RESUMO
A psiquiatria no século XXI caminha
para uma abordagem molecular e evolutiva das doenças metais. A relações entre
variabilidade genômica e funcionalidade de circuitos neurais, começa a
viabilizar diagnósticos preditivos e tratamentos eletivos em intervenções
precoces.
A psiquiatria
continua em uma calmaria que já dura meio século. Nada acontece, somente se
amplia aqui e ali a classificação de transtornos, se produz novos medicamentos
e diretrizes, mas não há o que Thomas Insel, diretor do NIMH/EUA, enfatizou no
congresso da APA em 2008: “inovações disruptivas” (Moran, 2008). Ele se referia
ao contraste entre a cardiologia e a oncologia e o tratamento das doenças
mentais, enfatizando como as ferramentas genômicas contribuíram para
reconceitualizar a natureza das doenças e reduzir dramaticamente a mortalidade
das pessoas com doenças cardiovasculares e câncer. O estudo da variabilidade
genômicas na psiquiatria poderá aprofundar nossa compreensão sobre como isto
afeta os circuitos neurais e a distribuição de neurotransmissores, e como isto
pode explicar as doenças mentais, além de contribuir para a descoberta de
biomarcadores associados à patofisiologia dos transtornos mentais.
Precisamos trazer a psiquiatria para a ciência do século XXI.
A psiquiatria até
o momento não se aprofundou o bastante na natureza das doenças mentais,
preferindo construir instrumentos diagnósticos para a complexa demanda que a
classificação atual impõe. Enquanto isso, na maioria das vezes o tratamento é
conduzido por tentativa e erro, beneficiando-se a indústria com a enxurrada de
medicamentos novos que deposita no mercado todos os anos. Entretanto,
progressos vem ocorrendo na biologia psiquiátrica, por exemplo, os estudos
comparativos entre o funcionamento cortical e imagens cerebrais em pessoas
saudáveis e com doenças mentais. Um exemplo pode ser visto no artigo de Shaw e
col. (2007) sobre o retardo na maturação cortical observado em crianças com
TDAH. Os autores evidenciam o TDAH como uma doença da maturação cortical, um achado
que coloca novas questões para a psiquiatria como, p. ex., qual a causa deste
retardo? Que medicamentos reduzem o impacto deste retardo no comportamento e na
cognição? Ou seja, temos agora uma oportunidade de pensar de um modo bem
diferente do atual senso comum psiquiátrico sobre este transtorno.
Insel chamou a
atenção para um fato muito importante em psiquiatria, mas pouco considerado
pelos próprios psiquiatras. Dizer que as doenças psiquiátricas são alterações
cerebrais não é o mesmo que dizer que são doenças neurológicas, definidas em
referencia a lesões típicas de regiões especiais do cérebro. De fato, parece
que o complexo comportamento social, incluindo o comportamento anormal,
sentimentos e cognição que caracterizam uma doença mental – estão relacionados
ao desenvolvimento anormal de redes ou circuitos interconectadas no cérebro,
incluindo aqui o funcionamento (ver Câmara, 2008).
A neurologia
lida com lesões focais, sítios onde encontramos células mortas, enquanto a
psiquiatria lida com problemas de funcionamento anormal de circuitos. Podemos
comparar grosseiramente esta diferença com uma analogia entre um infarto agudo
do miocárdio e um problema de alteração do ritmo cardíaco; no primeiro caso,
temos uma lesão focal com necrose de células cardíacas; enquanto no segundo
temos uma alteração funcional na geração de energia bioéletrica na fibra de
Purkinje.
A área 25 de
Brodmann, localizada sob o corpo caloso, pode ter um papel central na
depressão. Em pessoas que sofrem de depressão maior esta área apresenta-se
reduzida e com maior atividade metabólica. Experimentos sugerem que o
tratamento com antidepressivos ou terapia cognitiva-comportamental reduz a
atividade metabólica desta área (Juan, 2008). Por outro lado, a redução desta
área não deve ser considerada uma lesão focal, ao contrário, ela parece ser uma
estação canalizadora para outras partes do cérebro, de serotonina e outros neurotransmissores
associados com depressão e ruminação negativa. Não se deve pensar que esta área
é a “localização” da depressão, mas um circuito associado com a depressão. Esta
área de matéria branca situa-se na encruzilhada de uma rede formada por
importantes vias, e é fortemente relacionada à regulação pelo cortisol e
resposta ao estresse, modulação do sono, modulação e tráfego da serotonina,
regulação das emoções no sistema límbico, motivação e impulso.
Muitos
transtornos psiquiátricos decorrem de desenvolvimentos anormais, começando
muitos anos antes de se manifestar como condição clínica. Um exemplo bem conhecido
é o de adolescentes portadores do gene APOE4 da doença de Alzheimer. Eles
apresentam volume diminuído nas áreas críticas do córtex e um déficit sutil de
cognição, décadas antes de exibirem os sintomas do Alzheimer.
Fatos como esses
nos mostram que o aprofundamento da pesquisa em psiquiatria com as ferramentas
moleculares e genômicas atuais trará meios seguros de diagnosticar uma doença
mental na fase ainda em que ela não tem a manifestação clínica típica.
Pesquisas neste sentido estão sendo desenvolvidas em relação à esquizofrenia,
uma doença que ainda se pensa ser uma psicose, quando isto é apenas o efeito
mais grave de um longo processo de desenvolvimento. Ainda não somos capazes de
detector as fases iniciais desta doença, quando ainda é possível obter uma
remissão. Estudos sobre o período pré-clínico que precede o surto psicótico
agudo mostram que ele pode ser predito com 80% de certeza em adolescentes com
história familiar sugestiva e anamnese associados a déficits e outros sintomas
anômalos.
A
preditividade de um diagnóstico é sempre uma coisa importante em psiquiatria,
mas ainda é uma expectativa. Isto virá a se tornar realidade quando estudos
moleculares e genômicos revelarem a variabilidade inerente em estudos
longitudinais com indivíduos com doença mental, comparativamente a um controle
sem a doença ou história familiar da mesma. Poderemos então ter uma idéia de
como isto se reflete na funcionalidade de circuitos cerebrais, e deste modo poderemos
estabelecer classificações diagnósticas baseadas na preditividade dessas
variações.
A
variabilidade molecular pode ser avaliada como fator de risco. Algumas doenças
com variabilidade mínima oferecem riscos mínimos, insignificantes, outras podem
contribuir com 2 a 3% ou mais de risco para o desenvolvimento de uma condição. A
contribuição entre fatores de risco e fatores protetores definirá a
probabilidade do sujeito vir a desenvolver uma doença grave. Não se trata aqui
de procurar genes específicos, mas em estabelecer correlações seguras entre
variabilidade de sequências genômicas e outros possíveis marcadores e evolução
clínica obtidos em estudos longitudinais.
A nova
psiquiatria começa a se delinear a partir dessas perspectivas, e naturalmente outras
abordagens virão. É, portanto, prioritário o desenvolvimento de pesquisas que
ampliarão o diagnóstico e modificarão os tratamentos atuais com foco nas intervenções
precoces.
Referências
·
Câmara FP. Dinâmica não linear e psiquiatria: a natureza dinâmica
das doenças mentais, Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental,
2008; 11(1): 105-118,
·
Juan Y. Deep Brain Stimulation Studied for
Depression, Psychiatr News, 2008; 42(12); 20.
·
Moran M. Insel: 'Different Kind of Science'
Poised to Transform Psychiatry, Psychiatr News, 2008; 43(13): 6.
·
Shaw P, Ekstrand K, Sharp W, et al. Attention-deficit/hyperactivity
disorderis characterized by a delay in cortical maturation, PNAS, 2007; 49:
19649-19654.
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