Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Março de 2010 - Vol.15 - Nº 3

Psicologia Clínica

CONTRIBUIÇÃO DOS PROCESSOS REFLEXIVOS PARA A TERAPIA COGNITIVA

Braz Werneck
Mestre em Psicologia (UFRJ)
Terapeuta Cognitivo-Comportamental
Acompanhante Terapêutico

Resumo

O objetivo deste trabalho é propor uma aproximação entre os Processos Reflexivos de Andersen e a terapia Cognitiva, passando por comentários de apoio para tal aproximação baseados na Psicopatologia Fenomenológica. A ideia de que esta combinação seja possível está embasada nos pressupostos dessas teorias, principalmente no que diz respeito à interpretação de acontecimentos e construção de realidades pelos indivíduos. A ideia de que cada um constrói a sua própria realidade perpassa as abordagens teóricas aqui visitadas. Esse trabalho pretende contribuir com uma ampliação paradigmática e uma melhor compreensão dos pressupostos da Terapia Cognitiva. Para tanto, objetivou-se procurar semelhanças funcionais entre abordagens teóricas diferentes. Assim, espera-se que o valor maior seja realmente a Psicologia Clínica e não as rivalidades entre teorias.

 

Descritores: processos reflexivos, terapia cognitiva, fenomenologia

 

Contribution of the Reflexive Processes for the Cognitive Therapy

 

Abstract

The aim of this article is to propose an approximation between Andersen’s Reflexive Processes and Cognitive therapy, passing by comments of support for such an approximation based on the Phenomenological Psychopathology. This is based on presuppositions of these theories, principally what concerns the interpretation of events and construction of reality for the individuals. The idea of which each one builds his reality itself goes by the theoretical approaches here visited. This work intends to contribute with a theoretical enlargement and a better understanding of Cognitive Therapy. For this, functional similarities aimed to look between theoretical different approaches. So, it is waited that the biggest value is really the Clinical Psychology and not the rivalries between theories.

 

Keywords: reflexive processes, cognitive therapy, phenomenology

 

Introdução

 

Vivemos atualmente uma incansável busca e/ou uma inequívoca descoberta constante de novos paradigmas. No caso da psicoterapia não é diferente. O trabalho psicoterapêutico sofre interferências diretas das manifestações e determinações culturais do seu tempo. Não é razoável pensar que um atendimento a um paciente será estanque, desconectado do ambiente cultural. Assumamos, pois, que a busca por ou o encontro com novos paradigmas é um acontecimento que alcança o cerne do trabalho clínico em psicoterapia.

            Como terapeuta cognitivo, venho observando, em consonância com as ideias de Safran (2002), a grande funcionalidade de uma ampliação dos limites desta abordagem, principalmente no que se refere ao processo diagnóstico (Werneck Filho, 2009).

            No estudo da Psicopatologia Fenomenológica, na construção de um repertório de ideias relacionadas a novas posturas do terapeuta frente ao seu paciente e ao seu próprio trabalho (Bastos, 2000) tenho encontrado um referencial teórico de outra ordem. Um arcabouço mais compatível com a subjetividade do que com a estatística; mais atrelado aos afetos de ambas as partes (terapeuta e paciente) do que à inútil e inexistente neutralidade científica.

            O caminho percorrido tem sido de surpresas, perplexidade e algumas, muito poucas, decepções. O contato com as ideias de Tom Andersen e de outros profissionais que inclinam sua atenção e atuação sobre o estudo dos chamados Processos Reflexivos constitui-se em mais um fator de surpresa. Pretendo, com este trabalho, divulgar esta surpresa e transformá-la em mais um elemento para a construção de um novo paradigma na Terapia Cognitiva.

 

Abertura da Terapia Cognitiva a novos paradigmas

 

A Terapia Cognitiva (TC) vem tendo a sua eficácia cada vez mais reconhecida com o passar do tempo. A base para os procedimentos clínicos desta abordagem é a realidade objetiva, em sua proposta de auxiliar o indivíduo a observar a influência de seus processos cognitivos em sua forma de ser e de agir. A Terapia Cognitiva ainda se propõe um trabalho para que estes sujeitos possam avaliar seus pensamentos de maneira clara e realista, concluindo, então sobre as mudanças eventualmente necessárias. Uma pessoa que acredita ser basicamente incompetente, por exemplo, é questionada sobre as características necessárias para que alguém seja considerado competente (Werneck Filho e Malagris, 2007).

            Segundo Abreu e Roso (2003) a pessoa que passa por esse tipo de processo terapêutico é estimulada e orientada para “analisar suas competências e seus sucessos de acordo com seus próprios padrões”. Esta ilustração serve para um dos pressupostos da TC: o de que os eventos, por si mesmos, não são bons ou ruins, mas causam problemas a partir da interpretação que lhes é conferida pelo individuo (Dobson, 2006).

            A TC trabalha com a possibilidade de que os esquemas de pensamento de cada um sejam reconhecidos, avaliados e manejados, a fim de modificações futuras, que trariam mudanças no comportamento e na qualidade de vida. Os padrões de pensamentos distorcidos que o indivíduo costuma apresentar reiteradamente, principalmente em situações geradoras de ansiedade, são denominados Distorções Cognitivas (Beck, J. 1997). Este termo serve para identificar padrões recorrentes e rígidos de pensamentos disfuncionais, que, na prática, reforçam os problemas que o indivíduo experimenta, sobretudo, no meio social.

            Os estudos de Judith Beck são importantíssimos nesta área, trazendo para a Psicologia Clínica a ratificação de uma abordagem racionalista e, ao mesmo tempo, preocupada com a individualidade, quando procura estudar e trabalhar com as diferenças individuais de pensamentos e emoções. As ideias de Judith Beck, que continuou o trabalho de Aaron Beck servem de ponto de partida para Werneck Filho e Malagris, como no trecho abaixo:

 

A Terapia Cognitiva introduziu no contexto das psicoterapias, termos como crenças, pensamentos automáticos, entre outros. Baseia-se no modelo cognitivo, proposto por Beck, que reza uma relação de contingência entre as situações que ocorrem, os pensamentos e emoções produzidos pelo indivíduo; e os comportamentos emitidos. Para a Terapia Cognitiva, modificando-se algum desses termos, provavelmente haverá alguma modificação nos outros. (p. 56)

           

 

            Na concepção cognitivo-comportamental, os eventos ativariam as crenças centrais que a pessoa possui. Essas crenças, por sua vez, ativariam o modo como a situação é percebida e interpretada, podendo a reação emocional ser uma consequência direta deste processo, que apresenta, em seu final um comportamento coerente com o modelo (Abreu & Roso, 2003).

            A constituição do que Beck chamou de Modelo Cognitivo é de vital importância para o estudo da TCC. Nesse modelo estão presentes quatro elementos: situação, pensamento, emoção/sentimento e comportamento. (Werneck Filho e Malagris, 2007).

            O espaço para a mudança de paradigmas na Terapia Cognitiva está na forma de se compreender ou na atenção concedida aos afetos, aos sentimentos do paciente. Um campo para novos pensamentos é apresentado por Safran (2002), citado por Werneck Filho e Malagris (2007):

 

 

A proposição do modelo cognitivo confere à emoção um status de fenômeno pós-cognitivo, ou seja, uma conseqüência do pensamento. Supunha-se até a década de 80 que emoções indesejáveis eram conseqüência de pensamentos imperfeitos, ou distorcidos e que o foco da intervenção deveria ser a redução de tais emoções mediante a modificação de processamentos que fossem sua causa. (P. 58).

 

            A abertura da TC a novos paradigmas em suas concepções epistemológicas não deve ser um processo simples. Deve ser tão complexo quanto a força dos paradigmas estabelecidos anteriormente. Uma demonstração de que a mudança paradigmática em TC pode ser deduzida a partir dos estudos de Beck (2000) que ressalta o caráter integrador da Terapia Cognitiva. Apesar de apresentar um painel de ideias questionadoras e funcionais, pode-se perceber no texto abaixo a manutenção de uma atitude clássica quanto aos processos de aprendizagem que necessariamente norteiam o caminhar terapêutico em Terapia Cognitiva. Nas palavras de Beck:

 

A terapia cognitiva de problemas de casais, por exemplo, utiliza muitas técnicas da terapia conjugal padrão (Beck, 1988b), e a terapia cognitiva com crianças incorpora técnicas como a terapia recreativa (Knell, 1990). No tratamento de transtornos da personalidade, os terapeutas cognitivos podem produzir experiências afetivas, reativar memórias primitivas, e representar episódios passados cruciais. (...) O formato de questionamento foi derivado originalmente da anamnese associativa de Felix Deutsch, da terapia não diretiva de Carl Rogers e do questionamento socrático de Albert Ellis. As estratégias de encenação emotivas foram influenciadas pelo psicodrama e pela terapia de Gestalt. (2000; p. 86)

 

            Pode-se dizer que tais ideias não configuram uma mudança real de paradigmas, posto que os princípios da aprendizagem e do manejo consciente dos pensamentos se mantêm, mesmo com as palavras acima citadas. No entanto, proponho considerar que a postura do autor, ao sublinhar a importância de outras correntes de pensamento para a construção de sua prática clínica. Considero este um passo sobremaneira importante para qualquer modificação que venha a ocorrer nos alicerces teóricos da TC.

 

O caminho para novos paradigmas: terapia cognitiva e terapia construtivista

 

Segundo Silva (in Abreu & Roso) a relação entre pensamento e comportamento encontrada e proposta como cerne da terapia cognitiva tradicional começou a ser investigada. O modelo causa-efeito vinha sendo observado, até que se construísse a hipótese de caminhar em sentido oposto. Nas palavras de Silva:

 

A terapia cognitiva inicial reconhecia a influência do pensamento sobre a emoção, mas ainda não compreendia que as emoções também podiam influenciar os pensamentos. Uma série de estudos mais recentes tem demonstrado que o estado de humor pode influenciar significativamente os processos cognitivos envolvidos na interpretação e na avaliação da experiência (Teasdale, 1997). (Abreu e Roso, 2003; p. 25).

 

 

            Considero que essa ideia construiu um terreno fértil para novas concepções, principalmente porque não desvalorizava as concepções tradicionais, mas se constituía em uma espécie de adendo.

            A partir de um outro olhar para as emoções e seu papel na dinâmica comportamental e cognitiva do indivíduo, foi possível estabelecer novas conexões epistemológicas, crescendo na terapia cognitiva a aceitação da construção de significados; com o avanço das pesquisas, chegou-se ao estudo da construção social de significado. Nessa concepção, o enfoque central de que não há sentido em se pensar sobre a existência do ser humano sem que se considere o seu ambiente de inserção. Sugere-se uma interação onde a sociedade é construída, mas também constrói o indivíduo (Silva, 2003).

            Abreu e Roso começam a trabalhar o termo cognitivo-construtivismo, considerando alguma complementaridade, semelhanças e diferenças importantes. As ideias de Damásio se configuram ponto central para a articulação de uma maior importância a ser dada às emoções. Damásio começa a influenciar de maneira inequívoca os estudos cognitivo-construtivistas. Nas palavras de Abreu e Roso:

 

De modo geral, a concepção cognitiva construtivista considera as estruturas emocionais um dos alicerces para que a edificação do conhecimento humano possa acontecer. Segundo vários autores, a emoção, em maior ou menor grau, sempre contribuirá para a formação dos significados no sistema psicológico humano. Nesse sentido, seria virtualmente impossível considerar as estruturas cognitivas de significado sem que se agregue, de uma maneira ou de outra, o funcionamento emocional. (2003; p. 39). 

 

            As principais diferenças entre as terapias cognitivas e construtivistas estão no binômio pensamento-emoção. As implicações práticas dessas diferenças são deveras interessantes, posto que elas sejam observadas na atuação do terapeuta e no processo como um todo. De acordo com Abreu e Roso:

 

Diferente das abordagens objetivistas, o construtivismo não se baseia em um processo de correção e de busca dos conteúdos ilógicos ou disfuncionais na vida subjetiva do paciente, e sim da análise, facilitação e ampliação dos significados restritivos aos quais ele se percebe atrelado. (2003; p. 43).

 

            Tendo em vista a nossa discussão sobre novos paradigmas em Terapia Cognitiva, considero importantes as concepções acima descritas para que se torne possível compreender minhas proposições de ampliações realmente contundentes no embasamento desta abordagem.

            O processo de construção ou descoberta das ampliações ora propostas é por mim encarado como um processo com contribuições e influências de várias concepções teóricas. A proposta central é mesmo a de pluralização das influências epistemológicas da Terapia Cognitiva; sendo que as mais coerentes influências me parecem mesmo a dos Processos Reflexivos de Andersen e da Psicopatologia Fenomenológica, que tem Minkowski como um de seus ícones principais.

            A Psicopatologia Fenomenológica figura como o braço metodológico de minha proposta para a Terapia Cognitiva. Já foi por mim analisada e defendida como importante no processo terapêutico (Werneck Filho, 2009), porém considero necessária uma nova visita. A ideia é poder construir real ampliação paradigmática da Terapia Cognitiva trazendo à luz a influência e a eficácia desses dois campos do saber observadas em minha prática clínica.

 

Psicopatologia Fenomenológica revisitada

 

Por já ser um termo por mim explorado em outros textos, não considero necessária uma extensa explicação sobre a Psicopatologia Fenomenológica. Entretanto, principalmente no que se refere ao contexto clínico prático, a adoção de uma atitude fenomenológica em qualquer tipo de atendimento clínico (Werneck Filho, 2009) como fonte de ampliação para a Terapia Cognitiva deve ser sublinhada justamente para investigar se o segundo fator de ampliação (Processos Reflexivos) pode ser combinado ao primeiro, proposto em estudo anterior (Psicopatologia Fenomenológica).

            Como ponto de partida nesta complexa caminhada podemos defender a consideração da complexidade humana baseada na complexidade do nosso próprio desenvolvimento cerebral. A noção de Bastos sobre este assunto nos oferece uma boa fonte de associação com o assunto aqui abordado. Em suas palavras sobre o caráter paradoxal do desenvolvimento humano:

 

Tal disposição implica uma relativa redução dos padrões automáticos de comportamento e no favorecimento de áreas ‘livres’ para conexões múltiplas e variáveis e a criação de possibilidades infinitas, apesar de limitadas. Assim pudemos criar a linguagem, o pensamento, a sociedade e a cultura. Em compensação, perdemos a inocência, a determinação, a segurança. (p. 1).

 

Este pensamento pode ser considerado um esboço de tradução para o termo subjetividade. O caráter livre e, por isso, paradoxal fica evidenciado nessas palavras.

Além disso, quando nos aproximamos da Terapia Cognitiva em seus pressupostos quanto à avaliação e ao diagnóstico, nos deparamos com uma tendência à utilização dos manuais estatísticos da Psiquiatria. Considero tal apego, se assim se pode chamar, um erro clínico, que pode ser evitado com a atitude fenomenológica em qualquer tipo de avaliação clínica, como no trecho que se segue:

 

 

Para que o trabalho clínico seja produtivo, a visão adotada não deve ser a de uma psicopatologia simplesmente estatística, sustentada pela consulta aos manuais diagnósticos. A crítica que se faz aqui não é quanto à importância desses manuais, que são contundentes objetos de pesquisa, mas à utilização que deles se faz em grande parte dos casos. Como o próprio nome já diz, o DSM IV, uma das principais referências diagnósticas da atualidade, é um manual diagnóstico estatístico, ou seja, não deve ser única fonte de pesquisa para a construção de um diagnóstico clínico (Werneck Filho, 2009; p. 05).

 

            A Psicopatologia Fenomenológica considera o ser humano como um ser em relação. Tal proposta é compatível com as teorias da complexidade e com os próprios processos reflexivos, como veremos adiante. Observar e intuir a respeito das relações que o indivíduo estabelece; observar e compreender como ele estabelece as suas relações são processos complexos, porém gratificantes na prática clínica. Temos aqui a real expressão de uma Psicopatologia muito mais compreensiva do que explicativa, segundo a noção proposta por Minkowski, como ressalta Werneck Filho:

 

Na abordagem psicopatológica, a atitude deve ser compreensiva, não explicativa. Esta forma de proceder se inspira na caracterização que Minkowski, citado por Bastos (2000), faz da psicopatologia. Essa caracterização trata a psicopatologia como psicologia do patológico, não como patologia do psicológico. Enquanto a patologia do psicológico induz a pensar que o transtorno seja passível de tratamento e cura, posto que o paciente esteja com uma patologia de sua parte psicológica, a psicologia do patológico assume que o paciente é doente e adota uma postura não preconceituosa, com o objetivo de entender como funciona a mente de um louco; como funciona a psicologia do patológico. (...) A atitude compreensiva em psicopatologia serve de base para a construção da psicopatologia fenomenológica, combinando a necessidade do estudo de psicopatologia com a aplicabilidade do método fenomenológico. (2009; p. 06).

 

            A partir de minha prática clínica, tenho observado que a adoção de uma visão complexa, que considere os processos subjetivos de avaliação, ainda que preocupada com uma avaliação objetiva, tende a ser bastante eficaz, conforme a competência do terapeuta. É necessário um preparo refinado e uma maturidade pessoal comprometida com a clínica, para se levar adiante uma atitude fenomenológica, que se mostra muito útil para qualquer abordagem.

 

Os Processos Reflexivos e seus pontos de tangência com a Terapia Cognitiva

 

As ideias sobre a adoção de processos reflexivos surgiram na terapia de família conduzida por Tom Andersen. Depois de um longo tempo de germinação, segundo o próprio Andersen “a própria ideia forçou seu nascimento” (1991; p. 33). Após várias situações de hipóteses e incômodos pessoais dos terapeutas com o processo paralisado, aconteceu de em determinado momento, a equipe observadora da sessão terapêutica propor um momento de interação com a família, no mesmo ambiente.

            A partir desse momento divisor de águas, a terapia familiar conduzida por Andersen e seus discípulos vem delineando novas formas de tratamento e de concepção epistemológica da Terapia Sistêmica, agregando, inclusive, o estudo da cibernética como fonte de analogias epistemológicas (Rapizo, 2002).

            A abrangência dos estudos acerca dos processos reflexivos pode ser verificada nas ramificações pedagógicas ressaltadas por Schön (1988), num experimento que passou a criticar a relação de poder/saber entre professor e aluno:

 

Um dia mostraram aos professores um vídeo sobre dois rapazes separados um do outro por uma tela opaca. Cada um dos rapazes tinha diante de si um conjunto de sólidos geométricos de diferentes tamanhos, formas e cores. Em frente de um dos rapazes estava um modelo fixo: defronte do outro, encontrava-se uma miscelânea de sólidos geométricos, que o segundo rapaz teria de transformar no modelo fixo seguindo as instruções do primeiro. À medida que os professores viam o filme, observavam que, embora as instruções do primeiro rapaz parecessem bem formuladas, o segundo estava cada vez mais confuso. Os professores diziam coisas como: O segundo rapaz parecia ser um aluno de aprendizagem lenta, não consegue estar atento durante muito tempo, não consegue seguir as instruções. Neste momento, uma das investigadoras salientou: Parece-me que o primeiro rapaz deu uma instrução errada, pois disse “põe o quadrado verde”, mas não existem quadrados verdes, só há quadrados laranja e as únicas coisas verdes são os triângulos.Uma das vantagens do vídeo é que pode ser revisto, e por isso os professores puderam voltar atrás e observar o filme uma vez mais. Com efeito, concluíram que as instruções do primeiro rapaz se referiam a um quadrado verde quando não havia quadrado dessa cor. À medida que continuavam a observar o filme, ficaram surpreendidos ao notar que, de fato, o segundo rapaz era exímio no cumprimento das instruções, encontrando sentidos em indicações sem nexo. Foi então que um dos professores notou algo de surpreendente: Aquilo que acabávamos de fazer, foi dar razão ao aluno. Essa expressão – dar razão ao aluno – inspirou os professores durante os restantes dois anos do seminário.

 

            Este evento pode ser considerado de suma importância para as ideias de que falamos aqui. É o exemplo claro de uma mudança paradigmática prática.

            O autor acima citado fala na formação de professores como profissionais reflexivos. A reflexão sugerida por Andersen aparece como “algo ouvido que é internalizado e pensado antes de uma resposta a ser dada” (1991; p. 35).

            Na situação descrita acima, podemos encontrar dados para reflexões políticas, clínicas, filosóficas etc. Entretanto, penso ser importante sublinhar pelo menos uma dentre tantas analogias possíveis a partir do texto de Schön.

            Como pano de fundo, podemos estabelecer uma discussão sobre o que uma postura reflexiva pode provocar nas relações tradicionais de poder. Digo tradicionais, porque não venho defender a erosão das relações de poder no cotidiano. Todavia, penso que devam ser criticadas todas. Dentro de um modelo tradicional o que significaria a atuação de um professor que reconstruísse a sua forma de ensinar baseado na contribuição de um aluno? Como isto seria possível se o aluno só tivesse a aprender? A analogia que proponho, ou à qual me rendo sem lutar, traz o exercício de colocar os nossos pacientes no lugar de alunos. Que repercussões haverá quando nos dispusermos a rever toda a metodologia à qual fomos apresentados e pela qual fomos seduzidos, porque ela não está adequada a um paciente? Como ficará o meio acadêmico? Como será a explanação nos cursos de formação e especialização? Poderemos dizer que nós, terapeutas cognitivos, nos beneficiaremos utilizando técnicas psicanalíticas, quando isso se adequar melhor a determinado paciente?

            Nas propostas de Andersen sobre os processos reflexivos encontramos uma exploração que considera a existência do ‘dado’ e das versões. Em minha livre interpretação me atrevo a comparar o ‘dado’ àquilo que acontece, ou seja, as situações que estudamos na terapia cognitiva e suscitam os pensamentos, as emoções e os comportamentos. A partir daí, meu receio de incorrer no erro já perdeu sua força e comparo as versões às interpretações que todos fazemos dos acontecimentos. Segundo o mesmo Andersen “uma pessoa cria uma compreensão do que é o dado, que é apenas uma de suas muitas possíveis versões” (1991; p. 97).

            Ainda que seja discutível o pensamento de que alguém crie as suas compreensões, a partir da citação acima, o Modelo Cognitivo de Beck se encontra e congrega com os Processos Reflexivos de Andersen em primeira instância.

            Este ponto de convergência se expressa em várias situações da prática clínica. É muito importante que o terapeuta cognitivo tenha noção de que está lidando não com os fatos que seus pacientes narram, mas com a narração de alguma coisa. Se considerarmos a interpretação que o paciente faz do que lhe acontece como um dos cernes do trabalho terapêutico em Terapia Cognitiva, fatalmente concordaremos com as palavras do próprio Andersen, expostas a seguir:

 

Todas as perguntas baseiam-se na ideia crucial de que as pessoas não se referem ao assunto problemático que está ‘lá fora’, mas à sua compreensão dele. Uma consequência dessa máxima crucial é não podermos nem descrever nem explicar o assunto, mas apenas descrever suas explicações e darmos explicações experimentais para as nossas descrições (das descrições e explicações das pessoas). (1991; p. 81).

 

            Posso facilmente corroborar estas palavras com a alusão à minha prática como supervisor clínico. Em todas as minhas supervisões pude experimentar o que me foi repetidamente passado em minhas experiências de supervisionado pelo Dr. Cláudio Lyra Bastos: sempre temos como lidar com o que o terapeuta traz sobre o seu paciente. Nunca podemos saber o que o paciente leva ao terapeuta que nos pede supervisão. A partir da afetação que identificamos no terapeuta, da observação do que o paciente lhe causou e até do que o terapeuta causa em nós supervisores como repetição do que o paciente lhe causara, podemos fazer uma supervisão eficiente e livre da necessidade de manuais e de avaliações objetivas. Considero este ponto de suma importância, pois com este exemplo podemos observar um proveitoso encontro entre o Método Fenomenológico de Husserl, a Terapia Cognitiva e os Processos Reflexivos.

            A relação entre o paciente e o terapeuta é motivo de grande estudo e investimento técnico na Terapia Cognitiva. A partir dos estudos de Safran (2002) a importância do afeto e da relação terapêutica adquiriu novas dimensões. Entretanto, vale ressaltar que o estudo da relação terapêutica é um estudo clássico dentro da Terapia Cognitiva. A TC procura auxiliar o paciente a atingir uma postura ativa diante dos próprios problemas (Beck, J.; 1997), para que venha a se tornar o seu próprio terapeuta.

            No caso da terapia conduzida como um processo reflexivo, podemos encontrar compatibilidade com esta linha de raciocínio. A história do paciente é importante, mas também a história de sua chegada até o profissional. O paciente é encarado como uma pessoa responsável por suas escolhas e, por conseguinte, suas ações serão de grande importância no processo. Para que sejam observadas tais ações de modo tão natural quanto possível, estimula-se, como na TC, que o paciente estabeleça seus objetivos em terapia. Como nas palavras abaixo:

 

Mais adiante podemos fazer a outra principal pergunta à pessoa mais favorável à realização do encontro, “Como você gostaria de usar este encontro?”, ou “Qual(is) o(s) assunto(s) que você gostaria de discutir neste encontro?”. Dá-se uma oportunidade a todos de expressar um compromisso com o encontro e também de falar qual(is) o(s) assunto(s) que gostariam de discutir. (Andersen, 1991; p. 75).

 

            Dentro da Terapia Cognitivo-Comportamental, podemos observar a  preocupação com o que chamo de acolhimento integral do paciente. O terapeuta tem alguma responsabilidade por tornar o ambiente efetivamente satisfatório para o paciente. Mas, mais do que isso, deve conduzir o processo de modo que o paciente possa vir a emitir comportamentos que são punidos pela sociedade, ou pelo meio que o paciente frequenta, e não ser punido, construindo uma nova forma de vivenciar as suas próprias características. Como nas palavras de Meyer e Vermes:

 

A relação terapêutica é uma oportunidade para que o cliente emita comportamentos que lhe têm trazido problemas e, a partir da interação com o terapeuta, aprender formas mais efetivas de respostas (Cahill, Carrigan e Evans, 1998; Follete, Naugle e Callaghan, 1996; Rosenfarb, 1992). Isso ocorre porque os comportamentos do cliente na terapia podem ser entendidos como uma amostra de sua maneira de agir fora desse contexto (Goldfried e Davidson, 1976; Zaro et al 1980). O terapeuta fornece consequências diferentes a esses comportamentos e oferece pistas ao cliente sobre padrões comportamentais em relações interpessoais que aumentam as chances de reforçamento positivo procurando garantir a generalização dos comportamentos aprendidos (Kohlenberg e Tsai, 1987; Beck e Freeman, 1993; Rangé, 1995; Chiari e Nuzzo, 1998; Zamignani, 2000). (in Rangé (org.), 2001; p. 102).

 

            Esta citação merece especial atenção por demonstrar, entre outras coisas, a preocupação dos terapeutas cognitivos, haja vista a quantidade de referências, em promover na terapia um ambiente de diferentes possibilidades para o paciente. Em minha experiência com pacientes psicóticos, por exemplo, tenho observado a grande dificuldade de construir novas redes relacionais que esses pacientes enfrentam. Muitas vezes, o espectro relacional é delimitado pelo modo como as pessoas em volta responde às peculiaridades existenciais apresentadas por pacientes psicóticos. No entanto, quando eles encontram um lugar onde se expressem de forma autêntica e não sejam punidos por isso, suas relações vão se estabelecendo de maneira mais contundente e verdadeira.

            Não obstante as divergências teóricas, posso assumir o risco de dizer que esta citação retrata o que na Terapia Cognitivo-Comportamental poderia ser um processo análogo ao processo de ressignificação, que considero tão importante para que os pacientes alcancem novas formas de se relacionar com o mundo (Werneck Filho, 2009). 

            Com a abordagem voltada para os aspectos racionais de vivência subjetiva, Terapia Cognitiva tem recebido críticas veementes de profissionais da Psicologia. Essas críticas geralmente tratam de uma suposta limitação da TC ao o ignorar “um conjunto de variáveis que nenhum sistema sério de psicoterapia poderia permitir-se ignorar – ou seja, variáveis interpessoais e ambientais” (Beck e Alford, 2000; p. 98).

            O próprio Beck se encarrega de esclarecer e de responder às críticas de forma a corroborar a importância das relações entre a pessoa e o mundo e entre os próprios componentes internos do indivíduo. Em suas palavras, na mesma obra citada acima:

 

A teoria cognitiva sugere que fenômenos internos e externos invadindo o sistema nervoso humano interagem com aquele sistema, e não que aquela cognição humana capta (ou “representa”) diretamente a realidade. Conforme observado anteriormente, o próprio Coyne (1994) expressou a importância de se analisar não apenas “o que está na cabeça”, mas também “como está a cabeça na transação com o mundo interpessoal” (p. 403). (p. 99).

 

Conclusões

 

De acordo com as ideias de Schön, citadas anteriormente, podemos encarar a formação de um terapeuta imerso nessas questões polêmicas sobre o amparo epistemológico e metodológico da teoria de sua preferência como um processo reflexivo. Tal comparação encontra respaldo, como pretendo ter mostrado, nas concepções teóricas dos autores apresentados. Em última análise, é razoável inferir que as críticas ao modelo cognitivo de Beck, fatalmente tenham feito com que ele pensasse sobre a prática e desenvolvesse uma forma de explicar a teoria que exercerá influência sobre qualquer profissional que deseje ser um bom clínico.

            Podemos estabelecer várias conexões entre Método Fenomenológico, Processos reflexivos e Terapia Cognitiva. O que importa, no entanto, é fazer com que tais conexões sejam funcionais. Devem conter elementos comuns que possam ser observados na prática e não apenas postos em discussão em mesas de congressos, muitas vezes pouco preocupadas com a clínica psicológica. A interpretação do mundo me parece uma das melhores formas de relacionar os três componentes de que falo. Nas palavras de Andersen:

 

Multiversa significa que um mesmo e determinado fenômeno, ou seja, um problema pode ser descrito e compreendido de muitas maneiras diferentes. A ideia construtivista de que cada pessoa cria sua versão da situação é de grande ajuda quando nos deparamos com um sistema paralisado (Bateson, 1972, 1978 1979; Maturana, 1978; Maturana e Varela, 1987; Segal, 1986; von Foerster, 1979; von Glasersfeld, 1988). Todas as versões não estão nem certas nem erradas. Nossa tarefa e nos empenharmos, o máximo possível, em um diálogo para compreendermos como as diversas pessoas chegaram a criar suas descrições e explicações.  (1991; p. 64).

 

            Ainda é cedo para que ideias conclusivas e radicais sejam defendidas. Não há função, pelo menos eu não consigo encontrar, em esforços para derrubar uma teoria em detrimento de outra, simplesmente pelo prazer de uma vitoriazinha. O processo que sempre me pareceu mais produtivo foi o de encontrar em abordagens diferentes, pontos de tangência, mantendo a viabilidade de uma e outra envolvidas na reflexão.

            A interpretação que o sujeito dá ao mundo em que vive tem influência importante na qualidade das relações que estabelece. Esta ideia permeia tanto a Terapia Cognitiva, quanto o Método Fenomenológico (este será abordado mais detalhadamente em suas relações com os Processos Reflexivos em estudos futuros) e os Processos Reflexivos. Posso dizer que uma aproximação entre estes três paradigmas muito me interessa e muito já influencia minha prática. Penso que todos falam de Psicologia Clínica em seu real sentido.

 

Referências Bibliográficas

 

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