Volume 22 - Novembro de 2017
Editores: Giovanni Torello e Walmor J. Piccinini

 

Setembro de 2008 - Vol.13 - Nº 9

História da Psiquiatria

TARDES NA TAMARINEIRA

Há quarenta e três anos atrás, recém saído do Ipub, chegou à cidade de Rio Grande, no Rio Grande do sul, um pernambucano de boa cepa, o Dr. Oswaldo J. de Paula Barbosa.

Formado em Recife, estagiário da Tamarineira, residente no serviço do Leme Lopes, radicou-se nos pagos e construiu uma vida intensamente produtiva, Psiquiatra, professor da Faculdade de Medicina da FURG, casado, pai de três filhas e navegador nas horas vagas. Recentemente, no dia 5 de setembro de 2008, "lançou um livro com título instigante; 'Luz de Alcançado" - Memórias de uma Psiquiatra Navegante (Editora da FURG, 216 páginas, 2007). Esse livro é um documento histórico em que o autor relata os primórdios da psiquiatria na cidade do Rio Grande, a estruturação de seu hospital psiquiátrico e o desenvolvimento da Cadeira de Psiquiatria na Faculdade de Medicina da Fundação Universitária do Rio Grande (FURG). Testemunhamos o lançamento do livro em concorrida sessão de autógrafos onde estavam presentes as personalidades mais significativas da cidade e de sua universidade.

Tempos atrás o autor me enviara um capítulo de outro livro que está escrevendo e como se trata de um relato cheio de afeto, mas com notas importantes sobre uma época da psiquiatria em Recife, resolvemos trazê-lo para os leitores de Psiquiatria on-line. (Walmor J. Piccinini)

TARDES NA TAMARINEIRA

Oswaldo J. de Paula Barbosa

 

Bonita muito bonita a entrada do Hospital de Alienados da Tamarineira , no Recife.O Hospital fica situado na Avenida Rosa e Silva,um pouco adiante da sede do Clube Náutico Capibaribe, nos Aflitos um dos bairros mais charmosos do Recife.

            Um corredor calçado vai do portão até a entrada do primeiro prédio.

            Dos lados do caminho de pedra, lindas e enormes palmeiras dão um ar solene à passagem.

            O transito de pessoas e veículos é intenso. Antes de chegar à porta de entrada o corredor passa por uma pequena praça que tem bancos de cimento cobertos com azulejos, onde nós acadêmicos internos e médicos residentes costumávamos ficar ao cair da tarde para conversas sobre política, literatura; medicina e principalmente psiquiatria.

            Próximo à avenida, do lado direito havia um prédio para atendimento de pacientes privados, em regime de internação e do lado esquerdo a casa do capelão, um padre de meia idade muito simpático que vivia junto com a sua irmã mais velha, uma senhora solteirona muito educada e tranqüila.

            O Hospital de Alienados da Tamarineira, (esse era o seu nome) ocupava uma área enorme. Atrás havia uma chácara administrada por um casal de japoneses,os quais tinham uma filha muito bonita chamada Yuricó. Dessa chácara eram obtidos produtos horti-fruti-granjeiros  de primeira qualidade.

            Atrás havia também um campo de futebol de dimensões oficiais de onde se podia vislumbrar, uma movimentada avenida, creio que a Avenida Norte.

            O primeiro edifício abrigava a sala de espera. Do lado direito da mesma estava a capela e a área destinada à residência das religiosas que atuavam na parte administrativa e na parte de enfermagem. Também eram responsáveis pela farmácia e pela cozinha. Havia também na clausura um noviciado para as jovens que aspiravam pertencer à congregação.

            Diàriamente havia missa pela manhã e aos sábados e domingos missa de manhã e de tarde. Nos tempos festivos como no mês de maio, no mês de Junho, no Natal, havia novenas e bênçãos.

            Os ofícios religiosos eram freqüentados pelas famílias das redondezas, que acorriam aos eventos, acompanhadas das suas belas filhas, causando em todos nós uma vontade ainda maior de freqüentar a nossa “pracinha”.

            Do lado esquerdo da sala de espera ficava a secretaria do hospital onde trabalhava o pessoal administrativo e ao lado dessa sala, o gabinete do diretor do Hospital. No corredor ficava uma escrivaninha que era mais precisamente uma carteira de colégio, daquelas que se levantam o tampo, só que tamanho gigante. Era a área destinada ao plantão do acadêmico interno.

            Ali eram resolvidos problemas de internação hospitalar, (no Recife naquela época dizíamos internamento)altas, altas a pedido, queixas de familiares de pacientes. Nós acadêmicos internos filtrávamos o que podíamos para que somente chegassem ao diretor os fatos relevantes.

            Trabalhavam junto conosco no horário comercial dois porteiros, os quais nos prestavam toda a assessoria que necessitávamos.

            Havia um porteiro magrinho, calmo, educado que gostava de ficar andando de um lado para outro no saguão,sempre fumando um cigarrinho. Lembro bem dele, do nome dele e da lenda que se contava sobre ele.

            Seguidamente ligavam para o Hospital procurando saber notícias sobre o estado dos pacientes, principalmente de pacientes provenientes do interior do estado. Nosso porteiro de vez em quando deixava o telefone pendurado no gancho e em vez de perguntar ao médico dava uma voltinha e depois respondia ao familiar: -O paciente está bem melhor!...Uma vez quase se complicou.

            A sala de espera sempre estava cheia de gente. Eram familiares de pacientes, médicos, enfermeiros, assistentes sociais que por ali passavam ou chegavam ou saiam do trabalho.

            Os pavilhões masculino e feminino  eram enormes.

            Depois do primeiro prédio havia um caminho coberto que levava ao pavilhão de trás e do lado direito do mesmo ficava o pavilhão masculino e do lado esquerdo o pavilhão feminino. Eram prédios de dois andares. Lembro o nome de apenas um dos dois: Pavilhão Juliano Moreira.

            O pavilhão masculino abrigava pacientes no térreo e no primeiro andar.

            No térreo ficavam os pacientes chamados naquela época de indigentes. Eu prefiro chamá-los pacientes pensionistas do estado.

            Ficavam nos quartos (amplos e ventilados, acomodavam muitos pacientes) e também nos corredores, haja vista que a população hospitalar superava em muito a capacidade para a qual o estabelecimento havia sido construído.

            Havia também o recurso do “Leito Chão” (expressão cunhada por um dos mais estimados mestres que tive no Instituto de Psiquiatria da Universidade do Brasil, Luis Cerqueira) existente em situações de forte aumento de demanda.

            No pavilhão masculino, no térreo, ficavam o serviço de eletroconvulsoterapia e o serviço de insulinoterapia.

            Também no térreo ficavam os consultórios para atendimento de pacientes internados por parte dos médicos e dos acadêmicos internos.

            Esse pavilhão abrigava também o “Bloco Cirúrgico”.

            No andar de cima havia os quartos para os pacientes, um ou dois consultórios e as dependências dos médicos residentes e dos acadêmicos internos.

            Os médicos internos dispunham cada um do seu aposento, com relativo conforto.

            Nós acadêmicos internos dispúnhamos de dois tipos de alojamento.

            Um quarto grande, com capacidade para seis estudantes de medicina, arejado e com um quarto de banho relativamente confortável. Era uma suíte pois havia uma ante-sala com uma mesa redonda grande, refrigerador pia, filtro para água e espaço para quem quisesse colocar um fogareiro ou uma torradeira.

            Havia ainda dois outros quartos confortáveis no fim do corredor, com duas vagas cada um e que eram ocupados pelos acadêmicos mais antigos, quase sempre doutorandos.

            O “Pavilhão Feminino”,que ficava à esquerda do caminho coberto aquele do qual já falei,tinha mais  ou menos a mesma distribuição.

Atrás ficava o pavilhão onde estavam a cozinha, a lavanderia, a barbearia, o refeitório dos médicos e acadêmicos e almoxarifado.

            Entre esse pavilhão de trás e o da frente e entre o corredor coberto e o pavilhão masculino ficava uma edificação que abrigava a parte burocrática do Manicômio Judiciário, o qual foi dirigido durante todo o tempo em que estive por lá pelo eminente psiquiatra pernambucano  Galdino Loreto.

            Galdino Loreto era de tradicional família pernambucana, filho de governador do estado. Era homem de fino trato. Católico convicto era chefe de uma bela família. Era uma pessoa encantadora. Dono de uma bela voz de barítono, nas reuniões sociais com os mais próximos,costumava brindar-nos com lindas canções napolitanas.

            Era professor conceituadíssimo. Homem muito ligado ao professor José Lucena.

            Convivi e aprendi muito com ele no Hospital de Alienados da Tamarineira e na Cadeira de Psiquiatria que funcionava no Hospital Pedro II.

            Galdino Loreto foi um dos primeiros psiquiatras de Pernambuco e do Brasil a estudar de modo aprofundado as psicoterapias.

            Embora atendendo a uma população hospitalar respeitável (mais ou menos 2.500 pacientes e um número alto de funcionários), a comida que era servida no Hospital de Alienados  era de boa qualidade, para todos.

            A cozinha era chefiada por uma freira dinâmica, trabalhadora,de temperamento alegre e comunicativo.

            Todos nos ficamos felizes com o romance da chefe da cozinha com o barbeiro do hospital, principalmente com o final feliz. Eles casaram e foram muito felizes.

            Eu entrei para a Tamarineira em 1960 quando estava no terceiro ano médico a convite do Lamartine Holanda Junior que era acadêmico interno concursado e estava cursando o quinto ou o sexto ano da Faculdade de Medicina da Universidade do Recife.

            Éramos companheiros na Juventude Universitária Católica, movimento evangelizador ligado à “Ação Católica”,muito prestigiado pelo Vaticano.

Naquele tempo a Ação Católica tinha muita penetração nas diversas camadas sociais e  tinha uma organização apuradíssima. Havia a JAC, Juventude Agrária Católica, a JEC, Juventude Estudantil Católica, JIC, Juventude Independente Católica, JOC,Juventude Operária Católica e a nossa JUC. Era importante fazer parte da Ação Católica. Muitos daqueles jovens da JEC e da JUC hoje são líderes desempenhando funções  nos mais altos escalões brasileiros.Eu posso dizer que aprendi muito. Lições que levei para o resto da minha vida.

            Para cada segmento um padre da mais alta competência, jovem, recém-chegado de Roma.

O assistente da JUC era o Padre Almeri Bezerra, magrinho, muito pálido com brilhante formação em Roma. Soube depois que ele sofreu muito durante a ditadura. Lamartine era de direita e eu um esquerdista moderado, mas éramos bons amigos.

Trabalhei um ano como voluntário, acompanhando os plantões do Lamartine e aprendi muito com ele.

            Além do convívio de trabalho e religioso na JUC, convivíamos no meu bairro, a minha querida Madalena, pois ele namorava uma amiga minha muito bonita a Socorrinho, que morava na Visconde de Albuquerque, bem perto da minha casa que era na Lopes de Carvalho. Eu achava interessante os nomes dos irmãos da Socorrinho: Edvalson e Edvilson.

Isso tudo foi em 1960.

            Em1961 houve concurso para acadêmico interno do Hospital da Tamarineira.

Fui aprovado em terceiro lugar. Em primeiro lugar ficou o Delson Castelo Branco da Rocha, um piauiense estudioso.

E que também jogava muito bem futebol. Delson era brilhante aluno da Faculdade de Medicina da Universidade do Recife, que ficava no Derbi, um lindo parque recifense. Era um casarão bonito, revestido de Azulejos.

            Delson era um moço bem humorado, acostumado ao brilho na vida universitária. Estava sempre entre os melhores alunos de sua turma. Tinha um relacionamento excelente com todos nós.Era um aluno aplicado.Seus livros, seus cadernos eram muito bem cuidados. Suas provas escritas eram realizadas com todo o cuidado possível. Além dos acertos era um luxo em termos de caligrafia e organização.

            Além de receber como acadêmico interno, Delson era moço de classe média no Piauí.Estava sempre impecavelmente  vestido, com as melhores calças e camisas e os mais modernos sapatos.

            E como era bom depois de receber os honorários, tomar um ônibus ou até mesmo um táxi de vez em quando e ir ao centro do Recife fazer compras.

            As lojas melhores estavam no bairro (ilha) de Santo Antonio, e no bairro da Boa Vista.  Rua Nova, Rua da Imperatriz, Avenida Guararapes e ruas situadas na volta delas.

            Lojas que já dispunham de ar condicionado e de outros recursos de conforto para os clientes.

            Era o tempo da camisa ”Volta ao Mudo”, das camisas de “Helanca” um tecido novo que deixava a camisa além de bonita, extremamente confortável.        Os sapatos eram “Terra”,”Samello”.

            Os ternos  eram de “Tropical Inglês” ou de linho branco “irlandês” S 120, que quanto mais  amassado mais bonito.

            Nas tardes de folga no centro do Recife fazia parte do programa tomar um chopp no bar Savoy, famoso pelo chopp mas por muitas outras coisas também. Dentre elas a casquinha de siri. Era freqüentado pela nata da intelectualidade pernambucana não importando a orientação ideológica.

            O “ Savoy” foi cantado em verso e prosa. Destaque para a poesia criada pelo poeta pernambucano Carlos Pena Filho, a qual estava impressa em uma placa de aço inoxidável  no recinto destinado aos freqüentadores.

            Ainda nessas tardes costumávamos tomar um sorvete na “Sertã”, que ficava na Avenida Guararapes ou  atravessar a Ponte Duarte Coelho e na rua da Aurora. tomar um sorvete no Gemba, a melhor sorveteria do Recife a qual pertencia a um japonês que também era o responsável pelo sucesso dos sorvetes. Depois, sentar nos jardins da margem do Capibaribe, mais precisamente em frente ao Cinema São Luis, para desfrutar do clima agradável das tardes do Recife e contemplar a beleza da mulher pernambucana.

            Voltando ao assunto do concurso para acadêmico interno da Tamarineira.

Em segundo lugar passou o Luis Salvador de Miranda Sá Junior. Eu passei em terceiro lugar nesse concurso.

            O Luis Salvador havia sido meu colega e amigo de infância, pois fizemos juntos o curso primário no Instituto Nossa Senhora da Conceição, um conceituado estabelecimento de ensino  que estava situado na Avenida  Real da Torre, bem perto da esquina da rua Lopes Carvalho. O nosso uniforme, lembro bem, era calça curta azul-marinho de tropical (difícil pois no clima do Recife fazia-se necessário um forro pois não agüentaríamos de tanto que pinicava), blusa branca e sapatos “tank”(quem se lembra?) pretos e meias pretas. Luis Salvador era um menino muito magro, de canelas finas, alto para a idade, de pele muito branca e sardenta. Pelo que posso relacionar na minha cabeça é o amigo mais antigo que tenho. Isso era lá por 1946.

            Por ser o meu amigo mais antigo, desde o primeiro ano primário e por ser meu amigo até hoje é natural que eu tenha motivos de sobra para falar sobre ele. Quando estudantes de medicina, e em especial na época em que éramos acadêmicos internos no Hospital de Alienados da Tamarineira, vivemos juntos momentos de grande importância para Pernambuco e para o Brasil.

            Luis Salvador era homem ligado a partido político, do qual era um verdadeiro sacerdote, capaz de fazer os maiores sacrifícios.

            Eu era simpatizante e participei de trabalhos e lutas para ver um Brasil melhor. Sempre fui fiel aos meus ideais.

            Quando menino, ainda estudante do curso ginasial li um livro recomendado por um padre amigo, que se intitulava ”Brilho da Mocidade” do qual guardo uma frase que até hoje me guia e pela qual me incomodei algumas vezes na vida:”É melhor estar de acordo com a minha consciência e em desacordo com todos do que estar de acordo com todos e em desacordo com a minha consciência”.

            Um belo dia cheguei no Sanatório Recife e soube da demissão do Luis Salvador. Não concordei. Estava certo de que havia sido uma demissão por motivos políticos. Lutei, me incomodei e não consegui reverter a situação. Ato continuo, pedi a minha demissão do Sanatório Recife. Foi uma decisão difícil pois eu gostava muito, mas muito mesmo, do Sanatório Recife. Era daqueles lugares em que a gente se sente bem trabalhando. Como dizemos hoje, um lugar de alto astral.

            O diretor administrativo, filho do grande mestre Ulisses Pernambucano de Melo, era meu amigo, chamou-me no gabinete e disse que não fizesse aquilo pois eu estava hipotecando solidariedade a quem não merecia. Eu respondi que sentia muito sair da instituição mas era o que a minha consciência mandava fazer.

            Havia uma senhora de meia idade, de cabelos grisalhos, bonita, que era chefe da secretaria, que me falou a respeito do meu pedido de demissão lamentando muito a minha saída da instituição, mas que ela também tomaria a mesma atitude.

            Participamos juntos do SAI, Serviço de Assistência Itinerante, criado no primeiro governo  do Doutor Miguel Arraes de Alencar.

            A idéia do Serviço de Assistência Itinerante era excelente e colocá-la em prática foi para nós, deveras agradável.

            O serviço era coordenado pelo Doutor Bianor Theodósio, médico idealista, trabalhador. Disse-me uma vez que sempre sonhara fazer um trabalho assim. Aquilo era uma coisa de ideal, de realização de desejos.

            Trabalhava feliz, subia aqueles morros do Recife como um menino que saia para brincar. Ao seu lado,a figura simpática,divertida de um dentista  que se chamava Liedo.

            Os dois conduziam com muita serenidade o Serviço de Assistência Itinerante.

            O Doutor Bianor Theodósio era casado com a Doutora Naíde Theodósio, um ícone da pediatria pernambucana.

            A estrutura do Serviço de Assistência Itinerante era simples e eficaz. Creio que mesmo hoje em dia seria uma alternativa de muita validade para o atendimento dos menos favorecidos.

            Havia equipes de atendimento e esse atendimento era focado mais nos aspectos preventivos. As equipes eram constituídas de um médico,um dentista,um enfermeiro,dois acadêmicos de medicina e dois auxiliares de enfermagem. As equipes eram programadas para terem uma parte com rotatividade, justamente os estudantes de medicina que não podiam ausentar-se muito das atividades acadêmicas.

            Cada equipe passava uma semana em um município, onde eram oferecidos atendimento médico e odontológico. Lembro bem que na época em trabalhei no SAI havia uma preocupação especial no tratamento de pacientes portadores de tracoma.

            O ambiente de trabalho era muito agradável, onde a tônica era o companheirismo.

            Fizemos parte das duas primeiras equipes. Luis Salvador foi para uma cidade que não lembro e eu fui para Correntes, perto de Garanhuns.

            Gostei de Correntes. Cidade de clima ameno, boa para se morar.

            Ao chegar tive oportunidade de conhecer um irmãos de um nosso colega de turma, o Veras de Siqueira. Conheci também  uma prima do Siqueira, a senhorita Bébé Veras, a qual brindou a nossa equipe com um recital de acordeon.

            Foi uma semana de muito trabalho mais de muita gratificação. Saímos felizes com um sentimento positivo, um sentimento de realmente termos trabalhado em algo diferente, de uma maneira diferente, ajudando o Brasil a ter novas alternativas de atendimento à saúde, tanto do ponto de vista preventivo como curativo.

            Pena que já foi no fim do ano, perto da nossa formatura, mas valeu e muito para a minha vida pessoal e profissional, essa rica experiência no SAI.

            Creio que nos primeiros dias de Novembro recebi uma das mais importantes noticias da minha vida. Fui chamado pelo meu querido professor José Lucena Cavalcanti da Motta Silveira e comunicado que havia sido escolhido para fazer a minha residência médica em psiquiatria no IPUB, Instituto de Psiquiatria da Universidade do Brasil, Serviço do Professor José Leme Lopes. Foi uma das maiores alegrias da minha vida.

            O Luis Salvador, também foi escolhido, mas em função do processo político-histórico brasileiro,desistiu da indicação e decidiu continuar trabalhando no governo do Doutor Miguel Arraes de Alencar, creio que no próprio Serviço de Assistência Itinerante.

            Passei muito tempo sem ver o meu amigo.

            Voltamos a nos encontrar quatro anos depois, no Congresso de Psiquiatria de Porto Alegre em 1967.           Foi muito bom ter reencontrado o meu amigo depois de tanto tempo sem saber notícias dele e o melhor encontrá-lo bem.

            Falou-me que estava em Mato Grosso, onde já atuava como docente de psiquiatria.

            Estávamos em um Brasil diferente, mas bem diferente mesmo daquele que tanto sonhávamos na adolescência. Um Brasil muito distante das nossas utopias.

            Colocamos os assuntos em dia. Fiquei sabendo dos amigos do Recife, jovens brilhantes, competentes, uns estavam presos outros exilados e outros mortos.

            Nessa época de acadêmico interno do Hospital de Alienados da Tamarineira eu convivi com um dos professores mais inteligentes que conheci na minha vida: José Otávio de Freitas Junior.

            Um intelectual que orgulhava o Recife e o Brasil.

            Era médico psiquiatra, sociólogo, antropólogo, filósofo e literato. Falava e escrevia como poucos. Publicou vários livros. Eu tinha um livro escrito por ele que era uma verdadeira relíquia. Penso que foi o primeiro livro que ele publicou: Ensaio de Crítica de Poesia. Na diáspora esse livro desapareceu.

            Professor José Otávio de Freitas Junior estava sempre às voltas com cursos, conferências, congressos, no Brasil e no exterior.

            Não sei quem me indicou para trabalhar com o mestre José Otávio de Freitas Junior. Creio que foi o Frederico, ou melhor, o Fred, uma figura humana interessantíssima que era doutorando quando eu entrei na Faculdade e Ciências Médicas de Pernambuco.

            O Fred era de família abastada no Recife, mas era político de esquerda, ligado a partido. Era um soldado da sua ideologia marxista-leninista. Guardo muito boas lembranças do Fred. Vimo-nos pela última vez no Rio de Janeiro, pouco temo antes do golpe militar de 1964.

            Mas o que sei é trabalhei dois anos com o Professor José Otávio de Freitas Junior. Fiz parte da sua equipe de trabalho que atendia os exames médicos e psicotécnicos para motorista no estado de Pernambuco.

            O Professor José Otávio de Freitas Junior, morava na Rua Dom Bosco num palacete que havia pertencido ao seu pai, eminente médico pernambucano, Doutor José Otávio de Freitas.

            Era uma residência muito bonita, confortável e que dispunha de um porão,onde o mestre José Otávio de Freitas Junior tinha a sua biblioteca,o seu gabinete de estudo.

            Essa casa ficava em frente ao palacete de Pessoa de Queiroz, na verdade o que eu via ali desde os meus tempos de adolescente do Colégio Salesiano, era um prédio em ruínas, que depois fiquei sabendo ter sido incendiado em um revolução no Recife.

            Ao lado da residência ficava uma edificação onde estava o consultório do Doutor José Otávio e as salas onde realizávamos os exames psicotécnicos. A equipe regularmente fazia viagens ao interior do estado para aplicação dos testes.

            Aprendi muito com o professor José Otávio e através dele conheci muitos intelectuais brasileiros e estrangeiros, que costumavam visitá-lo.

            SOUBE QUE O MESTRE HAVIA SE TRANSFERIDO PARA O Rio de janeiro onde fez também muito sucesso profissionalmente, mas aí eu já estava na cidade do Rio Grande, a minha nova e querida terra.

            Voltando ao assunto da nossa escola primária,o Instituto Nossa Senhora da Conceição.        

            Essa escola primária que era modelo no Recife era de propriedade da Professora Antonia Maranhão. Mesmo depois de tanto tempo lembro o nome de professoras que marcaram época por lá, como Dona Xanda e Dona Cirene. Dona Cirene de Assunção Morais algum tempo depois fundou o Educandário Morais, junto com a sua irmã mais velha, Dona Corina de Assunção Morais, no bairro da Torre, vizinho ao nosso bairro, o bairro da Madalena. Depois minha mãe me transferiu para o Educandário Morais, onde fiz a quarta série.

            A minha mãe confiava muito nas irmãs Assumpção Morais. Na minha professora e na futura professora e diretora Dona Corina. E assim fui eu para outro estabelecimento de ensino. Nova escola, novo endereço, mais distante, bem mais distante da minha casa.

            O Educandário Morais ficava na Torre num outro bairro. Eu ia a pé e voltava a pé, da rua Lopes de Carvalho na Madalena até a rua Conde de Irajá, na Torre.

            Eram três as irmãs Morais: Corina, Cirene e Carmem Célia que regulava de idade comigo e foi a minha primeira namorada. Sentávamos juntos na aula e de vez em quando ficávamos nos tocando com o pé embaixo da mesa.

            Aprendi muito em todos os aspectos. Fiquei bem preparado para o exame de admissão ao ginásio que fiz no Colégio Marista do Recife e aprendi muito para a vida.

            Ainda hoje, nas minhas caminhadas diárias pratico os exercícios respiratórios que a Dona Cirene ensinou.

            Hoje como médico-psiquiatra e psicanalista me dou conta de como sou forte e de como são fortes os meus irmãos e também como eram fortes os meus pais Oswaldo e Ivete.

            A grande família vendeu a Usina Estivas no Rio Grande do Norte, montada pelo meu avô que a montou trazendo inclusive técnicos da Alemanha e da qual eu fui o único neto que nela viveu.

            Eu vivi como um rei esses oito anos que passei na Usina Estivas. Eu era o primeiro neto e desfrutava de um ambiente de família bem estruturado, comandado pelo meu avô, Leônidas de Paula, um homem muito adiante do seu tempo.

            Testemunhava um empreendimento agro-industrial de primeira linha, superavitário. Mas a morte do meu avô, desmontou tudo, desorganizou tudo e com essa nova realidade os herdeiros fizeram o que puderam e cada um (eram dois) seguiu o caminho que considerou melhor.

            Meu pai, engenheiro agrônomo, pernambucano, foi com a família para o Recife para começar vida nova, totalmente diversa daquela que vivíamos no Rio Grande do Norte.

            Viajamos papai, mamãe, eu com oito anos e Marcelo bem pequeno.O Gileno nasceu depois, no Recife.

            Poso avaliar hoje como deve ter sido difícil para minha mãe deixar a minha avó e o resto da grade família dela no Rio Grande do Norte onde ela era uma rainha para assimilar a vida de classe média, média, no Recife.

            Ainda mais que meu pai foi trabalhar em um horto florestal e Arcoverde, sertão de Pernambuco, distando uns 300k do Recife. Ele ia na segunda feira e voltava no sábado, sempre viajando de trem e nós ficávamos sozinhos, na Madalena, primeiro na Visconde de Albuquerque, 123 e depois na Lopes de Carvalho 320.

            Na Visconde de Albuquerque ficávamos os três numa casa grande com um terreno enorme que não tinha muro nos fundos. Seguidamente  acordávamos assustados de noite, com pessoas que andavam pelo terreno.

            Depois de algum tempo mamãe comprou uma casa na rua Lopes de Carvalho, uma perpendicular à Visconde de Albuquerque,onde vivi o resto do meu tempo de Recife. Até ir para o Rio de Janeiro.

            Haja mudança! Haja Ego para enfrentar tudo isso!

            Durante todos esses tempos difíceis sobressaia o espírito de luta, a capacidade de tomar iniciativa, da minha mãe, Ivete.

            Desde esse tempo, ou seja desde o tempo em que eu me transferi para o Educandário Morais, eu nunca mais tinha visto o Luis Salvador. Voltei a encontrá-lo na Faculdade de Ciências Médicas de Pernambuco, no ano de 1958 quando iniciamos o curso médico. Tivemos pois um convivência fraterna por seis anos, três dos quais na Tamarineira como acadêmicos internos. Fizemos um bom trabalho, na Tamarineira. Fazíamos parte de uma turma excelente, de acadêmicos internos. Passamos e em outras vezes enfrentamos muitas situações, pois além de atividades profissionais, desenvolvíamos atividades político-sociais.

            Estávamos  engajados nas lutas sociais para um Brasil melhor,mais humano, onde as oportunidades fossem dadas a todos igualmente. 

            Eu era recebido pelos seus pais como um filho, na casa da família na Estrada dos Remédios, uma avenida muito importante no Recife.

            O pai do Luis Salvador era uma figura aravilhosa. Alto,forte, cabelos ruivos, personalidade marcante. E a mãe do Luis Salvador era suave, doce, muito inteligente e perspicaz, dotada de uma fina presença de espírito.

            Da mesma maneira ele era recebido por meus pais, na nossa casa na Rua Lopes de Carvalho 320, na Madalena, um lindo bairro recifense. Bairro calmo, arborizado. Oitiseiros, Tamarineiros, Jambeiros. Quando pisávamos nos jambos caídos, parecia que tínhamos derramado vinho tinto no chão.

            A Madalena do Ginásio da Madalena de propriedade do professor Aderbal Jurema, depois importante político pernambucano, irmão do conhecido político brasileiro, ex-ministro do presidente João Goulart,

            A Madalena que tinha e tem ainda hoje um mercado e tanto, chamado carinhosamente de “Bacurau” numa referência a um pássaro noturno,comum no nordeste e .que é famoso entre outras coisa por servir um excelente café da manhã,muito apreciado pelos recifenses.

            Na Madalena não havia uma igreja, havia uma capela em uma instituição das Irmãs de Santa Dorotéa, onde as pessoas católicas do bairro costumavam ir à missa aos domingos. Essa capela era atendida por padres holandeses da Congregação do Sagrado Coração de Jesus, que tinham a sua sede no bairro da Várzea, no Seminário Menor. Esses padres tinham ainda um Seminário Maior no Bairro de Camaragibe. Penso que hoje Camaragibe é um município da “Grande Recife”.

            Eu convivi muito com esses padres, depois no Colégio São João, na Rua Benfica, onde fiz parte do meu curso primário. Eram cultos. Vinham da Holanda.

            Só muito depois é que se constituiu a Paróquia da Madalena, a qual foi entregue aos cuidados dos padres redentoristas, aqueles que usam um colarinho branco duplo (para dentro e para fora). Essa congregação redentorista tem em seus quadros muitos padres holandeses. Esses padres pràticamente construíram a igreja com o auxílio dos fiéis.

             

            A nossa Faculdade de Ciências Médicas ficava na Madalena, na  Rua Benfica, uma rua linda, calma,arborizada cheia de palacetes do século IX e começo do século XX .

            A grande maioria dos palacetes abrigava instituições de ensino,lá pelos anos 60.

            O Colégio Regina Pacis, tradicional estabelecimento de ensino de segundo grau, que atendia ao publico feminino e era dirigido pelas irmãs agostinianas.

            O Clube Internacional do Recife, soberano, esbanjando beleza. Era um dos locais onde a alta sociedade recifense se reunia.Seus bailes de Carnaval eram famosos. Promovia um baile muito destacado, creio que na passagem do ano, o “Bal Masqué”.

            A Escola Politécnica, primeira escola privada de engenharia do Recife. O Colégio São João, onde fiz parte dos meus estudos secundários.Esse colégio era dos mais novos do Recife e era dirigido por padres holandeses.Tenho uma lembrança muito boa da minha presença ali, pois foi no São João que comecei para valer a estudar bastante e a participar da vida associativa,como dirigente do Centro Lítero Esportivo de Estudantes Católicos,o CLEEC,que editava um jornalzinho chamado Fagulha,do qual fui diretor.

            A Escola de Belas Artes e a nossa Faculdade de Ciências Médicas, que tinha ao lado o prédio da Casa de Saúde Santa Inês que fazia parte do patrimônio da mesma.

            Eram casarões que pertenceram aos Senhores de Engenho e aos usineiros pernambucanos.

            O PRÉDIO DA FACULDADE  DE Ciências Médicas de Pernambuco ocupava o centro de um grande terreno.

            Na frente a rua Benfica e nos fundos o Capibaribe majestoso,na sua beleza e na sua mansidão.Felizmente não cheguei a ver a sua fúria, já havia saído de Pernambuco.

            Eu passava horas e horas parado ali perto da sede do Diretório Acadêmico, contemplando o Capibaribe. Acompanhando o trabalho dos pescadores e dos catadores de  caranguejo.

            Sinto não ser poeta como Manoel Bandeira,Mauro Mota,João Cabral e meu primo Lourenço da Fonseca Barbosa(Capiba),para cantar tudo de belo que vi e vivi no Recife.

Andando um pouquinho mais à direita está a  Ilha do Retiro, abrigando o complexo esportivo do glorioso Sport Club do Recife.

            Pouco tempo depois do concurso da Tamarineira houve concurso para Acadêmico Interno do Sanatório Recife, estabelecimento modelo de assistência psiquiátrica no Recife e que era uma referencia nacional posto que foi fundado pelo eminente mestre Ulisses Pernambucano de Melo, o responsável direto pela formação de uma legião de novos psiquiatras de primeira linha.

            Nesse concurso o Delson  Castelo Branco da Rocha obteve novamente o primeiro lugar. Eu fiquei em segundo lugar e o Luis Salvador em terceiro.

O Sanatório Recife foi fundado pelo Professor Ulisses Pernambucano de Melo junto com três dos seus mais brilhantes discípulos: Arnaldo Di Lascio, René Ribeiro e Jarbas Pernambucano, filho do Doutor Ulisses.

            Arnaldo Di Lascio era filho de italianos. Nasceu  na Argentina e veio ainda muito pequeno para o Brasil,quando os seus pais se estabeleceram no estado da Paraíba. Seus pais eram exportadores de abacaxi. A Paraíba é um dos maiores produtores de abacaxi e as frutas originárias do seu chão eram tidas como as mais deliciosas do Brasil.

            O casal teve 4 filhos. Além de Arnaldo, médico psiquiatra de altíssimo nível, professor das duas Faculdades de Medicina de Pernambuco e que detinha também um vasto conhecimento médico geral e neurológico, havia o Hermenegildo Di Lascio, que era o lugar-tenente do pai nos trabalhos de exportação, a senhora Aurora Di Lascio de Barros e o caçula Mario Di Lascio destacado arquiteto nordestino.

            Através da senhora Aurora di Lascio de Barros, amiga da minha mãe ficamos muito ligados ao Dr.Di Lascio. Dona Aurora, como a minha mãe, era muito religiosa. As duas freqüentavam as mesmas atividades religiosas e daí nasceu uma amizade forte que durou por todo o tempo em que eles existiram e que traziam para junto as pessoas que entravam nessas famílias.

            Dona Aurora Di Lascio de Barros era casada com o senhor Barros e tinha um filho, Mauro Di Lascio de Barros, importante médico pernambucano casado com a médica Idelzuite de Barros.

Era uma família bonita e bem estruturada. Eles moravam em Olinda, na Avenida Sigismundo Gonçalves, onde muitas vezes eu acompanhava meus pais em visita ao casal. Era muito comum encontrá-los sentados na calçada recebendo um pouco daquela brisa sagrada que sopra no nordeste brasileiro.

            Doutor Arnaldo Di Lascio era casado com a Professora Doutora Cecília Sanioto Di Lascio.O casal não teve filhos.

            Doutora Cecília foi decisiva na estruturação do Curso de Enfermagem da Universidade do Recife. A Doutora Cecília era natural de São Paulo e havia estado nos Estados Unidos realizando sua pós-graduação e na volta foi convidada para trabalhar na Universidade do Recife onde foi um dos expoentes na criação do curso de enfermagem. Era um nome internacional.

            Para mim os dois eram como meus segundos pais, tal a importância que tiveram na minha vida através de um convívio  familiar  muito próximo.Convivi com dois cientistas durante a minha infância e a minha adolescência.Eu tinha consciência disso e procurei abeberar-me        da excepcionais condições pessoais e profissionais dos dois.

            Depois de um certo tempo o MESTRE Arnaldo Di Lascio deixou o Sanatório Recife passando a trabalhar na Cadeira de Psiquiatria no Hospital Pedro II e na sua clínica privada.Mas sua passagem pelo Sanatório Recife ficou bem marcada.Foi a passagem de um dos maiores psiquiatras brasileiros.

            Doutor Di Lascio vivia para os estudos. Estudava diàriamente e para descansar lia,lia muito.Tinha uma cultura geral invejável.Como hobby,aos fins de semana ia com a Doutora Cecília repousar em Candeias,onde tinha uma simpática residência de praia e onde era possível sentir ais forte aquele verso de Manoel Bandeira:”Aqui,só o silêncio tem voz!

            Gostava também de carros de luxo, último tipo, sendo um consumidor fiel dos produtos Chevrolet. Dos muitos carros lembro bem de um chamado Chevrolet Fleet Line, preto,com design avançado para a época. Falava varias línguas: francês, inglês, espanhol, italiano e entendia alemão. Vivia para a esposa, os pais, os irmãos, os pouquíssimos amigos e os estudos.

            No Hospital Pedro II,além de lecionar psiquiatria, ficou encarregado do Serviço de Eletroencefalografia.

            Durante todo o tempo em que convivi com o Professor Arnaldo Di Lascio até o fim de sua vida ele morou em uma simpática rua do bairro do Derby, chamada rua Viscondessa do Livramento, em uma bela casa que me inspirava muita tranqüilidade. Essa rua começava no Derby e ia até a Rua do Paissandu.

            O Doutor Renée Ribeiro era um psiquiatra que estudava muito antropologia, sociologia. Fez trabalhos na área e era um dos jovens ligados ao professor Ulisses Pernambucano de Melo.Tinha uma filha de nome Celina, a qual conheci através  do Salvador em uma reunião do Movimento de Cultura Popular, em Casa Amarela, no Recife. O Doutor Renée realizou importantes estudos acerca dos cultos afro-brasileiros.

            O Doutor Jarbas Pernambucano era filho do mestre Ulisses. Não o conheci, pois morreu ainda jovem. Sei do seu trabalho, por informação oral.

            Nesse concurso para acadêmico interno do Sanatório Recife, no ano de 1962,eu já estava no quinto ano médico.

            Fomos examinados pelo Doutor Kheops Cavalcanti,chefe  clínica, e pelo Doutor Renée Ribeiro.Foi um concurso muito rigoroso ao qual acorreram mais de uma dezena de colegas estudantes de medicina. Fiquei muito contente e orgulhoso com a aprovação em segundo lugar.

            Trabalhei quase dois anos nessa instituição que era um orgulho da psiquiatria brasileira onde muito aprendi para a minha vida pessoal e profissional.

            Ficava bem ali, na Rua do Padre Inglês, uma pacata rua do bairro da Boa Vista.

Depois de um ano e dois meses fui convidado para trabalhar na Casa de Saúde do Doutor João Marques de Sá,que ficava em Casa Forte e era também uma instituição modelo de assistência  psiquiátrica.Deixei  o Sanatório Recife e fui viver essa nova experiência.Deixei muitos amigos no Sanatório Recife.A Casa de Saúde São José era dirigida pelos doutores diretores João Marques de Sá e  Benjamin Vasconcelos.

            Gostei muito do ambiente e fiquei deveras feliz pelo convite que me foi feito pelos doutores Benjamin e João Marques de Sá para continuar com eles depois de formado em medicina.

            Infelizmente não pude retornar ao Recife, pois ao concluir  minha residência no Instituto de Psiquiatria da Universidade do Brasil (Serviço do Professor José Leme Lopes) o ambiente político era desfavorável para quem esteve trabalhando em projetos de saúde no governo do Doutor Miguel Arraes de Alencar.

            Insisto: trabalhar no Hospital de Alienados da Tamarineira e no Sanatório Recife, como acadêmico interno concursado e depois como convidado, pela Casa de Saúde São José,foi decisivo para a minha formação médica psiquiátrica.

            Essas três instituições deram-me o norte, o rumo que eu deveria seguir até o fim de minha vida.

            Os Doutores João Marques de Sá e Benjamin de Vasconcellos eram competentes e por tanto muito bem conceituados.

            O Doutor João Marques de Sá quando trabalhava em outra instituição, foi atingido por um paciente com um tiro de revólver. Pelas informações que colhi naquela época, o ferimento foi grave e o levou a um sofrimento importante por um bom tempo.

            Era um homem alegre, dinâmico. Tinha dois filhos com os quais convivi na Sociedade Cultural Brasil Estados Unidos, durante os seis anos em que lá estive, realizando os meus estudos de inglês. Um rapaz e uma moça, a qual entrou para a vida religiosa, mais precisamente a Irmandade de Santa Dorotéa, freiras que comandavam um dos mais importantes estabelecimentos de ensino destinado ao publico feminino e onde também funcionavam alguns cursos oferecidos pela Universidade Católica de Pernambuco.

            O Doutor Benjamin de Vasconcellos era mais calado. Era um homem que detinha um grande conhecimento de psiquiatria, além de muita cultura geral. Viajava muito ao exterior. Fala inglês fluentemente.

            Mas, voltando ao assunto da minha querida e inesquecível Tamarineira, melhor dizendo Hospital de Alienados da Tamarineira e da não menos estimada Faculdade de Ciências Médicas de Pernambuco, devo dizer que sinto uma satisfação interior própria de quem está cumprindo um dever, um sagrado dever, de relatar, de resgatar, dados históricos importantes para a posteridade.

            Proporcionar aos que ali viveram e trabalharam como eu uma lembrança agradável daqueles gigantes de atendimento e ensino médico e fornecer aos mais jovens informações preciosas de um tempo de ouro da vida acadêmica recifense.

            A rotina dos acadêmicos internos do Hospital de Alienados da Tamarineira era pesada.

            O trabalho começava às 07:00h da manhã.

            O acadêmico interno de Plantão recebia do plantonista do dia anterior um livro chamado de Livro de Ocorrências.

            Após ler o livro e tomar ciência de tudo que se passou no plantão anterior o interno dirigia-se ao interior do hospital para uma revista geral.

            Como eram dois os plantonistas, um ficava com as atividades de dentro do hospital  e outro ficava com as internações.

            O plantonista que ficava encarregado das atividades internas fazia uma visita geral aos pavilhões e em seguida começava o procedimento para a aplicação da eletroconvulsoterapia.             A eletroconvulsoterapia era aplicada aos homens nas segundas, quartas e sextas-feiras e às mulheres nas terças,quintas e sábados.

            Nós, os  acadêmicos internos, quando de plantão, aplicávamos a eletroconvulsoterapia numa sala especial, já preparada para esse fim.

            Os pacientes cujos médicos psiquiatras indicavam esse tratamento, ficavam deitados esperando a aplicação e assistiam aos efeitos do tratamento nos outros.

            Por incrível que pareça, raramente ouvíamos alguma queixa. O comum era que ficassem esperando com relativa tranqüilidade, a aplicação.

            O aparelho era dos mais modernos, creio que importado.Ficava em cima de uma mesa e um fio preto muito comprido o ligava aos eletrodos que estavam na ponta.

            Nós preparávamos cada paciente com todos os recursos para evitar problemas.

            Eu trabalhei quatro anos no Hospital de Alienados da Tamarineira e durante todo esse tempo nunca vi um problema grave decorrente da aplicação do eletro-choque.

            Alguns pacientes recebiam, por prescrição médica, injeções de Amplictil com Fenergan, logo após cessarem as convulsões.

Após as aplicações nós permanecíamos na sala com os atendentes para acompanhar os pacientes por um bom tempo.

            Também fazia parte do trabalho do acadêmico interno plantonista visitar a enfermaria onde eram realizadas as sessões de insulinoterapia. Na verdade um tratamento tranqüilo.Não me lembro de chamados para atendimento de problema graves durante a insulino terapia,mas lembro da freqüência com que apareciam os chamados comas protraído,que era uma situação delicada que nós acadêmicos pedíamos a Deus que não acontecesse nos nossos plantões.

            Tratava-se de uma complicação grave da insulinoterapia:O paciente fazia o seu tratamento,sempre prescrito por seu médico assistente(suores,tremores,coma leve,coma médio e coma profundo) e depois que recebia a Glicose hipertônica a 50 % e já estava no quarto ou na praxiterapia,entrava novamente em coma.Era uma intercorrência  séria que nos preocupava muito.Algumas vezes chamávamos o médico assistente,mas nós fazíamos tudo para resolver o problema.

            Eu insisto. Comecei a trabalhar em psiquiatria no início da década de 1960, com os recursos milagrosos dos neurolépticos  que estavam aparecendo e mudando a estrutura dos hospitais psiquiátricos.Amplictil (Clorpromazina) e  Neozine (Levomepromazina) foram os primeiros neurolépticos que vi os psiquiatras prescreverem, mas, repito, nos quatro anos que vivi no Hospital de Alienados da Tamarineira não presenciei grandes quadros de agitação psicomotora,com freqüência.

O quadro de médicos psiquiatras, (eram chamados de alienistas), era de encher de orgulho a qualquer um que se aproximasse da instituição. Aliás, eram médicos que orgulhavam a medicina pernambucana e do Brasil. Lá estava José Lucena, que atendia também no Sanatório Recife, no caso, seus pacientes particulares.

            Professor José Cavalcanti Lucena da Motta Silveira. Um dos mais brilhantes psiquiatras do mundo, da sua geração.

            Ensinava psiquiatria na qualidade de professor titular, nas duas faculdades de medicina do Recife: A Faculdade de Medicina da Universidade do Recife e a Faculdade  de Ciências Médicas de Pernambuco.

            Era muito inteligente e ao mesmo tempo muito estudioso, dono de uma quantidade expressiva de conhecimentos psicológicos, psiquiátricos, antropológicos, sociológicos.

            Amante das artes vivia nas bibliotecas, nos teatros, nos museus. Anualmente visitava a Europa onde mantinha contacto com amigos que eram dos mais expressivos da psiquiatria mundial.

            Não tinha filhos.

            Homem de hábitos simples, como costuma acontecer com os gênios. Calmo, de fala mansa, era tão simples e educado  tanto na docência como na atividade assistencial aos seus pacientes privados e aos seus pacientes do Hospital de Alienados da Tamarineira.

            Creio que o seu horário na Tamarineira era a partir das 13:00h. Ali estava ele cumprindo a sua obrigação todo santo dia. Da Tamarineira saia para a sua clínica particular. Sem falar que de manhã atendia no Hospital Pedro II, onde funcionava o seu Serviço de Psiquiatria, sem dúvida um dos melhores do Brasil.

            Eu tive a felicidade de fazer a minha residência em psiquiatria na Universidade do Brasil, no famoso Instituto de Psiquiatria da Universidade do Brasil, Serviço do Professor José Leme Lopes e posso tranquilamente dizer que o Serviço do Professor José Lucena era dos mais importantes do Brasil. Eu o coloco entre os três melhores do Brasil.

            O  professor José Lucena coordenava,como titular das duas universidades uma plêiade de profissionais altamente capacitados.

Professor Galdino Loreto, Professor Zaldo Rocha, um dos pioneiros no Brasil no atendimento psiquiátrico de crianças. Faleceu precocemente. Homem estudioso,delicado, de tradicional família pernambucana.Tinha dois irmãos padres.Eram dois jovens e destacados padres que haviam realizado os seus estudos  em Roma:Padre Zeferino Rocha e Padre Zildo Rocha.

            O professor Zaldo Rocha era uma exímio violonista que nos encantava a todos com a sua arte nas nossas reuniões sociais. Tenho muita saudade dele.

            Professor Arnaldo Di Lascio, que entre outras coisas dirigia o setor de Eletroencefalografia.

            Professor Cheops Cavalcanti,meu amigo,e companheiro de movimentos de Igreja.Era um jovem e competente psiquiatra.Era Chefe de Clínica do Sanatório Recife.

            O estágio na Cadeira de Psiquiatria,cujo catedrático era o Prof.Doutor José Cavalcanti Lucena da Motta Silveira foi um ponto fundamental para que pudesse desempenhar bem minhas funções no Instituto de Psiquiatria da Universidade do Brasil.

            Minha eterna gratidão aos grandes mestres da cadeira de psiquiatria do Hospital Pedro II,no Recife.Professor Lucena,Professor Galdino Loreto, Professor Zaldo Rocha, Professor Cheops Cavalcanti,Professor Antonio Gomes Filho, Professor Arnaldo Di Lascio e Assistente Social Cesarina.

 


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