Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Junho de 2010 - Vol.15 - Nº 6

Psicologia Clínica

A CLÍNICA DA IMANÊNCIA: CRÍTICA DA INTERPRETAÇÃO E DA REPRESENTAÇÃO À LUZ DAS IDÉIAS DE DELEUZE E GUATTARI

Braz Werneck
Mestre em Psicologia (UFRJ)
Terapeuta Cognitivo-Comportamental
Acompanhante Terapêutico

Resumo

O objetivo deste trabalho é propor uma reflexão sobre a crítica feita por Deleuze e Guattari a processos de interpretação e representação da realidade. A partir de uma visita aos conceitos de Corpo sem Órgãos e Rizoma, construímos uma discussão sobre as várias repercussões que essas ideias possam ter na psicologia clínica e no estudo do estabelecimento das relações interpessoais. A partir de uma visão que considera a complexidade e a legitimidade do mundo de cada um, dialogamos com a controversa obra desses autores a fim de valorizar as linhas de fuga - como proposto por eles mesmos – em relação aos paradigmas vigentes e centralizadores de poder. Criticamos, pois, a forma religiosa pela qual o conhecimento é construído; religiosidade esta que afasta o conhecimento da condição de religião sem que o conduza à condição de ciência, num processo de ambiguidade interminável. Esperamos, por fim, que as discussões aqui iniciadas sirvam para reflexões futuras com a intenção de uma prática libertária do pensamento em psicoterapia e relações humanas.

 

Descritores: Clínica da imanência, crítica da interpretação, psicologia.

 

The Clinic of Immanence: Deleuze and Guattari’s critique of interpretation and representation of reality 

 

                                                                                                Braz Werneck Filho

Cognitive Behavioral Therapist

Master’s Degree in Psychology (UFRJ)

Therapeutic Counselor

 

Abstract

In this paper we discuss Deleuze and Guattari’s critique of the processes of interpretation and representation of reality. Considering the concepts of Body without Organs and Rhizome, we discuss how these concepts can influence the practice of clinical psychology and the studies on the establishment of interpersonal relationships.

Sharing the view that considers complexity and legitimacy of each individual, we propose a dialogue with the authors’ controversial ideas, so as to value the so-called line of flight — mentioned by the authors — against the actual paradigms which control power. We, therefore, criticize the religious form by which knowledge is built. The religiosity mentioned previously distances knowledge from a sacred place, without leading it to the status of science, resulting in ambiguity.  Finally, we hope that this kind of debate can be useful for future discussions, in order to encourage the practice of libertarian thinking in psychotherapy and interpersonal relations.   

 

Keywords: clinic of immanence; critique of interpretation; psychology.         

Introdução

O objetivo deste trabalho é discutir uma abordagem do ser humano tão libertária quanto possível. Pra tanto, propomos uma visita à obra de Deleuze e Guattari, a fim de encontrar pontos de partida para uma discussão sobre multiplicidade e complexidade, transportando a discussão, em seguida, para o campo da psicoterapia e do estudo das relações interpessoais.

            A obra de Deleuze e Guattari é no mínimo, controversa, quando não chega a ser incompreensível e chocante. No entanto, um exame mais apurado de algumas de suas ideias pode trazer algumas reflexões importantes e desafiadoras.

            Tomando por base, mas sem exclusividade, o livro “Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia” (1980/1996), temos a intenção de discutir implicações de alguns conceitos formulados e desenvolvidos por esses autores para situações de convivência na psicoterapia e nas relações interpessoais em geral. A partir do objetivo citado acima, procuramos algum fator de potencialização da convivência cotidiana e da compreensão diagnóstica em psicoterapia.

 

Rizoma: multiplicidade e complexidade nas relações homem-mundo

 

Uma das tônicas da obra de Deleuze-Guattari é uma crítica contundente aos modelos de abordagem do ser humano e do mundo em geral. Segundo eles, devemos abandonar uma postura embasada pela lógica binária, que é funcional graças a um modelo relacional de mundo que é basicamente dicotômico. Tal dicotomia, assim como a lógica binária, pode ser representada pelos pares antagônicos eu-mundo, bem-mal, certo-errado etc.

            A proposta do Rizoma se inicia com uma ideia básica de desconstrução. Tem origem aí a concepção de uma crítica À origem única, ao modelo causa-efeito, mas com a manutenção das possibilidades. Estas podem ser mantidas por meio da multiplicidade. A origem não deve mais ser procurada em um fator apenas, mas em muitos. Segundo os autores:

 

Desta vez a raiz principal abortou, ou se destruiu em sua extremidade: vem se enxertar nela uma multiplicidade imediata e qualquer de raízes secundárias que deflagram um grande desenvolvimento. Desta vez, a realidade natural aparece no aborto da raiz principal, mas sua unidade subsiste ainda como passada ou por vir, como possível. (1980/1996; vol. 1, p. 14.). 

 

            Entretanto, acontece que a multiplicidade proposta se apresenta, em nossa clínica, como um desafio a ser vencido. No ambiente de psicoterapia existem, pelo menos duas figuras, e uma delas é o terapeuta. Este possui responsabilidades, mas como visto em trabalhos anteriores, também possui sua própria visão de mundo (Werneck Filho, 2009). Deleuze-Guattari propõem um cuidado com a prática além da verbalização, além da simples teorização. Não é fácil considerar a multiplicidade, mas é imperativo que assim aconteça, pois... “não basta dizer Viva o múltiplo (...), é preciso fazer o múltiplo” (ibidem, p. 14).

            A partir desse pensamento, pode-se erigir uma reflexão sobre a teoria e a prática, no que diz respeito à formação do profissional clínico. Uma ideia que consideramos fundamental diz que a atuação do clínico não depende apenas de sua formação acadêmica, mas também de sua formação humana (Werneck Filho, 2009). Chamamos atenção para as influências que o ambiente original do profissional (sua família e outras redes sociais e afetivas) possui sobre o tipo de trabalho que ele vá desenvolver. Pensamos que não adianta um estudante ser especialista em multiplicidade e coisa que o valha, se ele não tem, em sua vivência pessoal, registros de como possa acontecer e ser funcional tal multiplicidade. Vale ressaltar que não defendemos aqui o empirismo puro e simples, mas apenas achamos importante discutir se a formação profissional de qualquer pessoa tem início com sua formação acadêmica. Se a visão de mundo é uma característica inerente ao ser humano, tendo consequências em sua forma de se relacionar e fazer escolhas, então parece razoável pensar que seja anterior às escolhas profissionais, e talvez, até, um fator para tais escolhas.

            Assim sendo, para que um profissional trabalhe em consonância com a ideia de multiplicidade, deve ser uma pessoa que tenha vivido com possibilidades para deslizar por esse caminho. A palavra deslizar não deve ser tomada como mero recurso de estilo. Propomos que por um caminho múltiplo, não se possa caminhar, pé ante pé; o movimento ocorre com o deslizar. É como se todo o corpo entrasse em contato com o chão e com o ar, com tudo que compõe o caminho, dando ao solo não mais a condição de apoio único, mas de unidade densa tridimensional, que abrace o caminhante, o deslizante, junto com o ar em volta. Desse modo, o profissional terá contato com todas as forças, todas as intensidades concomitantes que compõem a complexa relação do sujeito com o espaço. A diferenciação dessa relação torna-se cada vez mais difícil e menos importante, o que leva a uma vivência complexa, pois o sujeito se encontra no objeto e não mais diante do objeto. Se a existência do sujeito afeta a existência do objeto, para cada sujeito existirá um objeto diferente, e essa ideia pode desmistificar a importância cruel e covarde que algumas pessoas dão ao que é diferente. O diferente deixa de ser ameaçador quando é parte de nós mesmos. O filho sem nariz da mulher ao lado é muito mais bizarro do que o meu filho sem boca.

            Quando se leva em consideração a conexão multidimensional com o mundo, com tudo o que esteja presente, pode-se dizer que nos aproximamos da vivência múltipla. Se essa conexão se fizer de forma autêntica e não acadêmica, serão observados grandes avanços na clínica. Não buscamos mais uma forma de trabalhar para que o paciente possa passar a ser de um jeito que nós ou família queremos. O trabalho visa à construção de possibilidades para que o paciente tenha potencializada a sua capacidade de ser quem ele realmente é. Acreditamos, com licença para nossas próprias premissas, que o maior desafio é ser quem realmente se é, como disse Kierkegaard. A conexão/conectividade multidimensional ou heterogênea é defendida por Deleuze-Guattari:

 

...Qualquer ponto de um rizoma pode ser conectado a qualquer outro e deve sê-lo. É muito diferente da árvore ou da raiz que se fixam num ponto, uma ordem. A árvore linguística à maneira de Chomsky começa ainda num ponto S e procede por dicotomia. Num rizoma, ao contrário, cada traço não remete necessariamente a um traço linguístico: cadeias semióticas de toda natureza são aí conectadas a modos de codificação muito diversos, cadeias biológicas, políticas, econômicas etc.... (ibidem; p. 15).

 

            Uma forma contundente de experimentação dessa multiplicidade se dá na convivência natural e desinteressada com o outro. No trabalho em saúde mental enfrentamos inúmeras situações onde o mais importante seria não dar importância a uma característica de determinada pessoa. É comum que pessoas bem intencionadas, mas pouco informadas pensem que estejam ajudando quando, na verdade, atrapalham o processo terapêutico do paciente. O que ocorre costumeiramente é a generalização das limitações. Quando um indivíduo com retardo mental apresenta um contexto familiar onde os limites não são esclarecidos, por exemplo, toda uma gama de problemas cresce em torno de uma limitação cognitiva generalizada para o meio social etc.

            O raciocínio natural dos familiares diz que “se ele não pode somar dois mais dois ele precisa ser protegido, pois é mais fraco que os outros”. Esta forma de pensar e de proceder traz inúmeros problemas que a pessoa não teria, caso fosse exigida dentro de suas possibilidades.

            Chamamos de convivência desinteressada aquela que não caracteriza o outro pelas suas limitações. A grande possibilidade da saúde mental está em construir uma relação com os loucos, com os deficientes, com os loiros, com os vascaínos, sem que eles sejam considerados menos gente por cada uma de tais características. O desinteresse pelas limitações termina por se transformar em interesse pelas potencialidades, pelo que pode ser produzido e não pelo que não pode.

            O pensamento que considera a multiplicidade é fugidio, escapa às amarras do status quo, construindo algo produtivo fora do que se estabeleceu como desejável, saudável ou normal. Como propõem Deleuze-Guattari:

 

As multiplicidades se definem pelo fora: pela linha abstrata, linha de fuga ou de desterritorialização segundo a qual elas mudam de natureza ao se conectarem à qual elas mudam de natureza ao se conectarem  como desejlidades, pelo que pode ser produzido e nerdade, atrapalham o prs outras. O plano de consistência (grade) é o fora de todas as multiplicidades. A linha de fuga marca, ao mesmo tempo, a realidade de um número de dimensões finitas que a multiplicidade preenche efetivamente... (ibidem; p.17).

 

            Segundo os autores, a concepção norteada pelo Rizoma carrega algumas características que a nosso ver podem ser bem aproveitadas na clínica. Além do que já foi exposto sobre a multiplicidade, que leva ao modo de ver o homem de uma forma que considere toda sua complexidade, temos a ideia de ruptura. Para Deleuze-Guattari, a ruptura é um princípio dessa forma de ver o mundo; para nós, a ruptura pode e deve figurar como uma atitude.

            Mesmo que já esteja subentendida, achamos pertinente um breve comentário sobre essa noção. Para os autores em questão, quando o rizoma entra em cena, rompe-se essencialmente com a significação. Devemos observar o caráter libertário de tal proposta, posto que um fato será conhecido muito mais por si mesmo do que por uma ou duas de suas causas. Uma consequência imediata deste princípio para a prática clínica é a crítica à interpretação, tendência tão comum entre profissionais de saúde mental. Segundo os autores, temos o “princípio de ruptura a-significante”, exposto nas palavras a seguir:

 

...contra os cortes demasiado significantes que separam as estruturas, ou que atravessam uma estrutura. Um rizoma pode ser rompido, quebrado em um lugar qualquer, e também retoma segundo uma ou outra de suas linhas e segundo outras linhas. (...) Todo rizoma compreende linhas de segmentaridade segundo as quais ele é estratificado, territorializado, organizado, significado, atribuído etc.; mas compreende também linhas de desterritorialização pelas quais ele foge sem parar. Há ruptura no rizoma cada vez que linhas segmentares explodem numa linha de fuga, mas a linha de fuga faz parte do rizoma. Estas linhas não param de se render umas às outras. É por isto que não se pode contar com um dualismo ou uma dicotomia, nem mesmo sob a forma rudimentar do bom e do mau. (ibidem; p. 18.).

 

            No mínimo, podemos encontrar nessas palavras uma crítica forte a qualquer rigidez de conhecimento, de raciocínio cartesiano. Indo mais além, pode-se refletir sobre a crítica ao significante, que traz em si mesma, uma crítica à interpretação. Neste ponto, é possível recorrer a um aprofundamento com base em outra proposta destes dois autores: o Corpo sem Órgãos.

 

O Corpo sem Órgãos: máquina de guerra contra o organismo

Um dos conceitos mais contundentes, e por isso mesmo controversos, da obra desses autores é o que foi por eles chamado de Corpo Sem Órgãos (CsO). Aparece junto a um pensamento modificador, totalmente influenciado por ideias contrárias ao que se poderia encontrar como sistema vigente dentro da Filosofia e da própria Psicologia. A crítica à Psicanálise foi uma temática importante, talvez a mola mestra da construção de uma ideia de CsO.

            É risco ate mesmo adotarmos como um conceito, posto que até a validade conceitual seja posta em cheque por Deleuze-Guattari. O Corpo sem Órgãos é simplesmente difícil de definir. Nas palavras dos autores:

 

... é um exercício, uma experimentação inevitável, já feita no momento em que você a empreende, não ainda efetuada se você não a começou. Não é tranquilizador, porque você pode falhar. Ou às vezes pode ser aterrorizante, conduzi-lo à morte. Ele é não-desejo, mas também desejo. Não é uma noção, um conceito, mas antes uma prática, um conjunto de práticas. (1980/1996; vol. 3, p. 09).

 

            Torna-se mais produtivo do que explicar o conceito, principalmente quando não é um conceito, encontrar uma forma tão eficaz quanto possível para a compreensão dos reflexos práticos que tais ideias possam apresentar. A concepção se inicia com a chamada guerra aos órgãos. Mais adiante, entretanto, observa-se que a guerra não é aos órgãos em si, mas ao organismo. Segundo Artaud (in Deleuze-Guattari, 1980/1996), o corpo não precisa do organismo. Uma separação é feita de forma inequívoca; o organismo representa o inimigo do CsO, não os órgãos. Mas o organismo é a organização que se faz a partir dos órgãos. O CsO se opõe ao organismo porque tem outros órgãos, outra organização, uma organização verdadeira, que não carece de exterioridades definidoras. Podemos observar, já de início, a importância da ideia de imanência, contra interpretações, representações etc.

            Na Psicologia, o estudo do CsO serve, entre outras coisas, para novos projetos, novos agenciamentos a partir do material que se nos apresente, seja ele qual for. O importante é que não seja construído um corpo teórico que determine irrevogavelmente a prática, ou um projeto terapêutico que seja sempre o mesmo porque o diagnóstico é o mesmo. A diferença sempre existe, sempre deve ser considerada. Uma das formas eficazes de se considerar a diferença é a experimentação, não a interpretação. A interpretação acontece de forma religiosa e dominadora, não constrói com, constrói para ou por.

            Como não poderia deixar de ser, a construção pela diferença termina por atacar veementemente qualquer forma de classificação, representação e interpretação. Enquanto na Psicanálise acontece a tentativa de um reencontro com o eu, a diferença procura ir mais alem, além do ego, buscar o CsO. Para que isso aconteça, faz-se necessário substituir a interpretação pela experimentação (ibidem).

            A interpretação, segundo os autores, age contra o real, age para preservar a si mesma, na figura do fantasma. Interpretando, dá-se sentido a algo que não pode ter um sentido que seja dado. Com a interpretação, se desconsidera tudo relacionado ao CsO, às forças em relação constante em qualquer evento. Aos órgãos com sua imanência, com seu sentido imanente. Segundo os autores:

 

Um CsO é feito de tal maneira que ele só pode ser ocupado, povoado por intensidades, ele as produz e as distribui num spatium ele mesmo intensivo, não extenso. Ele não é espaço bem está no espaço, é matéria que ocupará o espaço em tal ou qual grau – grau que corresponde às intensidades produzidas (ibidem; p. 13).

 

            Reforçando a ideia da atuação religiosa da interpretação e, por conseguinte, da psicanálise, observamos o CsO como “Campo de Imanência do Desejo”. Está aí uma concepção básica sobre o CsO, demonstrada por sua relação de criação própria e de independência de instâncias superiores. O desejo é o que é por si mesmo, não está relacionado e nem representa alguma falta eventual no processamento psíquico do indivíduo.

            Os autores consideram que o desejo seja traído quando arrancado de seu campo de imanência. Nesse processo está presente a figura do psicanalista que é por Deleuze-Guattari comparada à figura de um padre. Consideramos esta analogia coerente, apesar de forte e pejorativa. Caso o advento da interpretação calcado nas representações seja visto como uma arma da negação do desejo como ele realmente é – simples e complicado desejo – teremos na figura do psicanalista, ou outro tipo de profissional qualquer, aquele que é responsável pela supressão do desejo como é, para que seja determinado por coisas exteriores a ele. A questão da imanência e de sua incompatibilidade com a transcendência psicanalítica aparece de forma explícita nos seguintes trechos da mesma obra:

 

A figura mais recente do padre é o psicanalista com seus três princípios: Prazer, Morte e Realidade. Sem dúvida, a psicanálise mostrou que o desejo não se submetia à procriação nem mesmo à genitalidade. Mas ela conserva o essencial, encontrando inclusive novos meios para inscrever no desejo a lei negativa da falta, a regra exterior do prazer, o ideal transcendente do fantasma. (p. 16).

 

            Para exemplificar e questionar a transcendência, é utilizado o exemplo do masoquismo, como a seguir:

 

Por exemplo, a interpretação do masoquismo: quando não é invocada a ridícula pulsão de morte, pretende-se que o masoquista, com todo mundo, busca o prazer, mas só pode aceder a ele por intermédio das dores e das humilhações fantasmáticas que teriam como função apaziguar ou conjurar uma angústia profunda. Isto não é exato; o sofrimento do masoquista é o preço que ele deve pagar, não para atingir o prazer, mas para desligar o pseudoliame do desejo com o prazer como medida extrínseca.  

           

            Para uma espécie de síntese dessa ideia, discute-se o próprio prazer, em sua conceituação e aplicação teórico-prática.

 

O prazer não é de forma alguma o que só poderia ser atingido pelo desvio do sofrimento, mas o que deve ser postergado ao máximo, porque seu advento interrompe o processo contínuo do desejo positivo. Acontece que existe uma alegria imanente ao desejo, como se ele se preenchesse de si mesmo e de suas contemplações, fato que não implica falta alguma, impossibilidade alguma, que não se equipara e que também não se mede pelo prazer, posto que é esta alegria que distribuirá as intensidades de prazer e impedirá que sejam penetradas de angústia, de vergonha, de culpa.

 

            Para que nos encontremos livres de tais idealizações, sempre nocivas pela transcendência, pode-se adotar no trabalho clínico a orientação do CsO, que está baseada na Filosofia da Diferença, proposta por estes mesmos autores. Contra a negação causada pelos moralismos incessantes, que tornam a ideia de organismo muito mais importante do que o corpo que experimenta. A favor da afirmação do que é sensível, experimentado e imanente, que está presente, grudado à vivência.

            O CsO pode ser chamado de clínica da imanência por considerar tudo o que realmente se apresenta, o desejo como imperativo e não representado, a ideia de corpo como mais importante do que a ideia de organismo. Estas concepções podem ter alguns reflexos importantes na prática clínica, como discutiremos em seguida.

 

Clínica da Imanência

Ao longo do nosso trabalho podemos perceber que é mais produtivo encontrar uma fórmula que privilegie a autonomia do desejo e não os eu controle. Ratamos o desejo como o imperativo norteador do ser humano, algo que não pode ser enclausurado em classificações e diagnósticos inconsistentes.

            Costuma-se dizer que é a Psicanálise que dá a importância devida ao desejo e às relações (Carvalho, 2004). Para nós, este é um pensamento segregacionista e que apenas sugere um acirramento das relações de competição entre os membros de diferentes abordagens dentro da psicologia clínica.

            Nosso objetivo é caminhar na direção da imanência no que se refere aos malefícios que a transcendência pode trazer. O melhor exemplo para a psicologia talvez seja mesmo este: quando os profissionais abandonam o objetivo essencial de seu trabalho, passam a se preocupar com nomenclaturas e classificações, para concorrer com outras nomenclaturas e classificações. O tratamento do paciente passa para um outro plano e as pessoas que praticam este tipo de clínica, praticam o que chamamos de clínica da transcendência. A clínica da imanência é a clínica que não se perde em demagogias religiosas e atuações que não visam primeiramente ao tratamento do indivíduo; ela se mantém firme e curiosa, humilde e confiante, assimilando as informações e utilizando o que vem da relação com o paciente.

            Defendemos, pois, como clínica verdadeira a clínica da imanência, seja ela moldada pelas ideias algo esquisitas de Deleuze-Guattari, ou norteada pelos princípios da Psicopatologia Fenomenológica de Minkowski, mas sempre atrelada ao fenômeno. Obviamente, não tratamos o fenômeno simplesmente como algo que acontece, mas como a relação entre aquilo que acontece e quem é afetado por tais acontecimentos.

            Não é simples promover uma aproximação entre as ideias de Deleuze-Guattari e Fenomenologia, posto que o próprio Guattari apresentasse severas críticas à Fenomenologia. Não obstante, achamos pertinente que um dos pontos de intersecção entre as duas formas seja valorizado.

            Na atuação clínica é que se pode observar como uma proposta norteada pela Fenomenologia pode se aproximar dos Planos de Imanência descritos aqui. Quando elaboramos uma estratégia terapêutica que coloque entre parêntesis as concepções teóricas do profissional, esperando que a relação terapeuta-paciente se estabeleça, atuamos de forma a não produzir realidades a partir de um vácuo subjetivo. A atitude fenomenológica se presta a um trabalho de criteriosa curiosidade sobre os agenciamentos desenvolvidos pelas máquinas desejantes e suprimidos pelos detentores do poder clínico, do Poder Psiquiátrico.  O desejo vai passar a ser escrito e vivido como protagonista e não como material utilizado para construções teóricas.

            É no terreno da psicose que a Fenomenologia encontra a proposta esquizoanalítica de Deleuze-Guattari. Em compensação, é nesse campo que a Psicanálise decreta o seu afastamento. Mais além da questão da construção apriorística do funcionamento interpretativo, está a questão de que a estranheza não cabe na normalidade e deve ser estudada para que se encontre uma representação que a torne digerível. Nas palavras de Deleuze:

 

O que a psicanálise compreendeu da psicose foi a linha “paranoia”, que leva ao Édipo, à castração..., etc., todos esses aparelhos repressivos injetados no inconsciente. Mas o fundo esquizofrênico do delírio, a linha “esquizofrenia”, que traça um desenho não familiar, escapa-lhe totalmente. Foucault dizia que a psicanálise ficou surda às vozes da desrazão. De fato, ela neurotiza tudo; e através dessa neurotização contribui não só para produzir o neurótico de cura interminável, mas também para reproduzir o psicótico como aquele que resiste à edipianização. Porém a psicanálise fracassa inteiramente na abordagem direta da esquizofrenia. Assim como lhe escapa a natureza inconsciente da sexualidade: por idealismo, por idealismo familiar e teatral (1990/2006. P. 28).

              

            Deleuze faz pairar no ar a ideia de que a psicanálise precisa de uma normatização da loucura. Ora, o que defendemos em nossa prática em nenhum momento se propõe como normatização ou classificação para menor desconforto de nossa parte. No caso da Fenomenologia a ideia de normal e patológico não é rechaçada, mas sim encarada de uma outra maneira. O louco causa estranheza, não há meios que nos façam negar isto. Entretanto, o que devemos fazer com nós mesmos a partir de tal estranheza? Como tratar um sujeito que simplesmente é assim? Jaspers ressalta, sobre o quadro esquizofreniforme:

 

...vai de alterações ligeiras para o lado de incompreensibilidade até quase completa desintegração (...). Todas essas personalidades têm algo de peculiarmente incompreensível, frio, inacessível, rígido, mesmo que se manifestem lúcidas e capazes de conversar, gostando até de exprimir-se. (...) Eles, no entanto, nada vêem de incompreensível no que se nos afigura enigmático. (...) A alteração mais leve da personalidade consiste, a bem dizer, no resfriamento e enrijecimento. Os pacientes ficam com a mobilidade diminuída, tornam-se estáticos, quase sem iniciativa. (2005; vol. I p. 533).

 

            O cerne de toda a clínica fenomenológica está em sua forma de encarar as possibilidades de autenticidade do paciente. Pode-se adotar um modelo plural, aberto aos modelos múltiplos, construídos pelo paciente, tal qual na formação do rizoma, antes descrito. O psicopatologista fenomenológico não abre mão de seus pressupostos construídos mediante um saber-dádiva característico da comunidade em que vivemos. Entretanto, a utilização que dele faz serve para compreender e não para explicar o que se passa com o outro.Quando compreendemos podemos respeitar as diferenças e crescer a partir delas, porque reconhecemos nossas limitações. Por outro lado, quando explicamos, criamos a verdade, criamos a subjetividade do outro, não encontramos nosso limite. Estamos, sim, terminando o serviço, um serviço de redes agenciadas que deveria ser respeitado por ser interminável, antes de interminável, melhor seria dizer, inesgotável: o serviço-programa de construção de si, por si mesmo. Nas palavras de Minkowski, sobre a afetividade do indivíduo esquizofrênico:

 

Nous caractérisons de cette manière sa façon d’être. (...) Quelque chose d’essentiel vient à manquer. Le schizophrène est “froid”et distant. Cette “distance” sera chez lui parfois hautaine. L’anesthésié affectif est un pauvre être, image d’impuissance et de misere morale; chez le schizophrène nous nous trouvons en prèsence de données d’un autre ordre. (1999. P. 354). [1]

 

            Podemos nos empenhar em descobrir o que pode significar a expressão dados de uma outra ordem para Minkowski, ou simplesmente deixar que os sentidos falem por si mesmos. Sempre nos encontramos perante dados de outras ordens. Entretanto, é mais fácil respeitarmos as diferenças como características de um ser humano de mesmo nível quando não se trata de um louco.

           

Conclusões

Defendemos as discussões sobre novas formas de lidar com as situações clínicas. Parece claro que as propostas de Deleuze-Guattari não são em absoluto novas No entanto, ainda é muito difícil encontrar um trabalho clínico que não seja moldado. Não importa que seja moldado pela psicanálise, pela fenomenologia, pela esquizoanálise. O que nos parece que mais faz falta no universo clínico é uma visão desprendida de ordenações mecanicistas e mecânicas; dualistas e ambíguas. Atualmente, observamos formas áridas de relação, todas com preocupações menos nobres do que ambiciosas.

            Quando Deleuze-Guattari falam em Rizoma, nos salta aos olhos um inconformismo com o modo aceito e estimulado de se relacionar com a clínica. A forma que nos desvia da complexidade humana é a forma que parece ser mais bem aceita pela “ciência” acadêmica e academicista. As produções devem privilegiar determinada forma de pensar, e dentro de determinada forma de pensar, deve-se pensar determinada coisa. Tudo muito bem determinado. Um caminho leva a um destino já traçado. As origens são muito bem estabelecidas e reconhecidas mediante suas extremidades. Isto porque uma origem pode produzir sempre várias extremidades, sim, mas sempre será uma origem fixa. Com o advento do Rizoma, a própria origem se transforma, e em hipótese alguma deixa de ter validade. Deixa de ser o que está planejado, deixa de dar possibilidade de planejamentos, ainda assim, e só por isso, é singularmente valiosa. 

            A proposta do CsO não é uma proposta que nos pareça infalível, nem mesmo de fácil acesso, mas traz articulações que consideramos necessárias. Embora acreditemos que a clínica deva ser exercida sem a nefasta interferência da política, mais precisamente da politicagem subreptícia, o olhar para o mecanismo de controle e as formas que o aparelho de estado utiliza para subjugar o desejo, mesmo quando o valoriza, é para nós, crucial.

            Talvez a psicanálise tenha servido para as maquinações da época em que surgiu; talvez tenha uma teoria servido ao protocolo do aparelho de estado sem que fosse essa a sua finalidade. Entretanto, a forma interpretativa de lidar com o mundo pode ser muitas vezes perniciosa. Criações que se recriam nas criaturas, com o objetivo maior de continuar a recriação constante. Assim nos parecem as formas interpretacionistas de lidar com a realidade, seja ela normal ou patológica.

            Com a imanência, pode-se vivenciar a experimentação para a qual foram erigidos os corpos. Nada a ser representado, nada a ser delimitado ou definido pelo que vem de fora. As coisas são o que são, pessoas são o que são, muito mais e muito menos do que está escrito em um determinado livro. Vamos nos utilizar das fábulas, dos mitos, para que em determinado momento façamos conexões às quais não nos permitiríamos normalmente. Não vamos, todavia, perguntar “como será o édipo de fulano?”, porque o fulano em questão é uma indeterminação, sabe-se apenas que ele existe, mas não se sabe que relações ele vai estabelecer e nem como ele vai fazer isso.

            Finalmente, um argumento que nos aproxima de forma inconteste do pensamento de Nietzsche. Propomos que seja rechaçada a religiosidade em sua pior forma: forma de sabedoria. Tudo o que se declara como saber é declaração também de poder. As formas pelas quais o pensamento religioso se propaga para produzir conhecimento científico são as mais vis. Sedução, incoerência, negação, moralismo às avessas.

            O pensamento e o funcionamento religiosos não produzem ciência, pois a fé não precisa da ciência. Produzem, sim, subjetividades. Estas subjetividades podem seguir dois caminhos: o caminho da religiosidade, que seria o seu curso natural e que se mostra saudável para a maioria das pessoas; ou o caminho do que podemos chamar de ateísmo religioso, onde a “ciência” é produzida a todo custo, a qualquer custo, para que sejam alcançados ideais muito menos nobres.

            O segundo caminho aqui descrito é o caminho pernicioso de que falamos e do qual se deve escapar. As subjetividades aqui produzidas circulam sem rotas de fuga, sem força centrífuga, entrelaçadas num jogo de poder e cobiça por mais poder. Assim, não sendo uma coisa nem outra, acabam por vencer a ciência e a religião, que em si mesmas, podem ser vistas como dois lados, talvez saudáveis, da mesma moeda.

             Ocorre uma deturpação do objetivo da religiosidade. Observamos afiliações teóricas como afiliações religiosas. As construções do saber se intitulam suficientes e não querem concorrência, querem sim, discípulos. Aqueles que não se deixarem subjugar terão que manter a máquina pronta para a guerra. Propomos que o saber deva fugir aos mecanismos de controle do que Deleuze-Guattari chamam de aparelho de estado.

            Fugindo a esse controle absolutista, estão os pensamentos mais fora de esquadro de nossa época. Nossa contribuição está em fazer fervilhar as discussões e a indignação – afeto autêntico – para que sejam observadas sempre as premissas do trabalho clínico, assim como de qualquer outro trabalho. Quando se realiza um trabalho que não seja moldado, mas construído, escapa-se a essas formas de controle totalizadoras. A Fenomenologia como atitude e método para qualquer psicoterapia é uma linha de fuga; a observação e o deslizar pelo corpo sem órgãos em constante mutação é uma outra. Construções constantes e incansáveis. O que mais importa é que não procuremos fora o que nos é imanente, escapando à mania de representação e interpretação.

 

 

 

 

Referências Bibliográficas

Deleuze, G. e Guattari, F. (1980/2006) Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia (vols. 1 e 3). São Paulo: Editora 34.

Deleuze, G. (1990/2006). Conversações. São Paulo: Editora 34.

Deleuze, G. (1993/2004). Crítica e Clínica. São Paulo: Editora 34.

Guattari, F. (1992/2000). Caosmose: um novo paradigma estético. São Paulo:Editora 34

Minkowski, E. (1927/2000). La Esquizofrenia: psicopatolgía de los esquizóides y de los esquizofrénicos. México, D.F.: Fondo de Cultura Económica.

____________(1999) Traité de psychopathologie. Le Plessis-Robinson. Institut Synthélabo.

 



[1] Nós caracterizamos dessa forma sua maneira de ser. (...) Qualquer coisa de essencial fica faltando. O esquizofrênico é frio e distante. Essa “distância” será nele por vezes, arrogante, altiva. O anestesiado afetivo é um pobre ser, imagem de impotência e de miséria moral; no esquizofrênico nos encontramos em presença de dados de uma outra ordem. (tradução livre do autor).


TOP