Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Abril de 2010 - Vol.15 - Nº 4

France - Brasil- Psy

Coordenação: Docteur Eliezer DE HOLLANDA CORDEIRO

Quem somos (qui sommes-nous?)                                  

France-Brasil-PSY é o novo espaço virtual de “psychiatry on  line”oferto aos  profissionais do setor da saúde mental de expressão  lusófona e portuguesa.Assim, os leitores poderão doravante nela encontrar traduções e artigos em francês e em português abrangendo a psiquiatria, a psicologia e a psicanálise. Sem esquecer as rubricas habituais : reuniões e colóquios, livros recentes, lista de revistas e de associações, seleção de sites.

Qui sommes- nous ?

France-Brasil-PSY est le nouvel espace virtuel de “psychiatry on line”offert aux professionnels du secteur de la santé mentale d’expression lusophone et française. Ainsi, les lecteurs pourront désormais y trouver des traductions et des articles en français et en portugais  concernant la psychiatrie, la psychologie et la psychanalyse. Sans oublier les rubriques habituelles : réunions et colloques, livres récentes, liste de revues et d’associations, sélection  de sites

SOMMAIRE (SUMÁRIO):

 

  • 1. O FILÓSOFO MICHEL ONFRAY ATACA FREUD E A PSICANÁLISE
  • 2.RESPOSTA DO ECONOMISTA BARNARD MARIS: ‘’ONFRAY MOI PEUR’’
  • 3. RESPOSTA DE ROLAND GORI: TRECHOS DE UMA ENTREVISTA
  • 4. LIVROS RECENTES
  • 5. REVISTAS
  • 6. ASSOCIAÇÕES
  • 1.O FILÓSOFO MICHEL ONFRAY ATACA FREUD E A PSICANÁLISE

    Eliezer de Hollanda Cordeiro

    Cinco anos após os ataques dirigidos contra Freud e suas teorias  pelo  ‘’Livre noir de la psychanalyse’’, o filósofo francês Michel Onfray acaba de publicar um livro colocando em causa  o grande médico de Viena. Intitulado ‘’Le Crépuscule d’une idole. L’affabulation freudienne’’(O Crepúsculo de um ídolo. A fabulação freudiana), este  imponente  volume  de 600 páginas tornou-se um dos livros mais vendidos na categoria ensaios,  publicada na revista L’Express. François BUSNEL, cronista literário da mesma revista e responsável  pelo  programa de televisão intitulado   La Grande librairie , havia organizado  um debate sobre a psicanálise,  convidando   para tanto  os psicanalistas Alain de Mijolla  e  Anne Millet, o filósofo americano  Mikkel Borch-Jacobsen e  o psicólogo  belga Jacques Van Rillaer. E, naturalmente, Michel Onfray. Todos vieram falar da publicação de seus respectivos livros sobre a psicanálise,  mas, na realidade, o debate se focalizou  no livro de  Onfray.

     As intenções de Michel ONFRAY ?

    ‘’Fazer  uma  ‘’psicobiografia’’ de  Sigmund Freud  apoiando-se numa vasta documentação  e numa correspondência  até então conservada secretamente pelos freudianos. A partir daí, ONFRAY   escreveu  que Freud leu muito, citou pouco, queimou os seus jornais íntimos , destruiu sua correspondência  e mentiu sobre os resultados terapêuticos dos quais falou nas famosas Cinco psicanálises. E concluiu que a teoria do inconsciente não era uma ciência,  que a psicanálise curava como  faz o placebo  e que se ela é válida para as próprias  neuroses de Freud, ela não é universal’’.

    Como era de se esperar, as teses e as demonstrações  do filósofo   suscitaram   reações de psicanalistas como  Elisabeth ROUDINESCO, (Roudinesco déboulonne  Onfray)  e Roland GORI  (Roland Gori exprime ce qu’il pense de  Michel Onfray), entre outros, mas também  de filósofos  e escritores.

    Então, o que significa tais ataques? Eles são justos? 

    Para responder a estas questões e dar a palavra aos defensores de Freud e da psicanálise na França, traduzi um artigo de Bernard Maris,  economista francês de renome que escreve para jornais, blogs,  revistas e faz crônicas cotidianas para a estação de rádio France-Inter. Bernard Maris costuma empregar noções psicanalíticas em seus escritos, afim de melhor compreender o mundo da economia e das finanças.

    Traduzi também trechos de uma entrevista dada por Roland Gori, psiquiatra,psicanalista e intelectual engajado.

    2.RESPOSTA DO ECONOMISTA BARNARD MARIS: ONFRAY  MOI  PEUR (ONFRAY EU MEDO)

    Bernard Maris

    Tradução:Eliezer de Hollanda Cordeiro

    ‘’A priori um rapaz  que publicou um  « Traité d’athéologie »(Tratado contra a Teologia), criou uma universidade popular de filosofia,  preconizou  o retorno dos jardins familiaux (jardins  para trabalhadores),  escreveu no  Siné-hebdo e divulgou filosofia  em vez de prospectos publicitários,  é uma pessoa  simpática.Sosseguemos, não tenho a intenção de defender a misoginia de Freud  ou  a avidez dez Lacan, mas sempre me senti profundamente perturbado por uma coisa: a necessidade de  viver o que se diz . Então faça o que diz,ONFRAY.Você se diz revolucionário ? Enverede pelas estradas, encontre  a Mère Teresa ou os surrealistas, defenda   os clandestinos  e empunhe armas  contra Total. Você que ama os bons  restaurantes  e os  bons vinhos, as belas casas e as belas pinturas, você que defende a populaça e detesta  os burgueses, porque não toma  o metrô nas horas de afluência ?  .

    De uma certa maneira,  a questão que Michel  Onfray coloca  no jornal  Libération  é a da covardia e da ‘’colaboração’’ de Freud –de maneira acessória a da nulidade da psicanálise.Ora, se alguém prefere pagar 450 euros por uma sessão de psicanálise (a  tarifa praticada por Freud, segundo Onfray) em vez de comprar um carro esporte, que mal há nisso?   Mesmo  se a psicanálise é um placebo, ela produz menos  CO2.
    Antes de tudo,  notemos que, segundo Onfray,  Freud contou  a sua própria história através do  complexo de Édipo.E daí? E que através do assassinato do pai e da culpabilidade dos filhos contou seus próprios fantasmas. E então?  Será que isto diminui a força do complexo de Édipo ou do assassinato como  fundador da cultura e da sociedade,  ponto de vista   que outrora fascinou
    Keynes  e  hoje  fascina René Girard ?
    Mas o pior é quando Onfray  aborda a questão do  anti-semitismo  disfarçado de Freud e de sua covardia confessa.
    Em ‘’Mal estar  na civilisação’’ , Freud faz duas observaçãoes que  causaram mal-estar. Primeiro ele fala da “benéfica  seleção natural”,  o que nos tempos do eugenismo e do racismo deixa um pequeno gosto de fel. Mas sobretudo é uma notável estupidez científica porque a espécie humana é precisamente a que deixou de  sofrer  a seleção natural.  A maneira como  Freud leu  a obra de Darwin foi demasiadamente rápida. Freud  não esconde sua  admiração  pelo 
    ninho de cupim,  produto  e término  de uma longa seleção natural,  o que do ponto de vista científico é outra besteira.  Mas ele incomoda  filosoficamente: a metáfora do ninho de cupim é aquela do  Estado nazista  e de seu chefe todo poderoso.Mesmo assim,  o seu  “Mal-estar na civilisação”continua sendo um dos textos mais lindos  que a humanidade já produziu.Podemos dizer a mesma coisa de   “Totem et Tabu”, de “Moisés e o monoteismo”. Freud racista ?
    Podemos facilmente construir um
    Karl Marx cristão. Temos razão de fazer isto  e eu o farei  de bom grado. Karl Marx cristão-ateu ( que é um oximoro igual ao  de Freud anti-semita) não impede a teoria da mais-valia  de ser  a grande teoria econômica que enterrou todas as falsas leis econômicas  feitas pelos economistas. Que Marx tenha explorado  suas filhas e engravidado sua empregada (algo um tanto nojento para um defensor do povo, não?) não tira uma grama do peso revolucionário de seus escritos.
    Contudo, pior do que  racista e eugenista, Freud  anti-semita ? A propósito de   “Moisés e o monoteismo “, Onfray escreveu  : “Foi neste contexto de anti-semitismo desvairado que Freud  atacou
    Moisés! Sua obra seria considerada como anti-semita se tivesse sido assinada por qualquer outra pessoa.” Ora, Freud demonstra  que Moisés era egipciano, que o culto do deus único vinha   de Akhenaton, que os Egipcianos praticavam a circuncisão, que os judeus, enquanto povo eleito, tinham uma boa opinião deles mesmos. Isto quer dizer que Freud era anti-semita? Devemos chorar ou rir ?
    Na época em que vivia, 
    Jean-Edern Hallier cuspia no chão quando encontrava  um chileno  expulso por Pinochet. Subentendido, você fugiu,  camarada, em vez de combater  ao lado da resistência chilena.  Hallier era a última pessoa  autorizada a dar lições a qualquer um,e muito menos aos chilenos. E, sendo um  intelectual covarde, deveria apanhar as pontas de cigarros jogadas  no chão por   todos os refugiados políticos do mundo.

    Incomoda-me ler setenta e cinco anos mais tarde no livro de  Onfray, a lição que ele dá a Freud sobre a coragem política.  Freud disse em maio de 1933, quando os seus  livros foram queimados ao mesmo tempo do que os escritos por  Einstein: « Pelo menos  queimo bem acompanhado’’. Um ano antes, escrevera com  o mesmo Einstein o “Porque a guerra ?”  Freud deveria ter ido quebrar a cara dos incendiários ? Ele colaborou com o Institut Göring ? Sustentou  Dolfuss, como pretende  Onfray ? Das cinco irmãs de Freud, quatro morreram  em campos de concentração ( talvez que isto satisfizesse sua « misoginia»...).

    Freud escreveu em 1934: “O mundo se torna uma prisão, sua pior célula é a Alemanha”. Quem pode negar que Hitler perseguiu os psicanalistas ? Doente, sofrendo de um câncer, Freud peremaneceu na Áustria até 1938. Antes de partir para Londres, a Gestapo pediu-lhe  para assinar uma carta reconhecendo que havia sido bem tratado.Freud assinou-a e acrescentou: “Recomendo  de bom grado a Gestapo para todos.” Riamos um pouco com os anti-semitas.’’

    3.RESPOSTA DE ROLAND GORI: TRECHOS DE UMA ENTREVISTA

    Numa entrevista dada Ao jornalista  Gibert CHARLES da Revista L’Express, Roland GORI  lembrou que  ‘’as críticas sobre a  vida pessoal de FREUD  e  suas  teorias começaram há mais de um século. E sempre foram as mesmas, que podem  ser assim resumidas: o que é novidade na sua obra é mentira, o que é verdadeiro não é novidade. ONFRAY quer apagar o nome de um dos fundadores da cultura européia. Seus ataques surgem numa sociedade que não quer mais falar do homem  trágico,  do indivíduo   lutando contra  sua angústia, sua culpabilidade,seus desejos, seus conflitos’’.

    ‘’A medicina, a psiquiatria, a psicologia não são apenas saberes, são também práticas sociais.(...) A psicanálise, como a psiquiatria humanista, estima que devemos levar em conta o afeto,o relacional da personalidade’’.

    ‘’Hoje em dia, o sistema da economia liberal parte do princípio que o comportamento humano é racional e que é possivel  prever as ações dos indivíduos em função dos interesses que podem  obter. O humano tornou-se um simples segmento técnico da produção’’.

    A psicanálise seria obsoleta?

    ‘’Freud era médico , adepto de um positivismo puro e duro, voltado para a neurologia e as ciências naturais, mas ele descobriu que a razão é solapada por forças obscuras que se encontram dentro dela, pelo inconsciente e os afetos. E que a pretensão a governar o humano pela racionalidade leva  a um beco sem saída. Freud inventou um método onde o saber não vem do especialista: é o próprio doente que possui um saber que o terapeuta vai ajudar a decifrar.A psicanálise faz parte desta herança  que defende a idéia de que a humanidade do homem não se situa somente na razão’’.

    E sobre a relação da psicanálise com  a nova concepção  da saúde mental?

    ‘’A psiquiatria do comportamento e da biologia  deixou de se interessar pelo  sofrimento do sujeito, ela descobre as anomalias do comportamento. A questão não é de saber o que levou alguem a mergulhar na obsessão, na depressão, na loucura, mas como suprimir o sintoma o mais rápido possivel.As patologias   não mais se definem  em função do sofrimento do paciente, mas como disfuncionamentos neuro-cognitivos conduzindo a uma alteração comportamental .O discurso psicanalítico incomoda porque opõe-se à formatação  comportamental  e aos valores dominantes duma sociedade onde tudo deve ser previsivel, programado, dirigido.Os ataques que visam a psicanálise mostram mais uma vez que ele está viva , mais atual e que  é  necessária para se  resistir a esta sociedade do espetáculo e da mercadoria.’’

    4. LIVROS RECENTES

    Quelle Psychiatrie pour demain ?, Revue Psychiatrie Française: Vol. 2/09, Décembre 2009.

    Artigos  publicados  neste volume :

    *Éditorial : Jean-Louis CHAUVET

    *Curiosité de cabinet : Serge TISSERON

    *Le déclin de l’empire psychiatrique : Jacques HOCHMANN

    *Déclin et espérances dans le champ de la pédopsychiatrie : Roger MISÈS

    *Refonder la psychiatrie: Didier HOUZEL

    *Déclin de l’empire psychiatrique : Jean-Pierre OLIÉ

     *L’empire pédopsychiatrique… quel empire ? : Bernard GOLSE

     *Nadha: Simon-Daniel KIPMAN

    *Une psychiatrie médico-sociale est-elle nécessaire. Pourra-t-elle renaître ? : Roger SALBREUX

    *Cinquante ans de clinique psychiatrique : Alain KSENSEE

    *La neuropsychiatrie de l’enfance et de l’adolescence en Italie : Lenio RIZZO

    *Mouvements d’humeur :Jean-Louis          CHAUVET

    *Vous avez aimez la novlangue ? Vous adorerez le DSM IV ! : Francis DROSSART

    * L’avènement de la non-psychiatrie : Marc HAYAT

    *Vigueur et impasse de l’héritage freudien : Francis MARTENS

    5. REVISTAS

    *L’Évolution pychiatrique

    *L’Information Psychiatrique

    *Impacte medecine

    *La revue française de psychiatrie et de psychologie médicale 

    *L’encéphale

    *Psychiatrie française

    *L’autre, culture et sociétés

    6. ASSOCIAÇÕES

    *Mission Nationale d’Appui en Santé Mentale

    *Association française de psychiatrie et psychologie legales (afpp)

    *Association française de musicotherapie (afm)

    *Association art et therapie

    *Association française de therapie comportementale et cognitive (aftcc)

    *Association francophone de formation et de recherche en therapie comportementale et Cognitive (afforthecc)

    *Association de langue française pour l’etude du stress et du trauma (alfest)

    *Association de formation et de recherche des cellules d’urgence medico-psychologique (aforcump

    *Association pour la fondation Henri Ey

     


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