Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Abril de 2010 - Vol.15 - Nº 4

COLUNA PSIQUIATRIA CONTEMPORÂNEA

HOMENAGEM AO HOMEM, AO POETA, E AO ES-CRITOR: FERREIRA GULLAR.

Douglas Parra
Presidente da AFDM-SO, Vice Presidente da AFDM-Brasil.

(D. Parra com o homenageado, Ferreira Gullar)

 

Um dos maiores POETAS e ESCRITORES do BRASIL foi homenageado na terça feira, dia 15 de dezembro na cidade do Rio de Janeiro; a homenagem deu-se no Colégio Brasileiro de Cirurgiões, em Botafogo; com mais de duzentas pessoas presentes, teve como Mestre de Cerimônias o Sr. Douglas Parra, Vice-Presidente da Associação de Familiares e Amigos dos Doentes Mentias do Brasil (AFDMBRASIL).

FERREIRA GULLAR, 78 anos, nascido em São Luiz do Maranhão, sempre procurou apontar em sua obra a problemática da vida política e social do homem brasileiro. De forma precisa, profunda e poética traçou rumos e participou ativamente das mudanças políticas e sociais brasileiras. Enfrentou a ditadura, o que o levou a prisão em 1968 e, posteriormente, ao exílio em 1971.

 Poeta, crítico, teatrólogo e intelectual, nosso homenageado, entra para a historia da literatura como um dos maiores expoentes e influenciadores de toda uma geração de artistas dos mais diversos segmentos das artes brasileiras.

Em 1999 Ferreira já era um veterano com Doentes Mentais: seu filho Paulo, 50 anos, até hoje sofre de esquizofrenia e Marcos, também sofria da mesma doença, mas faleceu em 1992. Acusa abertamente o Modelo Assistencial dado aos Doentes Mentais no Brasil, dizendo ser desumano, demagógico e antidemocrático; é um modelo que nega aos mais pobres o acesso a um tratamento Psiquiátrico de qualidade e, nos momentos mais críticos, nas crises intensas, nega-lhes o direito à internação especializada.

A AFDMBRASIL homenageou o homem público, conhecido nacional e internacionalmente, que teve a coragem de mostrar seu sofrimento como pai de dois filhos com doenças mentais, em 03 artigos publicados durante o ano de 2009, em um dos jornais de maior credibilidade e circulação do país, A Folha de São Paulo.

Além do homenageado compuseram a mesa:

- O Presidente da AFDMBRASIL, Sr. Marival Severino da Costa.

- A Sra. Luciene Freira , viúva cujo marido teve sua internação psiquiátrica negada e, em franco surto psicótico, matou as duas filhas menores de idade e ateou fogo na casa, sendo linchado e morto posteriormente.

- O Médico Psiquiatra, Professor e pesquisador da UFRJ, Dr. Fernando Portela, que apresentou resumidamente trabalho científico comprovando o aumento brutal de mortes em pacientes portadores de transtornos mentais correlacionando-os diretamente com o número de fechamento dos Leitos Psiquiátricos, comprovando esta correlação nefasta com os dados do DATASUS.

 

(D. Parra, F. Gullar, C. E. Zacharias e F. Portela Câmara)

 

- O vereador da cidade do Rio de Janeiro, médico, Dr. Carlos Eduardo Massar, descreveu as inspeções que realizou nos Hospitais Nilse da Silveira (que apareceu e foi citado recentemente na novela global “Caminho das Índias”) e Philipe Pinell (berço e sede da Fundação Franco Basaglia).

No INSTITUTO MUNICIPAL DE ASSISTÊNCIA À SAÚDE NISE DA SILVEIRA encontraram pacientes dormindo no chão, sem colchão, comendo em pé e sem roupas, estando estas misturadas ao lixo. A falta de manutenção era visível, havia camas insuficientes e com ferrugem, colchões rasgados e goteiras pela maioria das enfermarias; os banheiros estavam sem pias além dos sanitários quebrados; com mofo e infiltrações nas paredes dos banheiros, corredores e enfermarias. O reboco do teto desmoronara em vários setores do hospital. Segundo os administradores, funcionários do próprio Estado, a crise é causada pela baixa remuneração repassada pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e os valores que deveriam ser gastos para manter um bom hospital; o Psiquiatra Edmar Oliveira pedira demissão do cargo de Diretor após dez anos exercendo a função e tentando mudar a mentalidade destruidora reinante: “Não temos como trabalhar, as enfermarias estão em petição de miséria e com essa verba só se consegue trocar as lâmpadas. Trabalhamos sob pressão dia e noite.”

No INSTITUTO MUNICIPAL PHILIPPE PINEL o quadro geral de descaso não foi diferente, havia pacientes no chão, sem roupas, comendo em pé, colchões e cobertores rasgados; madeira podre nas poucas camas existentes; banheiros com as pias sem encanamento e a água caindo no chão; as descargas não funcionavam e estavam sem água quente, o que obrigava os pacientes a tomarem banhos frios. Os médicos se queixavam que não havia fichários para os prontuários e entre as pacientes havia brigas até por roupas íntimas; no refeitório havia apenas quatro cadeiras para todos os pacientes internados e muitos comiam no chão ou em pé, sendo que a refeição “é regulada”, segundo informaram e que para poder sentar “fazem a dança das cadeiras”.

Isto é forma de ressocializar alguém?

Que ambiente é esse?

O Governo não toma conta de seus próprios hospitais, transformando-os de hospitais de qualidade em verdadeiros manicômios, como eles pejorativamente chamam”.

- Dr. Carlos Eduardo Kerbeg Zacharias, médico Psiquiatra, Supervisor de um Serviço de Emergências Psiquiátricas em um Hospital Geral da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, representou o Centro de Estudos Psiquiátricos Vera Cruz de São Paulo (CEPVC) e falou sobre o drama dos Médicos que trabalham nas Emergências Psiquiátricas de nosso país. O atendimento, nestas unidades, é mais que 150 % da capacidade instalada, gerando stress entre as equipes de trabalhadores em Saúde.

Os pacientes e familiares põem a culpa nos que estão na “linha de frente” pela falta de locais adequados para tratamento de seus parentes.

Dr. Zacharias aproveitou para entregar ao Poeta o trabalho realizado pela ABP no ano de 2006, na gestão do Psiquiatra Josimar França como Presidente: “DIRETRIZES PARA UM MODELO DE ASSISTENCIA INTEGRAL EM SAÚDE MENTAL”. Infelizmente este trabalho científico, voltado para o bom atendimento aos pacientes, já foi entregue para dois Ministros da Saúde e nenhum deles sequer dignou-se a lê-lo, afinal “a ciência e real experiência de outros países” contraria a ideologia reinante no Ministério da Saúde.

O Poeta falou sobre o absurdo de chamarem os movimentos de antipsiquiatria ou da luta antimanicomial, de “Psiquiatria Democrática”, tentam fazer do doente mental um “dissidente da sociedade”, um “cassado político”, culpando os familiares a sociedade; nós seríamos os carcereiros e torturadores de nossos próprios filhos! Quem são eles para acharem que sentem dor maior que a minha de pai? Quem são eles para pensarem que amam meus filhos mais do que eu? Uma vez meu filho Paulo sumiu e quando voltou para casa quebrou a janela do 5º porque achava que podia voar. Nenhum pai e nenhuma mãe internam seus filhos contentes da vida, dói ter de internar um filho, mas às vezes não há outro jeito. Os “Psiquiatras Democráticos” crêem que a sociedade “adoeceu” os pacientes e então têm de conviver com eles e tolerá-los, mesmo que isto represente um risco à vida de todos; é um absurdo!

O rim adoece, o coração adoece, os pulmões adoecem, todos os órgãos adoecem, exceto o cérebro que seria imune a qualquer doença e somente é adoecido pela sociedade! Alguém já ouviu falar em urologia ou cardiologia democrática?

As terapias ajudam, os remédios melhoram alguns quadros, dizem que até 70%, e os outros 30% que fazer? Mas isto só funciona se o doente se tratar corretamente, o que em grande parte não acontece e o resultado são surtos incontroláveis; nestes momentos precisam da internação e não há outra escolha. Li sobre o aumento de doentes mentais nas ruas e do aumento das mortes deles depois de fechados vários Hospitais Psiquiátricos. Já previa isso com o fechamento dos leitos e diminuição das internações.

A Lei 10.216/2001 não proíbe internações e nem fala em fechar Hospitais Psiquiátricos, ainda bem que o projeto do Delgado foi rejeitado; mas eles estão mesmo assim acabando com os Hospitais; as famílias ricas internam em clínicas caríssimas e as famílias pobres não têm como cuidar dos seus Doentes Mentais graves, eles estão nas ruas, são mendigos loucos e delirantes; podem ficar agressivos, é imprevisível seu comportamento, podem matar ou serem mortos; estão abandonados ou sendo presos, é só andar por este Rio de Janeiro, só não vê quem não quer.

Tentam nos enganar com histórias de Leitos Psiquiátricos em Hospitais Gerais. Quem acredita que isso vai dar certo? Quem acredita que eles vão conseguir manter os Doentes Mentais graves, em surtos, agitados, agressivos num Hospital normal? Só se for amarrado. Somente acredita nisto quem não conhece os Doentes e as Doenças Mentais.

Escrevi meus artigos na Folha de São Paulo como um cidadão que tem um espaço e sabe o que fala. Quando escrevi o primeiro artigo choveram cartas e emails, muitos metendo a boca, mas muitos de apoio e de famílias que se sentiram tocadas e representadas pelas minhas palavras, famílias que nunca conseguiram que alguém falasse por elas, famílias como vocês que estão aqui hoje.

Olha que interessante, teve uma mulher que se disse adepta da “Psiquiatria Democrática” e escreveu ao jornal reclamando como eu podia ter escrito, e eles terem publicado, uma matéria daquelas; exigia providencias, e eu pensei que tipo de providencias será que ela queria? Calar-me? Expulsar-me do jornal? Cassar-me e mandar pro exílio novamente?. E olha que ela é da “Psiquiatria Democrática”, imaginem se fosse da “Psiquiatria Ditatorial”!

Muito obrigado gente, hoje vocês aqui estão aqui tentando mudar as coisas, vocês tem de sair pras ruas, reclamar no legislativo, no judiciário, na televisão, nos jornais; tem que botar pra fora pra todo mundo ver a desgraça que eles estão fazendo com nossos Doentes Mentais.

Encerrada a cerimônia o Sr. Marival entregou uma pedra com placa comemorativa ao Poeta.

 



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