Volume 22 - Novembro de 2017
Editores: Giovanni Torello e Walmor J. Piccinini

 

Março de 2009 - Vol.14 - Nº 3

História da Psiquiatria

Notas Biográficas
ANTONIO LUIZ BENTO MOSTARDEIRO (12.05.28 - 9.01.2007)

MD. Walmor J. Piccinini
Psiquiatra.
Professor da Fundação Universitária Mário Martins.
Pesquisador da História da Psiquiatria Brasileira

 

Foto do Professor Mostardeiro com David Zimmermann, quando esse recebeu o título de Cidadão de Porto Alegre.

 

Médico formado peça UFRGS em 1953

Psiquiatra da segunda turma do Curso de Psiquiatria da UFRGS (1958-60)

Presidente da Sociedade de Psiquiatria, Neurologia e Neurocirurgia do RGS

Psicanalista pela SPPA

Fundador da SBP de PA em 1992

Psiquiatra Efetivo da ABP

Fundador e Presidente da Fundação Mário Martins

Professor da Fundação Universitária Mário Martins de Porto Alegre

 

O tempo passa inexoravelmente, para mim parece inacreditável que já tenham se passado dois anos da morte do Professor Antonio Luiz Bento Mostardeiro. Com ele tive oportunidade de conviver e aprender a valorizar sua imensa capacidade como médico, como homem digno e como colega. Era um homem grande, pesadão, tórax de remador, como toda pessoa grande, era seguro de si, paciente com os que o rodeavam e sempre tinha uma palavra objetiva para manter o rumo do diálogo. Suas reuniões clínicas com os alunos eram uma oportunidade de conviver com sua erudição e sua paciência para ensinar os mais jovens. Espero que essas notas biográficas permitam que sua memória seja homenageada e que mais pessoas conheçam algumas facetas dessa grande figura humana.

Médico, psiquiatra, psicanalista, ex-presidente da Sociedade de Psiquiatria do Rio Grande do Sul que agora se chama Associação Psiquiátrica do Rio Grande do Sul. Quando foi eleito presidente da então Sociedade de Psiquiatria, Neurologia e Neurocirurgia do RGS fui eleito Secretário e trabalhamos bastante para preparar a transformação da nossa sociedade em duas, uma de psiquiatria e outra de neurologia o que acabou acontecendo em 1973. Anos depois e muitas voltas do destino, tornamos a nos encontrar na Fundação Mario Martins que ele ajudou a fundar, foi seu presidente duas vezes e ensinou até poucos dias antes do seu falecimento.

Mostardeiro, como todos o chamavam, veio ao mundo em 12 de maio de 1928. Quem conheceu sua maneira tranqüila e discreta de se comportar, vai estranhar que tenha tido
pressa em vir ao mundo, nasceu com sete meses. Foi o mais velho de cinco filhos e, pela vida fora, uma pessoa com quem os irmãos contavam para apoio, conforto e conselhos.

Manteve essa característica no Conselho dos Fundadores da Fundação Mário Martins onde funcionava como um irmão mais velho, aparando arestas e determinando rumos seguros.
Cresceu na Rua Dona Laura, no Bairro Moinhos de Vento, rua que hoje em dia abriga a fundação Mário Martins e seu ambulatório de psiquiatria e psicoterapia. Nessa mesma rua e próximo a sua casa residia uma jovem, Vera Guedes, que mais tarde veio a ser sua colega na Faculdade de Medicina (1948-1953) e que se tornou sua esposa. Ela também se tornou psiquiatra. Dessa união resultou um casal de filhos, o mais velho, também chamado Antonio Luiz Guedes Mostardeiro, nascido em 1956, e sua filha, Aglaé Guedes Mostardeiro, nascida no ano seguinte.
Formou-se em 1953 e, em dezembro daquele mesmo ano tornou-se assistente na 28A. Enfermaria, Clínica Médica de Mulheres. (dezembro de 1953 até novembro de 1955).
Em janeiro de 1954 assumiu como auxiliar de clínica na Clínica Pediátrica Médica e Higiene Infantil.
Durante o curso de medicina, Mostardeiro pratica remo e, como remador, integrou a equipe campeã brasileira de 4 com, onde tinha como companheiro o também, falecido, Professor Mário Rigatto. Sua vocação para o esporte levou-a a se especializar na área, tornou-se Médico Especialista em Educação Física e Desportos com diploma fornecido pela Escola Superior de Educação Física, em 1954.
Em julho de 1954 tirou o primeiro lugar no concurso público para médico-legista onde permaneceu até 1960.
No período de 1958-60 fez o Segundo Curso de Clínica Psiquiátrica na Faculdade de Medicina da UFRGS. Seu primeiro trabalho foi apresentado na I Jornada Gaúcha de Psiquiatria Dinâmica, realizada em Gramado. Esse trabalho foi publicado na revista Psiquiatria (Mostardeiro, Antônio L. B. Contribuição ao Estudo de Algumas Motivações da Sedução em Adolescentes. Rev. De Psiquiat. Do CELG. 1961; 1 (1,2,3):16-17.)
Recebeu título de especialista em psiquiatria pela AMB e depois o Título de especialista em Psiquiatria da Associação Brasileira de Psiquiatria. (Fundada em 1966).
Foi ainda em 1960 que fez concurso para Médico Psiquiatra Forense e assumiu o cargo em outubro de 1963.
Como psiquiatra foi eleito em 1971 com vice-presidente da Sociedade de Neurologia, Psiquiatria e Neurocirurgia do Rio Grande do Sul. Em 1972 tornou-se presidente. Uma das suas tarefas foi a de preparar o terreno para a separação das duas entidades que ocorreu em Assembléia Extraordinária em 23 de outubro de 1973
Mostardeiro, além de psiquiatra, era psicanalista e transitava nas duas especialidades com grande brilho e desenvoltura. Análise Pessoal em 1961. Seminários em 1963 na primeira turma da SPPA.
Concluiu seminários em 1967 e a supervisão em 1969.

Em 1992 participou de um grupo que fundou o Centro de Estudos Psicanalíticos de Porto Alegre que foi reconhecido pela International Psychoanalytical Association, no congresso de Barcelona, em 1997, como Sociedade Provisória da International. Mostardeiro foi analista didata nessa nova sociedade. Publicou vários trabalhos psicanalíticos. Um dos mais importantes foi sua participação no livro da IPA ”On Freud’s ‘Analysis Terminable and Interminable”. Edited by Joseph Sandler Contributors: Jacob A. Arlow, Arnold M. Cooper, Terttu Eskelinen de Folch, Peter Fonagy, André Green, Harald Leupold- Löwenthal, A. L. Bento Mostardeiro, Ethel Spector Person, David Rosenfeld, Joseph Sandler, David Zimmermann.
( Rev. SBP de PA. 2003,5(2) 577-596).

Sua ligação com o Professor David Zimmermann o levou a acompanhá-lo em todas as atividades. Tornou-se prof. Ajunto do Departamento de Psiquiatria e Medicina Legal da Famed –UFRGS.
Quando o Professor David foi jubilado na Famed e decidiu fundar um novo Curso que hoje é parte da FUMM, Mostardeiro o acompanhou e trabalhou nessa atividade até sua morte.
Presidente duas vezes, supervisor, professor várias vezes homenageado, membro do conselho dirigente da fundação foi sempre uma pessoa correta, retraída a ponto de ser considerado tímido, mas na verdade exercia suas melhores qualidades de continente das ansiedades e amigo disponível em todas as horas. As reuniões clínicas contavam sempre com sua participação, mesmo em épocas que enfrentava problemas graves de saúde na família. Tanto sua esposa como ele enfrentaram estoicamente a moléstia que acabou por tirar a vida de ambos. Sem queixas, sem temor, com grande desprendimento nos permitiu ter sua companhia até os últimos dias.

 

Trechos de uma entrevista de Mostardeiro para a Revista Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre. (Revista Psicanálise, Vol. 5(2)2003)

 

SBPdePA – Gostaríamos que nos falasse da tua trajetória pessoal como psicanalista.

Mostardeiro – A minha trajetória para chegar ao mundo analítico começou com o Curso de Especialização em Psiquiatria. Comecei em 1958 e conclui em 1960. Depois, em61, eu comecei a minha análise; em 63 entrei em seminários (sou da primeira turma da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre como tal ela foi reconhecida em 63); concluí os seminários em 1967, e as supervisões em 69. Fiz uma supervisão com o Roberto Pinto Ribeiro, e uma supervisão com o Paulo Guedes, e depois supervisionei durante quatro anos, por conta própria com o Mário Martins. Foi um supervisor excepcional. Meus colegas de formação foram Beatriz Picoli, Carlos Knijnik, Marcelo Blaya Perez, Silvio Raya Ibañez, Curt Schwarz e David e Zimerman.

 

SBPdePA – Qual a tua experiência como professor de Psiquiatria, Psicoterapia e Psicanálise? Como vês a integração entre essas disciplinas?

Mostardeiro – A Psicoterapia Psicanalítica nasceu da Psicanálise, e acho que o mal dela, se se pode dizer assim, é que até hoje ela se alimenta da Psicanálise. Então, na verdade, ela é uma aplicação da Psicanálise. É estudar o aparelho psíquico, estudar suas características e adaptá-las numa aplicação que pode variar de muitas formas. Tu podes fazer, por exemplo, uma psicoterapia de apoio, em que tu estás usando o apoio através do entendimento que tu tiveste do caso, que a psicanálise te deu, a medida que tu sabes onde é o ponto necessário para apoiar aquele paciente. Tu podes entender uma causa externa desencadeante, e ver a possibilidade de remover essa causa externa, o que também pode ser entendido através da compreensão psicanalítica.

 

SBPdePA –Porque isso seria o mal dela?

 

Mostardeiro – Porque ela não cria corpo próprio. Eu acho que as coisas mais importantes, mais profundas da psicoterapia, ela não tem. Existe uma coisa que eu acho que a gente tem de pensar que é a compreensão, o entendimento mesmo, que a gente pode ter das pessoas, do psiquismo. É aquilo que vocês falaram há pouco: a transferência e a contratransferência. No momento que tu não tens um instrumento de trabalho em que tu vais tratar disso, vais entender, o avanço fica pequeno. O verdadeiro insight, a verdadeira compreensão, eu acho que só se dá através da compreensão da transferência e da contratransferência. Não é que isso não seja possível na psicoterapia, mas acho que em psicoterapia isso só ocorre através de flashes.

 

SBPdePA - Mais alguma coisa da história? Bem, tem da tua história, a pergunta sobre o que foi marcante na tua experiência no Instituto Psiquiátrico Forense?

 

Mostardeiro – O que é que eu posso dizer sobre isso? O Instituto Psiquiátrico Forense, não sei como ele está hoje, mas na minha época nós atendíamos muitos pacientes psicóticos e eles tinham um diferença em relação ao paciente do Hospital Psiquiátrico São Pedro, eles eram indivíduos que tinham concretizado a fantasia inconsciente. Em uma ocasião eu estava examinando um psicótico para fazer o laudo dele, e ele disse que “tinha matado o pai dele porque o pai dele estava no caminho dele e impedia que ele crescesse”. E eu perguntei assim: “tem mais alguém que atrapalha a tua vida?” “Minha mãe”, ele respondeu. Era um homem que dizia às pessoas que ele mataria seriam o pai e a mãe. O pai ele já havia matado; se ele saísse de lá iria matar a mãe. É uma concretização de uma fantasia infantil. Eu diria, assim, nesse sentido os pacientes do manicômio permitiam uma visão, uma compreensão de coisas que, em geral, nos outros pacientes não estão presentes; as coisas ficam mais caricaturais, mais visíveis. Só que a impressão que me dá é que este tipo de pessoa não tem volta. Havia, por exemplo, um paciente psicótico que tinha estuprado a mãe; nunca houve melhora em seu quadro psicótico. Nesse tipo de pessoa a possibilidade de reparação não existe. Eu tive pacientes, lá com quem eu trabalhei esse tipo de fantasia e que, no momento em que iam adiante e se defrontavam com a realidade, eles dizia “só resta me matar”. Quando um paciente chegava a nesse ponto e dizia isso, a sensação que dava n gente era horrorosa, uma das piores coisas que senti na minha vida; transmitia uma angústia, um negócio pavoroso. No manicômio nós conseguimos mudar alguma coisa no sentido de sedar ao paciente uma liberdade de saída; isso era para pacientes especiais e, também, se a gente via que a possibilidade de recidiva era algo remoto. Esse tipo de paciente que a gente está falando comete um crime de um tipo muito específico. Então, o risco que ele apresentava de voltar a delinqüir era o de a gente surpreender no comportamento dele alguma aproximação de uma situação em que ficasse de novo presente a história do seu conflito.

Na sequência da entrevista fala de melhoras em que não sabe a que atribuir, dando uma idéia que não se deve desanimar no trato com os pacientes.

 

 

Essa nossa homenagem, obedece a sua maneira de ser. Simples, sincero, avesso ao brilho pessoal. Ficará para sempre guardado em nossos corações agradecidos.
Adeus professor Mostardeiro.


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