Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Agosto de 2010 - Vol.15 - Nº 8

COLUNA PSIQUIATRIA CONTEMPORÂNEA

PSIQUIATRIA DE RISCO E A TRIVIALIZAÇÃO DO CONCEITO DE DOENÇA MENTAL

Luiz Carlos Marques,
psiquiatra da Universidade Federal Fluminense, diretor do Instituto Fluminense de Saúde Mental,
Especialista em Psiquiatria pela UFRJ, Especialista em Psiquiatria e Psiquiatria Forense pela ABP.

Claudio Lyra Bastos,
psiquiatra da Universidade Federal Fluminense, perito do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro,
diretor do Instituto Fluminense de Saúde Mental, Mestre em Antropologia pela UFF,
Especialista em Psiquiatria pela UFRJ, Especialista em Psiquiatria e Psiquiatria Forense pela ABP.

O recente assassinato do cartunista Glauco e seu filho Raoni, estampado nos principais veículos de comunicação teve como conseqüência, entre outras repercussões, o desvelamento de um problema, que já vem ocorrendo há algum tempo e que muitos de nós psiquiatras reputamos como grave: a banalização do diagnóstico e do tratamento das enfermidades de natureza psíquica. Tanto os elementos que constituem a avaliação psicopatológica como o uso indiscriminado de psicofármacos e de medidas psicoterápicas vem sendo vulgarizados de forma inadequada e por vezes irresponsável. Qualquer líder religioso – ou mesmo qualquer pessoa – pode se propor ser um terapeuta, condenar as práticas médicas reconhecidas e reivindicar “poderes curativos” místicos sem nenhuma restrição.

A ampla divulgação midiática dos novos “transtornos” psiquiátricos faz com que todo ator de televisão, cantor ou animador de auditório, ao ser entrevistado, revele ser bipolar, bulímico, ter pânico, TAG, TAB, TPM, TEPT, TOC, numa profusão de termos dos quais não têm qualquer noção. Longe de conscientizar a população para a importância dos problemas mentais, essa badalação apenas vulgariza siglas e neologismos, sem nada esclarecer ao público (Bastos, 2010).

Essa trivialidade está associada a um processo que culmina na negação da doença mental e de sua gravidade, desmedicalizando-a e transformando-a numa entidade nebulosa chamada “sofrimento psíquico”, termo indefinido que tanto pode se referir a um quadro psicótico ou demencial como ao aborrecimento por uma derrota no futebol.

Não se trata de simples questão de semântica. Este jogo de palavras não é destituído de conseqüências; muitos pagam com a própria vida pela negligência embutida no discurso. Números do próprio governo mostram que a psiquiatria foi à especialidade que apresentou o maior aumento de mortalidade nos últimos anos (Câmara, 2008), quando quase todas as outras apresentaram significativa redução.

Recentemente o poeta Ferreira Gullar, pai de dois filhos esquizofrênicos, escreveu artigos em jornais onde denunciava a enorme dificuldade em se obter tratamento na rede pública de saúde, que tenta encobrir suas graves deficiências com um discurso vazio de conteúdo, mas cheio de eufemismos e sofismas. Jogar a responsabilidade da doença mental sobre os familiares é de uma crueldade com a população de baixa renda.

Para fugir às exigências burocráticas desmedidas, proliferam centros de tratamento leigos para “dependência química” e “lares para idosos”, sem médicos, sem enfermeiros e sem quaisquer critérios de internação. Neles parece não haver preocupação com as complicações de natureza clínica e psiquiátrica que inevitavelmente surgem. Pretensas soluções em que a solidariedade, a generosidade e a caridade se juntam com a inconseqüência, a incompetência e a prepotência são aceitas pelo descaso crônico de uma sociedade passiva, que só se mobiliza nas tragédias.

Outra questão surge ainda aqui no Brasil, mais complicada: os lobbies da indústria farmacêutica e da desmedicalização reformista, paradoxalmente, não estão em campos opostos. Milhões de reais estão direcionados para a compra de drogas novas e caras para o SUS. Para os reformistas, bastaria um mínimo de psiquiatras para prescrever para todos os pacientes e o resto fica por conta de leigos, os chamados trabalhadores de saúde mental. Ora, quanto mais precário o atendimento, mais medicamentos tendem a ser usados e em maior quantidade.

Além disso, a indústria tem todo o interesse em ampliar seu mercado (Câmara, 2009), e assim interessa que outros especialistas, além do psiquiatra, prescrevam psicofármacos, mas não é e nem deve ser preocupação da indústria que esses não especialistas estejam treinados neste tipo de prescrição e follow-up. Drogas novas são lançadas mais para os especialistas de outras áreas, que acabam sendo os maiores responsáveis pelas vendas de medicamentos. Hoje é quase impossível receber um cliente novo que já não venha medicado por um cardiologista ou neurologista, cuja orientação em psicofarmacologia quase sempre vem da propaganda distribuída pela indústria.

Um ortopedista via de regra não se propõe a receitar hipoglicemiantes nem antiarrítmicos. No entanto, notamos que atualmente um bom número deles prescreve psicofármacos, cujos efeitos terapêuticos requer experiência e treinamento psiquiátrico. Vemos diariamente ginecologistas fazendo o mesmo, e geriatras usando medicamentos psiquiátricos não indicados ou então em doses e períodos inadequados à sua farmacocinética. Efeitos colaterais são confundidos com agravamento dos sintomas e mascarados com mais medicamentos ainda. Muitos estudantes de medicina aprendem, enganosamente, que o diagnóstico psiquiátrico pode ser feito por exclusão. Recebemos freqüentemente nos consultórios pacientes já "diagnosticados" e muitas vezes já medicados apenas pelo fato de não haver sido encontrada nenhuma causa aparente para as suas queixas. Reeves e Kimble (2000) estudando 64 casos de emergências clínicas erroneamente internadas em unidades psiquiátricas, mostraram que em todos eles (100%) a falha se achava no exame psíquico, e em segundo lugar no exame físico (43,8%). Isso confirma o que vemos na prática diária, onde protocolos, tabelas e escalas, em vez de melhorar a prática, tornam-na ainda pior pela falta de conhecimento básico.

É importante que os médicos reconheçam as limitações em seu conhecimento e resistam a esse furor medicalizante que a indústria farmacêutica e a mídia tendem a estimular. A maior parte dos médicos sem uma boa formação psiquiátrica tem grandes dificuldades para distinguir, por exemplo, ansiedade de acatisia, assim como alterações sutis do estado de consciência de astenia, de apatia ou de problemas cognitivos. Quadros metabólico, muitas vezes de natureza iatrogênica, é freqüentemente tomado por depressão, e temerariamente medicado.

Da mesma forma que usar uma terapia xamânica, esotérica ou religiosa em um paciente psicótico pode ter conseqüências trágicas, prescrever estimulantes para pacientes melancólicos ou delirantes pode induzir ao suicídio. Tratar desses quadros não é lugar para experimentações de ensaio e erro. Para advertir a mídia de que doença mental é coisa séria, não basta os responsáveis pela saúde pública informar à população em geral; é fundamental que os próprios médicos tenham antes plena consciência disso.

 

Referências

 

Bastos, CL. Manual do Exame Psíquico. 3ª edição. Rio de Janeiro: Revinter, 2010.

Câmara, FP. Mortalidade por transtornos mentais e comportamentais e a reforma psiquiátrica no Brasil contemporâneo, Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, 11(2): 278-285, 2008.

Câmara, FP. Ética e pesquisa em psiquiatria, Revista do Ministério Público, n. 33(jul/set): 23-29, 2009.

Reeves RR, Pendarvis, EJ, Kimble, R, Unrecognized medical emergencies admitted to psychiatric units. American Journal of Emergency Medicine, 18(4): 390-393, 2000.


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