitir opiniões e a criticar o trabalho do colega. O que acontece muitas vezes é que não lidamos de maneira saudável com a crítica que se nos é feita. Muitas das vezes, o trabalho acaba travado em um momento de crise que poderia ser o momento de maior crescimento do trabalho.

            Consideramos que o que acontece dentro de uma dupla é geralmente, de diversas maneiras, assimilado pelas famílias e grupos. Quando dizemos que a intuição se configura em um dos principais instrumentos diagnósticos, dizemos também que ela funciona dos dois lados. Algumas famílias deixam de frequentar a terapia, grupos se dissolvem, muitas vezes por causa da falta de sintonia e de algum mal estar não declarado e não explicável, mas que, todavia, se sente, entre os membros de uma dupla.

            Quando se trata de duplas que não se conhecem antes do trabalho, um bom ambiente de trabalho pode ser o prenúncio de uma boa parceria. A combinação de movimentos formais pode ajudar a criar esse bom ambiente. É fundamental o respeito às regras, aos horários e às opiniões do colega. Da mesma forma, deve-se valorizar a palavra do terapeuta que está atendendo e fazendo a reflexão.

O jogo de tênis de mesa e o trabalho em dupla

É importante frisar que as duplas não devem trabalhar para evitar os problemas, mas para que possam aprender com eles. Consideramos que os problemas acontecem porque estão conduzindo um mesmo trabalho duas pessoas diferentes, com opiniões diferentes sobre muitas coisas. Seria mais difícil imaginar um carro dirigido por duas pessoas, do que um avião. No caso da terapia, podemos comparar os terapeutas que começam a atender no regime aqui citado, a motoristas que tenham que passar a dividir um carro com outra pessoa. É diferente de um avião, pois no caso deste, já se espera que duas pessoas conduzam o transporte.

            Não só o exemplo do transporte serve como analogia. Devemos considerar a possibilidade de passar a fazer em dupla tudo aquilo que se faz sozinho. No jogo do tênis de mesa, um esporte que muito me interessa, podemos observar uma gama de dificuldades e de facilidades parecidas com o processo do trabalho em dupla. Comecei a praticar este esporte conhecendo duas modalidades: individual e dupla. No caso das duplas, a cada ponto que se perdia, o jogador era substituído pelo seu companheiro, mantendo sempre apenas um da dupla jogando. Em algum momento, conheci uma terceira modalidade: a dupla na mesa. Como no tênis de quadra, as duas pessoas da dupla se mantêm na mesa durante todo o tempo. No início a dificuldade impera. É preciso conhecer o parceiro, fazer combinações, resolver algumas diferenças, aprender a utilizar quatro olhos para olhar a mesma coisa, ao mesmo tempo, mas cada um preserva as suas características individuais, que vão dando cor e singularidade à dupla. Em pouco tempo, o trabalho que parecia impossível, se torna emocionante.

            Penso que podemos dizer o mesmo da terapia conduzida por dois terapeutas.

 



[1] Comunicação pessoal


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