Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Fevereiro de 2010 - Vol.15 - Nº 2

COLUNA PSIQUIATRIA CONTEMPORÂNEA

ATUALIDADE DAS NEUROINFECÇÕES

Fernando Portela Câmara
Prof. Associado, UFRJ, IMPPG

Abstract

 

Human neuroinfections are cause of neurological handicap and/or  cognitive impairment. They are considered as neglected diseases especially in development countries, where they are common and cause significant suffering and disease burden.

 

As infecções do sistema nervoso têm sido sistematicamente negligenciadas nos países do terceiro mundo, justamente onde sua prevalência é mais alta. Com a epidemia de dengue em 2002, verificou-se que algumas formas graves e letais desta virose ocorrem na forma de encefalite, e a partir daí recomeçaram os estudos destas infecções. Também a gripe pode causar neuroinfecção, como recentemente foi demonstrado para o vírus H5N1, que pode provocar doença de Parkinson, destruindo receptores de dopamina dos gânglios basais. Grande parte das infecções do sistema nervoso cursa como encefalites de etiologias viral e malárica, causando alterações sensório-motoras importantes, exceto pelo HIV que causa importante alteração cognitiva, e pela tripanossomíase africana, que causa graves distúrbios do sono.

As encefalites virais estão ampliando sua geografia, como é o caso da encefalite japonesa (que atualmente produz 30 a 50 mil casos anuais) e da encefalite pelo vírus do Oeste do Nilo (Olival e Daszak, 2005), e ainda temos s encefalites pelos vírus emergentes Nipah, Hendra e Borna (Câmara, 2009, 2010). Por exemplo, pelo menos nove epidemias pelo vírus Nipah vem recorrendo em Bangladesh desde 2001, com mortalidade entre 40-75%, e deixando sequelas neuropsiquiátricas nos sobreviventes (Epstein et al., 2006).

A malaria cerebral é a forma mais grave da infecção pelo Plasmodium falciparum, sendo observada comumente na África sub-Saárica onde este patógeno é endêmico. Como a malária falciparum africana é hoje uma doença prevalentemente infantil, as vítimas são preferencialmente crianças abaixo dos 14 anos (Idro et al, 2007), e a mortalidade nestes casos é alta, em torno de 22%. Os casos evoluem com convulsões e coma devido ao edema cerebral, micro-hemorragias e isquemia. Hemácias contendo o parasita da malária acumulam-se nos microvasos cerebrais, mas não há infiltrado perivascular. 24% desses pacientes desenvolvem seqüelas neurológicas e/ou distúrbios do comportamento.

Também na África sub-saárica temos a doença do sono causada por subespécies do Trypanosoma brucei transmitido pela mosca tsé-tsé. Esta tripanossomíase africana esteve quase extinta nos anos 60 do século passado, porem emergiu dramaticamente (Wassmer et al., 2005). Outra forma é causada pelo T. gambiense prevalente na África ocidental (Simarro et al., 2008).

O envolvimento do sistema nervoso central na tripanossomíase americana (T. cruzi, transmitido por insetos triatomíneos ou “barbeiros”) é raro, mas em pacientes com Aids pode levar a meningo-encefalite, por infecção das células gliais pelo parasita de Chagas (Burgos et a., 2008).

A infecção pelo HIV pode levar a uma demência associada ao HIV e a um transtorno cognitivo associado ao HIV, devidos ao espalhamento do vírus no SNC nos estágios precoces e tardios da infecção. Estas alterações neuropsiquiátricas não se devem ao efeito direto da infecção viral, mas a alterações sináptico-dendríticas (Ellis et al, 2007) que, afetando os motoneuronios corticais e interneuronios, conduz à morte por apoptose. No ocidente, onde predomina o clado B dos HIVs, a adoção da terapia anti-HIV reduziu significativamente essas demências (< 15%), enquanto na África sub-saárica a incidência é de ordem > 31%. O quadro caracteriza-se por déficit da memória verbal, prejuízo das funções executivas, alterações motoras e da rapidez da resposta psicomotora, levando à incapacidade laboral e para a vida familiar. Por outro lado, na Etiópia, onde predomina o clado C dos HIVs, as alterações cognitivas são menos acentuadas. Este clado não cresce eficientemente em macrófagos, o que pode explicar seu baixo neurotropismo.

O sistema nervoso central, contudo, não é o sítio primário dessas infecções, mas um local que pode ser invadido por patógenos especialmente virulentos a partir da disseminação hematogênica do patógeno a partir do sítio primário no organismo.

A importância crescente das neuroinfecções pode ser avaliada pelas contribuições apresentadas no recente congresso sobre o tema realizado (Bruzzone et al, 2008).

 

Referencias:

 

·        Camara FP. Vírus Nipah e depressão, Psychiatry On-Line Brazil, 14(10), 2009, disponível em http//:www.polbr.med.br/ano09/cpc1009.php (acessado em 30/12/2009).

·        Camara FP. Bornavírus e doenças psiquiátricas, Psychiatry On-Line Brazil, 15(01), 2010, disponível em http//:www.polbr.med.br/ano10/cpc0110.php (acessado em 30/01/2010).

·        Bruzzone R, Dubois-Dalcq M, Grau GE, Griffin DE, Kristensson K (eds). Infectious diseases of the nervous system: pathogenesis and world wide impact [meeting abstracts]. BMC Proc 2: Suppl 1, 2008. Disponível em: http://www.biomedcentral.com/1753-6561/2?issue=S1  (acessado em 13/11/2009).

·        Burgos JM, Begher S, Silva HM, Bisio M, Duffy T, et al. Case report: Molecular identification of  Trypanosoma cruzi tropism for central nervous system in Chagas reactivation due to AIDS. Am J Trop Med Hyg 2008; 78:294–297.

·        Ellis R, Langford D, Masliah E(2007). HIV and anti retro viral therapy in the brain: neuronal injury and repair.NatRevNeurosci8:33–44.

·        Epstein JH, Field HE, Luby S, Pulliam JR, Daszak P. Nipah virus: impact, origins, and causes of emergence. Curr Infect Dis Rep 2006; 8: 59–65.

·        Idro R, Ndiritu M, Ogutu B, Mithwani S, Maitland K, et al. Burden, features, and outcome of neurological involvement in acute falciparum malaria in Kenyan children. JAMA 2007; 297:2232–2240.

·        Olival KJ, Daszak P.The ecology of emerging neurotropic viruses. J. Neurovirol 2005; 11:441–446.

·        Simarro PP, Jannin J, Cattand P. Elimiating human African trypanosomiasis: where do west and what comes next? PLoS Med 5: e55, 2008.

·        Wassmer SC, Cianciolo GJ, Combes V, Grau GE. Inhibition of endothelial activation: a new way to treat cerebral malaria? PLoS Med 2: e245, 2005. doi: 10.1371/ journal. pmed. 0020245.

 


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