Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Janeiro de 2010 - Vol.15 - Nº 1

COLUNA PSIQUIATRIA CONTEMPORÂNEA

BORNAVIRUS E DOENÇAS PSIQUIÁTRICAS

Fernando Portela Câmara
Prof. Associado, UFRJ, IMPPG

SUMMARY: The bornavírus, causing encephalitis with significant behavioral symptoms in animals, is also implicated in the etiology of mental disorders in humans where this virus is endemic, such as major depression and some psychotic symptoms. It is possible that a human strain of this virus, unlike the animal, is circulating widely.

 

 

As doenças mentais e do comportamento são respostas cerebrais a um evento agressor de variada natureza, incluindo certas infecções. Em artigos anteriores (Câmara, 2009a, 2009b), mostramos como certas infecções causam alterações neuropsiquiátricas e como isso poderá vir esclarecer ao menos parte da etiologia das doenças mentais, possibilitando tratamentos mais eficazes. No presente artigo veremos a importância do vírus Borna como causa de transtornos psiquiátricos.

 

Os bornavírus são vírus “exóticos” que emergem da ecologia tropical e que podem causar infecção em humanos acidentalmente expostos. No mundo atual globalizado, estes vírus emergentes têm o potencial de se espalhar para centros urbanos distantes, levados por hospedeiros virêmicos, humanos ou animais, na complexa rede de tráfego aéreo internacional que une centros urbanos distantes. Este grupo de vírus causa infecções letais, mas também são implicados na origem de depressão maior nas áreas onde é endêmico.

 

O espectro zoonótico deste vírus e sua adaptação a humanos talvez seja devido à facilidade de adaptação de sua polimerase de RNA a variados hospedeiros (Ackermann e col., 2007).

 

Os bornavírus são vírus com RNA genômico cuja sequência de genes é parecida com o do vírus da raiva. É agente de uma encefalite progressiva não purulenta, quase sempre fatal, em cavalos, conhecida como “doença do cavalo triste”. Esta doença foi descrita pela primeira vez em Borna, Alemanha, no ano de 1766, e recentemente foi demonstrada no gado bovino, ovino e caprino, bem como em gatos, avestruzes e macacos. A via de infecção é intranasal, mas também pode ser hematogênica.

 

Através da via intranasal, o vírus migra através do nervo olfativo até o sistema límbico, especialmente hipocampo. O sistema límbico está relacionado à regulação da memória, comportamento e emoções, que é também a região implicada em muitos transtornos psiquiátricos. Mais tarde, o vírus se dissemina centrifugamente para os nervos periféricos provavelmente por transporte axonal, e então infecta as células associadas com o sistema nervoso periférico: astrócitos, oligodendrócitos e células de Schwann. Se esta disseminação perdura, tecidos e órgãos não neurais poderão vir a ser infectados.

No animal, os sintomas da doença de Borna manifestam-se proeminentemente como distúrbio comportamental: agitação e hiperatividade, ou depressão, o animal joga-se violentamente contra obstáculos (um forma de tentativa de suicídio?) e ataxia. O início destes sintomas coincide com o aparecimento de uma reação inflamatória no cérebro (meningoencfalite) que progride para degeneração neuronal. A inflamação é especialmente grave no núcleo caudado, gyrus dentado e hipocampo.

Em humanos, a infecção pelo bornavírus segue uma fenomenologia diferente da observada nos eqüinos, produzindo alterações na esfera mental/comportamental. Anticorpos reativos para este vírus foram encontrados em amostras de pacientes psiquiátricos em uma associação estatisticamente significativa, e por isso a ligação entre esta infecção e certas alterações psiquiátricas no indivíduo humano continua a ser objeto de pesquisas e debates. É possível que as infecções humanas sejam uma zoonose transmitida a indivíduos ocupacionalmente expostos a animais domésticos, tais como fazendeiros, e por isso sugere-se que esta virose possa estar associada ao suicídio e depressão rurais, cujas taxas são mas altas que no ambiente urbano.

Waltrip e colaboradores (1997) e Chen e colaboradores (1999), encontraram uma alta prevalência de anticorpos para bornavírus em esquizofrênicos, confirmando os achados de outros autores, enquanto Liv Bode e colaboradores (2001) do Instituto Robert Koch de Berlin demonstraram a presença de altos níveis de anticorpos, imunocomplexos e antígenos deste vírus em pacientes com transtornos afetivos (depressão maior e transtorno bipolar), confirmando estudos anteriores (Amsterdam e col., 1985; VandeWoude e col., 1990; Rott e col, 1991; Bode, 1995). O estudo de Bode e colaboradores (2001, 2003) revelou uma alta correlação entre depressão, bem como sua gravidade, e níveis de antigenemia nos pacientes. No Brasil, Miranda e colaboradores  (2006) tem confirmado alguns desses achados. Amostras de bornavírus isoladas de pacientes humanos, reproduziram sintomas de alterações comportamentais (agressividade, hiperatividade) quando inoculados em ratos (Bode e col., 2001, 2003). Este trabalho foi a primeira pista sólida de uma associação entre um agente infeccioso e uma doença psiquiátrica, e também sugere ser provável que exista uma linhagem de bornavírus diferente da equina, circulando na população germânica da qual saíram os sujeitos de estudo.

Os trabalhos de Bode e colaboradores (2001) mostraram uma prevalência de 10-15% de anticorpos em pacientes contra 1-3% no grupo controle (saudáveis). Contudo, quando os pacientes eram monitorados por um longo tempo, esta prevalência aumentava para 30%, sugerindo reativação de uma infecção persistente ao longo do tempo. Isto explicaria a cronicidade e as recorrências dos transtornos mentais referidos.

Tais evidências foram reforçadas com o isolamento, em 3 de 23 pacientes (dois com transtorno bipolar e um com transtorno obsessivo-compulsivo), de uma linhagem supostamente humana de bornavírus. Aparentemente, s surtos coincidiam com o aumento da carga viral. Mais recentemetne, o isolamento viral ou detecção de antígenos virais vem mostrando que a relação entre bornavírus e transtornos mentais é cada vez mais evidente (Fukuda et al., 2001; Bode e Ludwig, 2003; Miranda et al., 2006; Ackermann et al, 2007), e que o bornavírus humano teria uma disseminação mundial, contrariamente às cepas zoonóticas.

A amantadina e a ribavirina têm atividade conta estes vírus. Entretatno, como a amantadina é um antagonista do receptor glutamato, o seu efeito parece ser mais o de modular a depressão do que propriamente agir como um antiviral (Diethrich et al, 2000).

Referências

 

Ackermann A, Staeheli P, Schneider U. Adaptation of Borna disease virus to new host species attributed to altered regulation of viral polymerase activity. J. Virol. 2007; 81 (15): 7933–7940.

Amsterdam JD, Winokur A, Dyson W, et al. Borna disease virus: A possible etiologic factor in human affective disorders?, Archives of General Psychiatry, 1985; 42:1093-1096.

Bode L. Human infections with Borna disease virus and potential pathogenic implications, Current Topics in Microbiology and Immunology, 1995; 190:103-30.

Bode L, Ludwig H. Borna disease virus infection, a human-mental risk. Clinical Microbiology Reviews, 2003; 16: 534-545.

 

Bode L, Reckwald P, Severus WE, Stoyloff R, Ferszt R, Dietrich DE, Ludwig H. Borna disease virus-specific circulating immune complexes, antigenemia, and free antibodies - the key marker triplet determining infection and prevailing in severe mood disorders. Mol. Psychiatr. 2001; 6: 481-491.

 

Camara FP. Infecções e doenças mentais, Psychiatry On-Line Brazil, 14(09), 2009a, disponível em http//:www.polbr.med.br/ano09/cpc0909.php (acessado em 30/12/2009).

 

Camara FP. Vírus Nipah e depressão, Psychiatry On-Line Brazil, 14(10), 2009b, disponível em http//:www.polbr.med.br/ano09/cpc1009.php (acessado em 30/12/2009).

 

Chen CH, Chiu YL, Weif FC, et al. High seroprevalence of Borna virus infection in schizophrenic patients, family members and mental health workers in Taiwan. Molecular psychiatry, 1999; 4: 33-38.

 

Dietrich DE, Bode L, Spannhuth CW, et al. Amantadine in depressive patients with Borna disease virus (BDV) infection: an open trial. Bipolar Disord. 2000; 2: 65–70.

 

Fukuda K, Takahashi K, Iwata Y, et al. (February 2001). Immunological and PCR analysis for Borna disease virus in psychiatric patients and blood donors in Japan. J. Clin. Microbiol. 2001; 39: 419–29.

Miranda HC, Nunes SO, Calvo ES, Suzart S, Itano EN, Watanabe MA. Detection of Borna disease virus p24 in peripherical blood cells from Brazilian mood and psychotic disorder patients. J Affect Disord 2006; 90: 43–47.

Rott R, Herzog S, Bechter K, Frese K. "Borna disease, a possible hazard for man?". Archives of Virology 1991; 118: 143-149.

 

VandeWoude S, Richt JA, Zink MC, Rott R, Narayan O, Clements JE. A borna virus cDNA encoding a protein recognized by antibodies in humans with behavioral diseases. Science 1990; 250: 1278-1281.

 

Waltrip RW, Buchanan RW, Carpenter WT, et al. (February 1997). Borna disease virus antibodies and the deficit syndrome of schizophrenia. Schizophr. Res. 1997; 23: 253–257.


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